Palavras Caminhantes

Por: Diogo Verri Garcia

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Palavras Caminhantes

Há palavras que por mim não passam,
Tanto que ficam retidas, feito um congestionamento.
Tentam, mas param; busco percebê-las, mas não aderem.
Funcionam feito vento na roupa, ao que se sente, mas não tocam a pele.
A ponto de quererem saber, para tanto querê-las, meu argumento.
Mas não preciso,
Não falo.
São só palavras,
meu fardamento,
Como toda história sai da caneta e segue ao mundo.

São palavras
as poucas,
as que exigem de nós
todo um verbo,
mas há também um artifício.
Uma rotina que importa,
Como a mesma que construir quase só um edifício
Que comporte espaços de paz
para escrever pelo verso.
Tal como a fé impulsiona o progresso,
É feito o amor ou a tristeza que,
Para a poesia,
São as molas, as bases mais profundas,
Os assuntos.

São palavras,
Tal como fogo sobre óleo, algo que inflama.
Se clausura, nos rouba
a atenção do dia;
à noite, nos toma da cama.
São verdades que trazem um pouco de tudo,
E tão mais nos revigoram em pensamento.
Palavras são alimento,
E, atento a elas, pois,
Mesmo sem compreendê-las,
Acordo,
Escrevo.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 13/05/2020)


Crédito da Imagem: Pixabay

 

Descarrega!

Por: Bianca Latini

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Descarrega!

Menina, tira essa mochila pesada das costas!
Solta essa mala cheia de tralhas que carrega pra todo lado, em qualquer lugar
Solta, liberta, libera, desapega!
Deixa ir, deixa partir!
Desfaz todas as regras, toda métrica, toda ditadura, toda empunhadura
Corre solta, descabelada, rindo de si mesma
Gargalhando de tudo que “dá errado”
Ser livre é perder o controle!
Entrar no fluxo do não julgamento, despir-se da culpa de não ser milimetricamente perfeita
Dispensar a necessidade de ser A MELHOR
Apenas seja e flua e voe e sobrevoe as situações
Com olhar meigo, complacente, generoso e amplo, libertador
Relacione-se com os seres animados, inanimados, sentimentos e momentos
Como se fosse a primeira vez!
Como uma página em branco, apta a ser contemplada: uma aquarela de infinitas possibilidades
Sem mágoas, sem expectativas, sem concepções, sem saudades…
Apenas sinta e perceba o novo, o não-escrito,o não-definido, o não-visto, o não-degustado, o até então não-observado
Confie no poder da presença e seja transformação
Confie no som do soham
No fluxo da gratidão
Alce voo
E depois auxilie outros a fazerem o mesmo!

O voo dos três poderes

Por: Priscila Menino

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O voo dos três poderes

Em uma das minhas idas e vindas das minhas viagens, estou em um voo saindo do Rio de Janeiro e voltando para minha amada, idolatrada Brasília, quando me deparo que próximo ao meu assento estavam três importantes figuras públicas.
A minha frente estava um ministro do STF, próximo a ele, estava sentada uma Diretora de uma Agência Reguladora e, finalmente, observei um deputado que já foi motivo de muito assunto nos noticiários há alguns anos, por decorrência de um dos escândalos que o Brasil teve marcado em sua história.
Ironicamente, todos estavam sentados do mesmo lado no avião, apesar de nem sempre estarem no mesmo lado na posição política.
Acabei me pegando escrevendo sobre esse atípico voo, que mais parecia que eu estava na praça dos três poderes do céu, pois havia ali representantes do Poder Judiciário, do Poder Executivo, do Poder Legislativo, respectivamente e euzinha representando o povo (preciso dar uma moralzinha pra mim também rs).
Pensei, primeiramente, em como o Brasil possui tamanho continental, mas é demasiadamente pequeno, considerando que, apesar da diminuição da malha aérea na pandemia, todos estavam em um mesmo voo em uma aleatória segunda-feira comum.
Depois, filosofei um pouco mais e pensei em como nós como meros seres humanos que estávamos em um pássaro de ferro, estávamos sendo controlados por um ser humano.
Apesar dos cargos políticos ou não, todos ali estávamos em uma mesma hierarquia, éramos seres humanos que dependíamos das habilidades do piloto, pois nossas vidas estavam (quase literalmente) em suas mãos.
Pensei na fragilidade da vida e em como a gente estava em uma condição de igualdade, afinal, estávamos todos no mesmo barco (ou mais especificamente no mesmo avião), onde os nossos cargos, profissões, ideologias e tudo mais, não importam, se porventura uma improvável tragédia ocorresse e o avião caísse, somente o Divino poderia escolher nosso destino, pois ali éramos todos meros mortais, na nossa condição mais frágil e vulnerável.
Ao pousar, meu lado leonina pensou: que bom que tudo correu bem, ninguém lembraria de falar de mim com um avião tão cheio de gente pública assim.


Créditos da imagem: pixabay

Vinte e Cinco

Por: Diogo Verri Garcia

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Vinte e Cinco

O que há em beijos
Que começam e te deixam?
E ameaçam, com boca próxima,
Não sente culpa; transparecem o desleixo
De um nada mais…
E veem sussurros
Que terminam dando nós nos teus ouvidos,
Que transforma o precavido,
A aventurar-se nesse abraço,
A deleitar-se,
Sentir amor, viver em paz.

O que há nos olhos?
Que mudam as cores só de olhar,
Juram amores, sem jurar.
E fazem os meus olhos
Perderem brilho e contorno, a me entreter,
No entorno que há, desapercebido.

Qual é a graça de tais ensejos
Que fazem a alma e a paz morrerem de alegria,
Permitem até ao amor que jaz sentir melhoria?
Que faz alguém como eu, haver-se bem demais,
Como se houvesse ela tocado o centro
De um coração que, por precaução, sempre atento,
Mas que desprecaveu-se ao vento,
Dado o tempo em que a alma se desfaz,
Já que, sem tais beijos, tornados seus ás,
É tão vazia.

O que, por fim, caberá, sem nada lá haver?
E se perdurou por perceber
Que aqueles olhos brilham tão mais
Do que só euforia.
Pois haviam deixado algo
Que então, meu peito, não arcais,
Pois tomado de jeito, não abstrais
Que só será deixado só,
Algum dia.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 30 de maio de 2020).


Créditos da imagem: pixabay

Soham

Por: Bianca Latini

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Soham

Sabe aquele bilhete que o vento não leva?
Aquele zumbido que a orelha não desconecta?
Aquele gosto de néctar que não sai das papilas gustativas?
Aquele convite da vida?
Sabe aquele lugar em que você aportou “ao mero acaso”?
Aquela pessoa que chegou e, de pronto, ficou?
E na tua rotina já fez morada?
Sabe aquele compasso que o peito dita e de tanto clamor até palpita?
Aquele insight que chegou no meio da madrugada? Feito vagalume em beira de escura estrada?
Aquele click que conecta o que estava desarrumado? E faz a bagunça virar passado?
Aquele perfume que traz lembranças de vidas longínquas e desperta um talento até então enterrado?
É ele: o teu grande e verdadeiro chamado – teu propósito, tua alma, teu eu não envenenado
É ele: raiz do vórtice de fluidez, tempestade de pertencimento e, enfim, chuva de paz, sem comento!
É ele: teu verdadeiro Eu.

Bianca Latini

Espelho

Por: Raquel Alves Tobias

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Espelho

Os olhos dizem muito, dizem tudo.
Os tímidos têm vergonha
Por medo do que é bom.
Os do medo se bloqueiam
Porque querem se jogar.
Os calados guardam a dúvida
Da resposta que já têm.
Os distantes já andaram
E não querem mais voltar.
Os que gritam por socorro
Não conseguem se olhar.

Nos seus olhos tive medo
Do além que não conheço
Precisava desviar
Mas não pude mais fugir
Foi preciso encarar
Não consigo olhar tão fundo
Porque quero navegar
E me perder
Lambuzar
Dormir e acordar
Me vestir
Me despir
Me perfumar
Exalar
Dançar por aí
A derramar
Tudo o que eu vi
Em você
E em mim
É morada
É lar


Créditos da imagem: pixabay

Notas sobre uma chave Philips

Por: Priscila Menino

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Vou começar esse texto de uma forma diferente, com uma indagação: Você sabe o que é uma chave Philips?
Esses dias fui a uma loja comprar uns adesivos colantes para grudar um quadro na parede e vi dois rapazes em uma conversa aleatória, a qual passaria totalmente despercebida se um comentário não tivesse me chamado a atenção: “lá em casa mulher não se mete em reforma, ela não sabe nem o que é uma chave Philips, não pode opinar”. Meu asco sobre aquela frase foi imediato, mas me ajudou a refletir sobre isso e como ainda existe machismo encrostado na sociedade em uma forma mascarada (ou não).
Eu e minha filha morávamos em um apartamento sozinhas, onde eu fui obrigada a aprender um pouco de cada coisa para manter o bom funcionamento do nosso lar.
Mexi em chuveiro que não estava aquecendo, troquei lâmpada queimada, usei chave de fenda pra pequenos ajustes e a bendita chave Philips para apertar parafusos.
Sabe o isso significa? Ao contrário do que muitos podem pensar, nós mulheres podemos não sermos exímias operadoras de instrumentos de mecânica ou de marcenaria, mas a gente se vira e resolve, aliás, se tem uma coisa que a gente faz bem é se virar.
Nós Mulheres possuímos habilidades sobrenaturais de sermos malabaristas no dia a dia ser perder o rebolado.
Enquanto isso, há alguns que ainda acham que não sabemos o que é uma chave Philips e quando devemos usar e -o pior- acham que isso define ou não alguma coisa.
Já deveríamos ter passado da fase de deixar claro para a sociedade toda que podemos ser o que quisermos e estarmos onde for a nossa vontade, não são nossos genes XX que nos fazem termos necessidade de sermos conduzidas por um macho alfa.
Aliás, chave Philips pode também ser chamada de padrão estrela e aí inevitavelmente podemos afirmar que nós mulheres somos verdadeiras estrelas na arte de lidar com situações que externam os pensamentos machistas que insistem em prevalecer, quando na realidade é tão simples: todos somos iguais e sexo, ideologia, Religião, crença, nacionalidade e afins não definem capacidade!
Meu desejo é que possamos aprender a respeitar todo ser humano e enquanto não posso mudar o mundo, posso ensinar minha filha a usar a chave Philips no parafuso do brinquedo dela.
Ps: esposa do desconhecido, você é capaz de qualquer coisa, acredite!


Créditos da imagem: pixabay

O que é oração?

Por: Diogo Verri Garcia

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O que é oração?

O que é oração?
Se não
Uma outra forma de se fazer olhar?
Quem alega ter fé, mas faz ao rancor a moção,
Não tem vocação de se querer perdoar.
É uma verdade que, de tão antiga, persiste
E não importa quem é devoto, feliz ou triste;
Ou mesmo se jura, em amargura, que a fé se escondeu.
A real reza é forma de a paz propagar.
Não só aos outros: a si também contemplar,
Abafando o canto ardente
Em que o mal se acolheu.

Quem olha para os céus sem ter apego
E quer afago,
Mas mantém com o encanto da dúvida, braço dado;
Que tem a mágoa que devia estar para trás,
Quer nas palavras tortas que vêm à mente doente,
Quer naquilo que sente um peito agoniado,
Mesmo que diga coisas santas,
reza errado.

Rezar não é querer abraçar inimigo,
Mas pedir que não siga contigo,
Que não te cruze o caminho.
É querer um acalanto no espinho.
Tudo bem que não lhe ofereça logo prendas
e também que dele se defendas,
Mas não o ofenda.
É não buscar o mal nem por justiça,
Pois no mundo que gira sozinho,
Talvez um alguém logo verá
Se houve erro maior sendo o teu,
Eis que nos olhos, há vendas.

Quanto aos amores,
nem por cobiça,
Não queira a sorte ruim
a tudo que hesitou dos teus agrados.
Não desejes que teu ex-amor nunca ame
igual por ti foi amado.
Nunca, já que não sabes
Se por algum bem ou por missão
deu errado.

Então
Que a reza não seja só prece,
Nem texto a ser lido de modo frequente
em que a luz emudece na repetição.
Se tem algum merecimento, ele não aparece
Se não for correspondente
à alma, à mente, ao coração.
Rezar é seguir em frente,
Não diz respeito a mostrar, é ser capaz.
Tem sentido em vivenciar sua paz;
Viver o bem só por optar.
E, mesmo sem saber o que perdoar,
dar perdão.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 19/07/2020)


Crédito da imagem: pixabay

Arrastão que expande, não que detém

Por: Bianca Latini

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Que eu possa me aquecer e ser calor
Que eu seja ninho, além da dor
Que eu acolha, me recolha e entregue o meu melhor
Que eu me surpreenda, quando for dar o que há aqui dentro dessa caixinha de surpresa que sou
Como num sorteio de bingo, que eu tire os números auspiciosos e complete a cartela de maneira Alegre e Divertida
Que eu seja amor e seja vida
Que eu te abrace e sinta teu coração batendo junto com o meu
E me reconheça em ti
E tu em mim
Que sejamos um em mil
e mil em um
Que sejamos cosmos, família
Pesca livre: sem rede ou qualquer contenção
Que sejamos arrastão de evolução.

Por: Victor Cabral

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Eu sei que a rotina amassa
O tempo passa e eu não estou aí
A vida preda, a gente caça
O prazer que embassa o triste porvir

Faz dias que a gente não dança
Me cansa a saudade que tenho de ti
Eu penso em você e meu corpo balança
Me volta a esperança e te escrevo assim

A vida é bela e dolorida
E você é forte e colorida
Me pinta com as cores que te façam vir

A vida é choro e poesia
Eu sou aquele que duvida
Que sem ti não há porque sorrir