Coração

Por: Bianca Latini

0efd72decc496462de82b112acbd42a7

Coração

É ele que guia meus passos silenciosos
Meu caminhar de infinitude
Meu trilhar de evolução
Por vezes aperta, machuca, corrói
Em outras, salta, exulta, alegra-se
explodindo em gratidão
É forte e majestosamente rico
das respostas que preciso:
o perigo que pressinto
o caminho que desvio
o rio em que decido me banhar
É absurdamente esperto
Para buscar o rumo que acha certo
E a qualquer momento
em outra direção, dar guinada para virar
De alguma forma sinto o seu ritmo
E os sinais dos segredos
que ele quer me contar
Aprendi a não ser teimoso
A dançar a dança em que pretende me guiar
Entendi que coragem é agir com ele
E não contra ele, ao ser pretensiosamente audacioso, rancoroso e danoso a mim mesmo
Agora fecho os olhos
para enxergá-lo melhor
Pergunto, conecto, respiro
Busco uma ligação direta
Sem interferências
Sem ruídos
Sem zumbidos
Para haurir no que preciso
Para luzir no meu atuar

Deixa Fluir

Por: Bianca Latini

60fe4c3602e8e50e2e9f787ed27d2aba

Deixa fluir

Leve,leve,leve
Deixa ir
Deixa fluir
Deixa desenrolar
Da maneira que quiser ser
Do jeito que quiser correr
Provir, fruir, desaguar
Leve, solto, alado
Desenfreado
Sem cerca
Sem arremates
Interferências
Melindres
Deixa deslizar
Deixa, permita, não interpela
Releva, entende, não suscita
Deixa se revelar
Do jeito que é
Da maneira que quer ser
Do modo como quer se mostrar
Sem véu, sem fel, sem mel
Apenas sendo em sua natureza corrente
Ausente
de julgamento
de tormenta
Placenta
permita vascular
Libere
Exima-se de ter que interceder
Deixa ruir, deixa puir, deixa brotar
Isente-se, ausente-se
Torne-se invisível
Silente
paciente
Permissivo
Compreensivo
Libertador
Não cause dor
Não seja obstáculo
Apenas sustentáculo
Se te pedirem para auxiliar

(28/01/2020)

Autor Convidado: Victor Cabral

Por: Victor Cabral

WhatsApp Image 2020-01-23 at 13.38.08

Queria te escrever uma bela carta
Daquelas marejam os olhos e o peito aperta
Uma que você leria deitada e dormiria abraçada
Sonhando com o significado de cada palavra

Te transformar na minha musa irreal
Intocável e pura, platonismo ideal
Amar é tão fácil, sem nunca realizar
Eternamente grato em apenar poder gostar

Porém não nego, que no peito carrego
Um peso maior que essa grande árvore que rego
Que dá frutos e eu chupo, o sumo e suco,
lambuzo no néctar e me embriago no pouco
que já bebi de ti

Que feliz que não és ela: Cinderela ou donzela, que nos contos de fada, trancada da cela, não amou nem sofreu, não gozou nem gemeu, apenas aguarda.
A mais triste das imagens belas.

O bom mesmo é poder errar contigo
Fazer umas merdas, chorar escondido
Rodopiar pela vida, cabeça colada num ombro, cof cof, amigo

E nessa contramão da vida, tenho a certeza
Que o caminho certo é trilha escondida
Embrenhada nas matas, dor e alegria
Espinhos: feridas, Flores: beleza

Confesso que não me achei, continuo pedido
Mas estou por aqui, tateando no escuro, achando abrigo em alguns colos que achei no breu do caminho

Queria crescer, mas continuo menino
Penso em você e o sentimento é antigo
Temperado com doce e o azedo da terra
Sangue, suor, saliva e lágrimas: canela

Quando alguém pula de um trem

Por: Diogo Verri Garcia

locomotive-3595011

(Quando alguém pula de um trem)

Quando alguém pula de um trem…
Não falo de morte, leitor: deixe de afobação.
Digo com ele prostrado, já chegada a estação,
Pois é a melhor parada depois de tanto assistir.
São algumas as horas passando a paisagem,
Que não tenho nele notado,
Se quem vê de fora, me nota em viagem.
Posto que passo despercebido em existir,
De tão que é veloz, de Barcelona a Madrid.

Lá por fora apressam-se as árvores, ligeiras,
Que se movem mais do que o correr contra o vento,
Destinado às cabeceiras.
E externando o olhar, pouco vejo de gente;
A paisagem, de tão vazia, é cerrada,
Que embaça meus olhos atentos aos rostos,
Mas noto mais as moças e tão menos os moços.
Deixa borrões no lugar de folhagem, que mal se importa aparente.
Move-se aqui no espaço entre a distância e a hora,
Com destino em alhures e origem em outrora.
Nem gotas de chuva aderem ao movediço,
De tanto que corre,
Feito o vento lá fora.

Quando algum pula de um trem,
Pois tem a perna adormecida,
Em que pesem as poucas horas.
É porque correu por muito; do que o costume, além.
Mais do que poderia,
De tanto parado, sem sair, sem dormir,
Enquanto o mundo zunia, lá fora do trem.

Quando alguém pula de um trem,
Corre na pressa que quase esquece das malas,
Quer um bar em Barcelona,
Para algumas centenas de tapas.
Ao persistir-se faminto,
De tanto andar, sem nem um passo prover.
Mas cansou-se, ao ver o vento correr.

(Diogo Verri Garcia, Madrid-Barcelona, 01 de septiembre de 2015)


Créditos da imagem: pixabay

Conexões Humanas – Corações sob peles

Por: Bianca Latini

orig

Conexões Humanas – Corações sob peles

O contato com as pessoas me move
A troca
A integração com elas
Gosto de saber suas histórias
Suas memórias
Seus remorsos
Suas alegrias
Suas vitórias
Seus dia a dias
Gosto de prestar atenção ao timbre de suas vozes
À cor dos seus sorrisos
À luminosidade dos seus olhos
E ao direcionamento deles
Às vezes intensos
Vivazes
Assustados
Tristes
Cabisbaixos
Às vezes perdidos

O tom e o ritmo
com os quais pronunciam suas palavras
em muitos momentos fazem-me tocar em frente
Repensar algum posicionamento
Ou encorajam-me
a ser mais dedicada
São vozes de gente
Viva
Carregada de emoções
Sentimentos
Pensamentos
Sensações
São corpos que envolvem almas
Peles que armazenam corações


Créditos da imagem: pixabay

Os passos sem passagem

Por: Diogo Verri Garcia

london-598182

Quando os passos deixarem de fazer passagem,
Quando a trama for só miragem,
No que já houve opção.
Quando a vela atrás da porta não estiver acesa,
Quando a reza não for para afastar tristeza,
Mas for por gratidão.

Então acharás quem já não encontra,
Depois que tanto perdeste a conta,
De cada alguém que
Já passou por ti.
Mas que nunca marcou-te ao sentir presença
Passou normal, feito indiferença,
Nem por mal, nem a sorrir.

Então teus olhos vão fazer sentido,
Ouvirão o que vos contam os ouvidos,
Posto que não quiseram ver.
Bem de ti diante,
O que foi significante,
Mas que deixou perder.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 21 de dezembro de 2019)


Créditos da imagem: pixabay

Autor Convidado: Victor Cabral

Por: Victor Cabral

WhatsApp Image 2020-01-23 at 13.38.08

Como fazer poesia sendo comedido?
Não usar “sempre” ou “nunca”
Declarar o que sente ( somente o permitido )
Sem tremer em pensar se será correspondido?

Fingir que ainda é só um amigo
Colocar na conta da inspiração de tarde de domingo
Todos aqueles desejos que seus dedos não aguentaram mais guardar

Como fazer poesia não sendo sincero consigo?
Já não basta as 23 outras horas do dia
ou os 364 dias do ano que sigo mentindo
Cansa-me ser poeta só quando estou deitado, quase dormindo

Perco o sono pra alimentar de rimas as quimeras
Pois sei que vale mais uma noite de sonho realizado
Que mil dias vagando acordado
Como fazer poesia não estando apaixonado?

 

O pertinaz caminho

Por: Diogo Verri Garcia

seascape-2444029

(O pertinaz caminho)

O caminho que não tem passos,
Onde é formidável o caminho.
Dos pés gelados, caudalosos, se fosse tentado o caminhar.
É caminho em que tem vento e que tem pássaros
Que levantam voo ao nos aproximarmos a passar.

O caminho que tem folhas e não tem terra,
Que balança quem passa, mas se balança sozinho o caminho.
É caminho que, furioso, nos amedronta as pernas.
Mas, amiudado, tão mais ao seu jeito zela,
Sem nunca padecer em desalinho.

É Caminho bom para quem passa,
e para quem olha.
E até para quem faz graça, relutante,
Por medo de se ver passar.

É caminho do qual jamais me canso,
Pelo qual veloz avanço, em descanso.
Segue em balanço,
O mar.

(Diogo Verri Garcia, Rio 13 de janeiro de 2020)


Crédito da imagem: Tim Hill por Pixabay

Onde Existo

Por: Bianca Latini

superhero-534120

(Onde Existo)

Eu existo onde o amor está
Depois da rua
Onde o entusiasmo faz a curva
Eu canto onde há lirismo
Onde a brisa da poesia
acaricia o meu rosto
Macia
Suave
Purpurinante

Eu habito onde a rotina não
Assentou assoalho
E descanso debaixo do telhado
Da esperança
Aquela de criança
Que tudo pode
E que de tudo quer brincar
Aquela que não se cansa
De ser tola
Insana
Devaniante
E que em absolutamente tudo
Pode acreditar
Sem limite
Sem ouvido para palpite
De adultos carentes
Poluentes
Corrosivos
Frustrados
E principalmente sem
Imaginação para sonhar

Eu borbulho fertilidade
E me travisto de profusão
Quando sou livre
Quando tenho espaço para acoplar minhas asas nas costas
Asas grandes, largas
De Ser que deseja
Içar novos voos
Todo dia
Toda hora
A cada minuto
A cada longa perpetuação
Da novidade que virou previsível

E ainda que eu faça rota igual
Eu voo quando o faço de maneira diferente
Trocando as cores das asas
Ou trocando a mente do pássaro
Ou, ainda, achando novo acorde
Para o seu coração

É nesse lugar que eu moro
Nessa atmosfera respiro de verdade
Nesse espaço minha existência se faz
Latente
Presente
Desperta
Acordada
Preservada
Perspicaz


Créditos da imagem: pixabay

O necessário voltar

Por: Diogo Verri Garcia

eye-4559763

(O necessário voltar)

Necessário voltar
para aquele lugar
em que a alma nos alegra.
Onde é fácil dormir e acordar.
Lá, que tão bem se quer estar.
Ter uma alma de poeta.

Necessário voltar
para aquele lugar
Onde a saudade não nos mata.
E, certos que a paz é leve,
É tão normal de lá sentimos falta.

Necessário voltar
para aquele lugar
em que a brisa é diferente.
Onde talvez não tenha mar,
Quer arda em muito o quente sol,
Quer faça falta os dias quentes.

Mas é necessário voltar
Para aquele lugar
Em que a beleza profunda, o quão palpável, nos é rasa.
Necessário voltar
para aquele lugar
Que dentre tantos outros nomes,
reconhecemos como casa.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 14/01/2020)


Créditos da imagem: LhcCoutinho por Pixabay