Por: Victor Cabral

WhatsApp Image 2020-01-23 at 13.38.08

Tantos vidros entre em nós
Telas de celular, ponte pro desejo
Lentes, enquadram nossos olhos ( a sós )
Janelas de carro, despedida em segredo

Nasce mais um dia estagnado
Vidrado
Sem notícias suas, sem nenhum recado
Virado
Vejo você me olhar do outro lado
Pecado
É todo esse tesão não realizado

Em sua casa que nunca visitei
No seu corpo que eu nunca adentrei
Os seus gostos que nunca sentirei
Nasce fértil a semente da imaginação

Completo as lacunas com meus devaneios
Te imagino agora deitada, camiseta velha folgada dormindo quieta, sem receios
Talvez se eu te acompanhasse
Procuro um espaço, encaixo um abraço, seu cheiro adocicado, minha mão nos teu seios

Ouço seu canto, sotaque gostoso
Chiando baixo pra te deixar dormir mais um pouco
Que sufoco
Tão pouco — de ti — parece-me muito
Todos os escritos dão sobre o mesmo assunto

Não é você quem eu afago, abro meus olhos E era só o travesseiro, o corpo que me jaz ao lado

Que saco

O jeito é dormir, temos um encontro marcado.

Descortinando

Por: Diogo Verri Garcia

room-918994

Nada como o dom de estar certo
Mandar seguir a vida,
Aliviar o canto.
Deixar o sol bater,
Abrir a cortina.
E lá fora, em que não se olhava a vida,
há uma manhã tão bela.
Nada como o dom de estar certo.
E estar santo
No refúgio da paz que é completa.
E ao sair na varanda, entrar o vento.
E ao olhar da sacada, outrem já te acena.
Só assim, respirar o ar animador,
Sem rancor,
Para aliviar o som estranho do espanto.
Nada como o dom de estar certo,
Ter razão sobre a vida
E acordar já célere,
Sabendo que tanto há de bom lá fora.
Saber que a rotina, como toda,
Sempre passa, vai embora,
Mas há sempre algo maior que te alimenta.
E recompensa a alma,
Que sempre foi reta.
Na paz se sustenta,
Esperta e pertinente,
Caminhante ao largo da dor,
Mas, hora ou outra, é valente.
Ser normal o pesar de um andor,
Que só cabe aos que de verdade sentem.
E há amor de si, e só, que sobrará para tantos.
Por se andar por caminhos certos.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 28/04/2020)


Créditos da imagem: pixabay

Livre Arbítrio

Por: Bianca Latini

hand-3632914

Livre Arbítrio

Ohhh….homem
Posso te falar uma coisa?
Tu não sabes todas as dores do mundo
Sei que queres ajudar
Mas tu não és Doutor!
Vives querendo prescrever um remédio
E suas doses
Nem sempre o medicamento certo é o mesmo que para você
Homem, tu já ouvistes falar num comprimido chamado livre-arbítrio?
Ele é item de fábrica
Independente de nascermos de parteira, rezadeira, enfermeira,
obstetra ou equipe inteira
Todos nós estreamos no mundo com ele
Pouco importa se viemos de família rica, de bons costumes
De gente humilde, rebelde ou gente pancada
Se fomos desejados, injetados ou obra do acaso
Essa interseção é padrão e universal
Então, homem, posso te dar uma dica?
Larga mão de querer ser botica!
Deixa cada um usar seu arbítrio de forma livre, como bem quiser
Tomar seus xaropes, comprimidos ou anestésicos
Ou então não tomá-los
Suas escolhas, suas sentenças
A cada bifurcação uma opção
Caminhos longos, atalhos ou descaminhos
Pedregulhos, rios, nuvens, enchentes, encruzilhadas
Eleição de cada gente
Não cabe a ti sobrepor, interceder, dizer ou desdizer
Deixa o teu próximo escolher!!


Imagem de Gundula Vogel por Pixabay

Decúbito, 1 de 2

Por: Diogo Verri Garcia

landscape-5055384

Prezados Leitores,

Com algum atraso, o texto da semana:

(Decúbito, 1 de 2)

Sem se deixar ponderar,
Ela pensou o que quis.
Pois consolidou-se matriz
Da angústia, que era tão mais.
E assim não falou, não amou, nem sofreu,
Nem sequer compreendeu
Que havia algo justo e completo,
Um convite a dar certo
e que não era fugaz.

Mas, talvez, nada tinha a querer.
Não hesitou em clamar
Que algo errado existisse,
De modo que o bem subsumisse,
Trazendo logo às claras o fim.
Pois, então, com a alma leve em aparente justeza ,
Bradaria a certeza
De que o amor é ruim.

Sem hesitar, nem chorar,
Nunca desabafou, não soube nem responder
Não amou tanto quanto você
E assim houve a hora
Em que a realidade
Fez a decepção ser completa
Fazer soar uma dúvida, um alerta,
E lançar a culpa logo corpo afora.

Percebeu que as contestações eram tantas,
Que era difícil até precisar fossem quantas.
Que até o tempo prometeu um alento
De decepções tamanhas.
Antes, havia passado dois dias vazios,
Como se passados frios,
Gélidos de alma e de paz.
Preparativos de uma distração mal contida
Da insegurança cultivada e mantida
Que causou todos os problemas mais.

Ele então lamentou,
Achou tristeza onde não conhecia.
Achou injusto que um dia
Houvesse um fim tão cretino
Para um destino distinto
Que Deus reservou,
E prometeu causador de riso e rubor
Mesmo na singela diferença
Sobre o que era “capaz”.

Até então, ainda tinha certeza,
Não hesitava, achava beleza na alma que
Suscitava tão infundada dúvida.
Ao fim do credo,
a controvérsia dela era sobre o amor.
Assustou, eis que se revelou
De maneira tão súbita.

Ele tirou um dia de paz,
Querendo ter ausência,
Sem a ingerência de uma nota qualquer:
Só pausa, daquelas longas,
Tornando a existência mais leve
uma máxima ou breve,
Para que som nenhum houvesse mais.

Questionou que a mente da infância não cresce,
Não conversa com o peito,
Por vaidade, não dá ao amor o respeito
E, posto isso, padece.
Desde sempre,
Parece que a razão dela pôs-se em quarentena.
Não vê o óbvio,
Vive a modo próprio.
Não lê seus poemas.

(Rio de Janeiro, 24/04/2020)


Imagem de enriquelopezgarre por Pixabay

Clarão da Mente

Por: Bianca Latini

6fac32fe3160370bb1f42b8097e7a047--amazing-photography-art-photography

Em tempos difíceis fortifica-se
o que se tem para fortificar
Onde laços não há
Termina de afrouxar
Situações extremas nos fazem enxergar
Fica mais fácil separar
O joio do trigo
Os homens dos meninos
O que é amor ou acomodação
O que se fazia só por obrigação
O que é vital e o que pode esperar
O que é para ficar e o que é só de passagem
Aquilo que é verdadeiro e o que era só miragem
O véu cai
E tudo fica latente
Sorte a nossa!
É farol de neblina potente!
Clareira em mata
Luminol em cena de crime
Cortina que se abre no teatro,
depois das três campanhinhas tocarem
Se não vê, é porque cego quer continuar
É a oportunidade para constatar
E a rota mudar!
Fazer meia volta, dar guinada em outra direção
Desemaranhar-se das teias do medo
que se tem do lado de lá
Aquele que você não vê
e descarta a hipótese de ser muito melhor do que este daqui
Na história bíblica,
o mar não se abriu e depois Moisés marchou
Primeiro ele marchou e, só então, o mar se abriu!

 

Por: Victor Cabral

WhatsApp Image 2020-01-23 at 13.38.08

Sou tão fã de seus predicados
Nessa oração subordinada a ti,
Sujeito amado que não requer complementos,
Darei a volume a minha voz, tão passiva até aqui

De tão desejada morfologia,
Quando analisa meu termos e vê
Numa apaixonada semiologia
Essa confusão entre mim e você

Pra descrever, me faltam adjetivos
Nenhum verbo é capaz de exprimir
Por isso sempre volto, exponho novamente meus motivos:

Todo pronome (além de você) é vão,
Não possuem essa função
Em ser núcleo, enfim, dessa adoração

O tempo e a pressa

Por: Diogo Verri Garcia

watch-3863887

(O tempo e a pressa)

O tempo e a pressa,
Eu soube: vocês se falaram,
Mas não maldisseram o quão tudo foi forte,
Tão só sorriram, soluçaram e calaram.

O tempo e a pressa,
Eu soube que se arrependeram
Do gosto amargo da sorte,
Da junção de esforços que me prometeram.

Deixaram um olhar tão discreto,
Lembrando as ternuras que na vida condizem
E, em meio a um olhar de saudade,
Propuseram também que seriam felizes.

O tempo e a pressa,
Sem deixar tudo esperado.
Sem a urgência da pressa,
Sem o carência do tempo.
Bastava só mais um aguardo,
Apenas deixar passar,
sem marcar, sem contar,
sem cobrar por momentos.

Eu juro por Deus tanta jura,
A pensar que loucura,
Saber da vossa atual amizade.
Se fosse no tempo em que era apavorado o amor,
Se hoje já me engambelou,
Ali, haveria infarte.

Ao menos não faltei com a promessa
E dei todo o alinho que em um peito só tive.
Talvez porque a pressa impusesse tão só brevidade,
Na incerteza do tempo,
Do amor me abstive.

O tempo e a pressa,
Eu soube que se desentenderam
Ao saber que de mim
Ambos sentem saudade,
Mas a brisa contou-lhes do meu paradeiro.

Narrou que viajei pela vida
Fugindo da pressa,
Prestigiando outro tempo que não era o meu.
Mas a brisa isenta dos litorais,
Viu-me, e, atenta demais,
Soprou um tempo que ao natural ocorreu.

O tempo e a pressa,
Sorriram ao notar quão sincera
Foi a falta de tempo que em minha vida mantive.
Choraram ao perceber que na minha pressa
não houve maldade,
Que ao viver tendo calma no amor,
De alguma felicidade
também me abstive.

E quando avistei-os na rua
A pressa destratou-me entre os dentes.
O tempo, que era então tão calado,
Abraçou-me com os olhos,
sorriu-me contente.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 24/12/2019)


créditos da imagem: pixabay

Transversalidade

Por: Bianca Latini

sand-4492764

Transversalidade

Abaixo as polaridades
A dicotomia
A oposição
A rivalidade
A contradição
Sou a favor da terraplanagem
Horizontalidade
Diversidade
Transversalidade
Desmistificação
Percorro todos os terrenos
Manuseio todas as areias
São apenas grãos
Grânulos
Sementes
Partículas de unicidade
Inclusive as misturo
E faço novas texturas
Experimento do barro
Da lama
Da areia fina, solta, branquinha
E delas faço casinha, castelo
Casa de passarinho
Faço meu ninho
Mansinho
Moldado em abundância de fenótipos
Talhado em argamassa de imensidão


Créditos da imagem: pixabay

Memórias de um mês de março vazio

Por: Diogo Verri Garcia

urban-438393

(Memórias de um mês de março vazio)

Cai a tarde, que não se vai tão tarde.
Vê-se a rua deserta,
A aglomeração repleta da falta de querer se amontoar.
Há algum decúbito de bares vazio,
Sem calor humano, um frio
entorpece os cantos sem nos deixar acostumar.

Vê-se que a vida passa em outro andamento,
isenta ao decurso do tempo
que seria tão rápido
para tornar a alma repleta, tonteada,
Pois hoje é ela só aguarda, espera.

Fez-se a fase das metrópoles passando ligeiras entre
goles,
Dos corações teimosos, mas moles,
Apaixonados dentre as multidões tão logo,
Vivazes, porém postos a esperar.

Houve sorrisos dentre aglomerações,
Existiram multidões,
Gente parada frente ao sinal ou ao farol,
Em aguardo de travessia.
Mas nota-se que o vazio apropriou-se da cidade
Que até meados da tarde,
desabitada feito a plena madrugada,
imigrada para o meio-dia.

Mas há nessa espera algum exemplo,
que nos para as pernas,
pondo o peito a sentir
e a mente a ficar quieta.
Respeitando, ao ver a rua deserta…

Só torço para que o mal torto deixe as ruas
Enquanto o tempo insinua, que o medo afrouxe
em algum alento, a uma paz comprazer,
resolvido ao prometer trazer de volta alguém.

Quero que as ruas retornem repletas,
Dentre almas não mais desertas,
Que, ponderadas no ardor, no quietar-se e no ver,
Passem a só pretender, desde então,
O bem.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 24/03/2020)


créditos da imagem: pixabay

Entrega

Por: Bianca Latini

tumblr_inline_pdftgm0rUO1rxsjrd_540

Devo parar de ter medo de perder
E entender que nada me pertence
Que sou ser perfeitamente impermanente
Num mundo não perene, transitório
Nada é meu
As coisas, situações e pessoas
Apenas passam por mim
Acredito que devo praticar o desapego
E essa é uma tarefa árdua!
Aprendemos de forma diversa
Cultuamos o consumir, o ter, o adquirir
Até quando tentamos meditar
Agarramos-nos aos nossos pensamentos e não queremos deixá-los partir
Em geral, somos egoístas, possessivos, enraizados
Queremos voar, mas permanecemos agarrados em preconceitos, limitações e medos
Queremos leveza, mas não nos livramos dos excessos
Queremos paz, mas permitimos que as angústias façam morada em nós
Esperamos franqueza e transparência do mundo externo
Mas somos turvos e obscuros conosco
É preciso deixar, libertar, despossuir
É preciso ficar de mãos vazias
De pés descalços e despidos de qualquer vestimenta
Chegamos aqui nús e assim também retornaremos
A hora que essa dinâmica for algo sobre a qual nem pensamos, apenas exercemos
Seremos realmente livres e unipresentes