Por: Raquel Alves Tobias

Só aprende a amar
Quem foi verdadeiramente amado
Todo o resto é extensão invasiva
De eternos ciclos inacabados
Quando juntos dividem
Seus corpos num copo
Num gole, a dúvida.
No outro, o amargo.
E seguem assim:
Metade vazio
Metade a vácuo.
Consumindo a alma
Na saliva do prato.

Por: Victor Cabral

Que saudade da tua voz no meu ouvido
Esse carioquês safado, cheio de sibilo
Sotaque gostoso desse sorriso tão lindo
Cantam palavras pra minha libido

Desconfio que todos os meu atos são pretexto
Fruto de emoções pré-texto
Que se olhadas fora de contexto
Parecem querer te devorar em texto

Estou acostumado
Por isso continuo aqui, mesmo que calado
Mesmo que frustrado, a te olhar de longe

Crescendo ao teu lado
Crer, sendo enganado
Mas gostando da emoção


Créditos da imagem: o próprio autor (acervo pessoal).

Meu sonho de voar

Por: Priscila Menino

Meu sonho de voar

Sempre tive uma atração pelo céu, seja em contemplar a beleza das nuvens e o contraste com a imensidão azul, ou seja, em ficar horas e horas olhando pela janela do avião e observando a paisagem ficando tão pequena, ao ponto de parecer uma maquete que fazíamos na fase escolar.
Certa vez, em um súbito impulso de coragem, resolvi saltar de pára-quedas. Obviamente não avisei para meus pais, dirigi até o local do salto, coloquei aquela parafernália toda que nos garante as mínimas condições de segurança, mandei mensagem para meus familiares com pequenas orientações sobre a criação da minha filha e entrei no avião para me dirigir ao local do esperado salto.
Enquanto eu via que a distância percorrida ia aumentando e as coisas lá embaixo ficando pequenininhas, o medo surgiu na mesma proporção e pensei: “o que diabos estou fazendo aqui, tenho uma filha pra criar”, paralisei.
Pessoa após pessoa ia saltando daquela porta aberta, a qual somente se sentia o vento e não se enxergava nada, até que chegou minha vez.
Saltei, meio torta por tentar ainda buscar um piso que sustentasse meus pés, o que foi em vão e somente me trouxe ainda mais desespero.
Certamente se eu tivesse a opção de voltar dali, eu o teria feito.
Mas quando abri os olhos e a explosão de adrenalina parecia ter estabilizado, contemplei aquela cena tão linda, aquela sensação de liberdade que marcava de forma tão leve aquele momento.
Ali no ar eu vaguei meus pensamentos e me deixei levar naquela onda de paz que me atingiu em cheio.
Penso então em quantas vezes congelei por medo e não arrisquei saltar de cabeça em um sonho.
Que esse dia sirva de lição para mim, me lembrando sempre daquela estranha e vigorosa sensação da liberdade de não ter amarras, de me permitir desprender meus pés das certezas do chão, de me despentear e perder o receio do inesperado.
Se eu soubesse que ia ser tão bom, não teria esperado tantos anos para esse dia, eu teria (literalmente) me jogado antes.


Crédito da imagem: acervo pessoal.

Poemas Pálidos

Por: Diogo Verri Garcia

Poemas Pálidos (#repost)

Sorrateiramente, sem violência,
Poemas vêm e vão.
Como passagens de trem, como o verão.
Nem todos são vigentes,
confortáveis ou frequentes.
Há poemas que são pálidos;
outros, que são quentes.

Quando encorpam, avançam e arrastam
Feito forças do vento abrasivo, que é bravo.
Quando desandam, são blocos de verso
que não causam, nem intencionam.
Sem sabor, não tencionam furor, tampouco sucesso.

Mas quando empolgam, traçam bem o caminho
E tornam-se oportunos para quem os lê.
Quando inspiram,
Nutrem paixões que arrepiam.
Fazem o poeta parecer afortunado, face a quem o vê.
Mas depois, cansam:
de tanto repetidos, versos entediam.

Caminha o poema como receita instintiva
Que tem métrica, rima, etecetera e tal
Mas que de nada serve, sem quentura nem clima.
Porque se é só verso e rima,
Sem alma, não é poema;
Não é formal. Não é verso. É normal.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 04/02/2019)

*Publicado originalmente em 28/08/2019


Créditos da imagem: Pixabay

Feliz 40!

Por: Bianca Latini

Feliz 40!

Meu aniversário está chegando
Vou fazer 40 e o que quero de presente
São verdades sinceras
Sem embrulhos, sem pacotes, sem enfeites
Verdades são bonitas pelo que são
Não precisam de mais nada
Quero também a extinção do negacionismo e da contradição
Parar de insistir na contramão
Quero rios de confiança, esperança e centelha de criança
Quero sorrisos sinceros e lágrimas de alegria
Por viver em harmonia
Em consonância com a música que em mim reverbera
Por dançar de pés descalços e olhos fechados
Sentindo o vento e o coração batendo no mesmo compasso
Sentindo o frescor de ser o que se é
Pular, feito urso Gummy, de tanta energia
Rotacionando no vórtice da minha essência,
Do meu eixo, do meu propósito, da minha alma
Sem nostalgia, sem desconfiança, sem temperança, sem amargura…
Curtindo, surfando, galopando
O meu próprio fluxo
Entendendo minhas marés
Nadando para onde dá pé
Para onde minha sola plantar encosta na Terra de aterramento, de nutrientes, de base, de pilar, de estrutura, de sustentação, de firmeza para impulso ganhar e, livre, poder voar
E esses presentes
Só eu posso me dar

Por: Victor Cabral

Perfeita diluição do tempo
Suspensão dos sentimentos
A vontade é fumaça ao vento
Só resta seu cheiro aqui dentro

Pela janela, um mundo que não é meu
Esse apê é testemunha do que aconteceu
Pelos caminhos, tropeços e enganos
Pelas desaventuras dos meu planos

Pelos na minha roupa,
Seus pelos que roçavam em mim
E o gosto da sua boca:
Os gatos testemunharam o fim

Stand by na TV
Estantes com livros que ninguém lê
Instantes que fogem e ninguém vê
Eu estaria aqui se fosse por você?


Créditos da imagem: pixabay

Setembro

Por: Diogo Verri Garcia

Setembro (#repost)

Setembro bom,
que de vez o inverno espanta.
Já torna longas as tardes, encanta
Todo aquele que observa um jardim de setembro.
É tempo
Do arvoredo quedar-se exulto,
Envolto em flores, em chão de colorido tumulto,
Que dura até meados de novembro.
Setembro, o vento frio cá já não sopra mais o rosto,
É mais quente que o último agosto,
Tão bom como sempre me lembro.
Calor competente, o ambiente torna o corpo suado,
O suficiente para o chope gelado
– bebida frequente no vindouro dezembro.
Setembro, que em Lisboa faz frio ao fim de tarde,
Que no Rio traz o sol, que vem matar a saudade
– desço do voo, e segue quente o desembarque;
Em Porto Alegre, perde-se do inverno cinza o fomento.
Setembro, que mês bom – só não melhor do que dezembro,
Em que o verão traz expansão, prolonga o tempo.
Quando o amor ainda é amor, e não destempo,
Tal qual o será, tal qual em um mês…

(Diogo Verri Garcia, Belo Horizonte, 01/09/2018)

*Publicado originalmente em 19/09/2018


Créditos da imagem: pixabay

Arguição

Por: Bianca Latini

Arguição

Você sabe quais são as suas cores?
Enxerga suas dores?
Identifica suas nuances, seus contornos?
Compreende seus amores?
Você localiza suas curvas, suas viradas e seus pontos-cegos?
Percebe seus desgastes, seus arremates, seus vieses e reveses?
Suas limas, suas rimas, suas conexões e transações?
Você derruba suas muralhas?
Enfrenta suas batalhas?
Ultrapassa suas linhas imaginárias?
Você desvenda suas risadas?
Acolhe suas navalhas?
Enxuga suas lágrimas?
Ou as deixa lavar o assoalho?
Que aromas você respira?
Distingue cada miasma, cada essência, cada orvalho?
E ainda que não se considere clarividente,
Você enxerga seus fantasmas?
Conta suas piadas?
Desentorta suas calçadas?
Faz resenha das suas próprias desgraças?
Rejunta suas amálgamas?
Desengaveta suas correntes?
E dá asas para o que sente?
Será que algum dia você conseguirá ou não depreender toda essa arguição?
Sugiro que vá para uma caverna no meio do mato, isolado de toda e qualquer civilização
Ou apenas silencie em meio ao caos, sem nenhum senão
E escute as cigarras de sua própria floresta nativa, ora em ebulição.

Por: Raquel Alves Tobias

Você foi pra mim tudo o que nunca foram
Você fez por mim tudo o que nunca fizeram
Da minha mente não se esvai
Nenhuma sílaba, nenhuma vírgula
Nenhuma molécula do perfume
Da sua respiração
Empático vapor condensado
Num único abraço
Por favor, aperta-me mais um pouco.
Será que em algum momento
Envergonharei-me menos?

Vejo todos os seus olhos passearem
E em todas as esquinas eles me veem
E em todos os desvios eu os vejo
E em todos os sentidos eles convergem
Pois caminham de mãos dadas

Será um meio para o ponto final?
Digo sim, entendo e aceito.
Disse a vírgula ao recomeço:
Nasça e multiplique-se.

R.A.T

GRÃO E MIGALHAS

Por: Diogo Verri Garcia

GRÃO E MIGALHAS (#repost)

Por vezes, insistem em dar migalhas,
Enquanto minha mente anda morta de fome.
Fome por fome, estou acostumado,
Mas não acho engraçado não saber ler meu nome.

Parece até princípio de fim.
Meio de vida é qualquer um, afinal.
E se não acho um caminho certo para mim,
O fim, no início, é normal.

Há quem diga que é um direito o estudo,
Mas na vida só conto mesmo com a sorte.
Se há equidade no mundo? Não creio.
Somos iguais só na hora da morte.

E para quê me falar de educação,
Se cultura, aqui, só se conhece de retrato?
Não dá não, doutor! Isso é pra filho de patrão.
E como comprar livro, se mal consigo ter um prato?

Começo a achar que estudo é pra quem pode.
Sigo sem vida, sem letras, sem saber.
Não sei se é culpa de Deus, do mundo, da sorte,
Ou se é só minha, por não saber ler.

Prevejo piada em querer diploma em moldura,
Porque para mim já é muito ter nada.
Se alguém nos desse algo mais de cultura,
Deixava de vez o cabo da enxada.

Mas tem moço que parece não ver.
Saber, até sabe, mas finge que não.
No fim, para os nossos, farelo.
Para eles, fartura e quinhão.

Mas de que me adianta farelo sem grão?
Moço, dê-me uma escola,
Que lá eu aprendo. E então faço meu pão.

(Diogo Verri Garcia)

(Publicado em Poesias Brasileiras. 3. ed. São José do Rio Preto: THS Arantes Editora, 2006)

*Publicado no Literarte em 01 de agosto de 2018.


Créditos da imagem: pixabay