Por: Victor Cabral

Vem cá, ensina-me essa coisa
De entender o que dizem as palavras
Para além do que querem dizer

Perdemos nosso sono de casal
Em cama de solteiros, tão pouco são
Manhãs em solitária companhia

“Bom dia, meu bem, o café acabou”
Em nosso cardápio só os desejos da carne
Seu corpo, meu desjejum


Créditos da imagem: acervo pessoal (o próprio autor)

Geração X, Y, Z… até onde vai ser?

Por: Priscila Menino

Geração X, Y, Z… até onde vai ser?

Estava eu aqui refletindo sobre as gerações e as mudanças na sociedade. Eu faço parte de uma geração que, em uma grande maioria, teve pais que lutaram para buscar oportunidades de emprego e busca de condições melhores. As mulheres ainda estavam encontrando seu espaço no mundo corporativo e deixando de ter ser a única responsável por manter o conforto do lar e a criação dos filhos saudáveis e ortodoxos. Meu pai sempre nos contava que veio do interior do Paraná para a então recém capital do Brasil em busca de melhores oportunidades e para “crescer” na vida. Ele não pode estudar, pois tinha que optar entre estudar ou trabalhar para obter dinheiro para auxiliar na renda doméstica. Aprendeu com meu falecido avô a a profissão de mecânica. Acostumado a rir das mazelas da vida, meu pai vivia falando que meu avô falava: “meu filho, estude ‘medicina’, mas ele entendeu “oficina’” e acabou sendo mecânico por herança do meu avô. Meu pai é o que se pode denominar como uma pessoa autodidata, um verdadeiro “MacGyver fundido com Chuck Norris” (se alguns da minha época ou mais novos não souberem, perguntem ao oráculo Google). Para vocês terem ideia, já vi meu pai produzir peças para carros e resolver o problema mecânico do motor, arrumar armários em casa, fazer ajustes na lavadora, ajustar o jardim de casa, montar e desmontar um brinquedo que tinha parado de funcionar e fazê-lo ser ainda melhor após isso e mais umas mil coisas que envolvem uma furadeira, uma chave de fenda ou uma chave Philips. E o mais impressionante é que ele não concluiu a quarta série, mas, quando eu preciso de alguma ajuda, seja ela qual for, ele dá um jeito de aprender pra resolver. Não fala nada de inglês e não se ajustaria em uma sala de cursinho o ensinando o verbo to be, mas me ensinou a amar Beatles, respeitar Bee Gees, ABBA, Roxette, Air Supply, The Police e mais umas lista enorme de bandas e cantores internacionais.
Para compensar o que não teve, meu pai e minha mãe pagaram escola particular para mim e para meus irmãos. Houve dias que eu não via meu pai (muitos e muitos dias), pois ele precisava entregar os carros prontos e nunca teve uma organização de um esmero administrador de empresas, afinal, ele aprendeu com meu avô e ele também não era um bom administrador. Eu e meus dois irmãos tivemos oportunidade de estudarmos e nos formamos, pois meu pai de uma forma instintiva queria que fôssemos “dôtores”.
Eu saí de casa cedo, casei jovem e me formei jovem também, seguindo os passos da minha mãe, que se casou com apenas 16 anos.
Mas a maioria dos meus amigos não tiveram um caminho similar. Minha geração teve uma grande dificuldade de entender o que era se rebelar contra uma predeterminação que nossos pais queriam para nós, com os limites de ser exatamente o oposto.
Em seguida, veio uma nova geração, com ainda mais informação e acesso a tecnologia que acabou optando por não fazer os métodos tradicionais de educação, conheço tantas pessoas que optaram por não concluir o ensino médio, por exemplo.
Agora a ironia da vida é que curiosamente nossos pais ou avós não puderam estudar e ter uma formação acadêmica por não poderem, seja pela dificuldade financeira ou pela dificuldade de locomoção ou mesmo pela dificuldade geográfica.
Enquanto isso hoje a juventude está deixando de fazer os métodos tradicionais de postulados de “educação básica” em decorrência de uma opção.
Aí eu me pergunto: será que eu serei vista como uma pessoa antiquada pelos meus netos quando eu disser como era complexo o período de provas na faculdade e conciliar isso com os dois estágios que eu tinha nos turnos opostos?
E como estão as novas profissões que vai surgir na nova sociedade com essa juventude? Bem, aparentemente vamos esperar para ver e eu espero estar sentada tomando uma taça de um bom vinho e com propriedade dizendo aos meus netos: “me ensina a mexer nesse troço aqui, na minha época, a gente ainda precisava procurar as respostas, vovó não está habituada com essas mania de vocês…”


Crédito da imagem: pixabay

Poema do Amor em Prognose

Por: Diogo Verri Garcia

(Poema do Amor em Prognose)

Amar é a arte da mágoa
Que se faz compartilhada
Até a felicidade que, por vezes, nos encontra,
Em tantas, é por nós repassada,
Na tentativa de achar,
dentro do verbo amar,
Uma resposta.
Pena que não se sabe tanto ser feliz
E passa-se tão perto, por um triz,
De quem de ti gostou e de quem, enfim, tu gostas.

É ver que no verbo amar há sempre um esperar,
vê-se a repetição
de crônicas, atos e poemas.
Há uma mudança de atores,
mas sempre, em vão, o então dilema,
a ponto de não se encontrar,
entre certezas e dúvidas,
amparos e medos,
Entre as variáveis mais expostas,
e até os irreais segredos,
Toda quem que já te fez mal,
Mas isso nunca fez, porque te amou.
E toda aquela que, ao amar a mais,
Feriu ou fez ferir,
Quando então viu que o amor deixou.

A arte do verbo amar
Não tem amparos, nem termos médios,
sequer cabe na conjugação
Quando o tempo do verbo é o presente,
eis que o passado não se assente
e o futuro não pode,
para então amar, ser aguardado:

Não se cabe em opção.
É verbo a ser proclamado
sempre em primeira pessoa,
desde que conjugado vivamente também por
uma alma presente,
Que se faça, na gramática do verbo,
patente e latente
uma feliz terceira pessoa.

E o amor assim que é, mutuamente, compartilhado.
Sem o qual nunca vale,
Não serás verdadeiramente,
nem amoroso,
nem verbalizadamente
amado.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 04/10/2020).


Créditos da imagem: pixabay

Por: Victor Cabral

Fosse tu um violão, singelo instrumento
Quais notas arrancaria de ti?
A receberia em meu colo, terno sentimento
Com meus braços, te puxo a mim

Canto pra ti, pra me deixar tocar-te
Minha voz é chamamento e ilusão
Encaixa-te em mim, feito obra de arte
União de dois corpos em um só som

Mão esquerda que desliza em teu braço
Mão direita que dedilha seu bojo
Faz-me sons: minha corda, como aço
Acorda-me com tétrades de gozo

Eu, você, nós, um: músicas-pessoas
Complexas obras-primas de carne e som
Mão direita que desliza entre suas coxas
Mão esquerda que borra a cor do seu batom

Enrosco meu dedos em suas cordas-cabelos
Que me soam cheiros de alecrim
Não deixo-te ir, joga teus sons em mim
Toquemos mais uma, ei de dormir entre seus seios


Créditos da imagem: o próprio autor (acervo pessoal)

Poema do Erro Redundante

Por: Diogo Verri Garcia

Prezados Leitores,

Em comemoração ao Dia Nacional do Poeta (ontem, 20/10), republicamos “Poema do Erro Redundante”, autoral, de 2019, dada a possibilidade de lidar com palavras, emoções, significados e até com a norma padrão, que o ofício da poesia nos garante.

Tal como outrora expressamos em “Descredenciado Poeta”, de 2018, “a poesia, quando ab-roga seu dono, É livre, nunca será de mais ninguém […] Ama instantes a ti, ama logo mais outro alguém” (Diogo Verri Garcia, “Descredenciado Poeta”, 11/08/2018).

“Poema do Erro Redundante” suscita interpretações e significados de cada um que o lê. Representa a perda da propriedade, da titularidade, que abandona aquele que escreve e encaminha-se para o domínio da percepção do leitor, fazendo dele, nisso, também um poeta.

Parabéns pela data a todo aquele que tem por hábito a leitura, pois faz em sua interpretação um importante passo da poesia. Em suma, todo leitor é um poeta hermeneuta.

Boa leitura.

Diogo Verri Garcia, Rio, 20/10/2020.


Poema do Erro Redundante (#repost)

Inicio meus versos nos erros
Desacertados.
Vindos de um surpreendente inesperado,
Tão bem guardado há anos atrás.
Que impediu o planejamento antecipado.
Na vida, entre uma verdade e um fato,
Em metades iguais.

Quem visou seu desgosto ao largo,
Sem encará-lo de frente.
Fez como quem favoravelmente assente
E pouco caso faz, até.
Com os olhos, trabalhou as palavras nas minúcias detalhistas.
Mantendo patente no rosto, aparente e à vista
O rubor de quem se desolou na mais triste tristeza,
De quem perdeu a confidência na fé.

Que não fizesse daquilo um todo,
Para repetir, no amor, seu novo lançamento;
Tal como um novel feito em debute,
Querendo ter o protagonismo em querer ser o principal.
Mantiveram o mesmo,
Conviveram juntos.
Da fartura da sorte, até o mal
Parco e escasso do que era bom,
Mas que se firmava completo e integral.

Sobre ser feliz…
A última razão que quis foi derradeira,
De que, no amor que dá causa, não houve fatos reais.
Passado o tempo, as cinzas, as faltas,
Buscava a agastada braveza que lhe garantisse algo mais,
Além do somente mais.

Não queria ser apenas redundante,
Tal como os desacertos
Que não se acertam aqui, neste poema.
Pensou que a vida passa ao tempo, rápida, feito instante.
Sem momento para bobagens;
No amor, meias certezas ou verdades.
Feito o erro de quem imponha,
Ao poema,
Um trema.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 04/02/2019)

*publicado originalmente em 24/04/2019


Crédito da imagem: pixabay

Poeta

Por: Bianca Latini

Poeta

Poeta é tradutor de sentimentos
Poeta é contador de momentos
Poeta é peito que fala
Olhar que se encanta
Poeta é aquele que vê lirismo até no sofrimento
E desliza suaves rios de lamento
Poeta é mais do que escritor
É narrador de histórias
Confeiteiro de palavras
Bordadeiro de fragmentos, de percepções
Fotógrafo de reações e expressões faciais
Auditor de fenômenos naturais
Poeta é aquele que vê beleza
até mesmo na tristeza
Poeta é sensibilidade à flor da pele
É laçador de possibilidades
De um pingo, faz transbordar letras, encaixes, metáforas, trocadilhos, rimas, sonetos, versos, repentes, conectividade
Poeta é buscador de almas
Extrator de interiores
Cantor de frases arrebatadoras
Ainda que singelas
Poeta é pulsar de vida, do que se vê, do que se imagina
Do que se sente de olhos fechados
Poeta é aquele que põe tudo isso em linhas
E sabe que um texto, depois que sai da ponta do seu lápis, nunca mais será seu.


Créditos da imagem: pixabay

Por: Raquel Alves Tobias

Só aprende a amar
Quem foi verdadeiramente amado
Todo o resto é extensão invasiva
De eternos ciclos inacabados
Quando juntos dividem
Seus corpos num copo
Num gole, a dúvida.
No outro, o amargo.
E seguem assim:
Metade vazio
Metade a vácuo.
Consumindo a alma
Na saliva do prato.

Por: Victor Cabral

Que saudade da tua voz no meu ouvido
Esse carioquês safado, cheio de sibilo
Sotaque gostoso desse sorriso tão lindo
Cantam palavras pra minha libido

Desconfio que todos os meu atos são pretexto
Fruto de emoções pré-texto
Que se olhadas fora de contexto
Parecem querer te devorar em texto

Estou acostumado
Por isso continuo aqui, mesmo que calado
Mesmo que frustrado, a te olhar de longe

Crescendo ao teu lado
Crer, sendo enganado
Mas gostando da emoção


Créditos da imagem: o próprio autor (acervo pessoal).

Meu sonho de voar

Por: Priscila Menino

Meu sonho de voar

Sempre tive uma atração pelo céu, seja em contemplar a beleza das nuvens e o contraste com a imensidão azul, ou seja, em ficar horas e horas olhando pela janela do avião e observando a paisagem ficando tão pequena, ao ponto de parecer uma maquete que fazíamos na fase escolar.
Certa vez, em um súbito impulso de coragem, resolvi saltar de pára-quedas. Obviamente não avisei para meus pais, dirigi até o local do salto, coloquei aquela parafernália toda que nos garante as mínimas condições de segurança, mandei mensagem para meus familiares com pequenas orientações sobre a criação da minha filha e entrei no avião para me dirigir ao local do esperado salto.
Enquanto eu via que a distância percorrida ia aumentando e as coisas lá embaixo ficando pequenininhas, o medo surgiu na mesma proporção e pensei: “o que diabos estou fazendo aqui, tenho uma filha pra criar”, paralisei.
Pessoa após pessoa ia saltando daquela porta aberta, a qual somente se sentia o vento e não se enxergava nada, até que chegou minha vez.
Saltei, meio torta por tentar ainda buscar um piso que sustentasse meus pés, o que foi em vão e somente me trouxe ainda mais desespero.
Certamente se eu tivesse a opção de voltar dali, eu o teria feito.
Mas quando abri os olhos e a explosão de adrenalina parecia ter estabilizado, contemplei aquela cena tão linda, aquela sensação de liberdade que marcava de forma tão leve aquele momento.
Ali no ar eu vaguei meus pensamentos e me deixei levar naquela onda de paz que me atingiu em cheio.
Penso então em quantas vezes congelei por medo e não arrisquei saltar de cabeça em um sonho.
Que esse dia sirva de lição para mim, me lembrando sempre daquela estranha e vigorosa sensação da liberdade de não ter amarras, de me permitir desprender meus pés das certezas do chão, de me despentear e perder o receio do inesperado.
Se eu soubesse que ia ser tão bom, não teria esperado tantos anos para esse dia, eu teria (literalmente) me jogado antes.


Crédito da imagem: acervo pessoal.

Poemas Pálidos

Por: Diogo Verri Garcia

Poemas Pálidos (#repost)

Sorrateiramente, sem violência,
Poemas vêm e vão.
Como passagens de trem, como o verão.
Nem todos são vigentes,
confortáveis ou frequentes.
Há poemas que são pálidos;
outros, que são quentes.

Quando encorpam, avançam e arrastam
Feito forças do vento abrasivo, que é bravo.
Quando desandam, são blocos de verso
que não causam, nem intencionam.
Sem sabor, não tencionam furor, tampouco sucesso.

Mas quando empolgam, traçam bem o caminho
E tornam-se oportunos para quem os lê.
Quando inspiram,
Nutrem paixões que arrepiam.
Fazem o poeta parecer afortunado, face a quem o vê.
Mas depois, cansam:
de tanto repetidos, versos entediam.

Caminha o poema como receita instintiva
Que tem métrica, rima, etecetera e tal
Mas que de nada serve, sem quentura nem clima.
Porque se é só verso e rima,
Sem alma, não é poema;
Não é formal. Não é verso. É normal.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 04/02/2019)

*Publicado originalmente em 28/08/2019


Créditos da imagem: Pixabay