Ruptura (Bianca Latini, autora convidada).

Por: Bianca Latini

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Ruptura

Hoje desejo fazer uma faxina geral
Varrer de mim, de minhas entranhas
Todo lixo acumulado
Todos os medos incorporados
Toda impotência acreditada
Toda menos-valia espelhada
Toda arrogância vestida
Toda dependência assumida
Sem saber que sou dona de mim e das minhas escolhas
Que não sou joguete na mão do acaso, das circunstâncias
Que, muitas vezes, vestida na pele de vítima, sou algoz
Esculpi-me como estátua inanimada
Que deve receber elogios, olhares e por vezes críticas, julgamentos
Me fiz refém e não contei com ajuda alguma para isso
Eu mesma fiz o trabalho de encarcerar-me e dar um monte de cópias das chaves para os primeiros que passassem
Hoje, desejo limpar esta cela, quebrar a escultura, transformar-me em pássaro que só vê o horizonte e infinitos ares para voo
Desejo integrar-me à natureza
A natureza de mim mesma
Que ainda não sei do que é feita
Mas, certamente, germinada pelo amor

(Por Bianca Latini, 10/4/19)


Crédito da imagem: pixabay

O que se vê só nos olhos

Por: Diogo Verri Garcia

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Sobre os olhos que não falam
E imaginam tudo da falsa verdade.
Não serenam, mas se calam,
Repercutem agudos, mudos,
esclarecidos, sem sinceridade.
Despejam sobre outros olhos, sem calma, todo rancor,
Tudo de súbita vez.
Transcendem a olhares agressivos,
Aqui já apreendidos, tal como já perceberam vocês.

Se os olhares não fossem surdos,
Ouviriam os sons do mundo,
O que há de real a ser reconhecido.
Sem julgares, fossem só olhares,
Olhariam, menos vulgares, mais apercebidos.
Menos desaforados, mais envaidecidos.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 12/11/2019)


Créditos da imagem: pixabay

Verso em Processo (Rua Acre, 80)

Por: Diogo Verri Garcia

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Levo a vida como posso
E dos meus dias faço verso.
A cada hora escrevo prosa
para os amores que eu prezo.

Mas aqui é o adverso,
Vejo lá a Guanabara.
Misturo o verso e o processo
E a luz do sol invade a sala.

E aqui desta janela,
Vejo a avenida e vejo o mar.
Se não há licença aqui para o verso,
Dou meu jeito de criar.
Mas se me volta a realidade
Que continua a ser bela,
Se a suspensão de liminar é incidente ou se é cautela.

E cada qual tem suas verdades.
Me adequo às filosofias
Na Justiça, a efetividade;
Com os poetas, a boemia.

Tanto me apego que me adequo,
Dou meu jeito de criar,
Faço rima em processo,
Canto verso, vejo o mar.

E ao adverso, insisto e prezo
Se há licença à boemia
À noite faço o meu verso,
Se o processo é meu dia.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 2006 – Rua Acre, 80)


Crédito da imagem: pixabay

Frango na Sauna (Parte 2)

Por: Mona Vilardo

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E foi nos últimos dois meses que o inusitado me pegou de frente. Uma crise de estafa acompanhada de uma crise aguda de ansiedade. Entrei para as estatísticas do mal do século?

Logo eu? Quem programou isso aí para mim? Em qual compasso estava escrito que isso ia acontecer? Essa aula de música eu perdi…

É, Mona…. Essa nota tá escrita no compasso da vida, que nunca dança conforme a música!

Como sempre, é importante ver os dois lados de tudo…. Atualmente me pego repensando em muitas situações. Não questiono a minha seriedade nas coisas que faço, que trabalho e que escolhi para viver, mas comecei a questionar o quanto me faz mal a culpa que me imponho quando algo sai diferente do que eu imaginei.

Logo eu que sou tão leve para os outros, para os amigos e familiares. Comigo mesma eu não sou assim, nunca fui. A leveza passa longe quando o assunto é olhar para dentro de mim.

Terapia, acupuntura, muita insônia, taquicardia e homeopatia estão sendo meus companheiros nesse momento de transição, eu diria.

Meu olhar está sendo modificado em relação às minhas escolhas e caminhos, ter tempo para fazer nada é tão importante quanto ter tempo para tudo. E a minha mais nova aliada nas noites de domingo é uma sauna bem quente no final do dia.

Escrevi esse texto logo depois de chegar do meu momento de sauna. Dentro da sauna tinha um frango para ser descongelado – de uma simpática vizinha minha.

Olhei para o frango e pensei: seria tão bom se as coisas inusitadas da vida fossem leves e engraçadas como esse frango aí dentro!

Mas não é, e a gente demora a aprender isso. Normalmente a gente aprende na doença, na marra…

Volto a escrever hoje aqui, me cobrando menos (pelo menos tentando), e o frango foi um prato feito para minha criatividade e, claro, para o jantar pós sauna.

Espero que eu aprenda cada dia mais que o inusitado existe, seja dentro da sauna ou dentro da minha vida.

Machado

Por: Thiago Amério

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Corta a lenha.
Esmera quando afiado.
Quando cego, machuca.
Se empunho com jeito
É instrumento perfeito.
Defende vulneráveis.
Ataca covardes.
Protege quem precisa.
Lapida a madeira.
Odin, tupã, Zeus ou Xangô
Machado é fogo de amor


Créditos da imagem: pixabay

Enquanto houver mar

Por: Diogo Verri Garcia

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Deve seguir a navegar,
Enquanto houver mar.
Falou-me, ao vento, o pescador antes de ir.
Zarpou no pesqueiro, recolhendo cordas
Para se soltar.
Foi tudo o que contou, antes de no mar quase se afogar.
Ou porque perdeu coragem,
Ou porque pecou por sorrir.

Soube por outrem que as ondas eram maiores que o barco
Mas de naufrágio não tinha medo o tal pescador,
Recolheu e içou velas, desacelerou
e acelerou no mar salgado
Que de tanto sal, salgava as gentes e os fardos
Sem ter abrigo ao cansaço,
vislumbrado-se desassossegado,
Mas não questionou: subiu mais ainda o clamor.

Quando o mar acalmou,
pretendeu de imediato que houvesse algo mais.
Mas nada mais havia.
Na úmida aflição entre peixes
Percebeu que ao deixar o cais,
era descontente, para quem a tudo tinha.
Mas tendo apegos por sonhos, isso ocupava sua paz.
Era a forma como vivo se fez ou ainda se faz,
Tem-se o modo como a vivacidade o mantinha.

Não entendeu porque na imensidão sem gente
O mar não mostrou-lhe apreço,
Só debruçou-lhe nem sob, do céu, gotas;
só do mar, amargas correntes.
Em que pese disposto a qualquer tempo ou vento,
Não contava mais,
Pois, como antes, o mar
Não mais lhe era, como já foi, fiel.

Sossobrou ao acreditar remando dentre torrentes,
Ao superar tempestades chegadas
Em um anuviar de repente,
E, mesmo assim, não ver nem terra, só mar;
Sem porto claro, nem céu.
Se era sol brilhoso, que queimava, se queixava.
E por lá também lamentou o dia nuvioso.
Tomou-lhe algo em alma entrelaçado, como em um opaco cordel.

Mas não se deve desistir de navegar
Enquanto houver mar.
E por haver mar,
Ao aportar, percebeu-se melhor do que ao partir.
Chegou sem peixe,
Mas quedou-se a retornar
Do infiel do mar,
Que dor causou,
Mas consertando o que levou,
Entregou-lhe tudo,
para outra vez repetir.

(Diogo Verri Garcia, 18/09/2019)


Créditos da imagem: pixabay

Frango na Sauna

Por: Mona Vilardo

Olá, leitores do Literarte!

Ando bastante sumida daqui e aproveito esse espaço para explicar um pouco o que aconteceu. Expressar-se pela arte, ao meu ver, sempre é o melhor caminho, e confesso que passei algum tempo sem conseguir me expressar nos meus textos quinzenais. Pode ser inusitado isso, mas é real. Sem inspiração, sem coragem, sem escrever nada.

Acontecimentos inusitados nunca fizeram parte da minha vida, embora tendo feito 10 anos de aula de improvisação no Teatro O Tablado. Improvisar no palco é muito mais fácil do que na vida real. Hoje, analisando a minha trajetória artística que começou aos 8 anos de idade, vejo que o inusitado nunca esteve presente. A começar pelo que escolhi seguir: a música clássica.

Na música clássica não há espaço para o inusitado, para o “não ensaiado”. Sempre me recordo de como eu era refém da partitura quando estudei piano. Aprendi muito cedo todas as regras estabelecidas num pentagrama: compasso, dinâmica, mãos esquerda e direita, leitura antecipada do que vem – para que as mãos já estivessem preparadas quando o próximo sistema musical chegasse, e todas as notas estivessem “debaixo do dedo” –, como sempre dizia minha cruel e adorada professora Dona Ruth. Na minha trajetória musical, não houve espaço para erros, e a disciplina era rigorosíssima.

Nunca me queixei disso e cresci dessa maneira, eu realmente gostava desse rigor. Na faculdade isso não foi diferente. Mas, como tudo tem dois lados, nunca consegui improvisar num showzinho entre amigos, contando coisas corriqueiras da vida.

Cadê a partitura? Minha voz não tá boa hoje! Desafinar no karaokê? Nem se eu quisesse.

Cresci assim, onde o inusitado não cabe. Onde o erro não tem espaço.

*Aqui já começa o inusitado na minha vida. O texto vai continuar semana que vem…


Créditos da imagem: Mona Vilardo.

Promessa (des)cumprida

Por: Thiago Amério

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Dez Mandamentos:

Um norte.
Um caminho cumprido.
Uma porta larga.
Vários pedidos.
Muitos arrependimentos.
Alguns compromissos.
Inúmeras promessas.
Mesma conduta.
Um grande sentimento:
se as pessoas descumprem
por que se comprometem?


Crédito da imagem: Thiago Amério

A cabeceira dois.

Por: Diogo Verri Garcia

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Passou mais um, em compasso lento, aguardando na cabeceira dois.
Não na vinte, eis que não permite o vento;
nem em outra mais, pois não existe a três.
Antes, passaram tempos,
Passaram tantos, quem perdeu as contas, que voltou a vez.

Fazia dias que não olhava à sua volta
prostrada às costas a janela,
Onde laborava o sol todo prosa ao nascer.
De lá, onde se via o mar, cego,
Deixava a janela entrepassava
E acendia as luzes,
Para que fosse possibilitado ver.

Mas um dia o sol, de calor que arde feito vela,
Aproveitou-se da janela mal fechada
– a sempre cerrada janela -,
De frestas em frestas, refletiu na tela,
ocupou a sala.

De modo que a luz abafada,
De ar feio, virou paisagem em veraneio
Quando subiu a tranca,
permitiu-se a brisa, abriu as cortinas.
Era uma manhã tão clara.

E então notou que passava outro mais,
Mirando a cabeceira dois.
Assim como barcos rumo ao cais.
Havia a tal paz que agrada; que já se exacerbara.
Era o mesmo mundo,
mas entrou o sol ao abriu a janela:
Viu-se a Guanabara.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 18/10/2019)


Crédito da imagem: Pixabay

A Procissão

Por: Diogo Verri Garcia

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Três velas foram acesas
Para prorrogar o que ensejam
outras três que apagaram.
Mais seis pares foram ofertados ao santos,
para acalentar dores e prantos,
para alcançar o necessário.

Dezenas foram à igreja
Caminharam com firmeza
Passaram e fizeram promessas
Compareceram até em procissão.
Tantos entregaram juras
Virtuosos ao som da reza,
Que finda nem sua metade,
Já repediam, em devoção.

Muitos que fizeram reza,
Prometeram as mais árduas promessas,
Muitas das quais não poderiam nem cumprir.
Falavam a verdade, quando juraram tão depressa,
Que nem lembrariam um dia,
O que não se deixou concluir.

Fizeram prece de tamanha veracidade,
Levantaram estandartes,
Juraram tudo, a cumprimento severo,
Feito o devoto em devoção
Mas que depois se esqueceu de adimplir.

Ganharam as graças,
Foram as praças,
Comemoraram a tudo.
E nunca mais rezaram para agradecer,
só outra vez para pedir.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 05/10/2019)


Crédito da imagem: pixabay