Sem cortes, sem edição

Por: Bianca Latini

Sem cortes, sem edição

No momento em que me permito
Os caminhos se abrem
As cortinas desabrocham e o palco se autorevela
Não é Carnaval
Mas abre alas, que eu quero e mereço passar!
Com passos firmes
De quem descobriu sua verdade
E não necessita ser perfeita
Maniquefeita, liquefeita, fulgaz
Agora piso no palco com a voz rouca
mesmo e bem desafinada
Apresento-me desajeitada , sem achar-me boa o bastante
Me sei suficiente e transportando vida
E vida é isso: atropelos, contramãos, acertar errando, errar imaginando precisão, ser pobre sendo rica e ser milionária sendo leve e desprovida…
De autocrítica, de piedade sobre o que eu ainda não sei
Eu falo para a plateia, mas não dependo dela
Aprecio sua presença, mas antes de tudo, falo para mim mesma, por mim mesma, para meu auscultar
Hoje sou alma liberta e entendo, inclusive, que não é só em palanque e tablado que se tem voz
O timbre longínquo sai pelo sussurro, pela conversa de bar, pelo papo despretensioso com um desconhecido, até mesmo pelo não falar
Hoje, quero seguir tirando, descascando,desvendando, experimentando….
Quero apenas me despir, me despelar

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Pexels

Por: Diogo Verri Garcia

A verdade é que projetamos circunstâncias, como se elas fossem resolver nossos dilemas. Mas nossos dilemas subsistem por si mesmo, e não em razão dessas circunstâncias. Eles apenas estão lá como um objeto que é visto em razão do desfoque por um vidro; mas, melhorado ou removido o vidro, o desfoque persiste, pois a questão não está no meio, nem no objeto, está na lente.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 29/09/2021)


Créditos da imagem: Pixabay

Por: Raquel Alves Tobias

Olá outro a quem não quis feliz.
Olá outro com quem competi.
De tanto ver-me em ti, repeli.
Refleti sombras entre opostos
Entre carne e ossos expostos
Esvaziando-me de mim,
perdi-me, assim.
Encontrei a falta.
e faltei.
Chegando ao ponto em que comecei:
nua, vazia e cheia de choro.
Apenas em busca de consolo
da imagem que construí.
Bebendo as perguntas
engolindo as respostas
como água do mar.
Gota a gota a secar
esperando no mesmo lugar.

Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Pinterest

Bem diante do nariz

Por: Bianca Latini

Bem diante do nariz

Você procura incessantemente o Amor
Sem nem se dar conta de que você já vive o Amor todo dia!
É que ele não está emoldurado como os anúncios e propagandas estereotipadas que te venderam
Você foge do medo, mas vive o medo a cada minuto, quando deixa de fazer algo por receio do que vão pensar, do que vem pela frente
Apegando-se à máxima de que é melhor um pássaro na mão do que dois voando
Te digo que é melhor, não dois, mas todos os pássaros voando
Desengaiolados, sorridentes, ensolarados!
E não só os pássaros: você também precisa voar e não se ter nas mãos de alguém ou do destino
Você é seu destino, seu porto-seguro, seu manancial
Tá tudo aí!
Você diz não ter sorte, mas você é a própria sorte, que germinou, brotou, viveu, cresceu e segue com infinitas possibilidades de evoluir
A cada instante, a cada escolha, a cada soltura e desapego, a cada tentativa e erro
Você diz não ter potência, habilidades, virtudes ou muitas qualidades…
Então eu te pergunto: quantos anos tens?
Como chegou aqui?
Como está íntegro, sadio, robusto até este ponto da jornada?
Olha pra trás! Recapitula, volta, reconta, refaz
Parece que foi ontem, mas há muitas páginas pra trás
Desfaz a autocobrança, a rigidez, a insensatez
Desmistifica, simplifica, desacelera e não emperra na rota do devaneio
Limpa a visão turva e vê o que está bem no teu parapeito
Rasga da tua mente as imagens fabricadas, as histórias mal contadas…aquelas que quiseram te colocar pra dormir pra sempre…
Acorda! Viva!
Este segundo agora
A manhã nublada
Admira a margarida que brotou no meio da calçada
Agradece teu nariz torto que te garante uma perfeita respirada
E, simplesmente, desvincula-te do “conto de fadas”.

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Pixabay

Passarinhar

Por: Juliana Latini

Passarinhar

A observação de pássaros traz muitos benefícios, dizem os estudiosos no assunto.
É uma boa oportunidade para relaxar e se conectar com a natureza.
Às vezes, estou tão agitada que espanto os pássaros. Outras, estou tão distraída nas ocupações diárias, que mal posso percebê-los.
Mas, quando decido parar e observá-los, algo gracioso acontece.
Sinto o encantamento.
Silencio-me para deixá-los ser o dono do pedaço e me acalmo.
Aos poucos, vão se aproximando:
Sanhaço, Bem-te-vi, Viuvinha, Cambaxirra.
Cada um com o seu canto, forma e estilo.
Como namoradeira na janela, assisto a esse espetáculo.
Desligo-me de tudo por uns minutos.
Até que sou desperta pela chegada do Quero-Quero.
Com seu canto forte e estridente. Seu penacho e toda a sua pompa de peito estufado.
Seu porte até me remete à postura das Garças.
Um dos significados do nome Quero-Quero é querer bem ao próximo e querer bem a si mesmo.
Respiro fundo e um pensamento repousa em minha mente:
“Preciso estar bem, para fazer bem ao próximo.”
Lembro também daquele versículo:
“Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta”.
Sinto paz.
De repente, escuto o som do Gavião.
Amo todos os pássaros, mas tenho uma paixão especial pelos Gaviões.
Eles me ajudam a despertar e me fazem olhar mais alto.
Eles me transmitem força e garra.
Só em escutá-los, lembro que preciso seguir em frente,
enfrentar os desafios e perseverar em conquistar os meus sonhos elevados.

Juliana Latini


Créditos da imagem: Pexels

Afinal, o que é O Tempo?

Por: Bianca Latini

Afinal, o que é O Tempo ?

Afinal o que é O Tempo?
O tempo somos todos nós
A inconstância
A impermanência
O tempo é como lidamos com o presente
Como gerimos nossas prioridades
E o que fazemos do agora
O tempo é a precisão com que dizemos sim e não
É o quanto somos nós mesmos
O tempo é a qualidade do que fazemos neste minuto
E o quanto isso significa de verdade para nós
É sobre nossas crenças, nossa história
O quanto sabemos lidar com a espera
E o nosso grau de flexibilidade
O tempo é a nossa inteligência emocional
Nossas reações ao exterior e ao nosso Eu persona
O tempo é como nos relacionamos com o mundo e com os fatos
É como lidamos com o silêncio, o vazio, a escuta
O tempo é sobre como fazemos transições
Como escolhemos posições
E como identificamos as emoções
O tempo é o quanto estamos vivos
E o quanto estamos mortos

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Motivação

Por: Mauricio Luz

Motivação

Sou eu quem escreve a poesia?
ou é a poesia quem me escreve?
O que acende meu coração, toma minhas mãos
E as guiam nas trilhas de uma folha em branco
Entre as linhas retas
E entrelinhas diretas
De versos desalinhados?
O que me faz navegar entre certas palavras
Sentindo as palavras certas
Para descrever que não pode ser descrito?
É um desejo, uma força, um chamado
De compartilhar meu Universo
Um dimensão onde sou deus e escravo
Homem e menino, amante e inimigo
Fragmentos de sonhos e experiências
Engarrafadas e atiradas no oceano da vida
É uma sede, uma vontade, um grito
De preencher o vazio infinito
De erigir pontes e caminhos
Vencer o abismo que separa
O seu mundo e o meu

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Próximo trem

Por: Bianca Latini

Próximo trem

Aqui dentro jaz um ruído
Jaz um zumbido
Uma inquietação
Uma queimação
Uma ruminação
Onde foi que terei me perdido?
Onde errei na mão?
Venenos destilados
Sabotagens
E nada de automassagens
Só vejo ruas sem setas
Esquinas sem placas
Cruzamentos sem semáforos
Armários sem roupas
Mentes sem organização
Tá tudo ruindo e eu não me acho
Tá tudo caindo e eu não me encontro
Eu? Quem? Quem sou?
Onde pego o próximo trem?
Só ano que vem?
Mas eu preciso ir agora!
Estou de partida
Só não sei pra onde, se com passagem de volta ou somente de ida
O negócio é não ficar parado
Afinal, sempre me disseram que quem empaca é burro, não é mesmo?!

Queres ser astuto?
Então, uma coisa te digo:
Fecha boca, pois em boca fechada não entra mosquito
Abre o peito, respira
E escuta com a boca dos pensamentos fechada também
Fica dentro, que logo você pega o próximo trem.

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Templo

Por: Mauricio Luz

Templo

Suas folhas formam um tapete
No qual meus pés caminham com reverência
Sento-me à sua sombra
Olho para as flores que enfeitam sua copa
Um convite, um chamamento
Às abelhas e marimbondos que passeiam no jardim aéreo
Um pássaro chega. Ele escolheu seus galhos
Para abrigar o berço de um novo milagre que virá
Sinto seu tronco, a firmeza com que se finca no solo
E o vigor de como se lançou no espaço
Confiante nas asas forjadas nas suas raízes
Logo seus frutos virão
Doces úteros no qual a vida se faz presente
De onde veio?
Como chegou aqui?
Que profundo mistério o fez crescer?
O que o faz combinar os elementos em uma sagrada orgia
E trazer a vida ao mundo?
Que o fez sair da pequena semente
Para a folha que cai serena, acariciando minha fronte com um terno beijo?
Ah! Cegos aqueles que veem o sagrado apenas no altar
Impossível se enxergar além do que se deseja ver!
Loucos aqueles que limitam o Universo às suas razões!
Jamais serão capazes de ouvir a oração sussurrada
Eternamente entre as suas folhas ou na própria respiração
Outra folha me beija, trazendo consolo em seu toque
“Esqueça-os, poeta!” – Você me diz – “Esqueça-os!”
“Ou não se lembrará que você também é mistério!”
“Viva o momento com doçura. Conceda sua sombra e frutos sem escolha”
“Pois todos mergulharemos no desconhecido”
“Mas apenas aqueles que sentiram o valor da vida”
“Estarão prontos para o abraço da morte.”
E no templo de folhas, seiva, flores e frutos
Ouço o som do milagre, do desconhecido
Que une todos os seres em apenas Um
De onde veio?
Como chegou aqui?
Que profundo mistério o fez crescer?
Uma folha cai. Um pássaro canta.
E eu sinto.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Refestelar-se

Por: Juliana Latini

Refestelar-se

Sei que o mundo não está nada fácil de viver.
Mesmo nesse turbilhão, busco parar e meditar.
Sair do automático, sentir a respiração,
Ouvir o coração bater.
Mudar a perspectiva e experimentar a gratidão pela vida.
Nessa nova frequência, surge uma luz que gera prazer, bem-estar e plenitude.
Em situações simples do dia a dia, aprecio cores, sabores e conexões.
Admiro com alegria o voo de um pássaro.
O brotar de uma planta.
O nascer do sol.
Um sorriso sincero.
Um abraço apertado.
O pé na terra.
O cheiro do café perfumando a manhã.
Quando desfruto, não me frusto.
Não há espaço para desgosto, quando sinto o gosto de viver.

Juliana Latini


Créditos da imagem: Unsplash