Por: Mauricio Luz

Ó Filha, Ó Filho,
Eu lhes peço perdão.
Erigi a vocês um mundo de aço e carvão
E com as riquezas que lhes deixarei
Vocês pagarão o preço
Que o dinheiro não pode pagar.
Com o ferro domesticado devastei montes e florestas
Os corpos e as almas de vidas ancestrais
Queimei para voar como os pássaros, nadar como os peixes
Correr mais rápido que a mais veloz das gazelas
Mesmo sem saber o porquê.
Na orgia dos vampiros sedentos por ouro e poder
Suguei as águas antes cristalinas e puras, berço pujante da vida.
Remodelei a Terra a meu bel prazer
Movido por um vazio interior tão profundo…
Eu poderia ter preenchido de Amor
Mas escolhi abraçar a Ganância
Enquanto Mamom gargalhava maravilhado
Testemunha do que fiz ao jardim do Éden
Ó Filha, Ó Filho!
Vocês pagarão o preço!
A terra está abrasiva e inclemente
Não mais fresca e florescente,
Mas árida e seca como minha mente ávida
Em conseguir mais prata e platina
A água, escurecida e putrefata
Envenenada de química e física
Plástica como meu coração se tornou.
O ar, esfumaçado, quente, sufocante,
Se revolta e nos açoita, violento e rancoroso
Inclemente como eu ao encarar outras formas de vida
Que não eu mesmo, e apenas eu.
Pois até mesmo aqueles, Ó Filho, Ó Filha,
Que penam convosco no que eu construí
De mim nada obtinham além do vinagre do desdém.
O que vos deixei de herança? O que fiz?
Como o ouro que extraí da terra
Poderá alimentá-los?
De onde virá o líquido que saciará suas sedes,
Banhará as suas peles?
Gaia nos perdoará pelas centenas de anos,
Que a escravizei e violentei incessante, impiedoso?
Como se lembrarão de mim?
Ao olhar o céu, obscuro e sem estrelas,
E inspirar o ar venenoso e pestilento,
Reconhecerão o amor que sinto por vocês?
Ou olharão ao redor e consternados,
Gritarão em sussurros inaudíveis para mim:
“O que nos deixaste?”
Ó Filha, Ó Filho,
Eu lhes peço perdão.
Que meu legado de Morte
Seja o testamento da Vida
A fatalidade vem quando a Esperança se vai
Devemos reaprender a Amar, mas…
Conseguirão isso vocês, depois que tudo que ensinei?
Meus exemplos destrutivos serão exemplo
Para o que deve ser construído?
Conseguirão o perdão de Gaia, o seu afeto,
A regeneração de nosso lar cósmico?
A vocês, um aviso e uma chance.
Erigi um mundo de aço e carvão
De objetos plásticos e pessoas plásticas
E com as riquezas que lhe deixarei
Vocês pagarão um preço
Que o dinheiro não pode pagar…
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Pixabay