O necessário voltar

Por: Diogo Verri Garcia

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(O necessário voltar)

Necessário voltar
para aquele lugar
em que a alma nos alegra.
Onde é fácil dormir e acordar.
Lá, que tão bem se quer estar.
Ter uma alma de poeta.

Necessário voltar
para aquele lugar
Onde a saudade não nos mata.
E, certos que a paz é leve,
É tão normal de lá sentimos falta.

Necessário voltar
para aquele lugar
em que a brisa é diferente.
Onde talvez não tenha mar,
Quer arda em muito o quente sol,
Quer faça falta os dias quentes.

Mas é necessário voltar
Para aquele lugar
Em que a beleza profunda, o quão palpável, nos é rasa.
Necessário voltar
para aquele lugar
Que dentre tantos outros nomes,
reconhecemos como casa.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 14/01/2020)


Créditos da imagem: LhcCoutinho por Pixabay 

Autor Convidado: Victor Cabral

Por: Victor Cabral

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Tudo de belo que cê já viu
Com você, desde de o dia que nasceu
Somos donos das cores que te rodeiam
Fiéis guardas da luz das estrelas que te norteiam

Testemunhas dos teus dias mais insanos
Na dor e na alegria contigo aguamos
Quando tomados pelo prazer, cerrados
Tão abertos ao encarar o ser amado

Nos de a noite de presente dessa vez
Tire as lentes que focam o que tu vês
Queremos folga tão merecida

Não se demore pelas esquinas
Vá pra cama, rainha menina
Só abra aos olhos com a manhã já nascida

São os desejos de seus olhos

(https://www.facebook.com/projetil69/)

Conto às três vidas

Por: Diogo Verri Garcia

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(Conto às três vidas)

O relógio não anda para trás:
O tempo passou.
Já aqui, o conto de três vidas jaz.
Que tivemos, feito o som tão leve,
Mas que escorreu na misteriosa imprevidência,
Tal como o silêncio das coisas, a ausência
Que há no ponto final de uma bossa.
Três vidas: a minha, a tua e a nossa.

A minha, que andou modificada,
Digo, até grata, essa vida que foi
Por ter tido, em algum tempo,
A presença tua.
Mas que não suportou, posto que sufocada.
Levou um pouco de ti,
Deixou tanto de si,
E, estando livre, foi comemorar nas ruas.

A tua, que começou sem graça,
Até calada, meio que negando
O que existiu logo no primeiro momento.
Mas quando sentiu-se enraizada,
Havia já deixado outra vida cansada,
Posto que insegura, de alma dura,
Não segurou viver os bons momentos.

A nossa, de que haverá lembrança,
Até que a idade apague
E registre ao longe,
Junto a tantos outros cantos ocupados da memória,
Uma caixa a mais.
Anestesiando, se restou tormento.
Recordando apenas as bonanças,
Risos fáceis e ordenança.
Contando com a intercessão do tempo,
Que então deixará
Sua versão,
Em resumo, só felicidade e paz.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 04/01/2020)


Créditos da imagem: pixabay

Confessionário

Por: Bianca Latini

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Confessionário

Ahh… Santo Universo
Eu tenho tantos medos
Você bem sabe disso
Tenho medo de assumir algumas responsabilidades
Então eu te rogo
Dê-me um abraço imenso
Deite-me em seu colo
E aqueça em meu peito
A confiança que comigo nasceu
O propósito que você me deu
Para que eu possa trilhar o melhor rumo
O correto caminho
Aquele com o qual firmei compromisso
Pelo qual poderei acessar lugares inóspitos
Levando perfumes, lavandas, sorrisos

Que eu possa perfurar minhas camadas superficiais
E deparar-me com minhas profundezas
Com coragem para encontrar no trajeto
As barreiras das minhas fraquezas
As vaidades do meu ego
As expectativas frustradas das minhas ilusões
As calamidades da minha alma imersa
As feridas de todas as minhas vidas
As falhas das minhas tentativas

Ohhh… Querida esfera infinita de luz
Clareie o meu Ser
Segure a minha mão
Para que eu sinta a sua indicação
Fazendo-me caminhar em frente
Ainda que tudo pareça escuridão
Que meu corpo aqueça em plenitude
E eu saiba que em determinada direção preciso seguir
Que meu coração seja bússola indefectível
E minha fé nele indubitável
Que eu tenha serenidade e certeza em renúncias
Alegria e firmeza em escolhas
Concretude em aglutinar minha unicidade

(Bianca Latini)


Créditos da imagem: pixabay

O Jornal das Coisas Amenas

Por: Diogo Verri Garcia

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Prezado Leitor, tendo em conta o fim de ano, faltei com a publicação habitual de quarta-feira, a qual realizo hoje, um dia depois.

(O jornal das coisas amenas)

Um jornal oficial que publicava
Não mais as leis,
Tão só notícias: e era devotado às amenas.
Se houvesse proposto uma estrofe e a ele quisesse apor,
Publicado seria,
Tal como a letra de um compositor
Poderia.
Só há restrição para coisas pequenas.

Que assim compreendem, nem pelo quantum
nem pela forma do verso,
Não por termos qualificativos ou quão são expressos.
Sequer se valha do número de caracteres.
Por exemplo, são pequenas as frases que falam maldades;
São rica e aprazes, quando bem tratam as mulheres.

Se não me basta ser tão explicativo,
Seja aprazível e compassivo
e publicado serás sem reparos ou custos.
Fale teus causos bem a olhos vistos,
Sem termos complexos,
como cnidoblastos ou nematocistos,
ao descrever tal como te enroscas,
feito em tentáculos, em teus amores injustos.

E quanto a teus olhares congestos,
Se temem que tuas palavras os deixem expostos,
Já de tão exaustos e indispostos
De repaginarem bens aquestos.
Leia em nosso FAQ os termos propostos,
Escreva sem nome
E haverá privacidade em nossos esforços,
Para que nenhum de teus amores identifiquem autores
em teus manifestos.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 22 de dezembro de 2019)


Créditos da imagem: Imagem de Markus Spiske por Pixabay

 

A Pedra

Por: Thiago Amério

balance-1372677A pedra

O estabanado tropeçou
O rude arremessou
O pedreiro fez um martelo
O empreiteiro um castelo
Do moleque foi brinquedo
Do presidente arma de medo
O bandido fez munição
O escultor, um coração
Em todos os casos,
a diferença nunca foi a pedra.
Mas o homem.


Créditos da imagem: pixabay

Dezembro e o tempo.

Por: Diogo Verri Garcia

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(Dezembro e o tempo)

Quando passa à frente outro ano
Logo tanto tempo, em rompante, vai embora.
Amanhã, nunca mais será o mesmo dezembro.
Passa e passou nas ruas povo farto e alegre,
(Andam também alguns avarentos).
No caminhar de crianças e moças, vem ainda mais gente:
Um senhor sorridente, e em passo breve a sua senhora.
Está tudo acabado e a contento,
Feito dezembro.

Eu entendo todo esse evento,
Todo riso, todo pranto, todo alento.
Observo o passar da vida,
Sempre atento ao correr das horas.
Noto palavras que são merecidas;
Hoje, menos ponderadas, porém faladas em vida.
Pois há o tal tempo que vai, tornando posto o momento afora.

Tome as ações que deseja,
Beije feliz quem feliz bem te beija.
Veja-se em festas,
Em votos sinceros
Ou mesmo de simples sermões.
Refresque-se em abraços, tenha resoluções.
Faça boas odes ao bom pensamento.
Pondere, pois as palavras não ditas, no tempo passam.
Porém, as mal ditas não passam no tempo.

E o correr desse tempo, justo hoje, feito o mar, não falta e não falha.
É o véu quente e humano, corrente de gente de que rompe a praia,
Era dezembro.

(Diogo Verri Garcia, dezembro de 2019)


Créditos da imagem: pixabay

Obscuridade

Por: Bianca Latini

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(Obscuridade)

Sim, eu perdi
Eu caí
Eu chorei
Eu amei demais
E não fui correspondida
Eu não fui destemida
Eu errei
Não olhei bem
Não saquei
Não escutei
Me perdi
E não me achei
Procurei o caminho de volta
E não encontrei

Eu usei mal a palavra
E ela, assim, como a flecha lançada
Não voltou mais à minha garganta
Tomou rumo próprio
Se foi
Feriu
Matou
E por fim se suicidou

Joguei nos outros
Um balde de água fria
Gastei dinheiro à toa
Não planejei
Me ferrei
Caí no buraco
Me ralei
Tomei atitudes impensadas
Insanas
Me frustrei

Julguei mal
Tirei a capa pelo livro
Só olhei pro meu umbigo
Meti os pés pelas mãos
Dei voltas em rodamoinho
Murro em ponta de faca
Idas e voltas em labirinto
De burrice
De tolice
Imaturidade
Procrastinação

Mas para o todo mundo lá fora
Minha vida foi uma avalanche de sucessos
Sou Sã
Não preciso de divã
Sou diva
Prodígio
Sortuda
Raçuda
Tenho uma trajetória incrível
Sou tudo que você gostaria de ser…
Sem saber quem sou eu na minha
Integralidade

(Bianca Latini)


Créditos da imagem: pixabay

A tarde da praça

Por: Diogo Verri Garcia

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Era a tarde na praça.
Em que correu alegre, caindo.
Feito lembrança que passa a galope afagando o brinquedo.
E se alistava a um período seleto,
sem medo,
em que havia graça em correr perseguindo.
Mas aos poucos, notará: quem nos segue é o tempo,
De gosto ainda duvidoso, do desconhecido tempero,
Sem esmero.

E na escorrida que fez,
lembrará para si e me trouxe lembrança.
Ao olhar aquela praça,
Deu saudade da infância,
Da ignorância que por acaso existia.
Era só ver felicidade quando a chuva caía.
E haver-se na sorte de ter um dia a ser lento.

Era tarde na praça.
Em que apressou-se alegre, exibindo, esbarrando.
Sem saber que há sempre algo
Passando a galope,
E eu, com um misto folhas, entufadas em um só envelope,
Enquanto poderia estar ali, feito ela,
Rindo.

De mãos entre o paletó,
Eu a notava, e ela com a vida brincava.
Em um tempo – sempre o meu predileto –
Em que criança caía e nem sequer se importava.
Exceto a dor mal causada,
Na aflição que doía a alma, quando a bola batia e a unha subia.

Quando o tempo passou,
Em meio a verões que de tão quentes embaçam,
Substituímos a bola pelo (des)amor,
Pela bebida gelada junto à brisa no Astor.
Melhoramos de altura, mas nem tanto no garrancho em cadernos.
Ocupamos titulações em molduras,
Viramos adultos em jalecos ou ternos.
Tomamos opções que tornaram poemas
Algo menos que um nada…

Desde aquela hora
Que passou pela praça,
Houve leveza,
Tornou a vida mais bela.
É a tarde, apressada, que passa.
Todos nós, passageiros,
Que se arriscam na chuva carregando uma chama de vela.
É a vida: sempre tão entretidos,
Quando devíamos estar,
Só um pouco mais,
Orando por ela.

Vi passado o tempo,
Vi-me formando estrada,
chegando aos que sabem,
partindo os que sentem.
Criou-se um pausa no rosto,
Posta bem em minha frente.
Que sem o amor que nos traz,
De tudo isso, importa o nada.

Era a tarde na praça.
Em que ela correu alegre, tendo alguns solavancos.
E eu, com sorriso no rosto,
Em meus passos rumando,
Querendo aquilo tudo, só mais um pouco,
E agradecendo ter paz.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, novembro de 2019)


Crédito da imagem: Acervo pessoal, Zaragoza, verão de 2015. Clique de Mariana Queiroz Aquino.

Natal o ano inteiro

Por: Bianca Latini

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Então é Natal
Seu coração se enche de amor
Seu sorriso de graça
Você se torna gentil
Dá bom dia
Vê tudo em tons de
Verde, vermelho e dourado
Sente-se quase o bom velhinho
Distribuiu presentes
Lembra-se dos ausentes
Faz doações
Faxina o guarda-roupa
Escreve cartões
Oferece ajuda
Abraça todo mundo
Deseja feliz Natal e
Um Bom Ano Novo
Seu humor é reluzente
E você praticamente um pisca-pisca
Elétrico, brilhante, contente
Você enfeita a casa
Compra a melhor comida
Partilha com os amigos, chegados
E, claro, com a família
Visita orfanato, lar de idosos, hospitais
Oferece-se de voluntário
Mais parece um relicário
Colecionador de boas ações

É Dezembro e você está mais relaxado
Em ritmo de festa, em clima de paz
Você nem xinga mais
Nem mesmo aquele
que te dá fechada no trânsito
Não coloca a mão na buzina
Releva
Entende
Combina
Afinal, é época natalina
Já já o ano termina

É tempo de festejar
E não reclamar
Você só tem a agradecer
Foi abençoado demais
Seu olhar retrospectivo é bondoso
Caridoso, benevolente
Você se satisfaz
Está mais suave, mais ameno
Mais sereno
Celebrar vira lema
Conexão sua diária canção
Renascimento seu poema

Afinal…
É Natal!
Daí te pergunto, por derradeiro:
Por que você não faz ser dezembro todo dia?
Caridade virar sua melhor companhia?
Abundância ser seu guia?
E Natal o ano inteiro?


Créditos da imagem: pixabay