Mudança de Paradigma

Por: Priscila Menino.

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Mudança de Paradigma

De repente sentiu-se grata, sentiu- aliviada.
Parecia que ela voltava a vida após uma anestesia geral.
Ao retornar, começou-se a tomar consciência de ser dona de si. A única dona!
Se ela soubesse que sempre foi assim, se ela soubesse como se diminuía para se encaixar em padrões ou formas que eram pequenas demais para ela.
Aquelas gordurinhas da barriga já não causam mais tanto incômodo quanto causavam.
Aquelas marcas do tempo em seu rosto, agora são vistas como um atlas da sua caminhada e ela os olha com orgulho, como um diário vivido.
Agora a importância maior para ela é nutrir sorrisos e não mais medir o percentual de gordura.
Ela está se libertando, saindo daquele casulo que a prendia de bater suas asas e sair voando e pousando aonde quer que ela queira.
Observo e suspiro com alívio de saber que ela soltou o prumo, para tomar controle do seu destino.
Que linda e colorida desordem ela vive agora.
Como já disseram por aí: também pode haver muita beleza no caos.
O que para uns era visto como se ela estivesse enlouquecendo, para mim, ela está mesmo é se enriquecendo.
E eu não falo de valores palpáveis, eu me refiro é ao que ela vem ganhando na vida e da vida.
É tão sem preço, que é incomparável, se tem valor imensurável.


Crédito da imagem: acervo pessoal.

Manual do Amor de Sempre

Por: Diogo Verri Garcia

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Manual do Amor de Sempre

Ao pretenderes tratar
Ou falar a quem se gosta,
Não queiras mais se atormentar,
Compreender, tergiversar.
Para a sorte do teu bem,
entenda:
Não responder já é resposta.

Quem quer encontrar, dá sempre um jeito,
Não há razões, palavras, preceitos,
um nada
que justifique o sumir.
Se o amor tanto quer te falar,
Não há carga vazia em celular,
Tempo que é pouco, hora ruim
ou coisa alguma que lhe possa impedir.

Por outro lado,
Quando o amor tanto te custa,
Ou porque é fraco,
ou porque, de tão extremado, te assusta,
Perceba que estás no outro lado da regra.
Se de alguns amores tu gostas,
mas neles não encontras paz ou resposta;
Outras, que já te admiram tão mais,
Sonham a ti haver-se em entrega.

Então sinta que amor não é jogo,
É canto próprio para sábios,
embora tão mais propício a poucos;
mas que vem destinado a todos.
Onde seguimos todos nós,
em cada forma ou caminho,
a buscar sua metade outra.
É amor o que não resiste se só for compaixão,
Dele se exige, em perder, a aflição,
É querer em ter algo tão mais
A ponto de ser até capaz
De persistir por uma só e única boca.

Tudo,
que no acaso inicia
E tão bem vai,
No propósito de então ser feliz,
Passa-se a fazer feliz,
Sem esperar haver outra opção.
A vontade de se lançar em laços
natos, algo tão mais que irmão,
Por bem que não haja fraternidade,
É causa maior e indiciária de felicidade.

E mesmo em cada incerteza que bate,
É achar-se no dom
de ter na vida um afago.
Pois amor, mesmo quando acanhado, nunca é pouco,
Mas apenas tanto vale quando tem saudade própria,
Que se reproduz, pois tem fermento,
gera alguma cópia.
Então achamos, finalmente, na vida a simplicidade.
Amor, que é bom, é o bem maior
Que se compõe em amenidades.
Mas só quando é de verdade.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 05 de julho de 2020).


Créditos da imagem: pixabay

Raízes

Por: Bianca Latini

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Raízes

Do Norte ao Sul
Sou Mississipi Blues
Eu canto corrente
Com alma, sem patente
No plantio de algodão
Eu puxo a entoação
Assim inicio a minha música
Que fala sobre Liberdade,
horizontes sem restrição
Nesse embalo vou orando
Pedindo, ao Superior, Proteção
Para ser além da dor
Suportar os insultos, o desprezo
Sem igualar-me à insignificância
Que querem me fazer sentir
Se não importante eu fosse,
para que tanta algazarra visando manter-me
calado?
Eu sei que querem me emudecer
Por conta do tom alto que posso alcançar
Sem acústica
Sem assalto
Sem esforço empenhar
Esse tom vem de nascedouro
Da minha origem
Da minha história
Herança genética
Talhada em meu DNA.

Alerta de ilusão

Por: Raquel Alves Tobias

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Eu não me perco nos detalhes
Entendo cada minúcia deles
Falo por mim e talvez por milhares
Porque pessoas tem similaridades

Entendo a inveja, porque já a vi em mim
Entendo a raiva, porque já explodi
Entendo o desejo, porque o anseio.
E o gozo é sempre bom.

Como pesa o doar com receber
As palavras saem doentes
Dos olhos que não sabem ver
Repletas de dores, porque precisam doer

E cuidado quando sair por aí
Desavisado, torto, obnubilado
Cuidado pra não se perder
No jogo de luzes e sombras
A imagem quer ter você

R.A.T.


Créditos da imagem: pixabay

 

Me reviro (Autora Convidada, Camila Anllelini)

Por: Camila Anllelini (autora convidada)

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Me reviro

Eu me reviro pelo estômago,
pela conversa
afagada ou sacudida.

Busco longe,
cato letras embaralhadas,
desfaço os nós,
respiro fundo.

Preciso de palavra limpa
pra encontrar sossego.

Não sou das facilidades,
meu sorriso vem
do cansaço que
sobra do trabalho.

Ganho mundo de
pé no chão,
não me cativam os
contos de fadas.

Ando por aí lustrando
sentimentos,
que é pra ver se
mantenho alinhadas
as palavras e os passos.

Camila Anllelini

Tá’ tudo bem!

Por: Priscila Menino

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Tá’ tudo bem!

A verdade é que todo mundo já passou por um daqueles dias que não acordamos de bom humor e a vontade real é que a cama se transforme em um casulo de proteção. Falta a animação, falta a disposição e sobra preguiça.
E a culpa que sentimos quando estamos nesses dias, nos deixa ainda mais angustiados, afinal, a gente acredita ter vindo programado de fábrica pelo cosmos para produção em tempo integral, ou qual seria a nossa finalidade?
Mas não se deixe enganar por essa overdose de informações e exigências que recebemos todos os dias, não se cobre tanto, está tudo bem! E até quando não está tudo bem, também está bem, amanhã será um dia melhor.
‘Tá’ tudo bem se permitir não estar com a animação habitual de uma adolescente efusiva, está tudo bem ter vontade de gritar, está tudo optar por usar o jeans velho favorito, comungado com aquela camiseta surrada que você tem um apego emocional, está tudo bem se permitir não estar com a sobrancelha, cabelos e unhas impecáveis.
Por favor vamos parando com essa necessidade de acharmos que precisamos sempre sermos ótimas companhias e estamos alegres o tempo todo, a gente pode se dar o luxo de ficarmos reclusos no nosso marasmo, recarregarmos nossa energia.
Quando eu penso sobre isso, eu gosto de lembrar dos jogos de luta que eu jogava no vídeo game quando jovem (saudades Tekken 3) e já deixo antecipadamente registrado aqui minhas vênias àqueles que não estão habituados a esse mundo geek e podem não entender perfeitamente essa analogia.
Imagino que nesses dias que estou mais desanimada, minha barrinha de vida está no limite anterior ao game over, por isso, eu preciso de descanso e solitude pra recuperar meu ‘life’ e voltar ao jogo com força total para enfrentar os desafios e vencer as lutas.
Portanto, reafirmo: está tudo bem, não se cobre tanto! Amanhã será um novo dia, se permita voltar ao jogo com a força revigorada e não desista de sempre se preparar para vencer e evoluir para os próximos níveis do jogo da vida.


Crédito da imagem: pixabay

Poema à Paixão

Por: Diogo Verri Garcia

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Poema à Paixão

A paixão é cega,
Tanto assim desorienta.
Por isso há entrega de alguma voz à razão,
Que aquieta, em brados,
contra prantos fundos e largos,
no que reclama a emoção
E a assenta.

É fato deixar-se levar,
em meio ao ardor de uma boca.
É fácil até se entreter,
De tanta vontade,
A doçura do risco de se comprometer
Quando os olhos tudo dizem,
Menos coisa pouca.

Contudo, compreendo o risco
E da paixão me assisto,
E, assim, aquiesço, a observo
O quanto consome a alma,
E torna-nos incautos, sem paz,
À medida que faz
Ganharmos o mundo,
Mas perdermos a reta.

Por isso, haver na paixão suas reservas,
Não há nada triste,
não há nada de feio.
É tal aquele que,
quer que passe por onde,
Mirando o caminho que desce,
Obedece aos freios,
Na segurança de pretender bem chegar
E assim, não subsumir.
É por também querer estar
Ou tão só passar,
E haver-se
por ter tantos instantes
a se perder,
a sorrir.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 01 de julho de 2020)


Créditos da imagem: pixabay

“O tempo pára”, por Mona Vilardo

Hoje, completando 30 (trinta) anos da morte de Cazuza (07/07/1990), republicamos o texto “O tempo pára”, de Mona Vilardo, apresentado aqui em 4 de abril de 2020, data do aniversário do cantor e compositor.

Por: Mona Vilardo

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O tempo pára

Hoje terei que discordar do Cazuza, mesmo sendo seu aniversário.
Cazuza, preciso dizer que o tempo pára. E, estranhamente, parou no mundo todo, para todos nós. Mas, olha que curioso, no tempo que parou eu escutei o canto dos pássaros na minha rua, que sempre está cheia de carros e onde esse canto não tem vez. Que canto bonito tem o pássaro que voa por essas bandas de cá.
Com o tempo congelado, pude também ver que a vizinha da minha frente é uma senhora bem senhorinha mesmo, que todos os dias às 15h senta na poltrona de vime da sua varanda e olha pra frente, como se estivesse assistindo o filme da sua própria vida passar. Aliás, filme é o que mais se compartilha nesses dias de tempo parado. Nem sei se vou dar conta de assistir todos, porque o melhor seria se o tempo estivesse como antes, andando.
Será?
Bem, voltamos às coisas que tenho visto durante esse tempo estacionado.
Nesse tempo suspenso, pude perceber que o vizinho do outro prédio a minha frente é o cara que sempre tá no ponto de ônibus toda terça feira, quando eu também pego ônibus nesse mesmo ponto. Quer dizer, pegava, né? Com o tempo parado tudo é tão incerto, e os ônibus também pararam. Cazuza, você estava completamente enganado em afirmar que o tempo não pára. Ainda bem que você não tá mais aqui pra rebater minha afirmação. Eu, discordando de você? Desculpa aí!
Está bem, devo concordar que ando preocupada se agora é “Matar ou morrer”. É cada coisa que a gente pára pra pensar com o tempo imobilizado.
Desculpa, também discordo que “Dias sim, dias não, eu vou sobrevivendo sem um arranhão”, se você estivesse aqui não escreveria isso. Depois desse tempo estático, mais que isso, sem certeza nenhuma do amanhã, vai ser difícil ninguém sair sem nenhum arranhão, até mesmo os mais lúdicos e loucos. Eu juro que nessas horas “é melhor não ser um normal’ – manda beijo pro maluco beleza aí em cima, e avisa que tá puxado por aqui.
Ok, Agenor (olha, tô te chamando pelo nome de batismo), você venceu a batalha. Sua genialidade é muito maior do que a minha. Realmente é triste pensar que nesse tempo não vai ter beijo de namorada.
Antes de terminar, lembrei de uma coisa que você também tem razão: Eu não tô derrotada, saiba que ainda estão rolando os dados. E a caridade nunca se fez tão necessária.

Eu quero Gargalhar!

Por: Bianca Latini

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Eu quero Gargalhar!

Eles tentam abortar os meus planos e fazer-me enterrar o natimorto: meus sonhos
Mas eu recuso-me a fazê-lo!
Eles tentam me mostrar que sou tola, mirabolante, devaneante e insana
E não querem me permitir dançar meu balanço disruptivo e delirante
Eu não sei o que é delírio para vocês
Para mim, é tudo muito real, muito possível e totalmente dentro de cogitação
Eles tentam colocar em minha boca suas vozes e usar-me como ventríloquo
Mas eu sou atriz principal
Não sou fantoche, marionete, dublê ou background
Eu não ensaio
Prefiro ir direto ao palco, em arte livre e improvisada
Fica mais fácil dar risada que começa no dedão do pé e sai pela boca, pelas orelhas, pelas mãos e ecoa na plateia, de maneira não forçada
Eles tentam ser manobristas, guias turísticos, diretores de cena, maestros, cabeças de fila em brigada de incêndio, seguindo o plano de fuga
Mas quem disse que eu quero fugir?!
Eu quero fazer fogueira e aquecer essa vida fria e rotineira,
lotada de regras, dissabores,
conformismos, acomodações
Eu quero cobrir de brasa esse chão e deixar vestígios
Quero sair do esconderijo
Quero gritar aos quatro ventos
Ser ciclone de emoções
Fazendo chover o que precisa ir
Acolhendo o que intenta ficar
Sendo anfitriã para o que deseja chegar
Prazer, meu nome é audácia!
Minha profissão felicidade
Minha idade é a presença na qual escolho viver e prosperar.

A menina do velho tênis amarelo

Por: Priscila Menino.

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A menina do velho tênis amarelo

Naquela casa da esquina mora uma menina. Otimista como Poliana, ela cantarola desafinada, enquanto caminha com seu velho tênis amarelo.
Aquele tom atípico do seu tênis, reluz quando os raios de sol batem, ilumina onde quer que passe.
Seus olhos profundos e castanhos transmitem um olhar de acalento e o jeito desengonçado de caminhar é tão singular, é leve.
Pobre menina, um dia tiraram seu tênis amarelo, a luz que ele irradiava, incomodava aos que não gostavam do seu brilho.
A menina então parou de passar cantarolando, agora ela mantinha um olhar vago, faltava aquela graciosidade desengonçada, até no por do sol já não havia mais aquela aquarela costumeira.
Foi então que um dia a menina recebeu a visita inesperada de uma borboleta em sua janela. Observou atenta a leveza com a qual a criaturinha batia suas asas e a forma como a luz era translúcida em suas asas.
Curiosa como é, observou que a borboleta voou e pousou em um girassol igualmente amarelo reluzente.
Nesse momento, a pequena menina se deu conta de que o brilho e a magia não estavam em seus tênis amarelos, muito mais do que isso, o brilho irradiava do seu sorriso e da esperança que trazia com suas canções para aquela velha redoma da cidade.
Outro dia passei na rua, abracei a pequena grande menina e pedi que nunca deixasse apagar novamente seu rastro de cor amarela, pois ele me inspirava e trazia paz.
Ela, surpresa, me disse com um tom de voz doce e gentil que eu e ela somos uma só, pois ela era a criança interior que habitava em mim. Mais surpreendentemente, pediu-me ainda que eu não me esquecesse da simplicidade de colocar meus velhos tênis amarelos e me permitir dançarmos juntas.
Após esse dia, nos encontramos sempre nos finais de tarde para contemplarmos mais um por do sol juntas.