Próximo trem

Por: Bianca Latini

Próximo trem

Aqui dentro jaz um ruído
Jaz um zumbido
Uma inquietação
Uma queimação
Uma ruminação
Onde foi que terei me perdido?
Onde errei na mão?
Venenos destilados
Sabotagens
E nada de automassagens
Só vejo ruas sem setas
Esquinas sem placas
Cruzamentos sem semáforos
Armários sem roupas
Mentes sem organização
Tá tudo ruindo e eu não me acho
Tá tudo caindo e eu não me encontro
Eu? Quem? Quem sou?
Onde pego o próximo trem?
Só ano que vem?
Mas eu preciso ir agora!
Estou de partida
Só não sei pra onde, se com passagem de volta ou somente de ida
O negócio é não ficar parado
Afinal, sempre me disseram que quem empaca é burro, não é mesmo?!

Queres ser astuto?
Então, uma coisa te digo:
Fecha boca, pois em boca fechada não entra mosquito
Abre o peito, respira
E escuta com a boca dos pensamentos fechada também
Fica dentro, que logo você pega o próximo trem.

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Templo

Por: Mauricio Luz

Templo

Suas folhas formam um tapete
No qual meus pés caminham com reverência
Sento-me à sua sombra
Olho para as flores que enfeitam sua copa
Um convite, um chamamento
Às abelhas e marimbondos que passeiam no jardim aéreo
Um pássaro chega. Ele escolheu seus galhos
Para abrigar o berço de um novo milagre que virá
Sinto seu tronco, a firmeza com que se finca no solo
E o vigor de como se lançou no espaço
Confiante nas asas forjadas nas suas raízes
Logo seus frutos virão
Doces úteros no qual a vida se faz presente
De onde veio?
Como chegou aqui?
Que profundo mistério o fez crescer?
O que o faz combinar os elementos em uma sagrada orgia
E trazer a vida ao mundo?
Que o fez sair da pequena semente
Para a folha que cai serena, acariciando minha fronte com um terno beijo?
Ah! Cegos aqueles que veem o sagrado apenas no altar
Impossível se enxergar além do que se deseja ver!
Loucos aqueles que limitam o Universo às suas razões!
Jamais serão capazes de ouvir a oração sussurrada
Eternamente entre as suas folhas ou na própria respiração
Outra folha me beija, trazendo consolo em seu toque
“Esqueça-os, poeta!” – Você me diz – “Esqueça-os!”
“Ou não se lembrará que você também é mistério!”
“Viva o momento com doçura. Conceda sua sombra e frutos sem escolha”
“Pois todos mergulharemos no desconhecido”
“Mas apenas aqueles que sentiram o valor da vida”
“Estarão prontos para o abraço da morte.”
E no templo de folhas, seiva, flores e frutos
Ouço o som do milagre, do desconhecido
Que une todos os seres em apenas Um
De onde veio?
Como chegou aqui?
Que profundo mistério o fez crescer?
Uma folha cai. Um pássaro canta.
E eu sinto.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Refestelar-se

Por: Juliana Latini

Refestelar-se

Sei que o mundo não está nada fácil de viver.
Mesmo nesse turbilhão, busco parar e meditar.
Sair do automático, sentir a respiração,
Ouvir o coração bater.
Mudar a perspectiva e experimentar a gratidão pela vida.
Nessa nova frequência, surge uma luz que gera prazer, bem-estar e plenitude.
Em situações simples do dia a dia, aprecio cores, sabores e conexões.
Admiro com alegria o voo de um pássaro.
O brotar de uma planta.
O nascer do sol.
Um sorriso sincero.
Um abraço apertado.
O pé na terra.
O cheiro do café perfumando a manhã.
Quando desfruto, não me frusto.
Não há espaço para desgosto, quando sinto o gosto de viver.

Juliana Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Por: Raquel Alves Tobias

Você chega e estou de canto
Meu olhar perdido em pranto
Não consegue esperar

Eu só quero arroz branco!
Quero paz, um acalanto
Já cansei de procurar

Tenho sono, tenho pressa
No mundo nada mais resta
Só vazio a se espalhar

Não mamãe, não se abale
É tudo imaturidade
Só você pode ajudar

Vem, me pega, me eleva
Você é tudo que me resta
Vem, me ensina a caminhar

Faz de mim a tua vida
Abre as portas, me convida
À eternidade do meu lar

Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Pixabay

Os Considerandos

Por: Diogo Verri Garcia

(Os Considerandos)

Considerando que já há tantos considerandos,
Que consideram-nos, no que houver a considerar.
Que as promessas não se confundam com as preces,
Que a sede não se ofusque com o mar.

Levando em conta que é deveras torpe
o que é do tempo e que restou vazio,
Eis que nos causa arrepio,
Só por não haver, de nossa parte, compreensão.
Tanto que passa e nos ignora, ela,
Em cadeira cativa,
Nossa expectativa…
E, por vezes,
contra uma incauta nossa resistência,
Resiliente,
Ela tem razão.

É algo ardoroso o que nos tira e traz a calma à pele,
Chega de forma breve… e nos impele a arguir.
Pois, quanto a tudo, tempo é presente.
O expectado é diferente
ao tanto que aflige e nos amola.
Tornando o todo a perquirir…

Considerando que
Os considerandos sejam breves
Que os momentos sejam leves,
Os sorrisos, frouxos;
O peito, arredio.

Que considere que a alma é franca, não faca.
E nada haverá para sempre;
feito voltas, é tempo binário em semibreve.
Como brisa que logo cessa; ao soprar se atreve
A querer ser vento,
Sendo persistente.
E que não nos mantenha em nada mais vazios,
Antes da derradeira hora,
De deixarmos paz,
Por ir embora.
Que tomemos os momentos felizes,
Jamais frios.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 05 de agosto de 2021)


Créditos da imagem: Pixabay

Liquidificador: infinitas possibilidades

Por: Bianca Latini

Liquidificador: infinitas possibilidades

Meu mundo tá tão grande aqui dentro
Que ele não cabe mais em minha limitação corpórea
Meu mundo quer ganhar o mundo
E ser universo inteiro
Espaços
Pedaços do quebra-cabeça que são o todo…
O quebra-cabeça universal, macro
De infinitas peças e infindáveis encaixes
De incontáveis cores, matizes…
Por que o peso da escolha?
Queria ser tudo ao mesmo tempo!
Não posso sê-lo?
Por quê?
Por que não?
Quem disse?
Raízes?
Quero ter asas e percorrer todo o jogo
Me inspirar e fazer morada em cada parte do tabuleiro
Me divertir um pouco em cada picadeiro
Fazer salada mista
Bater tudo no liquidificador
Ver o que é que dá!
A graça é a surpresa, o novo, o inesperado
Dá medo de sair uma porcaria
Dá receio de errar na mão
Vai que sai uma gororoba?!!
Jojoba!
Passa no cabelo ou na fatia de pão!
Só não deixe de experimentar!!
Nascemos cientistas
E inventar faz parte da nossa natureza: curiosa e cheia de questionamentos
Verdade é fazer alquimia dos nossos tormentos

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Yin e Yang

Por: Mauricio Luz

Yin e Yang

Sombra, sombra amada
Quero ser teu amigo, tua irmandade
Somos apenas um, Sombra Querida
Fazemos parte de algo único, profundo
Tão lindo e belo
Que achei que me tornaria Uno
Quebrando-me em partes!
Eu sou teu, ó Sombra,
Assim como tu és minha,
Toma minha mão,
Aceita meu abraço,
Coma de minha comida!
Reconheço que sem ti,
A Luz se afasta mais do que se aproxima,
Pois tu, ó Sombra, quanto mais fome tens,
Mais grandiosa fica,
E tua gravidade me impede de alcançar as estrelas.
Alimenta-te do que Eu me alimento, ó Sombra,
Beba da mesma água que sacia o meu Espírito!
A ti reconheço,
A ti Eu declaro meu Amor,
A ti me confraternizo.
Venha para a dança da Unidade, Ó Sombra,
Faça-me encarar meus medos, meus anseios,
Meus ódios, meus rancores,
Faça-me dançar com todos eles!
E assim, ó Sombra, juntos e felizes,
Deixaremos de ser Sombra,
E unidos na Luz,
Conheceremos o significado da Consciência!

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Inspiração – Fênix

Por: Bianca Latini

Inspiração – Fênix

Eu transplanto a força da Fênix e
Enxerto suas asas em meus ombros, mentalmente
Fecho os olhos e inspiro sua sabedoria de vôo e e sua natureza de ressurreição
Imbuída dessa magnitude,
Tomada pelo ballet da dança que é voar
Alço voo, que eu, na minha humanidade,
ainda não consigo fazer
Talvez por pensar demais ou por julgar ser livre
E, assim, não ser, de fato
Inspiranda pela beleza desta ave,
dominada por seu olhar longitudinal,
esculpida, neste instante, por sua certeza de imortalidade,
Estou pronta para morrer e renascer.

Por Bianca Latini
Em 11/07/21


Créditos da imagem: DeviantArt – Phoenix Tears by maggock

Rendição

Por: Mauricio Luz

Rendição

Ah, coração em chamas!
Quem sou eu para impedir o teu fogo?
Como aplacar teu ímpeto, tua fúria
De fazer o que for preciso
Para que eu me torne Eu?
Ah, coração indomável…
És a semente, a força imparável da vida
E eu sou a casca que teimosa e inutilmente
Quer impedi-lo de brotar, e brotando
Alcançar o lugar ao Sol que é apenas teu, apenas meu.
Ah, coração, eu tenho medo!
Se não sou casca, o que sou?
Quem sou eu sem a tácita anuência
Daqueles à minha volta?
Quem sou eu sem a aprovação
Daqueles que me amam?
Ah, coração, não há jeito!
Eu me entrego.
Envolva-me, acalenta-me, dê-me alento e guarida
Para as bonanças e tempestades que virão
A ti eu me rendo, ó coração flamejante,
E em teu calor e tua paixão,
Finalmente eu me entrego a Mim.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Artistas da existência

Por: Juliana Latini

Artistas da existência

Quando não consigo ir mais a fundo na escavação do meu ser,
recebo o auxílio de outras arqueólogas que me dão a mão nessa jornada.
De um lado, vem o encorajamento, o apoio emocional e espiritual. De outro, a experiência, a técnica e a sensibilidade.
Nesse processo de autoconhecimento e cura, cada pedra que é tirada revela algo.
Aos poucos, me sinto mexida e remexida. Difícil de decifrar. Apenas sinto.
Sei que fico mais calada, mais pensativa…
Até que consigo interpretar uns vestígios. Algo ocorre em mim de dentro para fora.
Sinto-me como um grande “i” com o seu pingo fora do ângulo, sendo minuciosamente colocado sem eu devido lugar.
Após passar o desconforto, vem o alívio de ter dado mais um passo!
O novo entendimento, com o novo ângulo de enxergar as coisas, traz a satisfação e a libertação.
Sinto o leve movimento de rotação do meu centro de controle. Parece que estou fora de
órbita. Cada milímetro que altero o meu ângulo de enxergar as coisas, alteram a mira da proa do meu ser.
Sei que estou em direção a um novo horizonte.
O passo que dou dentro de mim, reflete o passo que dou no mundo exterior.
Cada detalhe me ajuda a desvendar a obra prima que estou a construir.
Somos artistas da nossa existência.
Tal como os arqueólogos ou os pintores, damos pinceladas nessa grande obra da vida.
Têm dias que queremos pintar com cores frias. Outros, com cores vivas, alegres.
Com o tempo, vamos aprendendo a nos perceber e a nos admirar.
Cada dia recebemos esse “pincel” para continuar a nossa obra.

Juliana Latini


Créditos da imagem: Freepik