O mar no caminhar daquela moça

Por: Priscila Menino

O mar no caminhar daquela moça

Acompanho de perto aquela moça,
Que lindo coração.
Se jogou na vida, levou porrada do destino, levantou.
Caiu outras vezes, mas continua levantando.
Leva muitos nos ombros, mas segue firme no salto.
Aliás, não posso deixar de falar dela sem falar da sua alma feminina.
Veio do piso de chão, mas sempre teve seu toque de menina moleca, seu charme natural.
Se faz de durona, mas ninguém sabe que chora assistindo filme de comédia romântica.
Odeia incomodar, aliás, ela sempre acha que está incomodando, mal ela sabe o quanto a presença dela traz alegria.
Seu estopim é curto, não pise no calo dela, ou verá uma leoa pronta para atacar, bruta como só ela.
E falando em leoa, defende sua cria com unha e dentes, é bonito de se ver a harmonia deles.
Seu coração é enorme e, se você for da afeição dela, ela te apoiará sempre.
Leal como tal, quem falar mal de um amigo dela, ela compra a briga e faz até inimizades, se preciso for.
Ela é guerreira, se vira como pode, sempre buscando seu lugar ao sol.
Mas na verdade, até o sol admira o brilho dela. E que brilho.
Deve ser por isso que ela ama tanto o mar, seja por estar presente até nas letras do nome dela, ou seja pelos raios de sol que batem na água e reluzem no seu caminhar.
Siga, moça, continue a brilhar…

Por: Priscila Menino


Créditos da imagem: Unsplash

Caipira

Por: Henrique Mirabeau

Caipira,

Cheiro de fumo no ar, vai-se o caipira na mula baia, dando de rédea e carregando as suas traias.
Sem muito luxo,sem muito apego,
Onde o medo passa longe vive ele em outro tempo.

Henrique Mirabeau


Créditos da imagem: Arquivo pessoal

DECÚBITO, 1 DE 2

Por: Diogo Verri Garcia

DECÚBITO, 1 DE 2

Sem se deixar ponderar,
Ela pensou o que quis.
Pois consolidou-se matriz
Da angústia, que era tão mais.
E assim não falou, não amou, nem sofreu,
Nem sequer compreendeu
Que havia algo justo e completo,
Um convite a dar certo
e que não era fugaz.

Mas, talvez, nada tinha a querer.
Não hesitou em clamar
Que algo errado existisse,
De modo que o bem subsumisse,
Trazendo logo às claras o fim.
Pois, então, com a alma leve em aparente justeza,
Bradaria a certeza
De que o amor é ruim.

Sem hesitar, nem chorar,
Nunca desabafou, não soube nem responder
Não amou tanto quanto você
E assim houve a hora
Em que a realidade
Fez a decepção ser completa
Fazer soar uma dúvida, um alerta,
E lançar a culpa logo corpo afora.

Percebeu que as contestações eram tantas,
Que era difícil até precisar fossem quantas.
Que até o tempo prometeu um alento
De decepções tamanhas.
Antes, havia passado dois dias vazios,
Como se passados frios,
Gélidos de alma e de paz.
Preparativos de uma distração mal contida
Da insegurança cultivada e mantida
Que causou todos os problemas mais.

Ele então lamentou,
Achou tristeza onde não conhecia.
Achou injusto que um dia
Houvesse um fim tão cretino
Para um destino distinto
Que Deus reservou,
E prometeu causador de riso e rubor
Mesmo na singela diferença
Sobre o que era “capaz”.

Até então, ainda tinha certeza,
Não hesitava, achava beleza na alma que
Suscitava tão infundada dúvida.
Ao fim do credo,
a controvérsia dela era sobre o amor.
Assustou, eis que se revelou
De maneira tão súbita.

Ele tirou um dia de paz,
Querendo ter ausência,
Sem a ingerência de uma nota qualquer:
Só pausa, daquelas longas,
Tornando a existência mais leve
uma máxima ou breve,
Para que som nenhum houvesse mais.

Questionou que a mente da infância não cresce,
Não conversa com o peito,
Por vaidade, não dá ao amor o respeito
E, posto isso, padece.
Desde sempre,
Parece que a razão dela pôs-se em quarentena.
Não vê o óbvio,
Vive a modo próprio.
Não lê seus poemas.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 24/04/2020)


Créditos da imagem: Unsplash

Medo de quê?

Por: Bia Latini

Medo de quê?

Medo de morrer??
Eu tenho medo é de viver infeliz!!
De perceber que não sou dona do meu próprio nariz
Que dou voltas no mesmo círculo
E nem expando meu raio

Tenho medo de perceber que podia ter feito
e não fiz
Que passei no mundo como atriz
Encenando um papel que nem me cabia direito
Achando que para tudo daria um jeito
Empurrando com a barriga
Deixando tudo pra depois

Tenho medo de não ter coragem de ouvir
meu corpo mudo de voz
Mas que fala através de sensações,
reações biológicas, químicas, físicas, mecânicas
Tenho medo de não ser precisa ao meu termostato natural
Esse que todo mundo tem e nem se dá conta…

Tenho medo de viver no medo
E esquecer de viver, também, a morte
Porque a morte faz parte de todos os processos da vida
Um esgotamento de propósito, desvivificação de algo que se nutria
Impermanência…
Passagem para um novo ciclo…

Por melhor que seja a música
Uma hora ela há de acabar…

Bia Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Por: Raquel Alves Tobias

Sempre quererei ouvir-te por notas musicais
Há dias subindo e descendo por escalas menores
Escalada de temores
Provando os sabores de cada toque marcado
Ardendo em chamas ou em cortes salgados
Pingando com lembranças de afago
Sangrando por entre pêlos eriçados
Com a saudosa lembrança do que não ocorreu
Antes fosse tudo, quisera eu
Antes de tudo, fôssemos nós
Ante o tempo, fosses veloz
Ante a dúvida, uma linha
e a caneta que escreve:
Era uma vez.

Por: Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Unsplash

Minha filha, meu cais, meu leme

Por: Priscila Menino

Minha filha, meu cais, meu leme.

Se eu pudesse, eu te colocaria em um potinho e te manteria sempre perto de mim.
Se fosse possível, eu te protegeria de todas as dores e viveria cada uma delas no seu lugar.
Eu evitaria a todo custo a fase que podem ter embates duros entre nós duas por exigir que você faça suas obrigações.
Quisera eu que você permita que eu te leve e te busque na escola para sempre, te abraçando e beijando, mesmo estando em frente aos amigos.
Ah, se eu tivesse a opção de permitir que eu compre suas roupas, vista seus sapatos e escolha seu penteado e perfume.
Mas, se assim for, você não se tornará a mulher que eu imagino que será, afinal, cada um tem seu caminho, suas escolhas e as consequências das ações ou das omissões, é inevitável.
E assim, eu sei que não posso evitar que você sofra, eu não posso impedir que sinta medos, inseguranças e viva eventuais dramas, não posso avocar todos os seus problemas e inquietações. Mas eu posso te garantir que em todo e qualquer momento, eu estarei ao seu lado.
Você vai velejar seu caminho, viver suas tempestades e aproveitar a brisa leve da maresia de um dia ensolarado, mas eu serei sempre seu cais, estarei sempre aqui, sendo o lugar seguro para você atracar, pra cuidar do seu casco, fazer eventuais remendos que eu conseguir e te ver seguindo seu caminho de novo e de novo e de novo.
Dizem que a gente cria filho pro mundo, eu prefiro dizer que eu te crio para o universo inteiro de possibilidades, pois, minha menina, você pode ser o que quiser!
Ora, na contrapartida, é você que cria em mim um desejo constante de ser o meu melhor, de mostrar pra você como podemos ser felizes com a simplicidade, mesmo em meio a ondas de um mar agitado.
Mal você sabe, mas é você o leme da minha vida, traçando juntas sempre a direção seguida na nossa evolução constante.

Por: Priscila Menino


Créditos da imagem: Unsplash

O PERTINAZ CAMINHO

Por: Diogo Verri Garcia

O PERTINAZ CAMINHO

O caminho que não tem passos,
Onde é formidável o caminho.
Dos pés gelados, caudalosos, se fosse tentado o caminhar.
É caminho em que tem vento e que tem pássaros
Que levantam voo ao nos aproximarmos a passar.

O caminho que tem folhas e não tem terra,
Que balança quem passa, mas se balança sozinho o caminho.
É caminho que, furioso, nos amedronta as pernas.
Mas, amiudado, tão mais ao seu jeito zela,
Sem nunca padecer em desalinho.

É Caminho bom para quem passa,
e para quem olha.
E até para quem faz graça, relutante,
Por medo de se ver passar.

É caminho do qual jamais me canso,
Pelo qual veloz avanço, em descanso.
Segue em balanço,
O mar.

(Diogo Verri Garcia, Rio 13 de janeiro de 2020)


Créditos da imagem: Unsplash

Por: Raquel Alves Tobias

Quem é você, saudade?
Chegada, dúvida ou partida?
Mordida de fruta doce
Saliva de sede ativa
Veneno inflamável
Abraço apertado
Beco sem saída?

Quem é você, vontade?
Insônia da despedida
Temor da felicidade
Tremor de penicilina
Mão que acaricia
Entre o pêlo que eriça?

Quem é você, desejo?
Carente de si
Doa a quem doar-se primeiro
Que seja casa enquanto beijo
e na paz do meu travesseiro, more.

Raquel Alves Tobias

Por: Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Freepik

Que sonho é esse?

Por: Henrique Mirabeau

Que sonho é esse?

Que sonho é esse?
De ouvir cavalos a relinchar, e vê-los em morros verdes a galopar, com seus cascos fortes na terra a pisar , anunciando que a liberdade ali está.

Que sonho é esse?
De ver vacas leiteiras em campos verdes a pastar e de longe no eco do Vale, ouvir suas crias a berrar.

Que sonho é esse?
De ver as quaresmeiras e outras lindas árvores e flores a brotar , com lindos pássaros no céu a voar, com as maritacas a cantar.

Que sonho é esse?
Parece-me uma verdadeira orquestra, uma viagem na natureza, de ver e ouvir toda essa beleza, que me traz uma leveza na alma e uma vontade de aqui ficar , com um desejo que esse sonho jamais vai acabar.

Henrique Mirabeau (Fazenda Vale das Palmeiras 18/03/22)


Créditos da imagem: Unsplash

Amor e seus sabores excêntricos

Por: Priscila Menino

Amor e seus sabores excêntricos

Acho que posso me atrever a dizer que nosso amor é como aquelas improváveis combinações de comidas excêntricas, tipo misturar macarrão e feijão.
Quem está de fora, acha nojento e improvável a mistura.
Não assumem, mas tem um vontade enrustida de experimentar uma combinação ousada assim.
Quem já experimentou e não gostou, criticará o nosso gosto peculiar e sairá por aí dizendo que não vale a pena nem tentar.
Mas, enquanto isso, nós dois estamos aqui com nossa improvável aventura culinária que deu certo e se encaixou perfeitamente no nosso paladar. Nos apetece.
A gente, em primeira impressão, estaria encaixados em mundos opostos, com valores calóricos distintos, formatos, modelos, cores e tamanhos anatomicamente antagônicos. Mas quando a mistura aconteceu, ali surgia uma combinação tão nossa, tão atípica, tão cheia de sabores, que não há mais como se apartar.
Há quem olhe até hoje e diga que a combinação não tem qualquer lógica ou chance de vingar, pobres tolinhos, mal sabem eles como a gente é feliz com nossa combinação descombinada e saborosa. Tomara que tenham sorte de encontrar o sabor que agrega amor original no tempero deles, pois, afirmo, vale a pena!

Por: Priscila Menino


Créditos da imagem: Unsplash