Lisboa em Finas Tardes (Tempo à Janela)

Por: Diogo Verri Garcia

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Lisboa em Finas Tardes (Tempo à Janela)

Passou,
Mais um dia passou aqui da janela.
Algum frio e vento, estupendo e seco.
Fim de tarde vagarosa e bela.

Por aqui, o tempo não cravou estandartes,
Nem usurpou os dias feito fossem suas meretrizes.
Lugar em que as passagens de horas são afáveis.
Diferente de onde venho, onde não criam raízes.

Dia não frívolo, como aos poucos evapora um copo d’água.
Não há obrigação de pressa, para que aqui se apresenta má.
Tempo à beça, que nos resta de um dia já vazio,
Pomos o sol e nos acorda o sol pelas manhãs.

Por ora – palavra que me lembra do relógio que, por cá, não envaidece -,
É tanto tempo, que cabem mil dias em um só.
Murmurinhos: sopram em tons de vento, enrijecendo a pele que adormece,
Pondo em bons alentos os cabelos em nó.

Calma há, que não se sabe nem da metade.
Estará enterrada a pressa – eu que vi seu gurufinho.
Onde não há momentos para a vaidade daquele calor que nos maltrata,
Só pasteis de nata, tantos sabores e vinho.

Mais um dia em que a correria padece.
Nem cedo chega a noite,
Despede-se a tarde, em tons de luz e de prece.

(Diogo Verri Garcia, Lisboa, 27 de Agosto de 2015)


Créditos da imagem: pixabay

Doutora

Por: Victor Cabral

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Doutora

Você e seus pares
Analisando o produto do seu trabalho
Isolados num altar qu’eu quase não alcanço
O que estariam eles olhando e julgando?
Teorias e ideias, costuradas em retalho

Você e seus pares
Quem eles pensam que são?
Fingindo que podem te impedir ou permitir algo
Num teatro de roteiro improvisado
Mas que já sabemos o final

Você e seus pares de olhos
Os únicos pontos que me deixam a vontade
Os únicos pontos que me deixam com vontade

Você e seus pares de dentes
Os únicos pontos que articulam sentido
Os únicos pontos que me fazem sentir vivo

Palavra

Por: Bianca Latini

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Palavra é ponte
É abismo
É flecha
Ferida aberta
Hemorragia de sangue e de ideias
Irrigação
Fertilidade
Barreira
Saudade
Palavra é sonoridade
É veste que agasalha ou
Uniforme que quer padronizar
Palavra é mola propulsora
E às vezes empurrão para o boeiro do medo, da impotência, da irritação
Palavra é letra: de música, de ditado, de poesia, de prosa, de hino, de mantra, de campanha, de bula, de receita
Etimologia
Identidade
É algodão doce e pode ser quiabo
Palavra é dança
Movimento
Enredo
Abraço bem apertado ou aperto de mão
Dependendo da entonação, vira choque na contramão
Palavra é riso
É pranto
Pedido de socorro
É vício
Compaixão
Palavra é o que você
quiser fazer dela
Só não deveria ser uma simples…
Palavra

(29/10/19)

Rio de Lágrimas

Por: Bianca Latini

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Chorar
É um rio que se vai
São lágrimas
que transportam tristezas, rancores
Amargores, dores, frustrações
Raivas, pesares
Desespero
Destempero
Para fora do nosso corpo
Tentando limpar o nosso coração
Tentando lavar a alma
Do sangue jorrado pela faca
implantada no peito

Chorar
Alívio
Desabafo
Consternação
Águas que rolam pelo rosto
Seu rastro seca, com uma pitada de sal
Dando um pouco de mar
ao que estamos sentindo
O movimento de chorar,chorar, chorar
E, enfim, acalmar
Depois de tanta energia expulsa
do corpo doente, febril ou gelado
É mesmo como o movimento das ondas:
Quase ouço o barulho da bruma
explodindo na beira da praia
e depois se recolhendo de volta àquela imensidão
Por isso, gosto tanto de chorar
Um esvaziar das comportas cheias
que querem desaguar
Num longo, incandescente e doído
rio de lágrimas


Créditos da imagem: pixabay

Autor Convidado (Victor Cabral)

Por: Victor Cabral

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Acorda e olha pra vida e tudo que tu viveu
Nenhuma palavra rebuscada que eu te escreva
Nenhuma rima já usada, não importa o que aconteça
Valerá um segundo desse tempo teu

Nas palavras habitam belos mistérios
Que nossos corpos ignoram pois, ocupados vivendo-os,
Os beijinhos e abraços e carinhos sem ter fim
Não ligam se não os registremos

O que ficou escrito no braile dos meus arrepios
Nenhum outro poeta poderá cantar
Nem os filhos de seus filhos

E o que ficou moldado pelas suas mãos
Na pedra bruta do meu corpo
Permanecerá, imune a erosão

Coração

Por: Bianca Latini

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Coração

É ele que guia meus passos silenciosos
Meu caminhar de infinitude
Meu trilhar de evolução
Por vezes aperta, machuca, corrói
Em outras, salta, exulta, alegra-se
explodindo em gratidão
É forte e majestosamente rico
das respostas que preciso:
o perigo que pressinto
o caminho que desvio
o rio em que decido me banhar
É absortamente esperto
Para buscar o rumo que acha certo
E a qualquer momento
em outra direção, dar guinada para virar
De alguma forma sinto o seu ritmo
E os sinais dos segredos
que ele quer me contar
Aprendi a não ser teimoso
A dançar a dança em que pretende me guiar
Entendi que coragem é agir com ele
E não contra ele, ao ser pretensiosamente audacioso, rancoroso e danoso a mim mesmo
Agora fecho os olhos
para enxergá-lo melhor
Pergunto, conecto, respiro
Busco uma ligação direta
Sem interferências
Sem ruídos
Sem zumbidos
Para haurir no que preciso
Para luzir no meu atuar

Deixa Fluir

Por: Bianca Latini

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Deixa fluir

Leve,leve,leve
Deixa ir
Deixa fluir
Deixa desenrolar
Da maneira que quiser ser
Do jeito que quiser correr
Provir, fruir, desaguar
Leve, solto, alado
Desenfreado
Sem cerca
Sem arremates
Interferências
Melindres
Deixa deslizar
Deixa, permita, não interpela
Releva, entende, não suscita
Deixa se revelar
Do jeito que é
Da maneira que quer ser
Do modo como quer se mostrar
Sem véu, sem fel, sem mel
Apenas sendo em sua natureza corrente
Ausente
de julgamento
de tormenta
Placenta
permita vascular
Libere
Exima-se de ter que interceder
Deixa ruir, deixa puir, deixa brotar
Isente-se, ausente-se
Torne-se invisível
Silente
paciente
Permissivo
Compreensivo
Libertador
Não cause dor
Não seja obstáculo
Apenas sustentáculo
Se te pedirem para auxiliar

(28/01/2020)

Autor Convidado: Victor Cabral

Por: Victor Cabral

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Queria te escrever uma bela carta
Daquelas marejam os olhos e o peito aperta
Uma que você leria deitada e dormiria abraçada
Sonhando com o significado de cada palavra

Te transformar na minha musa irreal
Intocável e pura, platonismo ideal
Amar é tão fácil, sem nunca realizar
Eternamente grato em apenar poder gostar

Porém não nego, que no peito carrego
Um peso maior que essa grande árvore que rego
Que dá frutos e eu chupo, o sumo e suco,
lambuzo no néctar e me embriago no pouco
que já bebi de ti

Que feliz que não és ela: Cinderela ou donzela, que nos contos de fada, trancada da cela, não amou nem sofreu, não gozou nem gemeu, apenas aguarda.
A mais triste das imagens belas.

O bom mesmo é poder errar contigo
Fazer umas merdas, chorar escondido
Rodopiar pela vida, cabeça colada num ombro, cof cof, amigo

E nessa contramão da vida, tenho a certeza
Que o caminho certo é trilha escondida
Embrenhada nas matas, dor e alegria
Espinhos: feridas, Flores: beleza

Confesso que não me achei, continuo pedido
Mas estou por aqui, tateando no escuro, achando abrigo em alguns colos que achei no breu do caminho

Queria crescer, mas continuo menino
Penso em você e o sentimento é antigo
Temperado com doce e o azedo da terra
Sangue, suor, saliva e lágrimas: canela

Quando alguém pula de um trem

Por: Diogo Verri Garcia

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(Quando alguém pula de um trem)

Quando alguém pula de um trem…
Não falo de morte, leitor: deixe de afobação.
Digo com ele prostrado, já chegada a estação,
Pois é a melhor parada depois de tanto assistir.
São algumas as horas passando a paisagem,
Que não tenho nele notado,
Se quem vê de fora, me nota em viagem.
Posto que passo despercebido em existir,
De tão que é veloz, de Barcelona a Madrid.

Lá por fora apressam-se as árvores, ligeiras,
Que se movem mais do que o correr contra o vento,
Destinado às cabeceiras.
E externando o olhar, pouco vejo de gente;
A paisagem, de tão vazia, é cerrada,
Que embaça meus olhos atentos aos rostos,
Mas noto mais as moças e tão menos os moços.
Deixa borrões no lugar de folhagem, que mal se importa aparente.
Move-se aqui no espaço entre a distância e a hora,
Com destino em alhures e origem em outrora.
Nem gotas de chuva aderem ao movediço,
De tanto que corre,
Feito o vento lá fora.

Quando algum pula de um trem,
Pois tem a perna adormecida,
Em que pesem as poucas horas.
É porque correu por muito; do que o costume, além.
Mais do que poderia,
De tanto parado, sem sair, sem dormir,
Enquanto o mundo zunia, lá fora do trem.

Quando alguém pula de um trem,
Corre na pressa que quase esquece das malas,
Quer um bar em Barcelona,
Para algumas centenas de tapas.
Ao persistir-se faminto,
De tanto andar, sem nem um passo prover.
Mas cansou-se, ao ver o vento correr.

(Diogo Verri Garcia, Madrid-Barcelona, 01 de septiembre de 2015)


Créditos da imagem: pixabay

Conexões Humanas – Corações sob peles

Por: Bianca Latini

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Conexões Humanas – Corações sob peles

O contato com as pessoas me move
A troca
A integração com elas
Gosto de saber suas histórias
Suas memórias
Seus remorsos
Suas alegrias
Suas vitórias
Seus dia a dias
Gosto de prestar atenção ao timbre de suas vozes
À cor dos seus sorrisos
À luminosidade dos seus olhos
E ao direcionamento deles
Às vezes intensos
Vivazes
Assustados
Tristes
Cabisbaixos
Às vezes perdidos

O tom e o ritmo
com os quais pronunciam suas palavras
em muitos momentos fazem-me tocar em frente
Repensar algum posicionamento
Ou encorajam-me
a ser mais dedicada
São vozes de gente
Viva
Carregada de emoções
Sentimentos
Pensamentos
Sensações
São corpos que envolvem almas
Peles que armazenam corações


Créditos da imagem: pixabay