Por: Raquel Alves Tobias

Guardada a última hora das vinte e quatro passadas. Aquela que emana a soma de todas as forças reservadas antes que o limite irreal sabote o potencial.
Limitações imaginárias.
Sempre a mesma conversa de pontuar o inacabado.
Procrastinando seguiu andando.
Todo amarrado.
Seguiu suspeito, puxando corda
Foi ser sujeito da própria história
Pulou de ponta para um mergulho
Quis ser seguro de se isentar
Não reparou que era pendular
E em suas amarras a lamentar
Balançou.
E balançando ficou
No caminho que escolheu traçar.

Raquel Alves Tobias


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Labareda em mim

Por: Bianca Latini

Labareda em mim

A raiva parece ruim
Mas pode não ser
Quando me espremem, me oprimem, me encurralam, me sufocam
Eu sinto raiva, medo, destempero
Então eu escrevo
E são os melhores textos
Vem de dentro!
Do útero, como o dito popular gosta de dizer
Exatamente do local onde vem, eu não sei…
Mas quando sai, tenho convicção de que veio do meu eu mais intenso e potente
E nesta saída, neste brotar, me orgulho de tudo que recebo e de tudo no que transformo
Eu sou catadora dos meus lixos, iluminadora das minhas sombras, libertadora dos meus casulos, adoçadora das minhas limonadas azedas

Entendo, então, que raiva é labareda
E como tal, pode queimar plantação inteira
Ou servir de combustível para ferver café, assar o pão e te colocar em ação
Neste último caso, quem arde em chamas, não é mais a raiva e sim o coração.

Por Bianca Latini
Em 11/07/21


Créditos da imagem: Freepik

A Gaiola

Por: Mauricio Luz

A Gaiola

Um raio de sol corta
A escuridão que envolve a gaiola
O pássaro sente a chegada da manhã
As grades que o tornam prisioneiro
Culpado do crime da beleza de seu canto e sua plumagem
São duras lembranças da liberdade perdida nas arapucas da vida
Mas eis! Espantado vislumbra
Entre a fria simetria das paredes de sua cela
Um vazio nas linhas que cortavam a linha do horizonte.
A porta estava aberta!
“Vem” – sussurra o Sol, cada vez mais brilhante
“Vem sentir-me na totalidade! Chega de migalhas!
“Deixe-me abraçá-lo enquanto buscamos juntos o limite do infinito.
E o pássaro saltou no vazio à sua frente,
Cantando sua canção mais doce.
Não se sabe ao certo o destino da linda ave
Que ousou conhecer outros destinos.
Sabe-se que teve fome, medo, frio.
Quase morreu nas garras de um felino!
Amou e desamou, ninhos formou,
Sorriu quando queria sorrir,
Chorou quando não queria chorar.
Tão incerta era sua vida, que sua única certeza,
Era o pulsar do coração, que podendo ser a última batida da existência,
Era poderosa como a primeira!
E quando o Sol o chama,
Ou a chuva encharca sua alma,
A fome torce suas entranhas,
A sede tortura sua garganta,
Ele sorri, abre as asas e voa
Voa em busca do horizonte, cantando:
“Eu nunca fui mais feliz!”

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

A fila cronológica

Por: Priscila Menino

A fila cronológica

A gente imagina que há uma ordem natural das coisas.
Uma espécie de ordem lógica para chegar o dia que chegou o nosso dia de partir.
Imaginamos que primeiro vão os mais idosos e mais um e mais um, tal como uma ordem cronológica decrescente metodicamente organizada.
Mas não é bem assim.
A vida surpreende positivamente, mas também surpreende negativamente.
Um amigo meu, jovem rapaz unanimemente amado e querido, se foi repentinamente.
Muito antes de tantos que imaginávamos que partiriam primeiro.
“Por que diabos ele foi cortar a fila?”, pensei repetidas vezes.
Olhei pro céu e pensei que Deus estava fazendo uma brincadeira de mal gosto.
Continuo sem entender na minha mera consciência mesquinha.
Mas é isso, a vida é um sopro e eu não consigo não pensar nos encontros que não fui, nos afetos que não demonstrei, nos sorrisos que esqueci de dar, nos abraços que contive e nos pequenos detalhes que protelamos por termos a estranha e egóica mania de acharmos que teremos tempo infinito para tudo.
Ledo engano.
Venho repensando sobre isso constantemente, talvez o legado desse meu amigo seja mostrar pra gente que a vida é pra se viver, no aqui e no agora.
E essa será sempre a minha forma de homenagear o ar da sua graça nesse plano físico, sorrindo da forma como ele sempre nos ensinou.

Por: Priscila Menino


Créditos da imagem: Unsplash

Clássicos da Literatura: Arthur Conan Doyle

— Que diabo você tem feito, Watson? — perguntou-me ele, sem esconder o seu
espanto, enquanto passávamos pelas ruas apinhadas de Londres. — Vejo-o magro como
um sarrafo e escuro como uma castanha.
Fiz-lhe um breve relato das minhas aventuras e mal o concluíra chegamos ao nosso
destino.
— Coitado! — exclamou ele, condoído pêlos infortúnios que acabava de ouvir. — E
que faz agora?
— Procuro alojamento — respondi. — Tento resolver o problema de encontrar quartos
confortáveis a preços razoáveis.
— É curioso — disse o meu companheiro. — Você hoje é a segunda pessoa que fala
dessa maneira.
— E quem foi a primeira? — perguntei.
— Um sujeito que trabalha no laboratório químico do hospital. Estava se queixando,
ainda esta manhã, de não encontrar com quem dividir o aluguel de uns ótimos aposentos
que tinha descoberto, mas que eram demasiado caros para a sua bolsa.
— Magnífico! — exclamei. — Se ele procura alguém para compartilhar dos quartos e
das despesas, sou exatamente essa pessoa. Prefiro ter um companheiro a morar sozinho.
Stamford olhou-me de um modo estranho, por cima do seu copo de vinho.
— Você ainda não conhece Sherlock Holmes — disse ele. — Não sei se lhe agradará
como companheiro permanente.
— Por quê? Haverá alguma coisa que não o recomende?
— Oh! Eu não disse isso. Ele é um pouco esquisito…. tem paixão por certos ramos da
ciência. Que eu saiba, é uma pessoa muito correta.

(Trecho de “Um Estudo em Vermelho”, de Arthur Conan Doyle, onde Sherlock Holmes e dr. John Watson se conheceram e viveram a primeira aventura juntos.)


Créditos da imagem: Unsplash

Livremente paradoxal

Por: Bianca Latini

Livremente paradoxal

Quero enxergar de olhos fechados
Quero abraçar com os lábios
Quero dormir de olhos abertos
Falar em silêncio
Calar tagarelando
Quero saltar sem mover os pés
Alcançar o alto sem levantar os braços
Cheirar com a língua
Ouvir com o olfato
Tatear com os olhos
Sentir o gosto com a audição
Quero voar ainda que sinta estar com um enorme peso nas costas
Quero comer vinho
E beber manjá
Quero chorar de felicidade
E rir de tanta dor
Quero aprender desaprendendo
Quero morrer de tanto amor
Quero despertar de noite
E ir para a cama de dia
Quero café com queijo
E leite com goiabada
Quero te prender te deixando livre
Quero nadar numa poça de chuva
E navegar na banheira da minha casa
Quero tomar banho de rio no inverno
E colocar meias quentinhas em pleno verão
Quero ser grito sendo sussurro
Ganhar o mundo perdendo tudo
Viajar sem mala
Ir longe caminhando para bem perto
Quero possibilitar as impossibilidades
Quero gargalhar de tanta saudade.

Por Bianca Latini
Em 29/07/21


Créditos da imagem: Freepik

A Sede do Beduíno

Por: Mauricio Luz

A Sede do Beduíno

De tanto temer o Amor
Que no deserto eu caminho
Meu peito está ressecado
E meu coração, mesquinho

De tanto guardar o Amor
Que ele se perdeu
Minhas sementes não germinam
Minha planta feneceu

De tanto fugir do Amor
Que eu me perdi de mim
Das areias que ando
Busco saída sem fim

Oh, Amor, onde estás?
Onde posso encontrar
A água que levará
A vida ao meu respirar?

Está debaixo da areia do tempo,
Das desilusões, dos descaminhos,
Das mágoas, das dores,
Das obrigações sem sentido

Enquanto água procurar
Em um oásis de mim distante
No deserto preso estarei
Apaixonado sem amante

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Sonho

Por: Juliana Latini

Sonho

Sonho, sem dores, não se realiza.
Sonho, sem suspiro, não inspira.
Sonho, sem fé, não se enxerga.
Como ponte que atravessa montes gigantescos, enfrento os desafios.
Sonho projetos e construo realidades.
Como costurar roupas que lhe servirão au futur.
Como descansar após a corrida fatigante.
Como força propulsora até o fim da linha.
Enquanto aponto para o alvo, encho-me de esperança.
Mas, logo vem a sensação de frio na barriga, o medo e a vontade de desistir.
Será possível? Será para mim? Será agora?
Dúvidas aumentam a ponte e deixam-na mais longa!
Ultrapassam-me, mas não desisto.
Respiro e me inspiro nos meus sonhos.

Juliana Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Por: Raquel Alves Tobias

Muita gente parecida
Muito ódio de si mesmo
Que muda de endereço

É hora de parar e ouvir a respiração
Ser o próprio ar e oxigenação
Sem ruminar a comida do almoço
Soltar o nó que aperta o músculo no dorso
Varrer toda a terra caída pelo chão

Depois de um dia cheio
Olhar-se no espelho perdoando os defeitos
Orgulhar-se das curvas de ganhos por pesos
Acariciando todo o caminho de hematomas
Cobertos em lençóis de si mesmo

Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Pixabay

Tirando as rodinhas

Por: Bianca Latini

Tirando as rodinhas

Eu não vou falar para você tirar as duas mãos de uma vez, pois sei que isso não é possível agora
Primeiro, deixa de espremer
Depois, de segurar com tanta força
Um dia de cada vez…
Passo a passo…
Agora tira uma mão e depois a outra
É sobre agir ou melhor: desagir em relação a um hábito
No seu caso, o hábito de controle
Creio que querer controlar intenta mitigar a falta de confiança
Pois, na sua cabeça entrópica, tudo está fadado ao caos, à desordem, ao insucesso
Daí você controla, põe cerca, mantém a rédea curta, não afrouxa
Como forma de garantir o resultado esperado
Aquele firmado, na sua cabeça, como correto, obstinado
Dentro de tantos cuidados, você sente conforto: está no comando, sabe até onde vai, prevê, antevê, gerencia, monitora e sabe sempre o que fazer

Lembra lá atrás, quando éramos apenas uma criança e estávamos aprendendo a andar de bicicleta??
Nosso maior medo era tirar as rodinhas, pois iríamos cair!
Daí nossos pais operam, paulatinamente, para não fazer do processo abrupto
Tiram uma rodinha e nos deixam tempos pedalando assim
Ainda temos uma margem de segurança
Depois é tirada a outra
E, espantosamente, desembestamos!
Imagino que, dentro de nós, entendendo a dinâmica do pedalar, pedalando há tanto tempo com rodinhas, já sabíamos girar os pedais sem o apoio
Mas, emocionalmente, tínhamos a zona de conforto, o porto-seguro, a muleta, o esteio

O desconhecido é sempre desafiador
O incerto dá medo
É sempre preferível o que se enxerga, o que se sabe, o que se pode controlar
É da natureza humana buscar segurança
É assim, desde criança
Não há mal nenhum nisso
Mas, que, acima de tudo, tenhamos um compromisso:
Saibamos a hora de tirar as rodinhas e confiar nos processos.

Por Bianca Latini
Em 17/07/21


Créditos da imagem: Freepik