Pausa para o Café

Por: Mauricio Luz

Pausa para o Café

Respiro profundamente o seu perfume
Envolve-me em sensações que apenas você
É capaz de provocar.
Duas colheres, colocadas no leito de pano
Escurecido pelas vezes que amou a água.
A água! Ela borbulha, dengosa e lasciva,
Exalando vapor e calor, no ponto ideal…
Une-se a você em uma ardente comunhão.
Sua fragrância se espalha no ar
Enquanto uma parte sua repousa
No recipiente que serve de abrigo
após o amor tão quente e intenso.
Mas seu descanso é breve.
Logo o convido para encontrar-se comigo…
Nada de açúcar, por favor! Nada que mascare a sua essência!
Alguns diriam que “amarga, basta a vida”
Mas o bom barista sabe que amargo
É não perceber a doçura que até o amargo tem.
Uma pequena xícara, que meus lábios beijam
Minha língua sente o teu gosto
Tão amargo, tão sublime, tão intenso
Meus olhos se deliciam com a dança de seu aroma
Segundos de prazer e volúpia,
Forte como amor enjaulado,
Gostoso como beijo roubado.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Planta dos meus pés

Por: Juliana Latini

Planta dos meus pés

A planta dos meus pés precisa encontrar o chão.
Sentir a terra.
Enraizar-se.
Parar, aquietar, respirar até se perceber.
Desligar-se do mundo exterior por uns minutos.
Identificar em qual estação está,
Se no inverno com “galhos secos”,
Se na primavera, “com flores”,
Se no verão, “com frutos” ou
Se no outono, “desfolhando”.
Observar se necessito de água, sol, vitaminas e minerais.
Conectar com a essência, ainda que precise regar com lágrimas.
Mergulhar em mim.
Fluir em amor e aceitação até encontrar algo precioso: aquele reloginho que bate, às vezes, fora do compasso e me acelera.
Preciso reprogramá-lo até sincronizá-lo com o meu tempo interno.
Não ser uma “folha” conduzida pelo vento do mundo exterior, mas uma “planta’ com raiz firme e saudável.
Mesmo que venham tempestades, ter equilíbrio interior
e continuar plena quando tudo passar.
Até que eu sinta a harmonia de toda a sinfonia que sou.
Até que eu expresse e manifeste aquilo que cabe a mim fazer neste mundo.
Até que repouse em mim pássaros na busca de abrigo, alimento e paz.

Juliana Latini


Créditos da imagem: Pexels

Por: Raquel Alves Tobias

Sempre quererei ouvir-te por notas musicais
Há dias subindo e descendo por escalas menores
Escalada de temores
Provando os sabores de cada toque marcado
Ardendo em chamas ou em cortes salgados
Pingando com lembranças de afago
Sangrando por entre pêlos eriçados
Com a saudosa lembrança do que não ocorreu
Antes fosse tudo, quisera eu
Antes de tudo, fôssemos nós
Ante o tempo, fosses veloz
Ante a dúvida, uma linha
e a caneta que escreve:
Era uma vez.

Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Pinterest

Meu armário

Por: Bianca Latini

Meu armário

Porque roupas não são apenas roupas
São uma forma de expressão
Um veículo de comunicação com o mundo
Um grito
Uma manifestação
Um falar calado, um outdoor que não tem voz, mas grita
Um chamamento para si: ei, olha! Estou aqui e tenho algo a dizer!
Através da vestimenta
Escancaro a minha criatividade
Posso ser hippie, chic, brega
executiva, dar uma de esportista…
Posso ser romântica, poeta, diva
Posso ser cada coisa de uma vez ou tudo ao mesmo tempo
Vai depender de quem sou eu naquele momento
Diversidade, humor, contraste, sair do óbvio, do previsível, desconstruir, romper, encantar, trazer alegria, colorir, perfumar
Personalidade em invólucro
Metamorfose vestida
Pessoa em trânsito
Alma querendo se achar, se ver traduzir, decodificar.

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: https://www.advanced.style/

Quando?

Por: Mauricio Luz

Quando?

Há poemas que são gritos
Cristalizados em verbos e advérbios
Palavras que ferem como farpas
As máscaras que uso e me usam
Suave violência de versos
Como a planta que rompe concretos
Os gritos me lembram o que sou
Me dão pistas do vim aqui fazer
Mas… apesar de altos e vibrantes
São abafados pela surdez causada
Pelas rotinas aceitas e pelas contas mal-pagas

“Pare de gritar comigo, Poesia!”

“Eu sei como agir! Eu sei como ser!”

“Só não posso hoje! Só não posso agora!”

“Amanhã eu começo. Amanhã eu faço. Amanhã eu me torno.”
“Como eu te disse ontem.”
“Amanhã… Amanhã…”

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Escrever

Por: Bianca Latini

Escrever

Escrever é vômito
É desobstrução
É respiração boca a boca
Desfibrilação
Escrever é desague
Desmanche
Reconstrução
É esvaziar
É ir, deixar ser
Permitir-se o lado mais obscuro
É contar segredo no papel
E dizer as maiores verdades
Aquilo que se esconde de si mesmo
É Confessionário
É encaixe: tradução do sentir em palavras Estas que, uma vez escritas, aliviam um pouco o que se passa dentro
Pode ser alívio por partilhar algo tão belo que não merece ser guardado egoisticamente
Pode ser alívio pela retirada de estaca no peito
É como se as palavras fossem escavadeiras
Que te escavam por dentro e tiram a terra para alcançar o substrato
Deixam respirar o que estava quase sem oxigênio
Deixam brotar o que estava espremido, bem no chakra cardíaco, represado no plexo solar
Escrever é florescer
Regar
Jardinar
Escrever é vida
Liberdade
Voo
Encontro com sua essência
Escrever é intimidade, clareza, prazer em conhecer seu avesso
Sua beleza
Sua expressão reprimida
É deixar vir à tona seu vazio existencial
Seu manancial de potencialidades adormecidas
É encantar-se com tanta delicadeza do que sai de você
E também espantar-se com tanta dor!
Escrever é oráculo, mistério
Hemisfério
Desopilador

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Labirinto digital

Por: Juliana Latini

Labirinto digital

Viajo para um destino desconhecido, um lugar nunca antes explorado, selvagem por natureza.
Não faltam lendas sobre monstros pelo caminho.
Mesmo assim, decido mergulhar nesse novo desafio.
Caminho por um túnel escuro e sinto medo.
Alguns lampejos iluminam parte do percurso.
O som da água caindo, como de infiltrações.
Continuo seguindo essa travessia e me deparo com lembranças de mim.
Descubro que estou numa grande galeria de artes e começo a passear pela exposição de imagens e vídeos que remontam toda a minha existência.
O percurso seguia em espiral, parecido com um labirinto.
Naquele momento, tudo fez sentido para mim: o caminho por onde andava seguia o desenho da minha impressão digital.
Ao obter essa percepção, fico em estado de choque e meus olhos se deparam com uma grande luz, como um sol de meio dia.
Vi a oportunidade de enxergar a minha realidade de uma nova forma.
Nessa travessia, cada um tem o seu percurso.
Não adianta querer olhar para o lado.
Não precisa se comparar com os outros.
Ninguém pode percorrer esse caminho no meu lugar.
Ao entender a minha singularidade encontro a saída:
valorizar cada experiência como algo único e especial.

Juliana Latini


Créditos da imagem: Pixabay

É das fendas que se abrem caminhos

Por: Bianca Latini

É das fendas que se abrem caminhos

Onde está você agora?
Com tantos sonhos, planos, construções?
Em que momento desistiu de levar a cabo as realizações?
A seta quebrou?
A alegria escorregou?
A bússola se jogou da sua mão?
Oh não! Você desistiu de tudo?
Achou que era grande demais para alguém tão pequenina, tão diminuta?
O jardim em ti precisa ser regado
Põe adubo a cada dia
Aguarda, que tem muita semente já plantada
Carecem apenas de um pouquinho de água, cuidado e Amor
Sem dor!
Aguarda seu tempo
É primavera
Momento propício para brotagens, passagens, cursos, dutos, viagens
Desfaz-se das miragens
Arreda pé
Planta
Canta
Ri
Esteja sempre aqui
Exatamente onde está
Não com a cabeça em outro lugar
Faz este momento agora
Amanhã pode nem chegar
Como se vive o hoje?
Me diz?
Preciso de um bocado de ajuda!
Pra não correr sempre atrás do rabo
Pra não correr, tentando agarrar com as mãos os pássaros que voam, que nem criança pequena
Algo inalcançável
A perfeição, o inabalável
A vida é feita de estrondos, ruidos, rachaduras
E é das fendas que se abrem caminhos…

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Pixabay

Acostamento do céu

Por: Priscila Menino

Acostamento do céu

Na fila de embarque, prestes a entrar no avião, na minha frente estava um casal de senhores.
Nitidamente, a mulher estava com expressão de pânico do voo vindouro, enquanto o senhor ao seu lado a tentava acalmar, achando até graça da situação.
Acabei ouvindo a senhora dizer que o maior medo dela era que qualquer problema mecânico, no céu não teria acostamento para parar e ajeitar, era só queda sem segunda chance.
A senhora estava com receio real de não ter um acostamento para parar em meio a um pouco provável pane na aeronave, ao ponto de estar congelada antes mesmo de embarcar, cogitando não ir mais.
Intriguei-me pensando nisso.
Qual a lógica do raciocínio de que ter ou não acostamento pode salvar a vida da pessoa?
Afinal, pensei, se é chegada a nossa hora, pode haver o maior acostamento do mundo, mas não será suficiente, simplesmente partiremos rumo ao desconhecido.
Estranhamente, nós seres humanos temos necessidade de estarmos controlando a vida.
Acabamos nos privando de algo com medo de perdermos essa falsa sensação de controle.
Mas é fato que independente de acostamento ou não, nada está em nosso controle total, até mesmo o ato vital de respirar pode ser feito de maneira inconsciente, queria você ou não.
Claro que, por outro lado, o planejamento mínimo da vida nos dá uma orientação, mas a qualquer momento a rota pode mudar e pode ser necessário arremeter.
Portanto, penso que é muito melhor acreditar e decolar na vida, aproveitar a paisagem e garantir que, quando chegar a nossa hora da partida final, tenhamos embarcado em vários voos de alegria.

Por: Priscila Menino


Créditos da imagem: Unsplash

Por: Bianca Latini

Eu vibro para que os sentimentos em mim sejam de expansão e não retráteis

Para que a boa energia percorra minhas veias com fluidez

Para que o Amor preencha cada célula do meu corpo, cada fio de cabelo e inunde meus olhos, minhas lágrimas

Eu vibro para que a acolhedora clareza em mim faça lampejo e ilumine toda estrada

Para que o meu fio condutor seja firme, mas tênue, sutil, a ponto de não poder ser pensado, apenas sentido

Eu vibro para que as minhas grandes expectativas não desapareçam, mas se transformem em purpurina, que é algo mais cintilante, menos denso, nada pesado

Eu vibro para que a generosidade seja óleo lubrificante da minha existência, para que meus braços sejam tão largos, tão macios e tão ensolarados para dar abraços de nuvens, de lareira, de macieira

Para que o fogo que quer incendiar as minhas plantações subam aos céus junte-se ao sol e vibrem prosperidade para o meu campo verde, pleno de girassóis

Eu vibro para que a gratidão seja bálsamo, seiva, balé

Para que eu seja alegria, graças a mais esta oportunidade, do topo da cabeça até o dedão do pé.

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Unsplash