Leveza

Por: Juliana Latini

Leveza

Cargas alheias, decidi tirar dos meus ombros.

Vi que me apegava a elas para me distrair das minhas.
Olhei para dentro de mim e não consegui me enxergar claramente.
Decidi encarar-me e iniciei o trabalho de limpeza e organização de tudo que me fazia respeito.

O que eu buscava?
Na primeira autorreflexão, veio-me uma resposta: Busco a mim mesma.
No decorrer do processo, outra resposta saltou-me: leveza.

Olhar com leveza para tudo que precisava carregar nessa vida.
Aprendendo a eliminar o que já passou, a despressurizar a alma, a descarregar a mente, a desobstruir o coração.
Aprender a viver de forma leve… descansar, desfrutar, apaziguar..
Olhando para frente, para o alto e para dentro!

Sabe o que eu mais aprendi nessa faxina interior?
Que quando a gente entende o sentido, tudo fica mais leve, mais harmonioso.
A gratidão começa a brotar onde outrora estava árido, ríspido.
E o melhor: a grandeza da vida se manifesta na simplicidade.
Despertar para a natureza, para as suas belezas e para a sintonia dela é despertar para o que habita dentro de mim. Isso mesmo! Descobri um jardim em meu interior. Onde repousa a paz e as borboletas.
Agora, sabe o que eu faço quando estou em silêncio?
Passeio por esse jardim e o contemplo.
Cultivo-o com amor.
Respiro o seu frescor.
Alimento-me dos seus frutos.
Sacio a minha sede em sua fonte.
E observo…
a leveza.

Juliana Latini
28/01/2021


Créditos da imagem: Nappy

Por: Raquel Alves Tobias

Hoje te vi de novo, ali de canto, calada.
Observando e tentando entender.
Ouvindo risadas e piadas.
O peito trêmulo, quebrando a casca
Expondo a parte a se esconder
Entorpecidamente furiosa
Oscilou novamente por entre as partes
De casca e carne, e a quebra que faz doer
E doeu
E doeu…
Mais uma vez, como em muitas
E soltou,
E soltou…
Dessa vez como antes nunca

O vento sopra pela fresta
Talvez sim, talvez não.
Mas amanhã, cheira a verão.

Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Pixabay

Da Bandagem à Liberdade

Por: Bianca Latini

Da Bandagem à Liberdade

(Meu sentir após assistir ao filme “From Stress to Happiness”)

Nos momentos de dor, angústia, aflição, temor…
Que você possa ser água
Adentre as formações rochosas
E, uma vez obstruídas, apenas flua
Se não for possível, contorne-as
Não existe o jeito certo
Não é da maneira como queremos
Apenas feche os olhos, confie e permita-se fluir
Libere o medo, a insegurança, a inquietação, a ansiedade
Você não enxerga
Mas a vida conta com seu terceiro olho
Você não escuta, mas a vida é, antes de tudo silêncio
Permita-se auscultar seu coração, seu guru, anjo da guarda, Universo, Deus, Cosmo, o vacum
Não se inquiete com o caminho que deverá seguir depois de abrir os olhos
Seus pés saberão que rumo trilhar
Seu coração intuirá em que ritmo tocar
Sua mente estará preparada para codificar os sinais
Todas as células do seu corpo valsarão harmonicamente
Apenas não se preocupe
Permaneça de olhos fechados
Sinta
Respire
Confie
Entregue-se
Seja
Flua
Energize-se
Reconstrua seu programa inicial
Descodifique
Intua
Solte
Liberte
E deixe passar
Não tente pegar, reter, se apropriar
Libere a escassez
Ela não te é natural
A falta não existe
Nós a criamos
A abundância é verdade
O amor incondicional é real
A compaixão é essência
O altruísmo é partícula subatômica
O visível aos olhos nos cega
O invisível nos liberta
Apenas sinta
Deixe-se ser guiado pelo não julgamento
Coloque sobre a mesa o pensamento racional, analítico, minucioso
Depois você decide se vai pegá-los de volta ou não
Apenas por este momento flua!
Esvazie-se
Respire
Desobstrua
Acredite
Confie
Deixa ir….

Por Bia Latini
31.01.2021


Créditos da imagem: Pixabay

O Olho do Furacão

Por: Mauricio Luz

Da Série: Prosas Poéticas

O Olho do Furacão

E do nada ela surge.
Poderosa, imparável, imprevista,
A tempestade vem.
Ela me alcança
Encharca meu corpo com seus infinitos dedos molhados,
E zomba de mim.
Ventos rugem ao meu redor,
Ameaçando levar meus pensamentos,
Enquanto a escuridão ameaça tomar a minha luz.
Ela gargalha, trovejando alto,
Ao ver-me buscar meu único refúgio.
E lá eu chego
Sem nunca ter saído.
E lá eu chego,
Sem precisar sair do lugar.
A tempestade cresce.
Meu corpo estremece de frio,
Enquanto o imponderável testa a minha vontade.
Tarde demais, tempestade, tarde demais.
Eu estou no meu lugar.
Inalcançável e inatingível,
Aceito o abraço da tempestade,
Me entrego à sua força e ao seu poder,
E me torno meu centro o seu centro.
Ventos rugem ao meu redor,
Mas meus pensamentos estão serenos.
A chuva fustiga meu corpo,
Mas sinto apenas carícias.
Ergo meu olhar e onde havia escuridão,
Posso vislumbrar estrelas.
A tempestade rosna, impotente.
Ela sente, é tarde demais!
Cheguei ao único lugar do Universo
Onde estou perfeitamente protegido e seguro.
Dentro de mim.
O olho do furacão.


Créditos da imagem: Pixabay

Poesia de guarda

Por: Diogo Verri Garcia

Ao poeta que não publicou,
Poesia não é vinho de guarda: não é latente, é mostra.
Pouco se aguenta tanto tempo assim a ser revista
Quer ser falada; se não lida, morre.
Eis que sempre anseia em ser vista.

Não te segures a ser inseguro com os versos,
Pois ferrugem não cobre as veias de que já se fez poeta.
Não é maratona, e sim calmaria.
Não há, a rigor, propriamente um treino.
Há tanto mais: é só gramática e poesia,
Pois és boêmio e não atleta.

É algo que se transborda a quem tem o dom e o sente.
Só ponha o verso pelas regras, e ele se faz contente.
E te contentarás, também, em algo além de instantes,
e te fará feliz, talvez não igual como antes;
talvez até mais…
Ao fazer teu verso, um sussurro exclamado
A vê-lo por outrens, sê-lo aos montes declamado.
Haverá, em teu quieto e amparado interior argumento,
a exitosa paz.

E até quando é bastante? Perguntarás…
Mas não te preocupes, consente!
Permita-te ao verso, e te encaminhe contente.
Funciona feito a mesma pergunta
Sobre o quando dura uma análise.
A respeito do verso – em que sou poeta -, respondo:
Até quando aprouver felicidade.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 19/01/2021)


Créditos da imagem: Pixabay

A pequena grande libélula

Por: Priscila Menino

A pequena grande libélula

Observei uma pequena libélula voando.
Suas asas reluzentes e iridescentes, pareciam ter todos os tons do arco íris.
Asas tão finas, mas tão potentes que sustentavam a criatura, permitindo-a fazer as suas peripécias no ar.
Mas ela também pousava na água, se banhava na superfície e voltava novamente ao ar com voraz rapidez.
Que graciosidade ela tinha de ir do elemento água e voltar para o elemento ar sem aparentar grandes esforços ou dificuldades.
O vento rugia, mas ela permanecia ali, intocável, resiliente, seguindo o seu caminho.
Observei mais um pouco, percebi seus grandes olhos, que me fitavam com bravura e destemor.
Há crenças que acreditam que a libélula é presságio de momentos de paz, alegria e transformação.
Outras, por outro lado, acreditam que sejam associadas às bruxas.
Que intrigante criaturinha, tão pequena, mas tão cheia de mistérios místicos e controvérsias.
Em um súbito tapa, um senhor a tentou tirar de perto, dizendo: “que inseto impertinente”.
Pensei comigo: “pobre criatura, se observasse atentamente, veria a beleza deste tal inseto e a importância da libélula para a cadeia natural, pois é uma grande predadora das moscas na natureza”.
Acabei julgando aquele senhor com aquele meu pensamento e notei o quanto é necessário deixar a mania de ter opinião sobre tudo.
Aprendi tanta coisa naquele rápido episódio.
Naquele instante tive ainda outra lição, vi que há diversos pontos de vista, e o que, para mim era pura beleza e tradução do criador, para aquele senhor era um importunação.
Mas, acima de tudo, aprendi com aquela adorável criatura a não me importar com a opinião daqueles que não veem a sua beleza e sua essência tão leve e graciosa, ela simplesmente seguiu seu caminho, batendo suas asas levemente e alegremente.
Respirei fundo e agradeci por estar atenta naquele momento, observando a cena como uma tela e aprendendo com a sincronia da vida.

Por Priscila Menino


Créditos da imagem: Pixabay

Um belo dia resolvi mudar…

Por: Bianca Latini

Um belo dia resolvi mudar…

Eu sou muito inteira para me contentar com terços, quintos, décimos…
Eu sou muito inteira para me engasgar com migalhas
Eu sou muito inteira para viver pela metade
E sorrir de canto de boca
Eu sou muito inteira para não viver toda minha potência
E não escrever todas as minhas letras
Eu sou muito inteira para continuar vendo meus sonhos em preto e branco e num futuro distante
Eu sou muito inteira para esperar cair do céu e “o milagre” acontecer
Eu sou muito inteira para não fazer tudo que eu quero e mereço fazer
Eu sou muito inteira para degustar frustrações
Para não viver de presente o presente da vida
Eu sou muito inteira para não pisar de passos firmes no caminho que eu escolhi
Eu sou muito inteira para não sair desse lugar de metades, desbotamentos, morneiras, banhos-marias…

Rita Lee, hoje mesmo, eu resolvi mudar
E fazer tudo que eu nasci para fazer! Vou dar adeus a essa vida vulgar, sabe por quê?
No ar que eu respiro eu sinto o prazer de ser quem eu sou!!!
E meus sonhos já não cabem mais dentro de mim!
Em breve vou lhe telefonar pra lhe dizer que esses sonhos cresceram e de cores se materializaram!

Por Bia Latini


Créditos da imagem: Pexels

Duna: construção do tempo

Por: Bianca Latini

Duna: construção do tempo

Agradeço por mais um ano que se foi
E deixou registrado suas marcas em mim
Não hei de classificar se foi bom ou ruim
Apenas foi
Simples assim!
Pinceladas do tempo, aprendizagens, desafios, alegrias, ensinamentos
Constatações, amadurecimentos, bobagens que voaram com o vento
Inúmeras ondas do mar que foram e vieram
Trouxeram até a areia a bruma
Ora suave, ora borbulhante espuma
Teve horas de brisa, outras de puro tormento
Não hei de qualificar a melhor ou a pior
Apenas foram …
Nelas, me busquei fazer senhora
Agradeço às visões que tive e também às que ficarão para o ano que vem
Afinal, que graça teria tudo se revelar de uma só vez?
Ainda muitos ensejos a chorar e também a sorrir
Mas hei de admitir:
A permanente inconstância é jogo jogado, suado…
Coloca-nos em posição de equilibristas, malabaristas, estrategistas das emoções e, enfim, pacificadores de conflitos dentro de nós
Atando, desatando, fazendo, desfazendo, costurando, bordando, remendando, pintando, aquarelando, customizando, rabiscando….
Vamos imprimindo nossas deixas, nossas soluções, nossas criatividades, inventividades, nossas saídas…
E, assim, delineando entradas, partidas, desfechos, encerramentos, cancelamentos, suspensões, abstrações
Chancelando o que realmente importa e o que tanto faz
O que nunca existiu e o que nos apraz
Agradeço, sim, por mais um ano que conta minha história
E repertoria minha memória
Afinal, quem somos nós, senão uma duna em construção?! Partículas, areia em grão.

Por Bianca Latini
25/12/2020 17:09


Créditos da imagem: pixabay

Carta- Reflexões de um ano que dá aceno em despedida e passo o bastão da esperança para outro que quer dar partida

Por: Bianca Latini

Carta- Reflexões de um ano que dá aceno em despedida e passo o bastão da esperança para outro que quer dar partida

Está terminando 2020..

Este ano teve confinamento
E máscara no rosto virou obrigatório
Os olhos ganharam destaque
Estar dentro e não fora tornou-se a bola da vez
Assim, também, fez-se imperioso, lidar, ininterruptamente, com o nosso quadrado dentro de casa, com o marido, a esposa, os filhos, com nossos coabitantes
Foi salutar virar mutante
E perceber o que não mais servia
O que, no pouco, não cabia
O que era imprescindível, essencial, raiz, espinha dorsal
Teve medo do inimigo invisível
Da contaminação em massa
Teve esclarecimento, desesclarecimento, notícia na contramão
Teve Presidente fazendo pouco caso da saúde pública e menos valia da devastadora Pandemia
Teve gente que acoplou as normas de higiene para a vida
E outras fecharam os olhos e os ouvidos pra prescrição e pro coletivo
Olharam só para o próprio umbigo!
Mas teve, também, quem resolveu fazer reflexão, introspecção, saudação ao Ser que se tinha esquecido existir
Teve gente que percebeu que não precisava mais ficar aqui, em prédios cerceados, e resolveu mudar, de vez, para serra, fazenda, ou tentou achar um terreno baldio com ar puro e liberdade
Teve gente que sentiu muita saudade
e fez doer o peito pela distância dos amigos, da família, dos queridos…
Embriagou-se em nostalgia
Teve uma debandada estrondosa de gente que foi e não volta mais…
Teve esforço descomunal de profissionais
Corrida sem precedentes em busca da vacina
Avanço da ciência, da medicina
Teve gente que arriscou a própria vida em prol do outro, honrando seu ofício, seus ideais
Teve muita gente que se deu a mão
Outras as soltaram de vez
O caos assolou o mundo inteiro e não só cidadão chinês
O globo terrestre meio que se equiparou
E, por alguns meses, um quinhão de cidades parou de rotacionar
A natureza agredida ganhou trégua
Começou a nascer vida onde jazia somente ferida,
Destruição, poluição, degradação
Educação foi parar nas mãos de sua fonte primária: pai e mãe
E não mais na sobrecarregada escola
Ao contrário do que muitos pensam, educar é tarefa, primordialmente, para dentro de casa e, depois, para fora dela
Teve gente se lamuriando, contando suas mazelas
O home schooling, ensino à distância, EAD e aulas na tela
Fizeram surtar os adultos que antes entregavam seus filhos, pela manhã, aos docentes, dirigentes de escola, pedagogos, tios do futebol, natação, inglês, desenho, ballet… E só à noite retomavam o contato com a molecada
Sentiram-se num jogo de xadrez
Verdadeiros malabaristas
Tendo que equilibrar os pratos da vez
Mas, afinal, será que não seria hora de repensar essa inversão de papéis?
Colocar, nos dedos certos, os anéis?
É um caso a se pensar…
Que paire a pergunta no ar…

Ahhhhh…teve muito divórcio, muita separação
Estranhos que passaram a se conhecer e não gostaram do que viram
Outros que, ainda mais, se uniram
E juntos realizaram projetos incubados
No início, muitos não sabiam como e o que fazer com o tempo
A cabeça surtou
O eixo saiu do lugar
Pais não sabiam como colocar criança para brincar
O tic tac do relógio começou a incomodar
Mas as horas não continuaram a ser as mesmas?
Os minutos, os segundos, desaceleraram?
Ou foram os humanos que, absortos com a novidade, ficaram surpresos com os ponteiros?
Aniversários passaram a ter mais gente, afinal, no zoom, dá para convidar até quem está em outro hemisfério
Era só marcar o horário, enviar o link, acessar do celular ou computador. Nenhum mistério!
O bolo passou a ser egoísta e impossível de ser compartilhado com os convidados
A maioria das festas passaram a ser filmadas, fazendo um remake dos anos 80, versão digital
Este ano foi o ano das lives! Acho que agora ninguém as aguenta mais! Rsrs
Para muitos, trem, ônibus e metrô foram trocados pela passagem, via login no computadô
Filas e engarrafamentos, só de pratos, copos e talheres na pia
Aliás, esse foi um local da casa muito povoado!
Ninguém sabia que louça era tipo alien e se multiplicava!
E por falar em louça, limpeza…
Teve muita lavagem de roupa suja
Em casa e no cenário mundial
Na sociedade, nos Estados, na política
Unicidade foi pro buraco
Cada um por si e Deus por todos
Salve-se quem puder!
Mas os pilotos não sumiram
Eles continuam aqui

Já é fim de ano e um tantão de coisas inimagináveis aconteceram!
Fomos colocados de cabeça para baixo
Mas, acredito eu, que para virarmos de cabeça para cima de uma outra maneira
Com outro enfoque
Com lentes novas, trocadas, renovadas
Nos foi permitido silenciar um pouco para falarmos a língua que realmente importa
O que cada um fez com isso é problema seu
Sinto muitíssimo pelos que silenciaram para sempre e, a eles, rendo minhas homenagens e respeito
Agora, nós, que estamos vivos, que honremos nossa condição e saibamos extrair o pólen mais sadio, o perfume mais abissal e tirar de toda essa história de 2020
O que é crucial
Arregaçemos nossas mangas e façamos valer nossa existência
Exportemos de nossas singularidades a essência transformadora
Cuidemos do planeta com magneficência
Entendamos que, polarizados, apartados, fragmentados …não vamos a lugar nenhum
Somos um todo, somos partículas divinas, somos o universo inteiro
Não hemos de nos contentar com o derradeiro!
Ainda que com máscaras nos rostos,
Vamos sorrir com os olhos e
Respirar na comunidade, na irmandade, no respeito, na consciência, na Humanidade.

Que viremos essa página de 2020, mas não esqueçamos dela!
Como boa e velha Poliana que sou, só posso desejar que venha um 2021 com muita luz, transformação, união, resgate, combinatividade, visão holística, sistêmica, transversal, multidisciplinar e com novas possibilidades criadas por nós, habitantes desse planeta!!!
E, ainda, que além de nos perguntarmos que mundo queremos deixar para os nossos filhos, indaguemos: que filhos queremos deixar para o nosso mundo?

Feliz Natal e boas festas a todos vocês, que quase não vi este ano, mas que moram em meu coração e povoam meus melhores pensamentos!
Grande bjo,
Bia

(Bianca Latini, Rio de Janeiro, 19/12/2020)


Créditos da imagem: Pixabay

Desnaturalização: a infância sem ar

Por: Bianca Latini

Desnaturalização: a infância sem ar

Nesse mundo verticalizado
Espaços sintéticos, sintetizados
Crianças espremidas, encaixotadas
Criatividades esmagadas
Na frente das telas são hipnotizadas
Pela tecnologia, absortas, vampirizadas
O medo impera
A preocupação é gigantesca
Eis o pavor do fora
É preciso estar dentro!
Seguro
Cerceado
Gradeado
M-i-n-i-m-i-z-a-d-o
A natureza é uma beleza à parte, longínqua
Algo que se vê apenas pela fresta da janela
Dos altos prédios monitorados
Rezo, ao menos, para que reste, ainda, imaginação a estas almas curiosas por natureza
Quem sabe não contem uma história, fingindo estarem presas num castelo, no alto da torre, do qual precisam ser libertadas?!
E quem sabe, também, um pingo de consciência não caia sobre a cabeça de seus pais neurotizados por segurança e paz?
Quem disse que a natureza é suja, perigosa e um programa de tanto faz?
Ela é essencial, vital, restaurativa, educativa, sensorial, crucial, evolutiva, manancial
Ela brinda esses novos seres que chegam ao mundo
E oferece todo seu espaço, seu corpo, sua integralidade, diversidade, beleza e espiritualidade
Permite a esses novos pequeninos viajantes desenvolverem-se e entenderem o planeta onde fincarão seus pés
Descobrindo o modo como lidarão com seu próprio corpo, com o outro, com o sistema
Desvendando a maneira como tudo se integra e se relaciona, se autogoverna
A visão é macro e astuta e não diminuta!
Tolher uma criança do convívio com o natural é não deixar florescer nela toda sua potencialidade de conexão, ancestralidade, geneticidade, liberdade
É arrancar, desses recém chegados humaninhos, a qualidade pura de serem verdadeiramente crianças
Com olhos de encantamento e necessidade de experimentação
É fazer morrer o cientista, o explorador, o testador, o alquimista… antes mesmo deles se inventarem
É fazer, na selva de pedras,
no mar de concreto,
no tecido árido,
A infância perder o ar.

(Texto inspirado no filme ” O começo da vida 2 – Lá fora , produzido por Maria Farinha Filmes )

@ocomecodavida
@mariafarinhafilmsbr