Leitor Também Escreve: Jaqueline Dergan

Coração Mar

Meu querido coração
às vezes manso
tempestuoso
às vezes ruidoso
Brinca de ser mar
De infinitas cores
nuances
Mergulha em si mesmo e se bate como ondas
Em minhas angústias faz-se pequeno
Como se o mar se resumisse a pingo
Espremido
Aprisionado
Mas ao alvorecer
gigante
Infinito
Renascido
A luz vem e o mar que antes era pingo
Volta a seu lugar de imensidão
De vida
De libertação
Ahh coração
Como é bom te conteplar
Perceber que és forte
Vivo
Perceber que és mar.

Por: Jaqueline Dergan


Créditos da imagem: Pixabay

Aguar-se: Banho

Por: Bianca Latini

Aguar-se: Banho

Poderia ser apenas um banho
Simplesmente água
Mas é lavagem de fora que lava dentro
Leva embora a irritação, o cansaço, o dia pesado
Deixa a poeira dissipar pelos cabelos do jato do chuveiro
Cabelo transparente
É água corrente
Me deixo, me largo
É água quente
Pode ser inverno ou verão
Não tomo ducha fria, de cara, não!
Pode até ser… num segundo momento…
Mas, de primeira, só se eu estiver numa tremenda suadeira
Me lavo, me derreto
Às vezes canto, noutras apenas deixo a fumaça embaçar os vidros, o espelho, meus pensamentos…
É um relaxamento, permissão,
Autorização para se esvair, se derreter e não se conter
Deixar descer pelo ralo o dia perdido com obrigações, insatisfações, lamentos…
Saio leve, com a pressão mais baixa, o peito mais vazio, o cabelo mais molhado e o corpo preparado para dormir embalado

Banho…
Sorte a minha poder tê-lo todo santo dia!

Por Bianca Latini
Em 05/04/21


Créditos da imagem: Pinterest

Numerótica

Por: Mauricio Luz

Numerótica

Quatro mãos encontradas
Duas mentes perdidas
Dois olhares cruzados
Uma certeza nascida

Duas bocas,
Um beijo
Duas línguas,
Um desejo

Uma provocação lançada
Duas mordidas trocadas
Três gemidos fugidos
Quatro lambidas abusadas

Dois sorrisos
Uma cumplicidade
Dois corpos
Uma necessidade

Mil sentidos aguçados
Um sentido perseguido
Uma reta para o infinito
Infinitas curvas no caminho

Dois corações,
Uma vontade
Dois amantes
Uma unidade

Uma sede que cresce
Um incêndio pode saciar
Dez unhas que se arranham
Dois corpos a se queimar

Uma dança
Mil movimentos
Uma explosão
Dois eternos momentos

Vinte dedos entrelaçados
Duas respirações incontidas
Quatro olhos cerrados
Uma paixão abrandecida

Duas entregas
Cem calores
Duas pequenas mortes
Zero pudores

No final das contas
Um Teorema a solucionar
Uma divisão de corpos
Dois corações a somar
Duas subtrações das mentes
Fazem o tesão multiplicar

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Os pequenos grandes detalhes da rotina

Por: Priscila Menino

Os pequenos grandes detalhes da rotina

Deitei para dormir.
O cansaço era evidente pelas olheiras acentuadas no rosto. Você deita ao meu lado. Percebe pelo meu humor que estou com fome, mas sem coragem pra me levantar.
Levanta. Faz a minha típica farofa com ovos favorita.
Me traz na cama.
Me sacio de comida e de cuidado.
Quanto cuidado.
Quanto amor.
Você deita também cansado. Reclama da dor no ombro esquerdo.
Percebo que não se sente bem, mas não quer falar.
Levanto.
Vou a caixa de medicamentos.
Passo aquele gel fedido e ardido em seu ombro. O alívio é imediato.
Te alivio da dor e te sacio de amor.
Quanto amor.
É sobre esses pequenos momentos.
É sobre esses grandes momentos.
É sobre a parceria.
É sobre a intimidade da ausência de palavras, nas frases trocadas nos olhares.
É sobre a simplicidade de um dia normal, é sobre a grandiosidade de um dia normal.
Tão cheio de cuidados, afetos e gestos.
Dormimos.
Meu pé gelado encontra o seu para se esquentar.
Você deixa soltar um leve sorriso por constatar minha mania irritante.
Adormecemos.
E, assim, amanhã tem mais amor.
E assim será pela vida inteira e mais um pouco.

Por: Priscila Menino


Créditos da imagem: Pexels

Poema ao Verbo Namorar

Por: Diogo Verri Garcia

Poema ao Verbo Namorar

Namoro aquela cuja alma me agrada,
Cuja paixão me afaga
E me faz, em manter presença, teimar.
De razão tão franca,
A ponto de ter a doçura mais fácil e sincera;
É a personificação da insistência severa,
De mesmo, às minhas tolices, amar.

Namoro – aquela que me acode e que tanto valoro –
Quase uma parte de mim mesmo,
Que se vê tão completa em outra pessoa.
É a certeza de que tudo passa,
Mas nem sequer o percebo;
Se me quedo ausente, é abalado, tão assim, meu sossego;
Mas, perto, as desimportâncias se aquietam,
Para longe revoam.

Namore, se entrelace, valore,
Para que o tempo não roube de ti a saudade daquele momento;
E dele, tu nunca exijas piedade, ao te faltar – feito ar –
O aprazível e aprazável alento,
Da vontade que te açode a alma,
Por não ter o sincero enamorar.
É o amor, que desejo, não te haverá de faltar.
Namorar edifica, solidifica,
É cimento.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 09/06/2021)


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Clássicos da Literatura: O. Henry

O Presente dos Magos

“Um dólar e oitenta e sete centavos. Isso era tudo. E sessenta centavos estavam em moedinhas de um centavo. Moedinhas economizadas, uma ou duas por vez, pechinchando com o dono do armazém ou com o verdureiro e o açougueiro, até que o homem ficava com as bochechas vermelhas diante daquela imputação silenciosa de avareza que uma negociação tão acirrada deixava implícita. Della contou três vezes. Um dólar e oitenta e sete centavos. E no dia seguinte era Natal.
Claramente não havia nada a se fazer a não ser desabar no pequeno e surrado sofá e chorar. E foi o que Della fez. O que nos leva a fazer a reflexão moral de que a vida é feita de soluços, fungadas e sorrisos, com o predomínio das fungadas.
Enquanto a dona da casa vai aos poucos passando do primeiro para o segundo estágio, dê uma olhada na casa. Um apartamento mobiliado de 8 dólares por semana. Não que para descrevê-lo fosse preciso mendigar palavras, mas decerto parecia à procura do ‘esquadrão da mendicância’.
[…]
Della terminou seu choro e deu um retoque nas faces com sua almofadinha de pó de arroz. Foi até a janela e olhou com tédio para um gato cinza, andando sobre uma cerca cinza, em um quintal de fundos cinza. No dia seguinte seria Natal, e ela tinha apenas um dólar e oitenta e sete centavos para um presente para Jim. Vinha há meses economizando cada centavo, e o resultado era esse. Vinte dólares por semana não duram muito. As despesas haviam sido maiores do que ela calculara.
[…]
Jim ficou parado junto à porta, tão imóvel quanto um cão setter sentindo o cheiro da caça. Tinha os olhos fixos em Della, e havia neles uma expressão que ela não conseguiu decifrar, e isso a deixou aterrorizada. Não era raiva, nem surpresa, nem desaprovação, nem horror, nenhum dos sentimentos para os quais ela se preparara. Ele apenas olhava fixo para ela com aquela expressão peculiar […]”.

O. Henry (pseudônimo do autor norte-americano William Sydney Porter)


Créditos da imagem: Unsplash

Caleidoscópio

Por: Mauricio Luz

Caleidoscópio

Pergunto a uma vidente
Que surgiu em meu caminho:
“O que acontecerá a mim?
Qual será o meu destino?”

Negros olhos me encaram
Lendo o que estava escondido
E sua voz suave e firme
Contou-me o que estava escrito

“Olho para o passado
E vejo
Em um mosaico de lembranças,
Coloridos fragmentos.

Olho para o futuro
E vejo
Em um mosaico de esperanças,
Os mesmos coloridos fragmentos.

Pois para saber o futuro de alguém
Basta ler o seu passado
Suas ações o trouxeram até o momento
E elas que a levarão a seu legado!
Se nada for mudado,
Alcançará o lugar para o qual está indo,
Ainda que indesejado.”

Agradecido fiquei
Inebriado por tanta sabedoria
Pois o destino de todos é um só
A diferença é como se caminha

E atento à rota traçada
Desperto às belezas da jornada
Certamente será bela a minha chegada
Ao mistério do caleidoscópio da existência

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Marias, Carolinas, Marinetes e Súvilas

Por: Juliana Latini

Marias, Carolinas, Marinetes e Súvilas

Sem querer romantizar e nem estigmatizar a favela.

Lá…morei com Marias, Carolinas, Marinetes e Súvilas.

Lá…a pobreza é um rótulo simplista para classificá-la.

Ao adentrar e vivenciar o seu cotidiano, conhecendo os nomes, as histórias e suas formas de expressão, fui construindo o sentimento de pertencimento à comunidade.

Lembro-me das alegrias, tristezas, desigualdades e diversidades. Da solidariedade e do apadrinhamento.

Lembro-me de encontros na praça, crianças correndo, barulho de chinelo e o abraço, toda vez que eu começava a subir a ladeira.

Muita garra de viver diante de limitações, privações e estigmas.

Por muito tempo, eu rejeitei o rótulo de ser favelada.

Como os preconceitos são duros de se quebrar e como é difícil removê-los por completo…

Hoje, tenho muito orgulho de ter sido acolhida nessa rede de apoio,

lugar de muitas belezas, onde as riquezas não se restringem aos bens materiais.

Juliana Lopes Latini da Silva 


Créditos da imagem: Unsplash

Por: Raquel Alves Tobias

Um ruído silencioso envolve a sala. O controle espera sobre a mesa pela mão que irá mudar de canal.
As histórias de hoje do velho BUK lembram as feiras da semana, uma repetição cíclica desinteressante. O sol brilha na almofada da poltrona em forma de ondas, desenhando a cobertura metálica da garagem. Lentamente o dourado ergue-se com o pôr do sol. Há gritos vindos da TV do outro lado.
Na pele corre uma minúscula formiga foragida das entranhas infantis e doces do sofá. Soltou-se da trama tecidual densa onde alimentava-se de migalhas. Seu caminhar exploratório acabou findando em sua morte. Brava criatura.
Dois quadros geminados de halo dourado expõem labirintos vagos.
E em meio a toda descrição, emerge o indiscreto pensamento que me leva até você.
Assim como todos os caminhos.
Assim como toda a espera.
E entre todos os por ques oscilam o sono e a queimação.
Contradições ácidas.
Seria o amor uma dor epigástrica?
Uma úlcera nascida de corrosão estática?
De quem procura e nunca acha?
De quem dorme para que não arda?
Pois queimar leva à alma,
E a conexão, à frustração.
Então, levanta fumaça!
Coração em combustão…

Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Pixabay

Leitor Também Escreve: Gabriela Vieira

Este não é o fim!

Comece um novo capítulo
Vire a página quando precisar
Volte para reler aquilo que te fez bem.

Deixe as páginas passarem
Boas ou ruins
Elas fizeram você chegar até aqui.

Transforme as páginas
Uma de cada vez
E deixe elas te transformarem.

Há muitas páginas em branco por aí
Só esperando por você
Para ganharem cor.

Gabriela Vieira


Créditos da imagem: Unsplash