Igual-mente

Por Thiago Amério

Tem gente que quer ser igual

Tem gente que quer ser diferente

Tem gente que não quer nada

Tem gente que mente

Tem gente que sente

Tem gente que só quer ser gente

Tem gente que só vê no outro

(Do que é feito a mesma gente)

Tem gente que só enxerga a própria gente

 

Tem gente que é ódio

Tem gente que é amor

De que é feito a gente?

 

Ainda assim,

Gente

nunca deixa

de ser gente.

 

Ps. Xingar gentália é coisa de quem

Caga pela própria boca

Setembro

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Por: Diogo Verri Garcia

Setembro bom, que de vez o inverno espanta.
Já torna longas as tardes, encanta
Todo aquele que observa um jardim de setembro.
É tempo
Do arvoredo quedar-se exulto,
Envolto em flores, em chão de colorido tumulto,
Que dura até meados de novembro.
Setembro, o vento frio cá já não sopra mais o rosto,
É mais quente que o último agosto,
Tão bom como sempre me lembro.
Calor competente, o ambiente torna o corpo suado,
O suficiente para o chope gelado
– bebida frequente no vindouro dezembro.
Setembro, que em Lisboa faz frio ao fim de tarde,
Que no Rio traz o sol, que vem matar a saudade
– desço do voo, e segue quente o desembarque;
Em Porto Alegre, perde-se do inverno cinza o fomento.
Setembro, que mês bom – só não melhor do que dezembro,
Em que o verão traz expansão, prolonga o tempo.
Quando o amor ainda é amor, e não destempo,
Tal qual o será, tal qual em um mês…

(Diogo Verri Garcia, 01/09/2018)

*poesia autoral


créditos da imagem: Nauana Macedo (leitora). Templo Zu Lai. Cerejeiras. Arquivo Pessoal. Set. 2018.

Esta tristeza transitiva e indefinida

Por: Tadany Cargnin dos Santos

Esta tristeza transitiva e indefinida

Carente de um esclarecedor complemento ou uma definição

Preenche o dia com uma melancolia doida e desinibida

Que avassala a alma, deixando-a torpe, numa profunda inanição

E, no seu rastro, a angústia surge cegamente

Sem saber o porquê, nem quem é, tampouco de onde vem

Talvez seja resquício dalguma mágoa vivida preteritamente

Ou desesperança de um futuro solitário, sem ninguém

Sua veemência é sutilmente ardente e solidamente impetuosa

Pois ela impede a percepção de qualquer distinta realidade

Então sucumbo, morro na cama, assolado por essa impudência indecorosa

Transitiva e indefinida, impostos descabidos, nefasta facticidade.

 

PS: Para citar este texto:

Cargnin dos Santos, Tadany.Esta tristeza transitiva e indecorosa. www.tadany.org®

Mona Vilardo – Autora convidada: “A Casa dos Pais”.

foto 2017 (2)

A CASA DOS PAIS

Em poucas ocasiões, desde que saí da casa dos meus pais novamente aos 35 anos, eu durmo na casa deles.
Ontem foi um dia assim. Cheguei cedo ao Rio, aproveitando uma segunda de folga e, como sempre, cumpri quase que um protocolo de visitação: vejo minha afilhada (ontem foi dia de cantar cantiga infantil e fazer minhoca de massinha) e após isso, uma boa conversa com meu pai no sofá da sala esperando minha mãe chegar. Mãe em casa, um papo rápido e fui para o meu compromisso.
Volto pra casa deles às 00h45 e, diferente da época da adolescência, quando minha mãe me aguardava acordada pra sentir cheiros e me ver indo dormir ( um VIVA pros pais de adolescente – aqueles maneiros, claro) meus pais já estavam dormindo.
Fui dormir naquela cama que foi minha na época de solteira.
Às 5h30 ouço o barulho do tradicional café que meu pai faz pela manhã: Opa, vou lá dar um beijo nele! Olho pro quarto dos meus pais e tem um lugar vazio ao lado da minha mãe: Opa, vou deitar ali do lado dela e fazer o tão pedido carinho na cabeça que ela pedia sempre ( famoso cafuné).
Me pego lembrando de um período de 29 anos que morei com eles (e depois mais 2 – dos 32 aos 34)
Me pego tendo lembranças, me pego sendo novamente daquela casa.
Era naquela casa que eu colocava, quando criança, um bilhete na escova de dente do meu pai dizendo” Vai com Deus e volta logo “. Hoje seria um ” Se cuida, paizinho, te amo” (Desculpa aí, Deus)
Naquela casa eu acordava e gritava da cama: Mãeeee, vem aqui! – pedindo a presença da minha mãe na beira da minha cama para conversar.
Quando eu saí pela segunda vez da casa dos meus pais lembro da minha mãe chorando muito e dizendo: “Choro de tristeza e felicidade, agora eu sei que você não volta mais..encontrou seu príncipe” – coisas de mãe que adivinha tudo.
Então, mãe, deixa eu te dizer: quando o ninho é bom o filho a casa torna (tentei te colocar de volta na história, seu Deus). O filho volta nem que seja por uma noite numa cama de solteiro e um cafuné na mãe.
São 6h26…vou voltar a dormir, ainda tenho um tempinho de ser apenas filha”


Sobre a convidada:

Mona Natasha Fraga Vilardo, ou Mona Vilardo, é uma cantora, atriz e escritora brasileira. Iniciou seus estudos musicais aos 8 anos no Coro Infantil do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, participando de óperas como Turandot e fazendo turnê pelos Estados Unidos e Europa.
Entre os principais trabalhos se destacam: soprano solista na obra Requiem de Mozart e ” A Criação” de Haydn e solos com o grupo vocal de música antiga Calíope – sob regência de Júlio Moretzsohn. Atualmente faz parte do grupo vocal Equale – ganhador do 29º Prêmio de Música Brasileira 2018 – Categoria Grupo de MPB.
Iniciou seus estudos de teatro no Teatro O Tablado, em 1996 com professores como Luiz Carlos Tourinho e Bernardo Jablonsky.
É Bacharel em Canto Lírico pela UniRio, na classe da professora Mirna Rubim, técnica em piano clássico pela UFRJ, e atualmente aperfeiçoa seu canto com o soprano Leila Guimarães.
Em 2017 ficou em cartaz em São Paulo, com o musical “Agnaldo Rayol – a Alma do Brasil”. Desde 2017 apresenta seu espetáculo “Mona canta Dalva” – em homenagem ao centenário da cantora Dalva de Oliveira, no qual assina o roteiro, junto com Marcia do Valle, e a produção geral.
Seu mais novo projeto é a coleção “Elas por ela – As Rainhas do Rádio, por Mona Vilardo”. Coleção de livros voltado para o público Infanto-juvenil. O primeiro livro já está escrito e conta a vida de Dalva de Oliveira.
Paralelo a isso já está produzindo e escrevendo o espetáculo de 2019, “Mona canta Linda” em homenagem ao centenário de Linda Batista – a previsão de estreia é junho de 2019.
monasoprano@yahoo.com.br
Página do Facebook: monacantoraeatriz
Canal do Youtube: Mona Vilardo

Amizade virtual ou mito federal?

Por Thiago Amério

Eis a questão.

Como compatibilizar?

 

Ser amigo na rede

E defender inimigo da vida?

 

Embora o ser humano

Em algum período da história

Sempre clame por um herói

 

Platão já demonstrou

No mito da caverna

Que a ignorância só permite ver a sombra

Até que os escravos sejam obrigados a olhar a luz

E isso dói

 

Quando iluminados conseguem ver além

Percebem que mitos não existem

E quando voltam para contar aos habitantes da caverna

Os presos de lá afirmam que os sábios estão cegos

Por isso, caso alguém pretenda libertá-los,

Isso significaria também cegá-los.

Como ninguém quer ficar “cego”

Os presos antigos gritam:

– Essa história illuminati merece desprezo, prisão e morte

 

Ah. Cabo sem miolo:

Que sorte que na rede

Ainda pode se escolher

Ponte é diferente de laço

Para estar junto precisa crer

 

Ps. Ainda assim

É só não seguir

Amizade real ou virtual
Preserva o existir

Sonoro Calado

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Por: Diogo Verri Garcia.

Vejo quatro cordas,
Quase mortas,
Que não tocam,
Que não falam
Quase nada.
Nem um som, nem uma nota solta,
Ou um semitom.

Tem traços de ferrugem,
Marcas de dedos pelos braços,
Uma boca que não tem lábios,
Um corpo que não dá abraços.
A mão fria, sem calos.
Mas que sente afeto; tem laços.

Segue ali calado,
Sem murmuros, pendurado.
No calor, não senta ao vento;
No inverno, não pede vinho.
É calmo, nunca bravio.
É sozinho…

Esticado, desafinando.
Ao longo tempo passando; empoeirando,
Sem força, sem nota,
Sem vida.
Envergado em solidão,
Transforma todo tom em bemol.
Mas na claridade, faz as pazes, e ainda toca o sol.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 09/08/2018)

*Poesia autoral.


Créditos da imagem: pixabay

Escutei Deus sussurrando

Por: Tadany Cargnin dos Santos

Ontem, em sonho, escutei Deus sussurrando

Segredava sobre a solidão enfadonha do firmamento

Queria ser humano, para andar assobiando, compartilhando e amando

Mas, tristonho, lamentava que estava eternamente condenado ao isolamento

Que o céu era tão pomposo e que as pessoas só ficavam lhe observando

A convidar-lhe para uma festa ou brincadeira, ninguém tinha o atrevimento

Que nem os anjos, eternos companheiros de domicilio, o imaginavam dançando

E que o som de liras e arpas lhe estavam causando um musical esgotamento

Que sentia mágoas de ter sido tão autoritário ao ver Adão e Eva se apaixonando

Pois hoje ele entende, que o amor é a alegoria, o mágico e revelador encantamento

De repente, o sussurro parou, quando o sol estava se levantando

Levantei e olhei pela janela, fiquei alegre pois Deus estava num processo de autoconhecimento.

 

 

PS: Para citar este Poema:

Cargnin dos Santos, Tadany.Escutei Deus sussurrando.www.tadany.org®

Sobre Dragões e Insetos

Por Renato T. de Miguel

Há pouco mais de dez dias assisti pela terceira vez Blade Runner 2049. Esse é um grande filme por diversos motivos, o visual impecável (fotografia, design de produção, efeitos visuais), a história que segue e expande o universo introduzido por Ridley Scott em 1982 e, principalmente, os temas narrativos que nos põem a refletir por horas ou dias depois que descem os créditos.
Um desses temas é a substância da memória.

Em determinada cena, a Dra. Ana Stelline, arquiteta de memórias a serviço da Wallace Corporation, explica ao detetive K. que as lembranças não são feitas de detalhes reais, porque nós as recordamos com os nossos sentimentos. Não nos lembramos de um episódio da infância como ele realmente aconteceu. Lembramo-nos do que sentimos naqueles instantes do passado.

Ontem à noite, ao ler a notícia sobre o incêndio que destruía o Museu Nacional, certa recordação da minha infância se espargiu na minha consciência. Minha mãe uma vez me levou àquele museu. Embora os passeios à Quinta da Boa Vista ocorressem com certa frequência, visitas ao museu ou ao zoológico eram mais difíceis. Mas nesse dia fomos àquele casarão que abrigava antiguidades. Pouco antes eu tinha ouvido que um Rei vivera ali e era fascinante que aquela mansão velha tivesse sido tão importante um dia.

Ao andar pelos corredores, o piso de madeira rangia com um som oco, elevando a tensão que era reforçada a cada descoberta, a cada sala que eu entrava e observava aqueles grandes retângulos de vidro contendo coisas do passado. A sensação era de fascínio diante do poder do tempo: estavam ali fósseis de animais extintos, múmias que foram reis ou governantes no Egito há tantos e tantos séculos. Talvez pela primeira vez na vida as dimensões colossais do tempo e do espaço tenham surgido com um vislumbre diante dos meus olhos. Por óbvio, eu não sabia, mas não seria mais o mesmo no dia seguinte.

Na escola, entre as disciplinas humanas com as quais eu aprendia a ter contado, a história era a preferida. Com o passar dos anos o apreço pelas ciências humanas me conduziu ao curso de Direito, o Direito consolidou o gosto pela leitura e a literatura me ensinou novas coisas sobre as pessoas, sobre o tempo e sobre o próprio mundo. Aquele pequeno episódio do passado, possível e provavelmente, ajudou a moldar meus gostos, minha personalidade e, portanto, minha cadeia de decisões a partir dali.

As formas de conhecimento, por menor que seja o conteúdo que eu pude assimilar ao longo desses 30 anos em que estive vivo, fizeram de mim, creio com sinceridade, um indivíduo melhor – ao menos melhor do que eu seria, acredito firmemente, se nunca tivesse a oportunidade de reunir nenhum. Mas divago…

Se o conhecimento sobre o passado nos ajuda a compreender quem somos, situando-nos no presente, a ação sobre o presente pode moldar o nosso futuro. A evolução da medicina, por exemplo, tende a conferir maior dignidade à nossa existência por um período maior, ao passo que o desenvolvimento das tecnologias, se empregadas construtivamente, pode elevar as nossas condições materiais de subsistência.

A conservação e o progresso do saber devem (ou deveriam) ser um dos pilares da nossa caminhada como espécie.

Em Os Dragões do Éden, Carl Sagan fez uma constatação acachapante: ao condensar toda a história conhecida do universo desde o Big Bang no período de um ano (sendo 1º de janeiro o momento da Grande Explosão e os últimos instantes do dia 31 de dezembro os nossos dias), observou que os dinossauros surgiram na noite de natal e os humanos às 22h30 do último dia do ano. Toda a história humana conhecida ocupa os últimos 10 segundos do dia 31 de dezembro, ao passo que o período decorrido entre a idade média e os dias atuais ocupa pouco mais de 1 segundo.

A nossa existência é sabidamente estreita se comparada à eternidade do cosmos. E precisamente por isso, creio, a propagação e desenvolvimento das formas de saber a respeito de nós e desse mundo em que nascemos é o que de fato pode nos dar algum sentido.

Imagine que as efeméridas, em seu pequeno ciclo de vida que dura apenas poucas horas, tivessem a habilidade de compreender seu lugar e sua função na natureza; e que vão morrer, sim, mas que antes disso vão criar e reproduzir outras vidas, se comprazer com as ofertas da natureza e das relações com seus iguais. Seria inevitável reconhecer a beleza quase poética dessa condição.

Como indivíduos, nossa memória serve pouco ao registro da realidade, pois nossas vidas são microscópicas diante da magnitude do tempo e nossas lembranças são distorcidas pelo caos das nossas emoções.

Como espécie, contudo, nossa breve história é conservada e contada nos museus e bibliotecas ao redor do mundo, enquanto nos laboratórios e universidades – sempre atentos ao que aprendemos até aqui – nossas condições de existência tendem a ser aprimoradas.

É triste e de nenhum exagero constatar que ontem, na sucumbência do Museu Nacional ao calor do incêndio que destruiu cerca de 20 milhões de peças dessa história, a nossa memória coletiva sofreu um dano irreparável. De certa forma, creio eu, nestas horas falhamos em perseguir um sentido a este absurdo que é a nossa vida.

Não fomos capazes de preservar uma casa que sustentou bravamente partes fascinantes da nossa trajetória.

Roguemos para que aqueles que vierem depois de nós tenham mais zelo pelo nossa passado, pela pesquisa e pela ciência, pois são elas que nos auxiliam a solidificar nossa identidade e a construir sentido como seres humanos, bem como a registrar o fato de que estivemos aqui.

Tributo à Legítima Defesa da Classe Média Sonegadora

Por: Thiago Amério

Dizem que o tributo não é castigo, multa ou sanção.
Mentira, tributação é pena de prisão eterna.
Do parto ao enterro, tudo é “fato gerador”
o Estado quer almoçar, quem come é governador,
o prato é o suor dos outros, o tempero é o seu labor.

União, Estado, DF, e Município,
cada um quer um pedaço,
empanturram o (próprio) governo
e a sobra é dos pobres coitados.

Sobra pagar a conta da fartura,
sobra pagar a conta da fatura,
da escola e do hospital,
duas vezes, ao Estado e ao Liberal.
O primeiro cobra e não oferece.
O segundo oferece a quem pode ($).
O terceiro é a classe média:
trabalha até morrer
ou pra se educar,
ou pra sobreviver .

No Brasil, pra alguns,
sonegação é legítima defesa.

Ps. Não concordo com essa tese
Um erro não justifica o outro.
Mas é difícil defender o Estado.
Neste país ingerido por poucos.

Aquestos Finais.

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Por: Diogo Verri Garcia.

AQUESTOS FINAIS

Oremos
Para que nenhum mal adicional nos apareça;
Para que o improvável venha a nós com sutileza;
Para que, por felicidade, a vida se reestabeleça.

Peçamos
Um pouco mais, face ao tanto que a rotina já nos dera;
Um ar mais leve, feito o começo de nossa paquera;
Um beijo de paz, sem dissabor – não um tapa de guerra.

Arrumemos
Um jarro novo, para o lugar do que quebrou por ser lançado;
Taças (em jogo), espatifadas no bar ao lado;
Um meio termo entre o indolente e o esforçado.

Dividimos
Os bons momentos, os juramentos, um pouco de tudo;
O bem maior, muitos prazeres, o nosso mundo;
Promessas feitas, que se perderam em segundos.

Repartiremos
Alguns retratos, outros farrapos, nossos caminhos;
Simples adornos, um só cachorro, o melhor vinho;
A sensação estranha e o prazer feliz de estar sozinho.

Talvez tenhamos:
Daqui a um tempo, versões mais nobres das nossas verdades;
Algumas lembranças das nossas danças, da nossa amizade;
Ao esbarramos, a impressão de que o passado traz saudade.

Merecemos,
Tuas palavras, que foram duras – tais quais as minhas;
O que passou, desde o amor às nossas rinhas,
Dos dias de sóis ao mar escuro que ao fim se tinha;
O que roubou o prazer, fez desgostar de você,
Também me fez merecer.

Além do mais,
Só oremos…

(Diogo Verri Garcia)

*poesia autoral


Créditos da Imagem: Pixabay