A Hora do Só

Por: Diogo Verri Garcia

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“A Hora do Só”

Quando apressa-se em achegar a madrugada
Em que me finjo aos outros desfraterno,
Pois não há mal que faça um ruído, um nada.
Permaneço só, privado da distração malfamada,
Pois é nesta hora apenas
que tenho no silêncio um subalterno.

Diferente de quando toca a alvorada
E tudo mais insiste em dizer: – é dia!
O zelador que canta, o cão que persiste e ladra,
Até o vigário que, sem culpa alguma, Deus lhe valha,
Faz em minha porta romaria.

Até quem nunca, por razão alguma, me chama,
Insiste em fazer-me atender telefonema.
Assim, as horas voam, com sol lá claro,
E eu, já tão aprazado,
Aguço-me em ver a distração que é a menor dentre as pequenas.

Por isso, quando tudo se cala
E o céu sente sono,
Anoto: ter café vale igual a ter palavras.
Estando madrugada,
Sinto-me como se um minuto fosse longo; que a pressa desse abono.
Quando antes, ainda claro,
Cada segundo me calava.

(Rio de Janeiro, 09/12/19, 2h05)


Créditos da imagem: pixabay

A Torre de Livros

Por: Diogo Verri Garcia

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Prezados leitores,

Atrasado com a publicação da última quarta, publico hoje, domingo.

(A torre de livros)

Quando se guardam livros a mais,
Sem saber que, dentro deles, mais e quais palavras há,
Tornam-se questões pendentes.
Que cada vez que mais livros chegam,
tomam ainda menos ar,
São comichões, que há nas palavras a querer falar,
Mas que se calam,
Em folhas já resilientes.

Elas sossobram e emburrecem,
Comportadas como meras tintas,
tratadas como nada distintas e fechadas em breu.
Das folhas que amarelam e esfacelam-se.
Oxidam,
frente ao incauto que não doou nem leu.

Tanto quanto há algo mais a ser lido
Mal de guarda há…
Feito quando se guarda amores de mais de um colo,
Pretendendo ter a todas sorridentes.
Sente-se conteúdo, pelas palavras que sabe falar.
Mas pelas que estão paradas,
Nas estantes, a esperar,
Poderia ser continente.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 08/12/2019)


créditos da imagem: pixabay

Nutriente (Bianca Latini, autora convidada).

Por: Bianca Latini.

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Quero juntar minhas cinzas
E nelas ressurgir
Sentir as minhas dores
E nelas me curar
Desentupir minhas veias
E meu sangue drenar
Canalizar meu rio de pensamentos
Para o melhor mar
Tocar os pés
no chão úmido da floresta
Experimentar o orvalho em minha pele tocar
Quero falar manso
Ouvir as águas
Sentir o vento
e o sol em meus tecidos penetrar
Quero fazer fotossíntese
Nutrir-me e reciclar
Trocar gás carbônico por oxigênio
Quero ser EU a própria floresta
Fonte de recursos naturais
Verdes, cores, sensações, texturas
Biodiversidade em festa

(Bianca Latini)


Créditos da imagem: pixabay

Acima das Nuvens

Por: Thiago Amério

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Acima das nuvens

Por cima do céu
É tudo azul e branco
Tipo Nossa Senhora
Que enxuga o pranto

De dia as nuvens
Parecem o lençol do céu

Lá é onde o espaço
Descansa do caos

Abaixo do sol e acima das nuvens
Há um mundo de calmaria
Onde os poetas revoam
E as palavras gingam maestria

Por cima de tudo, só há Deus
Não o sonso e ladrão de Hermes
Nem o interesseiro e corrupto dos milicianos
Tampouco daqueles que usam o evangelho
Como produto de dinheiro e de impropério

ELE que mora lá em cima respeita a todos
Da Maria Madalena, prostituta
Incluso os crackudos, da rua.
Inclusive os sem pais e mães.
Órfãos e carentes. Todo tipo de gente.
Vagabundo de gravata e pobre inocente.
Rico inconsequente. Indecente.
Até advogado que mente pra clientes.
Ou político que boicota o adversário
e faz hospital ficar sem leito.
E escola ficar sem jeito.
Sem curso e sem respeito.

Humanos e gentis, a prerrogativa desse Deus diz saravá.
Obuntu. Mukuiu e Namastê.
Esse é o Deus que acima de tudo
e de todos:
Ama você.
Thiago Amerio
29/11/2019 às 16h.
🚀Macaé x SP

Balaio Torto das Ruas

Por: Diogo Verri Garcia.

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Dedico
Aos que emburrecem, ao viver o amor que eu não vivi.
Ao refrasearem a canção que não obrei;
Os refrões que, sem percussão, cantavam.
Ao criticarem os beijos sinceros que, beijados dela, dediquei,
Mas que eram pouco mais, para caminhar nos passos
Que, falseantes ou falseados,
mesmo importantes, não prossegui.
Pois, ainda das razões,
pouco sei…

Cumprimentariam-se todos,
Os que não deixaram a alma aberta e se expuseram;
Os que aceitaram a paixão correta e se engalfinharam.
Em uma rua deserta, beberam e bradaram
Porque por um instante feliz, eles foram.

Foram os haveres…
Por evitarem causos, sem querer anuências, como eu perdi.
Talvez por retinência de mudar tanto ares, como mudei.
Ao colecionar olhares, posto vivi.
Conservaram-se vulgares; nisso avisei,
Pois temem ser cotidiano,
e se atrapalham,
Ao pretenderem ter nobreza sem ter lastros de rei.

Mas isso é tão engano,
Que soa como um balaio tonto e torto,
Um louco falante nas ruas.
É como um enxadrista que se diz atleta.
Feito confundir copista e poeta.
Como esperar que a hora exata
Se enunciasse à alma;
nos notificasse, desse alerta.

Mas se em algo caminharam triste, tenho certeza.
Pois tudo que se inicia, ao fim se achega
E atormenta a calma, que se encantara
A ponto de não prever, tal como eu vejo
Que todo fim é o mesmo, quando acaba.
Ao menos felizes, todos foram.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 09/11/2019)


Créditos da imagem: pixabay

Quando o vento se torna em aragem

Por: Diogo Verri Garcia

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No marco zero, tudo é calmo e quieto
Que de tão silencioso é deveras isento.
É quando começa a aragem.
Que movimenta o silêncio
De rumor rigoroso, experto.
De acanhamento que chega a ser lento,
Mas que já muda algo em paisagem.

Ouve-se um zumbido que apita ao ouvido
Pois não há nada mais para se ouvir,
nem para ver.
Antes da aragem, que é ainda menos que a brisa,
Até onde as ondas do mar se alisam.
Nem uma folha:
não há o que se permita mover.

Tudo começa deveras quieto,
Mas logo chega a aragem.
A disposição do mar é de um nada,
A calmaria impera.
Sequer há o que indique a direção do vento,
Que mal acaricia as velas.

Há morosidade, quase uma lerdeza,
O pundonor das coisas é um regalo a recolhimento.
O vento, sem disposição para nada, ele não se moverá.
Mas já move o véu da chama, que nem para isso inflama;
não balança a flâmula, que reclamarará.

O brio do silêncio é castiço
Não se mexem nem as folhas, nem os panos,
Posto que nada sequer nessa paisagem
tem a pretensão de mudar.
É espelhado e parado, sem reclamos, o mar…

Quando então o vento se torna algo mais que aragem.
Ainda que, sendo pouca a mudança,
Parece tudo inerte, dentre o que mais se avista ou avisa,
Dentre as gramíneas, há uma leve brisa.
Desfraldam-se atentos os tempos dos litorais.
É aragem, que ameaça ser ventania,
E nos varais já carregam as pazes e as camisas.
Mas não ainda bastante;
não solta as folhas lá dos coqueirais.

É caminho para quem espera a ver o momento
Que descaminha as cercanias;
Sobe um aroma de chuva, cheiro de grama ou de arruda no ar.
Chacoalha os contornos das águas,
E assim balança o mar.
Há a virada do tempo.
A vida para, espreita a ver o que passa.
É o início do vento.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, fev. de 2019)


Crédito da imagem: pixabay

Ruptura (Bianca Latini, autora convidada).

Por: Bianca Latini

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Ruptura

Hoje desejo fazer uma faxina geral
Varrer de mim, de minhas entranhas
Todo lixo acumulado
Todos os medos incorporados
Toda impotência acreditada
Toda menos-valia espelhada
Toda arrogância vestida
Toda dependência assumida
Sem saber que sou dona de mim e das minhas escolhas
Que não sou joguete na mão do acaso, das circunstâncias
Que, muitas vezes, vestida na pele de vítima, sou algoz
Esculpi-me como estátua inanimada
Que deve receber elogios, olhares e por vezes críticas, julgamentos
Me fiz refém e não contei com ajuda alguma para isso
Eu mesma fiz o trabalho de encarcerar-me e dar um monte de cópias das chaves para os primeiros que passassem
Hoje, desejo limpar esta cela, quebrar a escultura, transformar-me em pássaro que só vê o horizonte e infinitos ares para voo
Desejo integrar-me à natureza
A natureza de mim mesma
Que ainda não sei do que é feita
Mas, certamente, germinada pelo amor

(Por Bianca Latini, 10/4/19)


Crédito da imagem: pixabay

O que se vê só nos olhos

Por: Diogo Verri Garcia

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Sobre os olhos que não falam
E imaginam tudo da falsa verdade.
Não serenam, mas se calam,
Repercutem agudos, mudos,
esclarecidos, sem sinceridade.
Despejam sobre outros olhos, sem calma, todo rancor,
Tudo de súbita vez.
Transcendem a olhares agressivos,
Aqui já apreendidos, tal como já perceberam vocês.

Se os olhares não fossem surdos,
Ouviriam os sons do mundo,
O que há de real a ser reconhecido.
Sem julgares, fossem só olhares,
Olhariam, menos vulgares, mais apercebidos.
Menos desaforados, mais envaidecidos.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 12/11/2019)


Créditos da imagem: pixabay

Verso em Processo (Rua Acre, 80)

Por: Diogo Verri Garcia

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Levo a vida como posso
E dos meus dias faço verso.
A cada hora escrevo prosa
para os amores que eu prezo.

Mas aqui é o adverso,
Vejo lá a Guanabara.
Misturo o verso e o processo
E a luz do sol invade a sala.

E aqui desta janela,
Vejo a avenida e vejo o mar.
Se não há licença aqui para o verso,
Dou meu jeito de criar.
Mas se me volta a realidade
Que continua a ser bela,
Se a suspensão de liminar é incidente ou se é cautela.

E cada qual tem suas verdades.
Me adequo às filosofias
Na Justiça, a efetividade;
Com os poetas, a boemia.

Tanto me apego que me adequo,
Dou meu jeito de criar,
Faço rima em processo,
Canto verso, vejo o mar.

E ao adverso, insisto e prezo
Se há licença à boemia
À noite faço o meu verso,
Se o processo é meu dia.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 2006 – Rua Acre, 80)


Crédito da imagem: pixabay

Frango na Sauna (Parte 2)

Por: Mona Vilardo

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E foi nos últimos dois meses que o inusitado me pegou de frente. Uma crise de estafa acompanhada de uma crise aguda de ansiedade. Entrei para as estatísticas do mal do século?

Logo eu? Quem programou isso aí para mim? Em qual compasso estava escrito que isso ia acontecer? Essa aula de música eu perdi…

É, Mona…. Essa nota tá escrita no compasso da vida, que nunca dança conforme a música!

Como sempre, é importante ver os dois lados de tudo…. Atualmente me pego repensando em muitas situações. Não questiono a minha seriedade nas coisas que faço, que trabalho e que escolhi para viver, mas comecei a questionar o quanto me faz mal a culpa que me imponho quando algo sai diferente do que eu imaginei.

Logo eu que sou tão leve para os outros, para os amigos e familiares. Comigo mesma eu não sou assim, nunca fui. A leveza passa longe quando o assunto é olhar para dentro de mim.

Terapia, acupuntura, muita insônia, taquicardia e homeopatia estão sendo meus companheiros nesse momento de transição, eu diria.

Meu olhar está sendo modificado em relação às minhas escolhas e caminhos, ter tempo para fazer nada é tão importante quanto ter tempo para tudo. E a minha mais nova aliada nas noites de domingo é uma sauna bem quente no final do dia.

Escrevi esse texto logo depois de chegar do meu momento de sauna. Dentro da sauna tinha um frango para ser descongelado – de uma simpática vizinha minha.

Olhei para o frango e pensei: seria tão bom se as coisas inusitadas da vida fossem leves e engraçadas como esse frango aí dentro!

Mas não é, e a gente demora a aprender isso. Normalmente a gente aprende na doença, na marra…

Volto a escrever hoje aqui, me cobrando menos (pelo menos tentando), e o frango foi um prato feito para minha criatividade e, claro, para o jantar pós sauna.

Espero que eu aprenda cada dia mais que o inusitado existe, seja dentro da sauna ou dentro da minha vida.