Frestas

Por: Bianca Latini

Frestas

Cria espaço
Deixa a luz entrar
Desengaveta
Desentope
Desobstrui
Faz túnel
Local de passagem
Deixa dissolver a miragem
Permite escoar
Libera
Que volte o que tiver de voltar

Apenas…

Não se apegue ao conceito
À muralha
À argamassa
À carcaça
Ao invólucro pré-concebido
Deixa vir a libido
Por tudo que é do jeito que é
Como chega
Como parte
Como renasce
Como recria, reconta, desmistifica

Apenas…

Deixa a luz entrar
Permite ventilar
Refresca
Desaquece, sem perder calor
Fica com o Amor
Sem querê-lo numa gaiola
Rebola, desembola e deixa o novelo correr
O quanto quiser
Até cansar

Apenas…

Por Bianca Latini
Em 30/05/21


Créditos da imagem: Pinterest

Pequeno detalhe pequeno

Por: Diogo Verri Garcia

Pequeno detalhe pequeno

O que é o gostar de alguém,
senão um pequeno detalhe pequeno.
Que é detalhe, posto que embaraça
e resseca a boca, de súbito,
mesmo quando a dose é pouca,
age feito veneno; é sentimento.
Tem jeito pequeno…
por não saber sequer descrever
o porquê de tender,
do começar a gostar.

Sei que há uma certa redundância.
Ou arrogância a definir o amor, em detalhes.
A atrofia que à gramática traz
é a mesma que o amor importa:
não tem razão,
mas soa bem e faz sentido.
Chegamos até
a caçoar do que nos ouvem
nossos próprios ouvidos,
Um dentre tantos entretidos
Em nosso corpo ansioso,
ao aguardar o soar na porta.

Que é o amor, senão a não explicação,
o excesso de catarse.
a emulsão de uma catálise
que nos faz recorrer à análise para, óbvia, explicar
Que é só um pequeno detalhe pequeno.

É o olhar de um jeito ou o defeito,
A forma pela qual nos põe desmedidos.
O que nos faz mais desprecavidos
E nos torna tão dispostos;
bem expostos, como se a razão ficasse em coma.

É o sintoma…
que se encontra em nós,
De modo que, em um querer inconsciente,
(não) precisamos desvendar
a razão de amar,
pois pouco importa…
Em pormenores, é tudo só
Um pequeno detalhe pequeno.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 21/01/2021)


Créditos da imagem: Pixabay

A linha tênue entre empenho e abusividade

Por: Priscila Menino

A linha tênue entre empenho e abusividade

Li uma matéria da BBC que contava que uma artista plástica chamada Gillian Genser levou 15 anos pra finalizar uma escultura chamada de “Adão”.
Na obra, ela usava conhas de mexilhões azuis lindas, que julgou ser um material excelente e apropriado para se trabalhar.
Insistentemente, ela sentia dores de cabeça e náuseas, mas ainda assim persistia em finalizar sua obra.
Não podia acreditar que, coincidentemente, a sua doença inexplicavelmente “auto imune” teria iniciado no mesmo período que iniciara a sua obra prima.
Não percebeu que a obra levou anos de vida vital, pois estava a envenenando em decorrência do acúmulo de metais pesados presentes nos insumos que usava na escultura, pois estava muito engajada em finalizar aquele trabalho iniciado.
Refleti então em quantos Adãos há nas nossas vidas sem que percebamos?
Quanto espaço damos para coisas tóxicas que nos deixam levar a vida sem que tomemos coincidência disso?
As vezes a linha entre empenho e abusividade é muito tênue e nos deixa meio perdidos, como se estivéssemos fora de nós mesmos.
Por isso é preciso estarmos atentos a pequenos grandes detalhes, se há algo que tira a nossa paz, não é saudável.
Cuidemos antes que levemos 15 anos para perceber o quanto a vida se esvaiu.
Se precisar, busquemos ajuda, mas, de maneira alguma, de jeito algum, deixe que nada leve a energia vital tão relevante pra viver na plenitude mais elevada.

Por Priscila Menino


Créditos da imagem: Unsplash

Leitor Também Escreve: Daniela Ivo

Inteira

Abracei amigos o mais forte que eu pude
Outros
deixei de abraçar
Chorei muitas vezes
Outras
deixei de me emocionar
Ainda me afeto por lembranças e pelo que
Meus sentidos me despertam
Senti muito
Mais por mim que pelo outro
Desconectei
do que não era parte de mim
Me religuei
ao que sempre foi minha base
Experimentei prazeres diferentes
E me permiti não medir
Mas entendi
o que cabe ou não aqui
Pois encontrei a medida de mim
Aprendi a ficar
quando acho encanto
E a me afastar
quando há desencontro
Sou toda
Enfim

Daniela Ivo


Créditos da imagem: Unsplash

Rasgando-me em verdades

Por: Bianca Latini

Rasgando-me em verdades

Sei que posso ir mais fundo
Bem mais imersa que o raso
Bem mais comprometida que o acaso
Bem mais latente
Menos adjacente
Não encaixar-me em sobressalente
Fincada com dois pés, duas mãos e o corpo inteiro
De alma flamejante
De peito escancarado
Talentos expostos, desafiantes, sem medo de serem julgados
Sem pudor de os verem sobrepujados
Métricas, esmeros….que se danem!
Eu quero ser feliz, livre, alada, enlouquecida, enluarada
Tarada pela vida e por ser eu mesma
Sem eira, nem beira
Perdendo todas as estribeiras
Perdendo o juízo, o senso, soltando o freio
Sendo ridícula à vontade
E dê-me licença para ser o que me der na telha, ok?!
Eu vou é matar a saudade de vestir a pele da autenticidade.

Por Bianca Latini
Em 31/12/2020


Créditos da imagem: Google Imagens – Inside São Paulo – Escultura de Ivaldi Granato)

Poesia da Vida

Por: Mauricio Luz

Poesia da Vida

Como a fonte de água pura
Que rompe a aridez do deserto
Brota em mim a poesia
Às vezes em pequenas gotas
Às vezes em torrentes incontroláveis
Sempre saciando a minha sede de profundidade
Perdido que fico nas areias do tempo
Atento ao que distrai e não ao que realmente importa
Versos encontrados em pensamentos perdidos
Fugazes momentos que se tornam eternos
Ao ter sua beleza sentida e não compreendida
A poesia me mostra em versos desordenados
O que não pode ser visto por estar
Com os olhos abertos demais
Descreve o que está além das palavras,
Crônicas sem tempo que transmutam
O fel da rotina sem sentido
No mel que adoça a alegria
De consciência da poesia da vida

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Abacateiro

Por: Juliana Latini

Abacateiro

Casei. Mudei. Ganhei um jardim.
Plantamos a primeira árvore.
Um abacateiro.
O solo era pobre e duro.
O abacateiro, frágil.
Ele foi crescendo com dificuldade.
Superando cada vendaval.
Tinha dias que ele balançava tanto que eu até ficava preocupada.
Mas ele sempre resistia.
Um dia, enquanto chorava – com dores de crescimento – pensei:
Seja forte como o abacateiro.
No dia seguinte, ao acordar fui ao quintal, como de costume.
Para minha surpresa, o abacateiro tinha tombado. Foi neste momento que compreendi sem explicações a relação entre nós dois: eu e o abacateiro.
Colocamos uma estaca nele. Aos poucos, superou e se firmou novamente.
Hoje, olho para o abacateiro. De pé. Com folhas secas que caem, caem…
Enquanto varro o quintal, sinto-me enxugando suas lágrimas.
Não sei se chegou o seu fim – sei que está seca.
Ouvi da vizinha que a árvore está morta.
Eu ainda aguardo reação, enquanto varro, varro..
Sei que já deu frutos. Duas vezes!
Olho para ela com a esperança de ver um sinal de vida, um brotinho verde, um respiro.
Mas ainda nada.
Não sei como dizer para ela, você é importante. Fique mais comigo.
Do outro lado, penso – Se ela está assim, como estou? O que passas comigo?
Penso e falo para mim mesma: Você é importante – esteja presente aqui comigo. Ainda que doa, preciso de você aqui.

Juliana Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Goteira

Por: Raquel Alves Tobias

Goteira

Pára e escuta
A gota e o som
Membrana que rompe
A gota e o som
Respinga, se espalha
A gota e o som
Atinge e escorre
A gota e o som
Respira e acalma
A gota e o som
O vento que toca
A gota e o som
O frio na carne
A gota e o som
O toque na alma
A gota e o som
A pressa da mente
A gota e o som
O filme da vida
A gota e o som
Encobre o vazio
A gota e o som
Descobre o amor
A gota e o som
E tudo se molha
A gota e o som
Se enche, transborda
A gota e o som
E logo se sabe
Sua velocidade
Você tem o dom
Da onda de vida
Da gota e o som

Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Pixabay

Leitor Também Escreve: Jaqueline Dergan

[ ] Tem situações que sugam nossas energias. Nos sentimos impotentes diante de certas coisas, como o sofrimento de quem amamos. Mas o que fazer quando a situação de sofrimento do ente amado se arrasta de tal forma que nos sentimos sem roteiro, repertório, rumo que faça aquela pessoa conseguir sair do lugar? E o conflito? O conflito entre a empatia e a culpa. Empatia por sentirmos aquela dor, por querer salvarmos aquela pessoa, e a culpa. Culpa por querer fugir. Por entrar num lugar de evitação. Porque dói. Dói demais ver tanto sofrimento. Aí vem o embate interno: estou sendo egoísta ou estou dando a mim mesmo o espaço para resguardar-me? Sentimo-nos numa encruzilhada de emoções. No entanto, começa a alvorecer em minha mente a reflexão de que certos processos, embora queiramos ajudar, não são nossos, são do outro. Que ainda que tenhamos o impulso de encarnar o super-herói estendendo a mão e tirando o ser em apuros da situação em questão, nem sempre isso será possível. Pois existem momentos em que precisamos encarar a nossa dor, aceitá-la, assumi-la, para passarmos por nosso processo de metamorfose. E dói. Dói muito. Mas nascer dói, assim como todo momento de reconstrução, de ruptura, de recomeço. De se olhar no espelho. De tomar coragem. De pedir perdão. De perdoar. Não existe redenção sem dor. Então, há dores que são nossas, não se pode pegar atalho, acelerar o processo, pois quanto mais tentamos, mais o retardamos. Mais o caminho se torna curvo, distante, inóspito. Demoramos a entender que muitas vezes o remédio é a dor, por mais estranho que possa ser isso. Afinal, é através dela que podemos nos superar. Evoluir. Não é gostoso, mas é necessário. Isso faz aceitar o fato de que nem sempre conseguirei ser aquela mão estendida que poderá emergir meu ser amado de suas angústias. Pois alguns processos são nossos, só nós podemos lidar com eles. Isso nos dá força para aceitar que a vida é como o mar, que oscila entre calmaria e tempestade. Mas passa. Tudo passa.

Por: Jaqueline Dergan


Créditos da imagem: Pexels

Desce do salto, volta pra Terra!

Por: Bianca Latini

Desce do salto, volta pra Terra!

Fotos, cliques, recortes de felicidade
Pura fachada
Bossa boa para inglês ver
E pros macacos de auditório que a acompanham no big brother da vida real
No seu caso, de real não tem mais nada!
Desce do salto, do pedestal, desse conto de fadas
Tira a roupa de cinderela
Dá uma folga pros figurantes e pro dublê
Esquece esse lance de cachê
Veste seu chinelo, ou melhor: anda descalça
Come teu feijão com arroz, misturado com banana nanica
Para de querer mostrar gigantismos, fazer pompa, até ali na esquina
Tira essa pele falsa de maquiagem,
os cabelos que você comprou
E, principalmente, esse sorriso tão branco que você fabricou
Para! Para tudo!
Para de clicar e vive!
Para de mostrar e sente!
Para de parecer e seja!
Para de querer chegar à lua, quando você nem pisa no chão e não se nutre do que a mãe Terra tem a lhe oferecer
Para! Joga a câmera no chão!
Segue na contramão da boiada, dessa gente que encena e decora texto
Sempre com um script na mão, um release, um roteiro
Vista-se apenas de si mesma e anda na fé…
Que ela não costuma faiá!

Por Bianca Latini
Em 01/01/21


Créditos da imagem: Pinterest