Zelo constante

Por: Bia Latini

Zelo constante

E a cada desalinho
Falta de cuidado
Descuido de carinho
O pássaro vai ficando
Sem ninho
A balsa começa a perder o prumo
O amor inicia a prosa sem rumo
É a planta em processo de desidratação
É preciso o olhar com densidade
Sutileza, sensibilidade
Para perceber o detalhe
A mão colocada no ombro
Aquele sorriso no olhar que afaga, acolhe, entende e recebe os outros olhos, que não proferiram um só verbo, mas quiseram dizer tudo
O zelo é vigília constante
Ele se faz pavão não é na multidão
Mas no miudinho
Naquela pitada de sal, açúcar, cominho
No ingrediente secreto, que é diminuto
e o mais arguto
Transforma o prato no majar dos deuses
Efiteuses de agregação
De que adianta extremidades pomposas, graciosas, alardeadoras de afeto
Se o recheio do entremeio não é repleto?!
Falta dialeto, protocolo, duto, afago, olhar sincreto
Ei! Faz-se no pequeno!
Deita na rede do dia a dia e embala suas palavras na doçura, na ternura, na desabotuadura
Que seus gestos sejam colo, parapeito, escada, corrimão
Que seu corpo seja sombra pro outro
Naqueles dias mais quentes de verão.

Por Bia Latini


Créditos da imagem: Pexels

MAR EM ORAÇÃO

Por: Diogo Verri Garcia

MAR EM ORAÇÃO

Seja forte, como o mar é forte,
Mas te amolde e te quebre como as ondas que batem.
Seja leve, como o mar é leve,
Com ondas breves, como as que rompem a tarde.

Seja bravo e te defenda do argumento,
Quanto te calarem o pranto e te pretenderem agonia.
Seja estupendo, feito o mar em tormento,
Se te transgredirem a luz, não permaneças em calmaria.

Veja a onda que explode e prensa o rochedo:
Seja fereza sem raiva; tem equilíbrio, tem paz.
O mar que alimenta e refresca: é servidão sem medo.
O mar que retira, repõe – nas ondas de leva e traz.

E quando o sublime solar pelo céu se exaltar,
Seja como o mar e reflita a luz que lhe toca.
Se acerque dos que te doam a paz sem te cobrar,
Tal qual um corpo de água salgada,
Que se cerca de terras nas bordas.

Mas se o céu te parecer mais cinza,
Não o espelhes na dúvida, olhe para o mais profundo de ti.
Não te tornes pedante, descrente ou ranzinza.
E te acalme: contenha-te do furor, do desamor, do frenesi.

Seja leve, como o mar é leve.
Feito as águas que chacoalham ao vento,
E que repousam tão logo a brisa pausar.
Trazem paz alheia ao amalgamento.
Seguem mansas e resilientes.
Sem apatia, são benevolentes.
Fortes e calmas, bem sabem:
Tudo tem o seu tempo.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 16/08/18).


Créditos da imagem: Pixabay

Percebendo caminhos

Por: Bia Latini

Percebendo caminhos

A luz sempre acha seu caminho
Rosa, espinho
Pergaminho sem escrita
Uma letra a cada passo
Um infinito sem trajeto reto
São curvas, montanhas, vales
A cada novo olhar, um cenário é materializado
A cada percepção,
A cada entendimento,
A cada clareza, desvendagem: a sua passagem
Um tijolo de paralelepípedo para cada etapa
E assim, o trajeto vai se construindo alí, naquele instante
A cada bifurcação, autoaceitação
A cada tirada de venda, de casca, de roupagem…
Ruas, arandelas, arcos, pontes…
Monte Sinai
Seu tempo, seus argumentos
Seus monumentos vão ficando pra trás.

Por Bia Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Viva o circo! – Parte 2 – Algo sobre nós…

Por: Bia Latini

Viva o circo!- Parte 2 – Algo sobre nós…

Como deixamos sair esta voz que há dentro de nós?
Esta Voz que sai rouca, fininha, tímida, mansinha
E às vezes nem sai?
Essa voz potente que veio brotando na gente
Crescendo que nem semente
Muitas vezes nem se sente…
E quando se percebe
Estamos com uma energia acumulada, uma insatisfação, uma busca desenfreada
Uma necessidade de fazer coisas
E nada satisfaz!
Como libertamos essa leão criativo que quer rugir?
Essa borboleta do tamanho do mundo, com asas imensas e coloridas, que quer valsar pintando pelos ares da vida?
Como desabrochamos nossas abotoaduras, para deixarmos sair tamanha potência que cresceu em nós?
Um libido, um algo proibido, um estrondo, um cupido, algo grande demais…
Sugeriram-nos ser simples, discretos, a guardar nossas opiniões nos bolsos, a calarmo-nos, a ficarmos na nossa e a não pagarmos mico
Daí a gente não paga mico, o mico cresce e vira gorila enjaulado
Enclausurado
Na masmorra do tanto faz
Libertemos nossos gorilas, nossas borboletas, nossas bailarinas, nossos malabaristas, nossos palhaços e o circo inteiro!!!
Ergamos esta lona cansada,
Agora mofada, desbotada
Deixada pra trás
O circo continua vivo em nós!!
Ele sempre esteve!
É o nosso Eu criativo, sinestésico
Nosso Eu artista
Que tira uma carta mágica da cartola
Pinta uma tela em branco
Desfaz qualquer quebranto
Chora e ri sem nenhum espanto
Morre e vive
Nasce e morre
Conta, reconta, refaz
Reconstrói
Às vezes destrói…
Mas faz parte do processo….
No final de tudo, a lona está de pé!
Cheia de colorido e diversidades
Com muita história pra contar, muitas jornadas, itinerários, excursões pra fora e, principalmente, pra dentro
Há muita vida no epicentro do picadeiro da nossa essência pulsante
Viva o Circo!!

Por Bia Latini


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O difícil e necessário equilíbrio

Por: Priscila Menino

O difícil e necessário equilíbrio

A vida é agora, não amanhã, não depois do almoço, é aqui e nesse momento.
Quantos sonhos a gente deixa isolados e esquecidos, tal como aquelas anotações que esquecemos no bloco de notas do celular.
O medo de não conseguir nos impede até mesmo de tentar.
A necessidade de uma perfeição utópica, nos impede de fazer acontecer e precisamos aprender a conter isso.
Mas também devemos ter cuidado com a auto cobrança excessiva, tudo vai acontecer no tempo que for pra ser.
Não adianta tentarmos correr antes de caminharmos, como dizem os clichês por aí. Mas faz sentido!
O verdadeiro desafio é equilibrar a busca por conquistar nossos sonhos, com o tempo e paciência que a caminhada nos exige.
Em tempos de agilidade em tudo, é necessário dosar nossa ansiedade e força de vontade.

Por: Priscila Menino


Créditos da imagem: Unsplash

Aos viventes

Por: Bia Latini

Aos viventes

A vida é
Perder para ganhar,
Abrir mão para conquistar
Viver, fluir, celebrar
O que viemos aprender aqui?
Que rota tomar?
O quanto se perde, para se achar?
Do que se está fugindo?
O quanto se mergulha e põe a cabeça na água?
Quem vive mais?
Os mais sãos ou os mais loucos?
O que é a loucura?
Qual a melhor parte da fissura?
Romper é atestar a vida
Fazer alquimia, comprovação do que parece etéreo
Chacoalhar para sentir o frisson
Ruir pra renascer
Bailar, secar, morrer
Depois brotar com força total
Fazer dos aprendizados Carnaval
Ao que deve ir: vendaval
Aos miseráveis: a luta
Aos sapientes: investigação, dor, alegria
Aos que vivem de passado: nostalgia
E aos que apenas vivem: presente!

Por Bia Latini


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Por: Raquel Alves Tobias

Tomar um banho demorado
Ver a superfície marmórea do box embaçado
Dentre milhares de gotículas, lado a lado
Escorre a memória de uma história

Escuta, escuta…
A água que cai nas mãos faz-se poça
Guardada, por respingos evapora
Enquanto turva com fumaça o querer ver

Aquece, aquece…
O corpo que pede corpo sente a flama
Derrama chão a dentro toda a lama
Lavando da pele a oleosidade suja

A probabilidade afogou-se em desejo
E escorreu pelo ralo.

Raquel Alves Tobias


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Cartas: por isso escrevo.

Por: Bia Latini

Cartas: por isso escrevo.

Cartas são pontes
Içam
Elevam
Aterrissam
São guias, caminhos
Até o lado de lá
Cartas unem dois pontos
São contos
Reverberação
Aproximação
São vozes de longe que sussuram no ouvido
Materializam pessoas, sentimentos, perfumes, semblantes, gruinhidos
Cartas são abraço, lágrima bem salgada
Choro, riso
Palavras de arrepiar
Segredos
Motivos
Cartas suavisam a defasagem da ausência
Criam presença, concomitância, sincronia, vivência
Cartas são teleféricos de papel
São aquelas malas de viagem que separamos para levar souvenires, bugingangas
Pombo correio
Tatuagem
Elaboração, seleção, entrega, autorização a si mesmo e para poder contar
Cartas são o seu remetente
Que sente
E quer compartilhar

Por Bia Latini


Créditos da imagem: Pixabay

Por: Mauricio Luz

Ah, Mistérios sem fim!
Cercado de brumas por todos os lados,
Eu me engano, me iludo!
Afirmo saber mais do que realmente sei,
A ilusão da flecha que se acha livre
Após ser lançada do arco.
Ah, Deus!
Se Tu realmente existes,
Não me dê prova de tua existência!
Seria como o Oceano mostrar ao orvalho
Sua imensidão e profundidade.
Mostra-me apenas como ser uma gota
Que sabe onde chegará,
E flui para seu destino.
Pois o final de cada gota é chegar ao Oceano infindo
E assim tornar-se também infindável.
Dá-me sabedoria para aceitar
Porque algumas gotas chegam antes
E outras depois.
Que algumas se vão muito cedo,
Outras tão tarde.
Ah, Deusa!
Não me mostra se és homem ou mulher,
Flor ou espinho.
Se és tudo isto,
Ou o nada que é o todo.
Apenas mostra-me como ser uma gota!
Incansável na busca,
Imparável na jornada.
Mostra-me o ponto de chegada!
Um dia lá estarei.
Meu caminho não será reto;
Que seja pleno de curvas e reentrâncias,
Onde refrescarei a garganta dos sedentos.
Também me unirei à seiva da planta,
Para saciar a fome de outros iludidos.
Mostra-me como ser gota,
Que sabe seu destino mas não se furta,
De se entregar pelo bem 
de quem precisa de sua fluidez.
Quem sabe assim não alcançarei
A verdadeira essência dos mares que vou mergulhar?

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Nebulosa incessante

Por: Bia Latini

Nebulosa incessante

Eu tô caindo sim
Mas não quero me escorar
Eu tô caindo
Deixa eu despencar
Eu tô chorando
Deixa eu me debulhar
Quero cair gritando, grunhindo, expurgando, ruindo
Eu quero esfacelar
Deixa eu entender cada grãozinho
Cada movimento e ausência de ação
Quero construir o meu perdão
Meu auto perdão
Não quero corda, linha, nem varinha de condão
Deixa eu saber voltar da contramão
Larga minha mão agora
Eu sempre busquei todas as mãos possíveis e até as inviáveis
Agora, tudo o que preciso é me permitir ao abismo
Sem exatidão, sem proteção
Deixa eu cair sem saber cair
Eu tenho que me autorizar ao processo
Sempre quis alcançar a linha de chegada
Sem percorrer minhas maratonas
Eu olhei pro céu e mirei as estrelas mais brilhantes
Neste exato momento, preciso apenas viajar nessa nebulosa incessante.

Por Bia Latini


Créditos da imagem: Pixabay