A menina do velho tênis amarelo

Por: Priscila Menino.

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A menina do velho tênis amarelo

Naquela casa da esquina mora uma menina. Otimista como Poliana, ela cantarola desafinada, enquanto caminha com seu velho tênis amarelo.
Aquele tom atípico do seu tênis, reluz quando os raios de sol batem, ilumina onde quer que passe.
Seus olhos profundos e castanhos transmitem um olhar de acalento e o jeito desengonçado de caminhar é tão singular, é leve.
Pobre menina, um dia tiraram seu tênis amarelo, a luz que ele irradiava, incomodava aos que não gostavam do seu brilho.
A menina então parou de passar cantarolando, agora ela mantinha um olhar vago, faltava aquela graciosidade desengonçada, até no por do sol já não havia mais aquela aquarela costumeira.
Foi então que um dia a menina recebeu a visita inesperada de uma borboleta em sua janela. Observou atenta a leveza com a qual a criaturinha batia suas asas e a forma como a luz era translúcida em suas asas.
Curiosa como é, observou que a borboleta voou e pousou em um girassol igualmente amarelo reluzente.
Nesse momento, a pequena menina se deu conta de que o brilho e a magia não estavam em seus tênis amarelos, muito mais do que isso, o brilho irradiava do seu sorriso e da esperança que trazia com suas canções para aquela velha redoma da cidade.
Outro dia passei na rua, abracei a pequena grande menina e pedi que nunca deixasse apagar novamente seu rastro de cor amarela, pois ele me inspirava e trazia paz.
Ela, surpresa, me disse com um tom de voz doce e gentil que eu e ela somos uma só, pois ela era a criança interior que habitava em mim. Mais surpreendentemente, pediu-me ainda que eu não me esquecesse da simplicidade de colocar meus velhos tênis amarelos e me permitir dançarmos juntas.
Após esse dia, nos encontramos sempre nos finais de tarde para contemplarmos mais um por do sol juntas.

Flor em Canção

Por: Diogo Verri Garcia

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Flor em canção

Está aí
A coisa mais bela que a vida pra mim
Trouxe em você e em mais ninguém.
Insensato
Eu me torno em seus braços em meio a carícias
Até pra dizer que me faz tão bem.
Não há problema em deixar transbordar
Algum lugar lá no meu peito
Risos e um poema
Ilustrado em bom som
Para completar bem nesse tom.
Eis a luz
Que nos meus versos vem me iluminar.
Inspira as tardes
E dá mais vida ao tempo que virá.
Rezo por ela,
Olha Deus como fica o coração.
Deixo de lado a saudade que clama
E faço de um samba uma flor em canção.
Bem feito pro peito, que se deixou levar,
Sorriu pro amor, gostou demais
Indo na onda, entrou no mar.
Tudo isso até parece
O calor do sol quando é verão:
Tão bem me faz, mas vai virando insolação
Olhos tão verdes que me fazem entrar,
Pra me afogar.
Está aí…

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 7 de agosto de 2008)


Créditos da imagem: Hans Braxmeier por Pixabay

E o que é de verdade?

Por: Bianca Latini

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E o que é de verdade?

A vida não é somente sobre
Tarefas, obrigações, compromissos
Correria, trabalho
Ganhar mais dinheiro
Cumprir metas de resultados
Imposições religiosas, históricas, sociais,culturais
Bater ponto
Seguir horários
Estar no compasso do relógio dos outros
A vida é muito mais do que isso:
É sobre descobrir o seu eixo
Seus mecanismos, suas rotações,
seus prazeres
O que desencadeia suas risadas
O que impulsiona sua generosidade
É sobre como achar o gatilho que te aciona a chave da empatia e o botão que desliga sua revolta e não aceitação para aquilo que é e não pode ser mudado
É sobre encontrar as lentes da gratidão
E colocá-las sobre os olhos de maneira permanente
É sobre reencontrar sua criança interior e soltá-la no playground da vida
Ou sobre continuar de mãos dadas com ela se você nunca a perdeu de vista
É sobre conectar-se com a natureza, a despeito da vida em grandes centros urbanos
Pois o bom filho à casa torna
É sobre aprender que a vida é abundância e há bastante para todos, portanto partilhar é o melhor caminho, além de muito gostoso
É sobre trocar a reclamação do que está errado pela alegria do que está certo
É sobre ter paciência e entender que a Terra tem sua própria rotação
Assim como todos os organismos vivos
É sobre ser Sol e ser Estrela
É sobre ser fio condutor, veículo, percurso, passagem, fluxo, corrente, propagação de energias saudáveis, conexão com o amor que existe dentro de você e mais adiante o altruísmo
É sobre ser macro, depois de viver o microcosmo.

Bicho espinhoso

Por: Raquel Alves Tobias

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Primeiro a voz quis falar.
Mas aí os dentes se cerraram com uma forte mordida. E então nasceu um bicho, que ficou preso ali, zanzando dentro da cavidade, nervoso e inquieto, se batendo de um lado pra outro até inchar as bochechas. Gritou pra ver se alguém o ouvia, mas a sua voz de tão distante, parecia até ser algo da imaginação. Quando os lábios quase se abriram depois de tanta pressão, veio uma forte onda e… glupt! Foi engolido.
E foi descendo pelo esôfago em total desmantelo. Era muito desajeitado, de cantos pontiagudos e muito maior do que a passagem que o esperava. E foi só tropeço atrás de cambalhota. Onde quer que encostasse parecia não desgrudar. E lá vinha a deglutição tentar empurrá-lo mais uma vez “goela abaixo”. Mas a saliva era seca e os movimentos peristálticos o deixavam cada vez mais pegajoso. Parecia se entrelaçar desordenado em meio a uma ninhada de fios enquanto tecia nós.
E cada gole grudava em um nó.
Pouco a pouco era empurrado.
E depois dessa descida cheia de pausas desajeitadamente dolorosas, chegou ao seu destino anatômico. Por lá se deparou com o suco gástrico e com ele saiu aos tapas, como antigos arqui-inimigos. Cada novo machucado ganhava um punhado de fermento. E dessa briga, coisa boa não poderia sair. E assim, fermentado, foi crescendo, crescendo, crescendo até não caber mais no estômago. Virou náusea, virou angina, comprimiu o tórax até faltar o ar. Precisava continuar crescendo, já que no peito não cabia mais. Então subiu, ainda por dentro, como um vapor quente até a cabeça.
Ardeu.
Queimou.
Depois de todo esse estrago, o vapor desfeito deixou o olhar mais claro. Condensou-se no teto em inúmeras gotas aglomeradas e brilhantes.
Foi o fim?
O silêncio transformou-se em água e caiu em lágrimas.
Era o adeus.
Ou, talvez, um até breve.
O silêncio, calado, é bicho espinhoso e tem vontade própria.
Cuidado ao tentar domá-lo.

R.A.T.


Créditos da imagem: pixabay

Apego Cibernético

Por: Priscila Menino

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Esses dias eu tive um pequeno problema com meu celular, que atribuo ao mercúrio retrógrado, e acabei ficando o dia inteirinho sem um dos meus celulares.
Quando tentei fazer o aparelho funcionar e não obtive êxito, foi quase como perder um órgão vital, me deixando com insuficiência de informações e contatos, agonizando no meu desconforto (adoro exageros poéticos, desculpem, leitores).
Quando retornei ao mundo das conversas instantâneas, meu Whats app parecia que estava fora do ar há anos. Houve até quem achou que eu havia sofrido algum rapto ou coisa assim e queria acionar a polícia, é sério.
Foi aí então que tive consciência da forma que estamos inconscientemente totalmente dependentes da comunicação imediata através de nossos celulares e computadores. Passamos horas e horas acessando nosso Whats app para nos fazermos presentes de forma simultânea na discussão do grupo da família, na sátira que rolou no grupo dos amigos, na fofoca que a irmã está contando e nas notas sobre os processos que foram repassadas no grupo do escritório.
A gente se habituou a estarmos disponíveis e atentos o tempo inteiro e quando não estamos conectados, é desesperador, parece que estamos ficando desatualizados e obsoletos.
Fico pensando como fazíamos antes de termos um aparelho de celular com dados de internet ilimitados: como se davam as relações de trabalho? Como fazíamos para sabermos notícias dos amigos? Como passávamos o ócio na fila do banco? Aliás, como aguentávamos filas de bancos, sem podermos pagar contas e termos extratos pelo celular?
É assustadora a velocidade de informações que temos, a forma como nos habituamos a estarmos sempre disponíveis em tempo real, compartilhando até mesmo as nossas refeições com os amigos cibernéticos e sendo robôs com aqueles que sentam à mesa conosco.
O irônico é agora reaprendermos o valor do contato físico, a observar aqueles que estão ao nosso lado diariamente, dialogarmos olho no olho, demonstrar afeto ou preocupação através de uma atenção exclusiva para o momento presente, sem interferências ou sem fazer um tour pelo feed do Instagram.
Como relato real de uma sobrevivente de um dia inteirinho sem celular, posso falar que eu superei e o mundo não desmoronou, não foi desencadeada uma terceira guerra mundial, Michael Jackson infelizmente não foi localizado vivo morando em uma praia deserta e ficou tudo bem.
Após ressuscitar meu celular, eu até pretendo colocar mais em prática esse desapego cibernético, sempre que possível, é claro!

Prosa Areada

Por: Diogo Verri Garcia

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(Prosa areada)

Poesias trazem lembranças
São rememoranças nossas ou de um qualquer outro.
Que fazem do verso um guilhote;
Tornam o verso um sopro
De quem narra o amor que já passou e, antes do verso, era tanto esquecido.
O poeta a isso não viu,
Mas escreve tal como tivesse vivido.
E desperta, na alma de quem sabe,
A saudade que não sente.
Em linhas tantas que,
Nas mentes menos santas,
Fariam do verso caso pouco.
Ou o pretender jurar que o poeta
Amou feito louco.

A poesia é o sal que vem da gente.
É o agente que permite transbordar
Quando a mesmice nos encarde.
Na surpresa de um querer conversar,
E até versar Drummond de Andrade
Quando a prosa era não sobre verso,
Mas, em linhas duras, um falar sem canduras,
A tratar de Direito.
Como se tocar no peito
Fosse tão mais que um jeito, uma necessidade
De corroborar boas lembranças.
Ou aventurança
Que, por bem, não salvaguarde.

O verso é primeira manhã que eterniza
Ou a chuva que nos ameniza
E torna a ação cobarde.
É o sol que nasce à tarde
E se põe pela noite do dia seguinte.
É o poder em ter requinte
De mudar só em alma a realidade.
O desfrutar da crueldade
De reviver o amor que,
Nem tão melhor,
Tanto agrade,
Eis que imprensa, arrebate.
E sem se redimir,
Destina a nós um tanto de querer coibir
Dentre o negar
Sentir saudade.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 17/06/2020)


Créditos da imagem: pixabay

Fusão

Por: Bianca Latini

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Beijar na boca
É manter vivo o gosto da audácia
De penetrar o sabor alheio
É viver a adolescência, independente dos anos que se tem
É desvendar os mistérios do ritmo do outro
E impregnar a sua forma de se fazer presente, marcante, incessante
É estar atento aos movimentos

No momento do beijo
A boca é universo inteiro
Céu estrelado em dia de lua cheia
Brisa de maresia
Cadência batistaca, coração acelerado

Beijar na boca é sentir o respirar
Expansão e contração
Apreensão e relaxamento
Aperta, afrouxa
Morde, belisca
Arrisca-se a dançar a mesma dança do par
Num gosto molhado e deslizante
Toque de vinho frisante

Beijar na boca
É estado de profusão perfurante
Imersão numa bolha de absolutez
Ausência de qualquer sensatez
Onde tudo que se quer é gingar com a boca
Sentir o compasso…

Misturar-se
Fundir, mesclar, serpentear com os lábios
Beijar….


Créditos da imagem: pinterest

Rodrigo Cabral, no Pesca Poética

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Hoje voltamos com mais um capítulo do “Pesca Poética“, espaço dedicado a lançar no oceano do Literarte as escritas, pensamentos, versos e entregas que talvez estejam escondidas pelo mar das palavras, no fundo de um caderno. Cabe lembrar, é um incentivo às falas do nosso público leitor , de modo a ganharem vida exterior.

No Pesca Poética de hoje, Rodrigo Cabral, com “Nosso Amigo”.

Nosso Amigo

Por: Rodrigo Cabral

Já veio e disse, mostrou e acolheu;
Ensinou, contemplou e refletiu;
Universalizou e amou;

Entre vidas viveu e não se recolheu;
Expor, lutar e enfrentar sem descansar;
Sonho germinou e a mensagem disseminou;

Semente que a poucos sensibilzou;
Mas a todos oportunizou;
Em harmonia congregou e acolheu;

Unidade e resistência;
Subjugado e vilipendiado, o perdão concedeu;
Sem segregar, levantou e curou a quem necessitou;

Simplicidade e vida;
Compaixão e solidariedade a florescer;
Pecúnia por retórica afastou;
O pão dividiu e a paz celebrou.

Carta à morte (Helena Lahis, autora convidada)

Por: Helena Lahis (autora convidada)

Hoje trazemos o texto inédito da talentosa escritora Helena Lahis (@helenalahis), sócia-fundadora da Editora Lago de Histórias e da Casa Cultural Lago de Histórias (@lago_de_historias). É também autora de diversos livros premiados nacional e internacionalmente, dentre eles, Olga, Mais felizes do que sempre, Bia Sem Pressa, Os medos da Bel, Soldado, Grande ou Pequena?, Vicky, A moça artista do topo do morro e Contos de encantar o céu.

Ela nos traz uma incrível reflexão, em uma carta enviada a ela: a Morte! Em uma conversa direta e muito sincera. É uma prévia de seu próximo livro, exclusivamente para o Literarte.

Confiram a seguir: Hoje, sábado, 20/06/2020, também no @literarteweb, além de aqui, no https://literarte.art/. Após o texto, curtam também o vídeo de apresentação, feito pela autora para o nosso canal.

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Carta à morte

Quando você me encontrar, por favor, um pouco de delicadeza. Se eu tiver com algo a concluir, uma história, um beijo, uma garrafa de vinho ou uma noite de amor, senta um pouquinho, faz uma hora, não se apresse da minha demora.

Quando resolver que meu tempo acabou, eu te peço, tenha cuidado. Não me machuque, eu sempre fui amorosa. Além disso, faça um favor, ponha-se em meu lugar, sinta a minha dor.

Quando entender que preciso ir, morte, não chegue bruta, não chute a porta, não pise na grama, não ponha a mão no meu cabelo. Eu não gosto.

Quando acordar me querendo, queira com vontade. Não costumo ceder a galanteios frívolos e passageiros, de seduções rasas e diluídas.

Quando quiser mesmo escrever meu fim, escolha palavras bonitas. Abuse dos versos, recite baixinho no meu ouvido. Tenho queda por sussurros rimados.

Quando preparar meu enterro, saiba, não gosto de flores arrancadas. Prepare um jardim bem vivo, escolha o mais colorido, se possível perfumado. Tenho os sentidos bem apurados. Ah, por favor, me poupe de drama e choradeira. Prefiro lágrimas sentidas, pouco molhadas, discretas, contidas. Daquelas que derramam no silêncio da sala vazia quando a plateia já deixou o teatro.

Quando resolver beber do meu sangue, saiba, vou logo avisando, meu recheio é calórico. Nunca fiz dieta de vida, contenção de atitude, nem pensei duas vezes. Mergulho o pescoço e depois afundo a cabeça. Não ponho pezinho na água, nem arregaço a calça pra viver até o joelho.

Minha intensidade corre nas veias. Tem que ter a casca grossa pra não me transbordar.

Tenha a santa paciência e me espere ajeitar o cabelo, pintar as unhas, passar meu batom preferido, me ver bonita no espelho. Sou vaidosa e gosto de me aprontar. Seja um café da manhã, festa, encontro, trabalho, viagem, fim de tarde no terraço ou despedida de solteiro, costumo me arrumar com elegância. Aprendi que essas importâncias mostram cuidado com quem divide o momento comigo.

Por último, e sempre muito importante, não ponha a mão em mim. Já disse que sou rebelde, não grosseira. Escolho meus toques. Gosto de contato, calor, enrosco. Olho no olho, mãos dadas, abraço de fora a dentro. Mas já disse e repito: eu escolho quem brinca comigo. Mantenha a devida distância, aquela da sua própria segurança. Não pretendo dar vexame, mas posso começar um terremoto com direito a tsunami, se você avançar a linha e não respeitar a minha faixa de insegurança.

De resto, fique à vontade, sinta-se em casa, aceite um chá de pêssego. Vá assistindo, aí do seu camarote, os sonhos largos que de mim deságuam e fertilizam. Multiplicam e me espalham.

Saiba, vou te dar trabalho.

Sinto muito, é a vida.


Créditos da imagem: acervo pessoal da autora

Por: Victor Cabral

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Mais sublime que as sagradas escrituras
O milagre da beleza de suas curvas
Os seus cantos e perfumes de romã
Todo o drama da poesia do islã

A serpente que criou os desertos
Os dedos que te tocariam, ainda que incertos,
Tocam as músicas que os Valar compunham
Amando os amores que os amantes dispunham

A grande explosão do primeiro dia
A perfeição que é você enquanto se despia
Manisfesto universo criado pra nós

O preto no branco, as rimas do verso
A cor do seu olho, olhada de perto
O prazer de estarmos nus e a sós