Por: Mauricio Luz

Apressada, ansiosa
Caminha pelo labirinto de concreto
Quando repentinamente… desperta.
Sem aviso prévio ou advertência
Sente o ar invadir os pulmões
E o prazer da respiração invade seu ser.
Seus passos, ela sente seus passos!
Sente cada músculo e tendão que se encolhe e estica
Em uma harmonia misteriosa e bela.
Uma planta abusada ousa quebrar a mesmice do cinza.
Busca o Sol e o saúda.
E ela percebe a beleza, a força da suavidade da Vida.
Seus olhos… o que aconteceu com seus olhos?
Por que tudo está tão mais claro, tão mais colorido?
E seu coração, antes tão silencioso!
Por que cada batida soa tão alta, tão profunda, tão vibrante?
Ela para, estaciona, olha para si mesma.
Ela sente.
Sente o mendigo que clama a caridade alheia,
E o executivo alheio ao mundo à sua volta.
Sente o beijo dos amantes, o hálito do bêbado,
A fé do crente e do descrente.
Lágrimas correm pelo seu rosto,
Limpam o que dela tinha sobrado.
Nada o que ela foi tinha restado.
E agora ela se tornou Tudo.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Mais um indo….e eu vou seguindo…

Por: Bianca Latini

O ano está acabando e quando eu olho para as minhas próprias ruas, meus itinerários, meus pisares, minhas cambalhotas, saltos e derrapagens, vejo o quanto engrandeci meu repertório, meu fluir e o quanto caminho mais leve hoje, até aqui
Posso não ser tão generosa quanto o Chico
Tão desapegada quanto à Marisol
Tão peito aberto quanto à Natália
E tão flexível quanto o Mateus
Posso não dar meia volta tão rápido quanto o Irineu
Não ser tão corajosa como a Fernanda
Nem tão demonstradora de afetos como a Mia
Posso não ser prática como o Rodrigo
Nem tão posicionada como o Luiz
Tão articulada como a Andreia
Posso ainda não saber me pontuar e colocar todos os pingos nos “is”
E ainda ter muita dificuldade de fazer escolhas, recortes, abandonar bagagens e não saber fazer mala de viagens…
Mas quando olho pra trás e avisto um raio nem tão longe assim
Eu tenho orgulho de mim
Tenho lutado minhas batalhas
Derrubado muitas muralhas
Esfacelado crenças
Entendido minhas doenças
Desmistificado minhas lendas
Ressignificado medos…
Eu dormi no escuro
Explorei minha galáxia
Virei de cabeça pra baixo, tentando achar muita coisa e, às vezes não vi quase nada
Mas eu ousei sair do meu ninho
Eu vivi muita coisa sozinho
Sem saber o que havia na virada da curva, sem ter nenhuma certeza se daria certo, sem entender bem se daria conta
E se no final da estrada estaria feliz
Pisei no acelerador
Mesmo ameaçada pela dor
Eu quis viver o amor
A experimentação
A cisão da tradição
O novo
Azeitei o passado
Açucarei, mentalmente, o futuro
Fui, voltei, me perdi
Dei nó em mim mesma
E, quando não soube para onde ir,
decidi ficar embolada do jeito que estava
Ao menos, pus um laço de fita e um pisca pisca no meu bololô
Cantei afoxé e me diverti
Eu escolhi acolher o fato de que não sei tudo e não tenho as melhores respostas agora
Não as tenho todas
Mas já aprendi, que nas horas mais salutares
As mensagens chegam, os lampejos fazem clarão
Aí toca o sino de Belém
E Natal faz existência em toda minha árvore
De um jeito que é só meu

Por Bianca Latini


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Família tradicional

Por: Priscila Menino

Father and baby forming a heart shape

Família tradicional

Vi uma notícia que me fez refletir.
A reportagem falava sobre a extinção da família tradicional brasileira.
Fiquei pensando no que se entende por família tradicional e por qual motivo se eleva essa condição a uma relevância considerável.
Ideologias religiosas a parte, penso que família deve ser baseada em laços fraternos de amor, ainda que tenham horas que momentaneamente queriam se matar, afinal, faz parte de toda boa família.
Eu posso afirmar que a família que constituí e da qual me orgulho muito não é a tradicional brasileira.
Minha filha é fruto do meu primeiro casamento, portanto, já fui divorciada.
Meu esposo tem outros dois filhos que não são meus filhos biológicos.
Mas o que nos une são laços de amor.
Amor real, que supera o dia a dia e está junto por uma opção e não por uma imposição de qualquer natureza.
E por isso eu me incomodo tanto com esse fascínio de alguns com o que se considera “família tradicional”.
O que deveríamos sempre valorizar não seria o amor acima de tudo?
Se houver amor, qual o problema de ser um casal do mesmo sexo com filhos ou de se ter uma mãe solo?
Aliás, fazendo uma analogia com o mundo gastronômico, de uma forma geral, os sabores tradicionais são os mais sem graça.
Gosto mesmo é daqueles sabores excêntricos, instigantes e provocativos; com tempero e sabor.
Uma família unida pelo amor, seja ela de qual forma, modelo, crença, raça ou do jeito que for, é bonita demais para encaixar nos esteriótipos “tradicional” ou “não tradicional”.
Me espanta que em pleno século XXI ainda usemos esse tipo de classificação tão simplória e retrógrada.
Se tem o tempero do amor, tem sabor. E onde há amor, não é insosso.
Por isso me incomoda esse termo “tradicional”.
Portanto, nada insosso para mim, obrigada!
Nem na vida e nem na gastronomia.

Por: Priscila Menino


Créditos da imagem: Freepik

Assim floresço

Por: Bianca Latini

Picture of tender young girl with flowers over blue background

Assim floresço

Gosto de conversar com você
Pois você me ajuda a florescer
Floresço pelos olhos, nariz, boca e
ouvido
Floresço pela barriga e pelos pés
Abro novos caminhos
Adorno novos pisares
Sirvo inusitados jantares
Banquetes de estrelas, sonhos, magia
Enfeito o corre corre diário com letargia
Afino a desafinada sinfonia
Engendro-me por entre partituras sem ditaduras
Sigo sem ritmo, sem compasso
Apenas despreocupada
Floresço novos sorrisos
Alguns que nunca poderia imaginar existirem
Disponho-me a ficar desabrigada por algumas horas
Deixando a chuva cair do céu, regando meus sentidos
Inundo um pouco a minha terra
Assim fecundo
Depois volto pro mundo
Ventilada, adubada, refestelada
E nessa primavera, vou vivendo meus ciclos…

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Freepik

O Sorriso e o Verbo de Ligação

Por: Mauricio Luz

O Sorriso e o Verbo de Ligação

Entrou no vagão do metrô, e uma vez lá dentro, descobriu-se sozinho no meio de centenas de pessoas.
Olhou para os rostos que demonstravam pouca ou nenhuma emoção, máscaras sintéticas encobrindo máscaras de pele. Todos perdidos em contas de gás, contas de telefone, contas de água, o salário que não dava para o mês, o amor correspondido, o amor não correspondido, o filho recém-nascido, o aborto a ser feito, a promoção que chegou depois de muito esforço, a demissão, o jogo de futebol vencido, o jogo de futebol perdido, a doença, a cura, os políticos safados, o país que não é sério, a nação maravilhosa.
A vida pulsava silenciosa, ninguém escutava. Todos perdidos em seus próprios problemas. Todos eram solitários. Ele era solitário.
Este pensamento o fez sorrir tristemente por debaixo da máscara.
Talvez, neste momento, seus olhos tenham brilhado um pouco, acendendo uma chama em seu rosto. E surpreso, viu que a faísca se propagou no senhor à sua frente, o sorriso camuflado pela proteção mas revelado pela contração de músculos antes adormecidos e pela repentina luz nos olhos.
Neste momento percebeu que não era sozinho, apenas estava sozinho.
E que um sorriso é capaz de mudar um verbo de ligação.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Mudou dentro, muda fora

Por: Bianca Latini

Mudou dentro, muda fora

O cenário é o mesmo
As pessoas são as mesmas
As circunstâncias são iguais
Lá fora tá tudo igual!
Só que daqui…do meu ponto de vista…
Está tudo diferente
Mudou dentro
Então, muda fora
É como um botãozinho
Uma chave que vira
Basta um novo sentir, um novo encarar
Uma desimportância com o que era exagero
Um acalmar do desespero
Uma nutrição do que estava deserto
Um acalentar do choro
Um desacelerar da afobação
Um ninar da própria razão
Magia? É não!
Sabedoria
Discernimento
Percepção
Pausar
Refletir
Entender
Se posicionar
Impor limites
Parar de ouvir tantos palpites
Olhar pra dentro
Ver horizonte inteiro
Encarar toda a floresta
Escanear todos os transeuntes e personagens,
Entender suas mazelas
Deixar com eles o que é deles
Levar apenas suas bagagens
E, mesmo assim, não levá-las para todo lugar
Saber a hora de partir e a hora de chegar
Saber muito bem onde aportar e ter o tempo certo das lentes dos óculos trocar
E não só isso: saber, ainda, quando parar de enxergar para apenas sentir e respirar.

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Pixabay

O Voo do Falcão

Por: Mauricio Luz

O Voo do Falcão

Voe, Falcão, voe.
Voe sereno e tranquilo nos ares que te pertencem
Abra as asas, conquista o espaço que é seu.
Mostre-me quão alto eu posso chegar
Se abro minhas próprias asas
E sigo a trilha que deixas no vento.
Una sua visão à minha
Permita-me que eu enxergue além do horizonte
E veja onde posso chegar
Se amorosa é firmemente,
Lançar-me na direção que o coração aponta.
Voe, Falcão, Voe!
Que suas asas o levem às estrelas
E tão leve quanto uma de suas plumas,
Assim seja minha alma,
Levando o poder do sonhar
Aqueles que não tem esperança.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Crianças nos ensinam o óbvio

Por: Bianca Latini

Crianças nos ensinam o óbvio

O que a vida reserva para mim?
É difícil saber…
O que não está bem na minha frente?
O que ainda não consigo ver?
O que ainda não manifestei?
Que mergulho ainda devo dar?
Será que o que falta é soltar?!
Como se sente mais do que se pensa?
Como se para de tudo racionalizar?
Um dia perguntei ao meu sobrinho por que ele gostava de algo
E ele, sabiamente, respondeu:
“Ué?! Gosto porque gosto”.
Simples assim!
Tão óbvio: não tinha um porquê
Foi uma grande bofetada
Me senti uma criança, falando com um adulto!
Por que nas escolas não nos ensinam o silêncio, a sentir o que nos afeta, como nos afeta?
Por que não nos ensinam a arte da percepção, a não ser dual e nem totalmente condicional?
A reconhecer o que se passa dentro de nós e como nossas células falam
A enxergar mais do que os olhos e muito além dos julgamentos mundanos?
Por que só pensam em nos ensinar que não sejamos profanos, sem saberem, o que, de fato, é sagrado em cada um de nós?
Benza Deus, temos as crianças para nos mostrarem o óbvio: nem tudo tem explicação, mas tudo tem repercussão em cada individuado coração.

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Google Imagens

A Mensagem da Pequena Planta

Por: Mauricio Luz

A Mensagem da Pequena Planta

Olho a fila de carros formados
Quantos homens e mulheres formados
Ali estão conformados
Convivendo com sonhos deformados
Corações e mentes reformados
Para caberem em um padrão formulado?

Vejo o andar de seres dotados
Vivendo vidas datadas
Respirando sonhos adotados
Existências entregues em dotes
Por proventos dotalizados

A pequena planta rompe o concreto. Respira.
Busca o Sol, suspira.
A quem a vê, concede cor e inspira.
A buscar a luz que tanto aspira
Ardendo em si mesmo em sua própria pira.
Murmura a planta:
“Sorri. Conspira.
E transpira.”

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Tempero da Vida

Por: Juliana Latini

Tempero da Vida

Existe uma forma de interpretar quem somos por meio dos temperamentos.
Nasci com o meu tempero forte, expressivo, criativo e quente.
Com o tempo, com os dissabores e reboliços da vida, instintivamente, fui criando crostas duras para sobreviver.
Na tentativa de me proteger fui, pouco a pouco, adequando minhas características natas.
Passei a ter temperos mais brandos, mais reflexivos e levei um bom tempo para processar alguns acontecimentos.
A líder espevitada do tempo de criança ficou sem saber para onde ir, quem era e tantas outras dúvidas.
A busca pela minha identidade passou a ser uma grande questão. Na tentativa de ter mais clareza e conexão com o meu interior, buscava encaixar as peças desse “quebra-cabeça”.
Nesses encontros com o meu eu, percebia o quanto eu tinha me anulado. Mas, para a minha surpresa, ainda havia o tempero original em mim, como que aguardando pacientemente, para ser redescoberto e usado.
Entendi que para acessar a nossa essência é preciso derrubar “muros de proteção” que erguemos diante dos traumas, perdas e decepções.
Se de um lado, eles nos dão certa segurança; por outro, nos sufocam, nos atrofiam e impedem a luz de entrar. Como se fôssemos o prisioneiro e o carcereiro ao mesmo tempo.
O custo de fugir dos outros e de mim mesma não compensava mais.
Passei a adotar um novo lema: encarar a realidade, mesmo com seus riscos e dores, abraçar a vida, acreditar no melhor das pessoas e mostrar ao mundo os meus verdadeiros temperos.
A vida passou então a ter um gosto especial e
a cada dia sinto muita gratidão em desfrutá-la.

Juliana Latini


Créditos da imagem: Pexels