Os melhores “piores”

Por: Bianca Latini

Os melhores “piores”

Eu agradeço por tudo que entra e sai do meu caminho
Agradeço pelo que permanece
Agradeço pelo que se esvai e pelo que não perece
Agradeço o coxo, o riso, o são, o adoecido, agradeço ao que ” deu errado” e o que se sustenta sadio
Agradeço a farpa no dedo, o cisco no olho
Agradeço às intempéries, à revolta e o seu consequente mergulho na minha zona cinzenta e sombria
Agradeço o que me traz inquietude, curiosidade, insatisfação e gera reclamação
Pois estes são puro clarão de uma não decifrada ruminação
Agradeço pelo que não sou e pelo que quero me tornar
Agradeço às descrenças, às desconfianças, à fé oca
Que me fazem perceber que potes ainda devo encher
Agradeço ao prego não pregado, ao martelo ainda não achado
Ao caso não solucionado e ao conselho não escutado
Agradeço pelos melhores “piores”
Pois sabe o que é o melhor??
O que vem para gente:
Situações, coisas e pessoas
Que nos fazem entender quem somos nós
O que nosso peito sente enquanto semente Convidam-nos a olhar para dentro
e assim saborear a vida, a brindar a autoconsciência: esta que nos revela a ciência de nós mesmos
A festejar os aceites e as acolhidas que nos catapultam para inesperadas transformações e holísticas percepções.


Crédito da imagem: pixabay

Por: Victor Cabral

Tu nem sabes o que sinto de ti
São tantos presentes que, passado, perdi
Pensando o motivo por qual não te segui
Fiquei perdido pelo caminho

Acho que te fiz mal em não me decidir
Aguardei que a vida fizesse por mim
Se ontem soubesse que hoje é assim
Seria mais homem, menos menino

Não vejo sentido em tentar redimir
As ações de um eu que não vive aqui
Espero que faça sentido

A culpa é motivo pra não desistir
Haverá ser em vão tudo que vivi?
Que meu erro não seja sempre repetido


Créditos da imagem: o próprio autor (arquivo pessoal)

Desafio

Por: Bianca Latini

Desafio

O que você quer me dizer
Com sua aparência de dificuldade?
O que há por trás da cortina
do que eu penso ser azar, infortúnio, injustiça, maldade?
Qual é o seu convite para mim, neste instante?
Que óculos devo vestir para, enfim, enxergar o que pretende me escancarar?
Por trás da lamúria, esbravejamento, zanguices, lamentação
Hei que descobrir a lição do dia
O trabalho interno deste momento
A caixa que preciso abrir
Para depois, verdadeiramente, fechar
O tom que devo corrigir
Para, enfim, cantar
As feridas que necessito expor, para, ao final cicatrizar
Os obstáculos que tenho de vencer
Para, de fase, passar
Não, não é um jogo de competição!
É o jogo da vida
O propósito da evolução
Ser melhor do que ontem
Discernir sombra e luz
Bordar estudos de viabilidades
Abrir caminhos para as possibilidades
Fazer o expurgo, filtrar, clarificar, transpor, Ultrapassar
Olhar pro avesso e ver que ele é o certo visto de outro ângulo
Entender que o manancial
Sobrevém o meandro
Superar a si mesmo
Abrir os seus baús
Revirar as suas gavetas
Livrar-se de suas pesadas maletas
Fazer faxina interna paulatinamente
A cada etapa, suas sujeiras
A cada limpeza, ultrapassada uma barreira
Até que o campo volte a ser estéril
Inóspito de vermes, entulhos, bagulhos que não nos servem, mas serviram…
Como caminho de busca
Jornada de procura
Motivo de incomodação

E assim, você, meu caro amigo disfarçado,
É trampolim da minha existência
Envergador da minha resistência
Soldador da minha resiliência
Construtor de paciência
Libertador das minhas limitações
Escada para meu aprimoramento
Rumo, não à chegada,
Mas ao ponto de partida
À gravidade zero
À Original Programação.


Crédito da imagem: pixabay.

O grande mistério

Por: Bianca Latini

O Grande Mistério

Eu sou eterno viajante
Eterno buscador
A jornada nunca termina
A vida é um mistério
E nós somos a magia
Somos gota no oceano
Folha na Floresta
Somos a vida em festa
Presença
Inteireza
Transformação
Raiz, terra, elucidação
Somos água, sede, manancial
Somos fogo, calor, acolhimento
Somos ar, respiração, ir e vir
Ventania, calmaria
Somos tudo e nada
Eu e nenhum
Somos campo, povoamento,
Vácuo quântico


Créditos da imagem: pixabay

Pinceladas do Tempo

Por: Bianca Latini

Pinceladas do Tempo

Tem tempo de parar
Tempo de começar a andar
Tempo de ser espera e enaltecer paciência
Tem tempo que é para apenas tomar ciência
Tempo de ouvir e os lábios costurar
Tempo que é só para brincar
Tempo de deixar o tempo rolar
Tempo de deixar a cachoeira secar e depois aproveitar a cheia, a corredeira, a rolagem de barreira
Tem tempo que é tempo de pedir tempo
Tempo de doar tempo
Tempo de ser remédio, tempo de ser veneno para erva daninha
Tempo de ficar consigo sozinha
Tempo de bordar
Tempo de remendar
Tempo de costurar
E tempo de libertar todas as costuras do bastidor
Tempo de fazer furor e festejar todas as primaveras
Tempo de fazer lampejo
Tempo de brindar eras
Tem tempo que é tempo de cochilo
De olhar pro vazio
E depois sair preenchendo os espaços penetráveis
Deixando intacto os intocáveis
Tem tempo de adentrar em novos horizontes
E construir novas pontes
Tempo de fazer travessias e esgotar seu vigor físico e maestria mental
Tempo de enfrentar o vendaval
Tempo de não ter medo
E tempo de se render as vulnerabilidades
Tempo de acarinhar todas as saudades
Tempo de espantar as tristezas
E tempo de acolher as cinzentas incertezas
Nelas fazendo morada, esperando as obscuridades fazerem clarão
Tempo de tecer tempo
Ou esquecer dele
Por que não?!

Por Bia Latini


Crédito da imagem: pixabay

Por: Victor Cabral

Várias voltas à meia luz, sua boca rosa
Os ruídos cinzas, suas unhas em minhas costas
A fumaça leve e a força da (nossa) gravidade
Registros de baixa fidelidade

Trinta e três por minuto, suada revolução
Entrego a ti o controle e a direção
Toca-me as notas que mais te satisfaz
Cantemos as belas odes, capaz

De você me deixar sem fôlego
Perna fracas, andar tropego
Deixa-me deitar um pouco mais

Domina-me em vestes de vinil
Em torpor quase febril
Quero teus sons um pouco mais


Créditos da imagem: próprio autor (acervo pessoal)

Amor e seus sabores excêntricos

Por: Priscila Menino

Amor e seus sabores excêntricos

Acho que posso me atrever a dizer que nosso amor é como aquelas improváveis combinações de comidas excêntricas, tipo misturar macarrão e feijão.
Quem está de fora, acha nojento e improvável a mistura.
Não assumem, mas tem um vontade enrustida de experimentar uma combinação ousada assim.
Quem já experimentou e não gostou, criticará o nosso gosto peculiar e sairá por aí dizendo que não vale a pena nem tentar.
Mas, enquanto isso, nós dois estamos aqui com nossa improvável aventura culinária que deu certo e se encaixou perfeitamente no nosso paladar. Nos apetece.
A gente, em primeira impressão, estaria encaixados em mundos opostos, com valores calóricos distintos, formatos, modelos, cores e tamanhos anatomicamente antagônicos. Mas quando a mistura aconteceu, ali surgia uma combinação tão nossa, tão atípica, tão cheia de sabores, que não há mais como se apartar.
Há quem olhe até hoje e diga que a combinação não tem qualquer lógica ou chance de vingar, pobres tolinhos, mal sabem eles como a gente é feliz com nossa combinação descombinada e saborosa. Tomara que tenham sorte de encontrar o sabor que agrega amor original no tempero deles, pois, afirmo, vale a pena!


Créditos da imagem: pixabay

Silêncio

Por: Bianca Latini

Silêncio

Essa mordaça da paz
Que faz calar a palavra contumaz
Aquela que sozinha nunca satisfaz
E é antecedida por julgamento, pensamento,
Insensatez
Aquela que, nos seus atropelos,
Estilhaça, destrói, corrói, divide, separa, gera hiato, abismo, penhasco
O silêncio vem embalar, ninar, cantigar
No deserto da calmaria
No horizonte do preenchimento
Sentimento de pertencer…
ao quieto, ao nada, ao vazio
Solitude, magnitude, completude
Você e você mesmo
Sem som
Porque este não é preciso
O silêncio fala com sabedoria
Sem dialeto
Sem secreto
Apenas nos faz sentir
Que a ausência de fonema
É a presença de tudo.


Créditos da imagem: Pixabay

Por: Raquel Alves Tobias

Passe, passe e impasse.
Passo o passo em impasse.
De passo em passo,
Passadamente
Passa
Mas apressa-se
A posse do passe.

Que pausa
Em pose.
Um close.
O reflexo
E o adeus.

Passa o passo em passe.
Que, então, passarás
Em paz.


Créditos da imagem: pixabay

Por: Victor Cabral

Faz semanas que eu não te vejo
Que não sento um pouco, paro e te escrevo
Te juro, não é falta de vontade nem desejo
Só precisava de um tempo pra não te ver a cada mirada no espelho

Como um corte que coça ao se fechar
Deixa a cicatriz como lembrança
Mas a lâmina ainda dentro do peito
E o coração dançando colado na ponta da lança

Não há sossego que dure nem tempo que cure
Essa vontade de ter você
A aceitação traz entendimento

Não já motivo que mude
Nem vela ou reza que ajude
Já não carrego nenhum arrependimento