Para nossa querida Nina…
Postado no 26 de abril de 2026 Deixe um comentário
Por: Priscila Menino

Para nossa querida Nina…
Sabe, pequena, eu queria te dizer umas coisas.
Primeiramente, seja bem vinda a esse mundo louco.
Você não faz ideia do quanto a você foi esperada e sonhada.
Todos sonhamos juntos com o dia que seguraríamos as suas pequenas mãozinhas e sentiríamos a gratidão de saber que tudo tem seu momento e hora certa.
A gente sabe agora que você estava lá nos braços do criador se preparando pra vir fazer transbordar alegria na vida de todos.
Vou te contar um outro segredo, você tem os melhores pais que alguém poderia ter.
Sua mãe tem a força de uma leoa e a delicadeza de uma flor do campo, não há nada nesse mundo que você não poderá contar com a ajuda dela.
Seu pai é companheiro e dedicado, saberá dosar as medidas certas dos temperos que você precisará na sua jornada que está mal começando.
Ah, você tem um lindo irmãozinho canino também, não é Buarque, mas é um Chico arretado também.
Seu avô é um guerreiro como aqueles dos filmes que você vai ver, você nem imagina quantas aventuras te esperam com ele.
E sua vó, eu tenho certeza que você a conheceu no céu e seu que já brincaram juntas em algum balanço celestial imaginando como seria linda a sua vida aqui nesse plano.
A sua Tia também está preparada para te ajudar em tudo, com “Belinhas” doses de cuidado que ela tem, trará acalanto pra qualquer arranhão no joelho e DANEm-se os outros, ela vai se jogar no chão e deixar você fazer dela uma aviãozinho.
E pensando nisso tudo, eu também teria antecipado minha chegada, imagino que deva ter sido difícil se conter naquele casulo dentro da mamãe por meses, sabendo quanta coisa boa estava aqui a sua espera do outro lado.
Mais uma coisa: não se preocupe, daqui a pouco esse mundo pandêmico vai passar e vamos viajar para tantos lugares juntas, a tia já está animada traçando os destinos.
E não contarei pra sua mãe quando a gente tomar aquele picolé antes do almoço, não se preocupe, também não contarei quando te emprestar meu batom preferido para te deixar brincar de se maquiar.
Nina, você é só amor em cada detalhe, em cada pessoa, veio ninar nossas vidas em um sonho sonhado de olhos abertos. Estaremos sempre aqui para te ninar também, gratidão pela sua vinda e sinta-se em casa no seu novo lar.
Por: Priscila Menino
Créditos da imagem: Unsplash
A DESELEGÂNCIA DO CRETINO
Postado no 22 de abril de 2026 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

A DESELEGÂNCIA DO CRETINO
Deselegantemente,
Escolhe seu melhor terno.
De desalinho notado,
panos mal costurados,
De corte nada moderno.
Com uma calça sem vinco,
De vividez sem afinco.
Não minto: a fivela surrada e o couro nada distinto
tomam conta do cinto.
Os punhos da camisa são menores que as mangas
de um terno de listras, com camisa xadrez
e desbotada gravata da cor de pitanga.
Carrega um lenço de branco amarelado,
Pente de osso quebrado.
Toma uma caneta guardada,
com falsa aparência de cara,
Que nem se achada eu quero.
Sai com um pisante vindo do sapateiro,
Contando com um devido cuidado
para reformá-lo inteiro.
Exagerando na graxa, para cobrir arranhões.
Mudado o solado ruim de borracha,
desgastado por muitos pisões.
Abre um sorriso tão franco,
Marcado por um enorme brilho,
Pois vai esperar por um filho
que tencionou visitar.
Era um palácio de salas, cheio de empecilhos,
Com gente imponente
que lhe manda aguardar.
Finalmente chegou um rapaz apressado,
Com traços já desgastados,
Quase tão velhos que o pai.
Este a tempos não via: que a vida não permitia,
Filho que sempre dizia,
Mal como sempre se sai.
Tantos que ao jovem apressavam,
A afugentá-lo da imprensa,
E dos credores de contas
de exigibilidade já não mais suspensa.
Dos prejudicados que exigiam
nem que uma mentira, uma qualquer explicação.
Repetiu-lhe o velho
Que deselegante é viver na mesmice.
Agir com tolices,
Buscar a forma errada,
Entregar-se ao preguiçoso atrevimento,
Criar tormentos,
Ferir os outros por nada.
Mas era impassível o filho,
sem demonstrar vergonha,
palidez ou desatino,
Pois era folgado o cretino.
Em meio a dúzias de fotos
e a gritos de populares,
Vídeos de celulares de gente sem compaixão.
Trajava o filho um terno de pano caro e corte fino,
Cortado às custas de muitos destinos,
Que só lamentava
Por não ter nada mais caro nas mãos.
(Diogo Verri Garcia, Rio, 30 de maio de 2019).
Créditos da imagem: Unsplash
Postado no 18 de abril de 2026 Deixe um comentário
Por: Raquel Alves Tobias

Ela estava doente.
Respirava rapidamente entre gemidos fracos.
Seria apenas um retorno, não para hoje, para amanhã.
Mas a mãe achou que não aguentaria até lá, então antecipou a reavaliação.
Os familiares aguardavam pacientemente.
Em meio a sorrisos, falavam de outros assuntos, felinos também.
Dentro da caixa, Nina seguia ofegante, enquanto ronronava palavras pausadas.
Sua mãe pegou-a no colo.
Em pé, à quatro patas, ela deu alguns passos desequilibrados em círculos sobre as coxas de sua cuidadora.
Estava fraca, muito fraca.
Inquieta, voltou para a sua caixa-apoio.
E, no chão, esperou.
Todos esperaram.
Talvez soubessem da gravidade, talvez não.
Talvez fosse culpa daquela mordida na planta tóxica do jardim de casa.
Talvez fosse culpa da infecção causada pelo ferimento de um espinho na pata.
Talvez fosse culpa do final de semana que interrompeu a sequência de feiras.
Talvez fosse culpa da falta do aviso de urgência.
Talvez fosse culpa da espera.
Talvez nunca fosse a culpa.
Talvez fosse apenas a hora.
Agora.
Nos olhos do doutor a resposta da pergunta que não queria perguntar.
Não há, então, esperança de recomeçar?
Depois do grito, os espasmos cíclicos tônico-clônicos.
A gravidade esperou calada,
tomou água açucarada amarelo-camomila.
Até o copo descartável, flácido, adaptou-se.
Adaptaram-se todos.
Os soluços, os goles e as lágrimas.
Ela não seria jogada no lixo, prometeram.
Colocaram novamente as máscaras e saíram pela porta da frente.
A vida seguia a goladas.
Por: Raquel Alves Tobias
Créditos da imagem: Unsplash
Cardápios das decisões da vida
Postado no 14 de abril de 2026 Deixe um comentário
Por: Priscila Menino

Cardápios das decisões da vida
Quem nunca passou pela indecisão das decisões da vida, que jogue a primeira pedra.
Quando crianças, nossos pais ditam nossos destinos imediatos e sonham/planejam nossos destinos mediatos.
Quando a gente vai crescendo, na mesma proporção, crescem as cobranças para que tenhamos um futuro que parece certo aos olhos daqueles que já viveram a vida e imaginam que podem nos proteger de cometer os mesmos erros que eventualmente eles tiveram quando jovens.
Nesse ponto nos é colocado um cardápio de opções para escolhas dos nossos futuros, baseados, evidentemente, nas expectativas dos nossos pais.
Não é por mal (na maioria das vezes), mas por uma tentativa de cuidado, quase que um instinto irracional de proteção da prole.
Acontece que cada vez mais os cardápios estão sendo ignorados pelas novas gerações, já estão ficando obsoletos e descartados.
Como boa Brasiliense, esperava-se que eu tivesse um cargo público “estável”, com uma vida by the book que eu cheguei a ter por um tempo, mas, como uma bomba relógio, essa tentativa explodiu e me esfregou na cara que o que eu queria não eram as opções do cardápio, elas já não me faziam feliz.
Aliás, a felicidade é um dos controles de qualidade que todos esses cardápios deveriam ter, mas há vários outros requisitos tidos como prioritários antes desse critério de avaliação.
Os pais “das antigas”, aqueles tradicionais, a rigor, não colocariam no cardápio, por exemplo, que seu filho pudesse ser músico ou artista plástico ou ativista político, mas essas opções fazem parte do combo da felicidade para eles, acompanhado de satisfação e engajamento ideológico.
Acho que os cardápios já estão em processo de revisão natural, adaptando-se aos novos cenários que já estão latentes e, de verdade, torço por isso.
Torço ainda mais para que a felicidade seja basilar em qualquer tipo de opção, seguida de respeito e amor, afinal, é isso que os pais sempre quiseram garantir para seus filhos, não é mesmo?
Por: Priscila Menino
Créditos da imagem: Freepik
Postado no 11 de abril de 2026 Deixe um comentário
Por: Henrique Mirabeau

Solo fértil,
Amor de mãe
Conhecimento do pai
Solo fértil,
Experiências da vida
Amizades construídas
Consolo de um amigo
Solo fértil,
Dividindo o pão
Trocando ideia e boa informação
Solo fértil,
Espiritualidade maior
Contemplar o belo divino
Solo fértil,
Ar puro
Alimento sagrado
Consciência tranquila
Henrique Mirabeau
Créditos da imagem: Freepik
DECÚBITO FINAL
Postado no 6 de abril de 2026 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

DECÚBITO FINAL
Quando tudo mais parar,
E o aperto descansar,
Que assim seja.
Que a alma possa se acomodar,
E o corpo parar de lutar
Para que o fim do amor cá esteja.
Finalmente, haverá tenacidade
e tranquilidade em perceber ser assim.
Que a certeza não põe cartas na mesa.
O coração esbraveja,
Mas tudo, afinal, é natural chegue ao fim.
Então, todos vão parar de falar,
Não haverá mais jantar.
E o que era futuro não será mais concreto.
É duro, mas haverá algum outro encontrar,
Logo um alguém para começar,
E o antigo amor estará encoberto.
É que a vida gira,
Mas somos nós que a empurramos a girar.
E só em outra vida
Pode haver um outro encontrar.
Quando então, passado todo o caminho,
E o corpo cansar, após longa idade.
Frente a Deus, pergunte,
Para se espantar.
Ele contará a verdade.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 27/04/2020).
Créditos da imagem: Unsplash
Postado no 3 de abril de 2026 Deixe um comentário
Por: Raquel Alves Tobias

Vento que corre entre os dedos.
Agarrado aos pés, todo o caminho andado.
Úmido.
Colado, ultrapassado.
Passado.
Sorrindo, chorando.
Doce, amargo.
Tragado.
Inutilmente guardado para alguma ocasião.
Repetição.
Névoa de ilusão.
Vento que corre entre os dedos.
Leva a cola.
Evapora.
E grão a grão
Cai-se em nova construção.
Por: Raquel Alves Tobias
Créditos da imagem: Unsplash
Águas imersas, emergir, imergir.
Postado no 31 de março de 2026 Deixe um comentário
Por: Priscila Menino

Águas imersas, emergir, imergir.
A água estava agitada quase sempre, ela estava imersa, olhava para cima e via as imagens meio abstratas, achava que aquele era o seu normal.
Olhava, mas não via.
Respirava, mas não era o bastante, estava afogada pelas águas movimentadas.
Sentia que aquele lugar era particularmente íntimo, mas, na mesma proporção, sentia o desconforto de não ver com a clareza.
Ela sentia que ainda não era a hora de sair da submersão, era preciso esperar acalmar, esperar maior clareza para ter a segurança do que estava sentindo.
Permitiu respirar mais calmamente, parou de se debater e foi vendo as águas alcançando maior quietude, observou que as formas estavam mais nítidas em seus olhos. Sentiu maior curiosidade.
Resolveu dar levar braçadas e buscar aquela luz acima de sua cabeça. Uma, duas, três braçadas, as formas iam ganhando mais nitidez.
Chegou a superfície, não podia acreditar que durante todo aquele tempo ela estava imersa de águas que não a deixavam respirar puramente o ar e ver as formas com aquela clarividência toda.
Mal ela podia acreditar que achava que o mundo tinha aquele tons abstratos, achava que aquele era o real.
Mas agora ela via as formas claramente, via seus perfeitos tons e contornos, estava consciente, estava presente.
Vez ou outra ela volta a dar mergulhos na água e ver as formas abstratas novamente, apenas para ver de onde ela emergiu e lembrar que nem tudo que parece, é. Sábia, menina.
Por: Priscila Menino
Créditos da imagem: Pexels
Retrovisor
Postado no 27 de março de 2026 Deixe um comentário
Por: Bia Latini

Retrovisor
Como é bom dar nó em pingo d’água
Achar saída onde não tem entrada
Fumar cachimbo de nostalgia
Ouvir vitrola antiquada
Gosto de viajar no tempo e depois
retornar para cá, com alguns insights
Acho um privilégio revisitar outrora com
a cabeça de agora
É tanta clarividência
Tanta enxergação
Tanta ficha que cai,
mesmo depois da hora!
Acho que sempre é tempo
de fazer remendo,
de entrar no compasso
ou desfazer esse passo,
que a gente se impôs
na cegueira, na imaturidade,
na incompreensão
Gosto de ver fotografia antiga
E olhar quem fui, quem ainda sou
O que ficou para trás…o que sobrou
Acho graça ver meus cortes de cabelo
Meus penteados, meu corpo ora mais magro, ora mais moreno
e meu sorriso sempre querendo ganhar largura
Gosto de folhear minhas fases, minhas épocas, meus itinerários
Fazer terreno baldio ser usucapido
por tanta saudade.
Bia Latini
Créditos da imagem: Unsplash
MEMÓRIAS DE UM MÊS DE MARÇO VAZIO
Postado no 24 de março de 2026 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

MEMÓRIAS DE UM MÊS DE MARÇO VAZIO
Cai a tarde, que não se vai tão tarde.
Vê-se a rua deserta,
A aglomeração repleta da falta de querer se amontoar.
Há algum decúbito de bares vazio,
Sem calor humano, um frio
entorpece os cantos sem nos deixar acostumar.
Vê-se que a vida passa em outro andamento,
isenta ao decurso do tempo
que seria tão rápido
para tornar a alma repleta, tonteada,
Pois hoje é ela só aguarda, espera.
Fez-se a fase das metrópoles passando ligeiras entre
goles,
Dos corações teimosos, mas moles,
Apaixonados dentre as multidões tão logo,
Vivazes, porém postos a esperar.
Houve sorrisos dentre aglomerações,
Existiram multidões,
Gente parada frente ao sinal ou ao farol,
Em aguardo de travessia.
Mas nota-se que o vazio apropriou-se da cidade
Que até meados da tarde,
desabitada feito a plena madrugada,
imigrada para o meio-dia.
Mas há nessa espera algum exemplo,
que nos para as pernas,
pondo o peito a sentir
e a mente a ficar quieta.
Respeitando, ao ver a rua deserta…
Só torço para que o mal torto deixe as ruas
Enquanto o tempo insinua, que o medo afrouxe
em algum alento, a uma paz comprazer,
resolvido ao prometer trazer de volta alguém.
Quero que as ruas retornem repletas,
Dentre almas não mais desertas,
Que, ponderadas no ardor, no quietar-se e no ver,
Passem a só pretender, desde então,
O bem.
(Diogo Verri Garcia, Rio, 24/03/2020)
Créditos da imagem: Pexels
