Flores para Jú

Por: Bianca Latini

Flores para Jú

Acorda menina da saia rodada de chita!
Acorda e põe sua saia pra rodar, fazendo colorir todas as passarelas
Inclusive suas ruas internas
Vai sacudindo poeira, fazendo seu batuque
Cantando como as antigas lavadeiras
Canto que vem de dentro, sabe?!
Aquele canto que tem mais alma do que melodia
Espreguiça e reverbera um sonoro “Bom dia!”
Hoje é seu dia! Celebra sua vida, seu cantar, seu habitar!
Hoje completas mais uma primavera! Nova era! Novo ressoar!
Abra os braços, ajoelha em gratidão
Viva de paixão!
Enamore-se…a si mesma!
Festeje, encante-se: o novo saúda-te em cada detalhe, em cada sensibilidade
Erga suas mãos ao Alto
Receba toda benção
Banhe-se no Rio do Amor
Lava seus cabelos com água cristalina, gelada
Água de acordamento, água de começo da vida, do útero materno
Volta à semente
Sente!
Exista na sua essência
Brota, germina, floresce
E permanece acordada
Abre a janela e deixa a luz entrar
Saúda seu dia! Seu aniversário!
Coloca essa gargalhada pra trabalhar!
Acorda, menina! Porque hoje é festa!
É dia de brincar!!

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Flickr de Bárbara Porto

Cecília

Por: Bianca Latini

Cecília

Eu tinha medo de ficar velha,
Mas com medo de ficar velha, talvez eu nunca fosse jovem…
Porque quem tem medo de vir a ser, acaba não sendo nada…
E como o destino é bom! Generoso! Sábio, bondoso:
Me fez encontrar você e subverter a lógica e o medo na minha cabeça
Você, uma jovem idosa ou uma idosa jovem?
Não sei. Só sei que é uma bruxa daquelas!!
Louca, diva, mutante, disruptiva, investigativa, amante da vida e da sua fugacidade e, por isso mesmo, mergulhadora
Não guarda quinquilharia, mas muita sabedoria
Transforma, reforma, abre espaços
Abre alas e passa sorridente, com seus cabelos brancos e alma colorida
Demonstrando fora o veículo corporal que já viajou muitas viagens
Propagando de dentro suas múltiplas interpretações, estudos, constatações, linkagens, teias, diário de bordo dessas travessias
Nada de nostalgia!
Timoneira que é, olha pra frente e navega!
Há tanta jovialidade para vivenciar
Velhice para abandonar
Avante, ainda há muito mar para desvendar!

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Desconhecido

Reciclar a mente

Por: Juliana Latini

Reciclar a mente

Em muitas culturas do planeta, a virada de um ano para o outro é um momento de elevar nossos pensamentos para a paz e a esperança. É comum mentalizarmos desejos, esboçarmos planos e sonhar.
É comum pensarmos em cuidar melhor da nossa saúde, da nossa vida profissional ou em nos dedicar mais à família, por exemplo.
Tudo isso é muito válido, mas, precisamos avaliar também o quanto as nossas ações alimentam um ritmo de desenvolvimento prejudicial ao planeta.
Existe um documento chamado Carta da Terra, assumido pela UNESCO na virada desse milênio que nos conclama a usarmos a imaginação para construir um modo de vida sustentável em todos os níveis.
A pandemia veio para nos mostrar a urgência de repensarmos o nosso modo de ser e de viver.
Tivemos a oportunidade de constatar que apesar das fronteiras aparentemente nos separarem, no fundo estamos todos unidos e conectados. Somos parte de um todo maior.
Que possamos aquecer o nosso coração e não o mundo.
Que possamos reciclar a nossa mente e questionar os nossos impactos no planeta.
Ser gentil com a Terra é uma questão de respeito e de responsabilidade, mas, sobretudo, é uma questão de sobrevivência desta e das futuras gerações.
Que nesse ano que se inicia, possamos gerar essa nova forma de pensar e de sonhar.

Juliana Latini

(Texto inspirado no livro de Leonardo Boff “Sustentabilidade: o que é , o que não é”.)


Créditos da imagem: Pixabay

“Como”

Por: Bianca Latini

A small tree growing with soil forwarded or delivered between the hands of the elderly and children with the green forest background. Showed the care for the environment with sustainable development.

“Como”

Quando for, não vá com o trem
Não aceite qualquer vintém
Vá com Amor e fique com ele também
Amor não é esse de fora, aquele que ousamos supor
Amor é embrião, é caule
Não é cometa, transpiração, veneta
Quando pegar carona, vá, mas permanece na raiz
Filtre, depure, apure
Seja aquele fio condutor essencial
Aquele bem fino, quase invisível
Mas muito potente
Aquele que a gente quase não vê
Mas se fecharmos os olhos e a mente, a gente sente
Desde o início desta viagem
Não passe aqui só de passagem
Viva, importe-se, comprometa-se, aprofunde, supere camadas superficiais, mergulhe, explore, não ignore os sinais
O que fizer, faça bem
Nada é qualquer coisa
Por menor que seja, o pequenino é grande também
O conjunto da obra depende muito do “como”
Muito mais do que do “quem”.

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Freepik

Ela, A Ferida

Por: Bianca Latini

Ela, A Ferida

Ontem falei com a ferida
Ela me disse que tem vida
Tem história e também memória
Me contou um pouco sua trajetória
Só não entendi bem de onde partiu
Mas captei que chegou até aqui, depois de tantas engolidas, silêncios, caladas
Disse que queria ter sido mais exibida
Menos recolhida
Mais espalhafatosa, escandalosa e menos medrosa
Procurou caber no peito, no joelho, no asfalto, na palma da mão
Só que tentando moldar-se em qualquer fôrma
Acabou por não caber em lugar algum
Desesperada, pulou da ponte
Jogou-se no rio
Não se despediu, mas partiu
E mesmo indo embora, ela deixou sua cicatriz
Que está bem debaixo do nariz
Para ser farejada, descoberta, desvendada
Assim que achar seu rastro inicial
Ela, enfim, poderá deixar o campo do ressoar.

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Livre, leve e imperfeita

Por: Juliana Latini

Livre, leve e imperfeita

Fim de ano chegando e junto iniciam-se os balanços.
Tempo de averiguar se aqueles projetos traçados foram alcançados,
avaliar se alguns precisam ser remanejados ou abandonados.
Tempo de autoavaliação.
Mesmo que a ansiedade ou todos os eventos, encontros e presentes tentem me levar para outros fluxos,
eu procuro ter esse breve momento para me aquietar e refletir.
Quando faço isso, meu coração se enche de gratidão.
Eu me sinto grata pela vida.
Grata por ter trocado experiências com pessoas incríveis.
Grata por tantas vivências.
Ao meditar nos desafios enfrentados ao longo desse ano, eu penso:
O que eu levo de aprendizado?
A ousadia de ter feito, mesmo que não tenha sido perfeito!
Ter coragem para assumir minhas fraquezas.
Humildade para me colocar na posição de aprendiz.
Superar esse sentimento de desconforto e avançar é um pré-requisito para o meu aprimoramento.
Entre tantas quedas e recomeços, erros e acertos,
cada realização precisa ser comemorada.

Juliana Latini


Créditos da imagem: Pexels

Por: Mauricio Luz

Apressada, ansiosa
Caminha pelo labirinto de concreto
Quando repentinamente… desperta.
Sem aviso prévio ou advertência
Sente o ar invadir os pulmões
E o prazer da respiração invade seu ser.
Seus passos, ela sente seus passos!
Sente cada músculo e tendão que se encolhe e estica
Em uma harmonia misteriosa e bela.
Uma planta abusada ousa quebrar a mesmice do cinza.
Busca o Sol e o saúda.
E ela percebe a beleza, a força da suavidade da Vida.
Seus olhos… o que aconteceu com seus olhos?
Por que tudo está tão mais claro, tão mais colorido?
E seu coração, antes tão silencioso!
Por que cada batida soa tão alta, tão profunda, tão vibrante?
Ela para, estaciona, olha para si mesma.
Ela sente.
Sente o mendigo que clama a caridade alheia,
E o executivo alheio ao mundo à sua volta.
Sente o beijo dos amantes, o hálito do bêbado,
A fé do crente e do descrente.
Lágrimas correm pelo seu rosto,
Limpam o que dela tinha sobrado.
Nada o que ela foi tinha restado.
E agora ela se tornou Tudo.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Mais um indo….e eu vou seguindo…

Por: Bianca Latini

O ano está acabando e quando eu olho para as minhas próprias ruas, meus itinerários, meus pisares, minhas cambalhotas, saltos e derrapagens, vejo o quanto engrandeci meu repertório, meu fluir e o quanto caminho mais leve hoje, até aqui
Posso não ser tão generosa quanto o Chico
Tão desapegada quanto à Marisol
Tão peito aberto quanto à Natália
E tão flexível quanto o Mateus
Posso não dar meia volta tão rápido quanto o Irineu
Não ser tão corajosa como a Fernanda
Nem tão demonstradora de afetos como a Mia
Posso não ser prática como o Rodrigo
Nem tão posicionada como o Luiz
Tão articulada como a Andreia
Posso ainda não saber me pontuar e colocar todos os pingos nos “is”
E ainda ter muita dificuldade de fazer escolhas, recortes, abandonar bagagens e não saber fazer mala de viagens…
Mas quando olho pra trás e avisto um raio nem tão longe assim
Eu tenho orgulho de mim
Tenho lutado minhas batalhas
Derrubado muitas muralhas
Esfacelado crenças
Entendido minhas doenças
Desmistificado minhas lendas
Ressignificado medos…
Eu dormi no escuro
Explorei minha galáxia
Virei de cabeça pra baixo, tentando achar muita coisa e, às vezes não vi quase nada
Mas eu ousei sair do meu ninho
Eu vivi muita coisa sozinho
Sem saber o que havia na virada da curva, sem ter nenhuma certeza se daria certo, sem entender bem se daria conta
E se no final da estrada estaria feliz
Pisei no acelerador
Mesmo ameaçada pela dor
Eu quis viver o amor
A experimentação
A cisão da tradição
O novo
Azeitei o passado
Açucarei, mentalmente, o futuro
Fui, voltei, me perdi
Dei nó em mim mesma
E, quando não soube para onde ir,
decidi ficar embolada do jeito que estava
Ao menos, pus um laço de fita e um pisca pisca no meu bololô
Cantei afoxé e me diverti
Eu escolhi acolher o fato de que não sei tudo e não tenho as melhores respostas agora
Não as tenho todas
Mas já aprendi, que nas horas mais salutares
As mensagens chegam, os lampejos fazem clarão
Aí toca o sino de Belém
E Natal faz existência em toda minha árvore
De um jeito que é só meu

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Família tradicional

Por: Priscila Menino

Father and baby forming a heart shape

Família tradicional

Vi uma notícia que me fez refletir.
A reportagem falava sobre a extinção da família tradicional brasileira.
Fiquei pensando no que se entende por família tradicional e por qual motivo se eleva essa condição a uma relevância considerável.
Ideologias religiosas a parte, penso que família deve ser baseada em laços fraternos de amor, ainda que tenham horas que momentaneamente queriam se matar, afinal, faz parte de toda boa família.
Eu posso afirmar que a família que constituí e da qual me orgulho muito não é a tradicional brasileira.
Minha filha é fruto do meu primeiro casamento, portanto, já fui divorciada.
Meu esposo tem outros dois filhos que não são meus filhos biológicos.
Mas o que nos une são laços de amor.
Amor real, que supera o dia a dia e está junto por uma opção e não por uma imposição de qualquer natureza.
E por isso eu me incomodo tanto com esse fascínio de alguns com o que se considera “família tradicional”.
O que deveríamos sempre valorizar não seria o amor acima de tudo?
Se houver amor, qual o problema de ser um casal do mesmo sexo com filhos ou de se ter uma mãe solo?
Aliás, fazendo uma analogia com o mundo gastronômico, de uma forma geral, os sabores tradicionais são os mais sem graça.
Gosto mesmo é daqueles sabores excêntricos, instigantes e provocativos; com tempero e sabor.
Uma família unida pelo amor, seja ela de qual forma, modelo, crença, raça ou do jeito que for, é bonita demais para encaixar nos esteriótipos “tradicional” ou “não tradicional”.
Me espanta que em pleno século XXI ainda usemos esse tipo de classificação tão simplória e retrógrada.
Se tem o tempero do amor, tem sabor. E onde há amor, não é insosso.
Por isso me incomoda esse termo “tradicional”.
Portanto, nada insosso para mim, obrigada!
Nem na vida e nem na gastronomia.

Por: Priscila Menino


Créditos da imagem: Freepik

Assim floresço

Por: Bianca Latini

Picture of tender young girl with flowers over blue background

Assim floresço

Gosto de conversar com você
Pois você me ajuda a florescer
Floresço pelos olhos, nariz, boca e
ouvido
Floresço pela barriga e pelos pés
Abro novos caminhos
Adorno novos pisares
Sirvo inusitados jantares
Banquetes de estrelas, sonhos, magia
Enfeito o corre corre diário com letargia
Afino a desafinada sinfonia
Engendro-me por entre partituras sem ditaduras
Sigo sem ritmo, sem compasso
Apenas despreocupada
Floresço novos sorrisos
Alguns que nunca poderia imaginar existirem
Disponho-me a ficar desabrigada por algumas horas
Deixando a chuva cair do céu, regando meus sentidos
Inundo um pouco a minha terra
Assim fecundo
Depois volto pro mundo
Ventilada, adubada, refestelada
E nessa primavera, vou vivendo meus ciclos…

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Freepik