CONTO ÀS TRÊS VIDAS

Por: Diogo Verri Garcia

CONTO ÀS TRÊS VIDAS

O relógio não anda para trás:
O tempo passou.
Já aqui, o conto de três vidas jaz.
Que tivemos, feito o som tão leve,
Mas que escorreu na misteriosa imprevidência,
Tal como o silêncio das coisas, a ausência
Que há no ponto final de uma bossa.
Três vidas: a minha, a tua e a nossa.

A minha, que andou modificada,
Digo, até grata, essa vida que foi
Por ter tido, em algum tempo,
A presença tua.
Mas que não suportou, posto que sufocada.
Levou um pouco de ti,
Deixou tanto de si,
E, estando livre, foi comemorar nas ruas.

A tua, que começou sem graça,
Até calada, meio que negando
O que existiu logo no primeiro momento.
Mas quando sentiu-se enraizada,
Havia já deixado outra vida cansada,
Posto que insegura, de alma dura,
Não segurou viver os bons momentos.

A nossa, de que haverá lembrança,
Até que a idade apague
E registre ao longe,
Junto a tantos outros cantos ocupados da memória,
Uma caixa a mais.
Anestesiando, se restou tormento.
Recordando apenas as bonanças,
Risos fáceis e ordenança.
Contando com a intercessão do tempo,
Que então deixará
Em sua versão,
Só felicidade e paz.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 04/01/2020)


Créditos da imagem: Freepik

Por: Raquel Alves Tobias

Você chega e estou de canto
Meu olhar perdido em pranto
Não consegue esperar

Eu só quero arroz branco!
Quero paz, um acalanto
Já cansei de procurar

Tenho sono, tenho pressa
No mundo nada mais resta
Só vazio a se espalhar

Não mamãe, não se abale
É tudo imaturidade
Só você pode ajudar

Vem, me pega, me eleva
Você é tudo que me resta
Vem, me ensina a caminhar

Faz de mim a tua vida
Abre as portas, me convida
À eternidade do meu lar

Por: Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Unsplash

Clarão da Mente

Por: Bia Latini

Clarão da Mente

Em tempos difíceis fortifica-se
o que se tem para fortificar
Onde laços não há
Termina de afrouxar
Situações extremas nos fazem enxergar
Fica mais fácil separar
O joio do trigo
Os homens dos meninos
O que é amor ou acomodação
O que se fazia só por obrigação
O que é vital e o que pode esperar
O que é para ficar e o que é só de passagem
Aquilo que é verdadeiro e o que era só miragem
O véu cai
E tudo fica latente
Sorte a nossa!
É farol de neblina potente!
Clareira em mata fechada
Luminol em cena de crime
Cortina que se abre no teatro,
depois das três campanhinhas tocarem
Se não vê, é porque cego quer continuar
É a oportunidade para constatar
E a rota mudar!
Fazer meia volta, dar guinada em outra direção
Desemaranhar-se das teias do medo
que se tem do lado de lá:
Aquele que você não vê
e descarta a hipótese de ser muito melhor do que este daqui
Na história bíblica,
o mar não se abriu e depois Moisés marchou
Primeiro ele marchou e, só então, o mar se abriu!

Bia Latini


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A pequena grande libélula

Por: Priscila Menino

A pequena grande libélula

Observei uma pequena libélula voando.
Suas asas reluzentes e iridescentes, pareciam ter todos os tons do arco íris.
Asas tão finas, mas tão potentes que sustentavam a criatura, permitindo-a fazer as suas peripécias no ar.
Mas ela também pousava na água, se banhava na superfície e voltava novamente ao ar com voraz rapidez.
Que graciosidade ela tinha de ir do elemento água e voltar para o elemento ar sem aparentar grandes esforços ou dificuldades.
O vento rugia, mas ela permanecia ali, intocável, resiliente, seguindo o seu caminho.
Observei mais um pouco, percebi seus grandes olhos, que me fitavam com bravura e destemor.
Há crenças que acreditam que a libélula é presságio de momentos de paz, alegria e transformação.
Outras, por outro lado, acreditam que sejam associadas às bruxas.
Que intrigante criaturinha, tão pequena, mas tão cheia de mistérios místicos e controvérsias.
Em um súbito tapa, um senhor a tentou tirar de perto, dizendo: “que inseto impertinente”.
Pensei comigo: “pobre criatura, se observasse atentamente, veria a beleza deste tal inseto e a importância da libélula para a cadeia natural, pois é uma grande predadora das moscas na natureza”.
Acabei julgando aquele senhor com aquele meu pensamento e notei o quanto é necessário deixar a mania de ter opinião sobre tudo.
Aprendi tanta coisa naquele rápido episódio.
Naquele instante tive ainda outra lição, vi que há diversos pontos de vista, e o que, para mim era pura beleza e tradução do criador, para aquele senhor era um importunação.
Mas, acima de tudo, aprendi com aquela adorável criatura a não me importar com a opinião daqueles que não veem a sua beleza e sua essência tão leve e graciosa, ela simplesmente seguiu seu caminho, batendo suas asas levemente e alegremente.
Respirei fundo e agradeci por estar atenta naquele momento, observando a cena como uma tela e aprendendo com a sincronia da vida.

Por: Priscila Menino


Créditos da imagem: Freepik

O TEMPO E A PRESSA

Por: Diogo Verri Garcia

O TEMPO E A PRESSA

O tempo e a pressa,
Eu soube: vocês se falaram,
Mas não maldisseram o quão tudo foi forte,
Tão só sorriram, soluçaram e calaram.

O tempo e a pressa,
Eu soube que se arrependeram
Do gosto amargo da sorte,
Da junção de esforços que me prometeram.

Deixaram um olhar tão discreto,
Lembrando as ternuras que na vida condizem
E, em meio a um olhar de saudade,
Propuseram também que seriam felizes.

O tempo e a pressa,
Sem deixar tudo esperado.
Sem a urgência da pressa,
Sem a carência do tempo.
Bastava só mais um aguardo,
Apenas deixar passar,
sem marcar, sem contar,
sem cobrar por momentos.

Eu juro por Deus tanta jura,
A pensar que loucura,
Saber da vossa atual amizade.
Se fosse no tempo em que era apavorado o amor,
Se hoje já me engambelou,
Ali, haveria infarte.

Ao menos não faltei com a promessa
E dei todo o alinho que em um peito só tive.
Talvez porque a pressa impusesse tão só brevidade,
Na incerteza do tempo,
Do amor me abstive.

O tempo e a pressa,
Eu soube que se desentenderam
Ao saber que de mim
Ambos sentem saudade,
Mas a brisa contou-lhes do meu paradeiro.

Narrou que viajei pela vida
Fugindo da pressa,
Prestigiando outro tempo que não era o meu.
Mas a brisa isenta dos litorais,
Viu-me, e, atenta demais,
Soprou um tempo que ao natural ocorreu.

O tempo e a pressa,
Sorriram ao notar quão sincera
Foi a falta de tempo que em minha vida mantive.
Choraram ao perceber que na minha pressa
não houve maldade,
Que ao viver tendo calma no amor,
De alguma felicidade
também me abstive.

E quando os avistei na rua
A pressa destratou-me entre os dentes.
O tempo, que era então tão calado,
Abraçou-me com os olhos,
sorriu-me contente.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 24/12/2019)


Créditos da imagem: Freepik

Por: Raquel Alves Tobias

Guardada a última hora das vinte e quatro passadas.
Aquela que emana a soma de todas as forças reservadas antes que o limite irreal sabote o potencial.
Limitações imaginárias.
Sempre a mesma conversa de pontuar o inacabado.
Procrastinando seguiu andando.
Todo amarrado.
Seguiu suspeito, puxando corda
Foi ser sujeito da própria história
Pulou de ponta para um mergulho
Quis ser seguro de se isentar
Não reparou que era pendular
E em suas amarras a lamentar
Balançou.
E balançando ficou
No caminho que escolheu traçar.

Por: Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Unsplash

Não esqueçamos o Natal do Ser

Por: Bia Latini

Não esqueçamos o Natal do Ser

O quanto vivemos fingindo
Sobre aquilo que nem sabemos que gostamos?
Sobre aquilo que não nos oportunizamos?
Natal vem chegando e queremos comprar presentes
Tem presente mais caro do que clareza, percepção?!
Podemos enfeitar a árvore
Mas joguemos luz sobre nós mesmos
Sobre nossos seres famintos, sedentos, carentes e disfuncionais

Façamos limpeza em nossas casas para morada das ceias
Mas não nos esqueçamos de fazer faxina em nossas ruas internas, abrindo espaço para o que precisa desentupir, desengargalar

Prestemos atenção aos nossos rompantes:
eles falam muito sobre quem estamos deixando de ser
Sobre aquilo que abandonamos fazer
Sobre a fluidez, da qual poderíamos nos prover
Sobre todo presente que deixamos de receber
Pois estarmos aqui:
Rotacionando no rodamoinho da matriz
Aspiralando para o ralo do “todo mundo” e depois não sabemos de onde vem tanta insatisfação
As nascentes dos nossos rios não jorram mais água
Elas dragam Rivotril

Que possamos montar o falso pinheiro
Fazendo alusão ao Eu verdadeiro
Ir colocando as partes, arrumando a base, os galhos…e a cereja do bolo… ou melhor, da arrumação…
É ela: a Estrela, no cume
Aqui em nossa analogia, vulgo: coração

Cantemos as canções Natalinas
Sem deixar, cristalinas, as músicas que pulsam em nós.

Viva o Natal do Ser!

Bia Latini


Créditos da imagem: Freepik

Sobre saber pedir ajuda

Por: Priscila Menino

Sobre saber pedir ajuda

Hoje, depois de milhares de processos de auto conhecimento e terapia, eu posso afirmar que me conheço e sei quem sou.
É claro que é necessário um adendo aqui, pois, a despeito de quem sou hoje, eu sei que ainda há muita coisa pra se conhecer, aprender, reaprender e ressignificar, afinal, somos uma eterna mudança.
Mas, apesar disso, inquieta que sou, estava eu vestindo minhas roupas de volta, após ter feito uma tomografia e fui acometida de uma onda reflexiva que me acertou em cheio dentro de um banheiro, totalmente despida de bloqueios.
Pensei no quanto é necessário pedir ajuda, já que, apesar de julgar me entender bem comigo mesma, precisei de um auxílio de uma geringonça para olhar como estava minha cabeça internamente.
Apesar de eu “morar” no meu corpo e ter consciência de todos os meus sentidos e mapear minhas emoções constantemente, eu precisei do auxílio de um elemento externo para rastrear e identificar o que estava me causando dores de cabeça, pois sozinha não foi possível sanar a dor.
É por isso que não devemos ter vergonha de pedir ajuda externa, ainda que entendamos que temos tudo sob controle.
Aquela epifania me fez ver quantas vezes eu ignorei meu corpo pedindo socorro por não estar suportando sozinho a barra, já que eu ignorava e ratificava meu suposto orgulho próprio.
Imaginei quantas pessoas sofrem caladas sem buscar ajuda, as vezes sem nem mesmo entender a razão da dor.
Então não tenham medo de pedir ajuda, ninguém está sozinho, ninguém, acredite!

Por: Priscila Menino


Créditos da imagem: Unsplash

PALAVRAS DE UMA ALMA INACABADA

Por: Diogo Verri Garcia

A TORRE DE LIVROS

Crescer é romper,
É amar, é colher.
É se lamentar mesmo quando
o lamento não for grande.
É saber reviver, depois de chorar lágrimas de sangue.

É notar que a vida passa frente à face,
Ágil, como se um único dia fosse toda a vida.
Curto demais, feito o bem e o mal que faz,
Traz passagens que tanto faz muitas delas esquecidas.
Assim, achamo-nos sempre tão certos e santos,
Sem seguirmos serenos (nem pacientes, ao menos),
Na angústia ou na paz.
Na ansiedade, tornada a fé abastanto.

Crescer não é a hora em que a noite mais demora,
É o que nos dá e tira o ar
E nos balança as pernas.
É viver, pois que em um minuto, tudo vira o mundo.
É saber que o ganho da alma,
Para sempre inacabada,
é ser eterna.

(Diogo Verri Garcia)


Créditos da imagem: Pexels

Por: Raquel Alves Tobias

Hoje te vi de novo, ali de canto, calada.
Observando e tentando entender.
Ouvindo risadas e piadas.
O peito trêmulo, quebrando a casca
Expondo a parte a se esconder
Entorpecidamente furiosa
Oscilou novamente por entre as partes
De casca e carne, e a quebra que faz doer
E doeu
E doeu…
Mais uma vez, como em muitas
E soltou,
E soltou…
Dessa vez como antes nunca

O vento sopra pela fresta
Talvez sim, talvez não.
Mas amanhã, cheira a verão.

Por: Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Unsplash