Pinceladas do Tempo

Por: Bianca Latini

Pinceladas do Tempo

Tem tempo de parar
Tempo de começar a andar
Tempo de ser espera e enaltecer paciência
Tem tempo que é para apenas tomar ciência
Tempo de ouvir e os lábios costurar
Tempo que é só para brincar
Tempo de deixar o tempo rolar
Tempo de deixar a cachoeira secar e depois aproveitar a cheia, a corredeira, a rolagem de barreira
Tem tempo que é tempo de pedir tempo
Tempo de doar tempo
Tempo de ser remédio, tempo de ser veneno para erva daninha
Tempo de ficar consigo sozinha
Tempo de bordar
Tempo de remendar
Tempo de costurar
E tempo de libertar todas as costuras do bastidor
Tempo de fazer furor e festejar todas as primaveras
Tempo de fazer lampejo
Tempo de brindar eras
Tem tempo que é tempo de cochilo
De olhar pro vazio
E depois sair preenchendo os espaços penetráveis
Deixando intacto os intocáveis
Tem tempo de adentrar em novos horizontes
E construir novas pontes
Tempo de fazer travessias e esgotar seu vigor físico e maestria mental
Tempo de enfrentar o vendaval
Tempo de não ter medo
E tempo de se render as vulnerabilidades
Tempo de acarinhar todas as saudades
Tempo de espantar as tristezas
E tempo de acolher as cinzentas incertezas
Nelas fazendo morada, esperando as obscuridades fazerem clarão
Tempo de tecer tempo
Ou esquecer dele
Por que não?!

Por Bia Latini


Crédito da imagem: pixabay

Por: Victor Cabral

Várias voltas à meia luz, sua boca rosa
Os ruídos cinzas, suas unhas em minhas costas
A fumaça leve e a força da (nossa) gravidade
Registros de baixa fidelidade

Trinta e três por minuto, suada revolução
Entrego a ti o controle e a direção
Toca-me as notas que mais te satisfaz
Cantemos as belas odes, capaz

De você me deixar sem fôlego
Perna fracas, andar tropego
Deixa-me deitar um pouco mais

Domina-me em vestes de vinil
Em torpor quase febril
Quero teus sons um pouco mais


Créditos da imagem: próprio autor (acervo pessoal)

Amor e seus sabores excêntricos

Por: Priscila Menino

Amor e seus sabores excêntricos

Acho que posso me atrever a dizer que nosso amor é como aquelas improváveis combinações de comidas excêntricas, tipo misturar macarrão e feijão.
Quem está de fora, acha nojento e improvável a mistura.
Não assumem, mas tem um vontade enrustida de experimentar uma combinação ousada assim.
Quem já experimentou e não gostou, criticará o nosso gosto peculiar e sairá por aí dizendo que não vale a pena nem tentar.
Mas, enquanto isso, nós dois estamos aqui com nossa improvável aventura culinária que deu certo e se encaixou perfeitamente no nosso paladar. Nos apetece.
A gente, em primeira impressão, estaria encaixados em mundos opostos, com valores calóricos distintos, formatos, modelos, cores e tamanhos anatomicamente antagônicos. Mas quando a mistura aconteceu, ali surgia uma combinação tão nossa, tão atípica, tão cheia de sabores, que não há mais como se apartar.
Há quem olhe até hoje e diga que a combinação não tem qualquer lógica ou chance de vingar, pobres tolinhos, mal sabem eles como a gente é feliz com nossa combinação descombinada e saborosa. Tomara que tenham sorte de encontrar o sabor que agrega amor original no tempero deles, pois, afirmo, vale a pena!


Créditos da imagem: pixabay

Silêncio

Por: Bianca Latini

Silêncio

Essa mordaça da paz
Que faz calar a palavra contumaz
Aquela que sozinha nunca satisfaz
E é antecedida por julgamento, pensamento,
Insensatez
Aquela que, nos seus atropelos,
Estilhaça, destrói, corrói, divide, separa, gera hiato, abismo, penhasco
O silêncio vem embalar, ninar, cantigar
No deserto da calmaria
No horizonte do preenchimento
Sentimento de pertencer…
ao quieto, ao nada, ao vazio
Solitude, magnitude, completude
Você e você mesmo
Sem som
Porque este não é preciso
O silêncio fala com sabedoria
Sem dialeto
Sem secreto
Apenas nos faz sentir
Que a ausência de fonema
É a presença de tudo.


Créditos da imagem: Pixabay

Por: Raquel Alves Tobias

Passe, passe e impasse.
Passo o passo em impasse.
De passo em passo,
Passadamente
Passa
Mas apressa-se
A posse do passe.

Que pausa
Em pose.
Um close.
O reflexo
E o adeus.

Passa o passo em passe.
Que, então, passarás
Em paz.


Créditos da imagem: pixabay

Por: Victor Cabral

Faz semanas que eu não te vejo
Que não sento um pouco, paro e te escrevo
Te juro, não é falta de vontade nem desejo
Só precisava de um tempo pra não te ver a cada mirada no espelho

Como um corte que coça ao se fechar
Deixa a cicatriz como lembrança
Mas a lâmina ainda dentro do peito
E o coração dançando colado na ponta da lança

Não há sossego que dure nem tempo que cure
Essa vontade de ter você
A aceitação traz entendimento

Não já motivo que mude
Nem vela ou reza que ajude
Já não carrego nenhum arrependimento

Meditação Ativa (Experiência vivida na “Dança Intuitiva da Alma”, com teoria inspirada nos 5 Ritmos de Gabrielle Roth)

Por: Bianca Latini

Meditação Ativa

É tanto ar na minha boca
Tanto vazio nos meus espaços
Tanta emoção
Tantas perguntas
A dança nos faz evaporar
A liberdade nos faz pertencer
A ausência de forma
De certo, de errado, de passo, de ritmo, de precisão
A vagarosidade e a rapidez que se misturam
Uma fenda no espaço
A infinitude e a desfragmentariedade
A loucura recobrando a sanidade
O suor devolvendo a vida
O calor trazendo idas
O cabelo que quer se descabelar
O pescoço que quer virar molusco
O pulso que quer viver robusto
A entrega à maluquice, à brincadeira, ao divertimento, ao derretimento…
A ausência de qualquer freio
O lugar onde não se quer esteio
Só se quer fluir
Ruir
Despir
Expurgar possibilidades
Vestir-se de insanidade do bem
Rodopiar nesse vórtice de energia singular
Onde se pratica terapia ativa
Através de nossa nave espacial mais lunática, mais fantástica, mais espetacular:
Nosso corpo humano
Feito de ossos, órgãos, tecidos, músculos e crepúsculos
Na mais perfeita engrenagem


Créditos da imagem: pixabay

Fogueiras contemporâneas

Por: Priscila Menino

Fogueiras contemporâneas

Alguns anos e anos atrás, certamente eu teria minha fogueira.
Fogueira essa que criaram para me queimar por querer ser fiel a minha autenticidade.
Costumo pensar que ser da galera das bruxinhas sempre foi mais divertido.
Sempre pude dançar na chuva.
Pude cantar a plenos pulmões aquela canção favorita.
Pude saltar.
Pude falar palavras de baixo calão.
Pude me permitir.
Não eram os justíssimos espartilhos que prendiam aquelas mulheres, era a crítica e julgamento da sociedade.
Hoje não temos espartilhos, mas há quem queira ainda nos colocar mordaças do moralismo exacerbado.
Não temos mais fogueiras para matar as supostas bruxas, mas temos dedos em riste para pré julgamentos e ofensas que podem transformar ânimos e esperanças em cinzas.
Mas, sejamos realistas: não conseguiram nos queimar há anos atrás e não será agora que devemos ceder. Eles não podem! Não dê esse poder a eles!
Continuemos gargalhando alto, andando livremente por ai, deixando a leveza da nossa essência nos guiar.
Confiemos! Se continuamos a causar incômodo, é sinal de que estamos no caminho certo.
Continuemos livres.
E se houver fogueiras, que o fogo seja de tanta emoção e amor pela vida, que explodem em nossos corações.


Crédito da imagem: pixabay

Dois do Onze

Por: Diogo Verri Garcia

Dois do Onze

Há mais um dia frio.
Não há tantos sinos que dobrem,
Ou candelabros que lotem
a exaltar mais chamas acesas.
Postas estão algumas velas, tateando a mesa,
Em um instante de paz, de pesar.
Com preces todas
dispostas no cruzeiro, no altar,
Em respeito de quem deixou saudade e foi,
pois precisou partir.

É um dia sem chuva,
Cujo sol não tem brilho,
não há intensidade no vento, nem mormaço.
Só alguns sopros gélidos de ares
Inoportunos,
Que não medem o hoje desaconselhável
acalorado abraço,
Que nos pede a data
E esse dia mais frio.

Peça-se sossego a todos os amores
que em meu peito morrem.
E a todas as almas que podem,
Que fiquem em paz.
Que esperem só preces,
Não lamentos de luto,
Nem prantos já profundos e largos
Dos abraços outroras em exulto…
Deixem a saudade,
de modo que não a maltrate a mais,
Em finados.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 02/11/2020)


Créditos da imagem: pixabay

Impaciência

Por: Bianca Latini

Impaciência

Hoje queria que todas as situações chatas, inconvenientes e que me deixam impacientes
fossem um vidro bem fininho e espelhado
para eu quebrar com um martelo bem pesado
e vê-lo estilhaçar-se e despedaçar-se em pedacinhos bem minúsculos
Impossíveis de serem colados
Iria pegar uma pá de lixo bem grande
Catar tudo, jogar no vaso sanitário e dar descarga!
Para ter certeza de que não iriam retornar
Sabendo que, naquela enxurrada, seriam levados
Queria soprar bem forte
e ver sair da minha boca um vendaval de insatisfações, inquietações e acomodações
Deixaria fazer um tornado
que se movimentasse para bem longe
lá no meio do oceano
Colidindo com a tempestade poderosa e devastadora
Não sobraria nem um lamento dentro do meu paladar
Nem um amargor nas minhas cordas vocais
Nenhum espinho nas minhas palavras cuspidas
Nenhuma irritação na minha deglutição engasgada
Faria essa catarse catastrófica e arrebatadora
Deixaria chover tempestade
E relampejar trovões
Invocaria que o céu ficasse preto e bem escuro
Para ouvir lampejo fazer barulho
E, num estrondo do tamanho do mundo,
ver minha irritação explodir
Numa fração de segundo.


Créditos da imagem: pixabay