A Verdadeira Prisão

Por: Mauricio Luz

A Verdadeira Prisão

Falei a um Mestre
Em um dia ensolarado
“Posso ir a qualquer lugar
No momento desejado.
Percorro quilômetros sem fim,
E me sinto tão aprisionado!”
O Mestre me olhou carinhoso,
E me respondeu amoroso:
“Consciente adormecido
Cada segundo despercebido
É um segundo perdido!
E Definir está para o imaginar
Como a gaiola, para o voar.
Busca a Liberdade
Onde não a encontrará!
É em seu coração,
Que a Liberdade está.
Pois a mente é uma prisão.
Onde as grades são as certezas
E as paredes, as verdades absolutas.
Encontre a si mesmo,
E a Liberdade florescerá,
Como a rosa brota naturalmente,
Quando chega a hora de brilhar.
E, neste momento, serás livre
Mesmo parado no mesmo lugar!”.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Lágrimas eletrizantes

Por: Juliana Latini

Lágrimas eletrizantes

Respirar. Ato nada voluntário atualmente.
Escrever. Técnica de arejar o embrutecimento até se tornar poroso e leve.
Meu corpo grita. Algo não está funcionando. Há um ruído estranho que me inquieta, como um som que denuncia um defeito automotivo. Investigo meus motivos.
Sou em contato comigo.
Trago marcas visíveis e secretas, que busco encará-las e sará-las.
Preciso respirar.
Preciso de coragem.
Preciso atravessar lugares de dores. Nuvens carregadas.
Emoções brotam colorindo a palidez do rosto e do cotidiano.
É o som das águas querendo chegar. Um olho d’agua começando a minar.
Fios contínuos se formam.
Silenciosamente escorrem, caem e se desmancham.
Enquanto, do lado de dentro, me levanto.
Como numa dança contemporânea, o movimento se repete.
Escorre, cai, se desmancha e me levanto.
Escorre, cai, se desmancha e me levanto.
Escorre, cai, se desmancha e me levanto.
Densas cargas, caem pesadas e eletrizantes. Brilham ao chão.
Cada lágrima, uma tonelada a menos.
Lembro-me: “Depois da tempestade, vem a bonança”.
Sinto-me mais leve e em paz comigo mesma.
Superação.

Juliana Latini


Créditos da imagem: Pixabay

Por: Raquel Alves Tobias

Ela estava doente.
Respirava rapidamente entre gemidos fracos.
Seria apenas um retorno, não para hoje, para amanhã.
Mas a mãe achou que não aguentaria até lá, então antecipou a reavaliação.
Os familiares aguardavam pacientemente.
Em meio a sorrisos, falavam de outros assuntos, felinos também.
Dentro da caixa, Nina seguia ofegante, enquanto ronronava palavras pausadas.
Sua mãe pegou-a no colo.
Em pé, à quatro patas, ela deu alguns passos desequilibrados em círculos sobre as coxas de sua cuidadora.
Estava fraca, muito fraca.
Inquieta, voltou para a sua caixa-apoio.
E, no chão, esperou.
Todos esperaram.
Talvez soubessem da gravidade, talvez não.
Talvez fosse culpa daquela mordida na planta tóxica do jardim de casa.
Talvez fosse culpa da infecção causada pelo ferimento de um espinho na pata.
Talvez fosse culpa do final de semana que interrompeu a sequência de feiras.
Talvez fosse culpa da falta do aviso de urgência.
Talvez fosse culpa da espera.
Talvez nunca fosse a culpa.
Talvez fosse apenas a hora.
Agora.
Nos olhos do doutor a resposta da pergunta que não queria perguntar.
Não há, então, esperança de recomeçar?
Depois do grito, os espasmos cíclicos tônico-clônicos.
A gravidade esperou calada,
tomou água açucarada amarelo-camomila.
Até o copo descartável, flácido, adaptou-se.
Adaptaram-se todos.
Os soluços, os goles e as lágrimas.
Ela não seria jogada no lixo, prometeram.
Colocaram novamente as máscaras e saíram pela porta da frente.
A vida seguia a goladas.

Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Pixabay

Leitor Também Escreve: Davilany Sousa

Hoje foi um dia ruim, dentre muitos outros que já se passaram. Eu me sinto em uma prisão, rodeada de pessoas desconhecidas que não me entendem e que não se importam em conhecer-me. As vezes eu tento me enganar, mas são nessas vezes que os sentimento zeram. Nunca pensei em virar um robô momentaneamente pra suprimir minha angústia. E dai vejo você, a única luz que ainda me resta nesse blackout e as vezes parece tão longe e apagada, tenho medo de não conseguir alcança-la e desistir de tudo.

Por: Davilany Sousa


Créditos da imagem: Pixabay

No meio do zumbido, fecha o ouvido!

Por: Bianca Latini

No meio do zumbido, fecha o ouvido!

Quando minha mente começa a girar muito veloz, feito pião
E querer um monte de coisas, feito metralhadora
Sei que é hora de fazer pausa e não querer nada
Apenas silenciar, feito pedra que apara o mar
Sei que é hora de aquietar e retirar-me, com firmeza e delicadeza, do tornado de pensamentos
Do rebuliço dos meus tormentos, típicos da ausência de presença e desterro de aterramento
Neste momento, minha cabeça está fora do corpo e o corpo não está em lugar nenhum
São peças flutuantes, desgovernadas
Em lugar algum fazem morada
Não vejo ruas, não acho cama, não encontro cobertor
E também não quero ventilador
As peças dentro de mim parecem que vão saltar de paraquedas da nave-mãe em transe
Está tudo rápido, girando, girando, girando…
Faço um corte na cena
Corto o papel da imagem, feito tesoura de picotagem
Abro alas e peço passagem
Deito no meio da sala…
Agora vazia…
Em branco…

Tiro um cochilo
E acordo desembaralhada no dia seguinte
Isso porque consegui fazer-me ouvinte
Do meu silêncio
Do barulho do vazio

Por Bianca Latini
Em 06/07/21


Créditos da imagem: Pexels

Dúvida Poética

Por: Mauricio Luz

Dúvida Poética

“O que faz um poeta?”
Perguntei a um Mestre certa vez
Ele olhou para mim e nada disse.
Depois se virou para a paisagem à sua volta.
Eu mirei também.
Fim de tarde de outono.
O Sol pintava o céu de laranja
Enquanto a noite chegava com seu manto escuro.
Uma brisa fresca nos acariciava.
Alguns pássaros voavam baixo e calmamente
Saudando o espetáculo do qual faziam parte.
Baixei os olhos. Senti o jardim onde estava.
A grama, as flores, as formigas, as folhas nas árvores
Que dançavam movidas pela música do vento.
Algumas folhas caíam,
Iniciando um novo ciclo em sua vida.
O Mestre olhou novamente para mim
E sorrindo me perguntou:
“O que faz um poeta?”

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Doses de distância na receita médica do amor

Por: Priscila Menino

Doses de distância na receita médica do amor

Certo dia me perguntaram se eu gostava de ficar só em casa ou viajar sozinha, não titubeei ao gritar um enorme e estrondeante: SIM!
Não há nada mais libertador do que amar as pessoas que estão na minha vida, mas ainda assim amar meu silêncio para que eu possa respirar sozinha no meu mar de pensamentos do meu universo interno.
Sinceramente, acho até mesmo que os médicos deveriam receitar doses de solitude para alguns pacientes que estão submersos por barulho demais, burburinhos e ruídos que não permitem lembrar o básico da vida: respira e não pira!
Ressalto que me refiro a solitude e não solidão, pois há um abismo enorme entre os dois conceitos.
Viajar sozinha para o exterior foi uma das melhores experiências que eu vivi. Ninguém me conhecia, então devo ser mencionada até hoje pelos locais como a louca que falava sozinha andando pelas ruas da cidade.
Que maravilha que é falar sozinha, dialogar comigo mesma, tentem, recomendo.
Meu esposo que agradece a esses meus momentos de solitude, eu sempre fico mais calma, mais centrada e até mais amorosa, afinal, doses de saudade fazem bem para qualquer relacionamento, não sejamos hipócritas.
A verdade é que não assumimos, mas somos chatos e precisamos nos afastar para nos aproximarmos.
Parece antagônico, é maluco esse conceito, mas é real.
A possibilidade de autoconhecimento é muito mais verdadeira e efetiva com as doses de solitude na receita do amor.
E vamos combinar que autoconhecimento é maravilhoso demais, saber quem somos atrás de qualquer pudor, máscara, desejo ou qualquer fator que nos tire o foco de sabermos quem somos, do que gostamos e o que queremos.
Fica aqui minha dica de saúde mental, física e afetiva: tomem doses de distância e solitude, sempre que possível.
Ressalto que é tão importante quanto beber os dois litros de água por dia, podem acreditar.

Por: Priscila Menino


Créditos da imagem: Unsplash

Respira

Por: Bianca Latini

Respira

Quando a barra apertar,
Respira
Quando a brisa soprar,
Respira
Quando o vento parar de bater,
Respira
Quando o rio correr,
Respira
Quando a fonte secar,
Respira
Quando o coração comprimir,
Respira
Quando o peito expandir,
Respira
Quando o medo assolar,
Respira
Quando a dúvida desaquietar,
Respira
Quando a natureza inspirar
Respira
Quando a alegria fizer moradia,
Respira
Quando acordar,
Respira
Quando dormir,
Respira
E antes de partir
Respira o último respiro aqui

Bianca Latini


Créditos da imagem: Pinterest

A Semente que Não Quer ser Árvore

Por: Mauricio Luz

A Semente que Não Quer ser Árvore

Amor, Amor,
Que grande mistério Você é!
Todos queremos alcançá-Lo, Amor.
E por isto O rotulamos, classificamos,
Medimos e pesamos,
Avaliamos, certificamos
E chamamos de oceano
A água do mar que colocamos em um copo.
Amor, Amor!
Quando aprenderemos
Que Você não tem condições, não tem fronteiras?
Que Você é a dança e a música?
Quando perderemos o medo de abraçar-Lhe,
E assim descobriremos a profundidade de nosso próprio abraço?
Quando perceberemos que a brutalidade nada mais é que a sua ausência?
Ah, Amor, Amor!
Me desculpe!
Convida-me a ir à sua Casa,
Comer seu pão e beber seu vinho,
Mas eu carrego tanta coisa!
Como poderei passar pela porta?
Carrego a casa, o carro, as contas,
A necessidade de ser aceito e amado,
A raiva daqueles que são diferentes de mim.
Carrego tudo o que me disseram que era para ser ou fazer,
Até aquilo que acredito que é você, Amor!
E Você quer que eu me dispa completamente,
E desnudo e entregue,
Una-me a Você nos mistérios da vida?
Ah, Amor, Amor!
Você me pede tudo, e é tão pouco!
Eu carrego tanta coisa.
Eu me tornei estas coisas.
E a elas eu pertenço, mais do que elas pertencem a mim.
Por isto, Ó Amor,
Rega-me com Sua água cristalina,
Mas a casca que eu mesmo formei,
Impede-me de nascer;
A semente que não quer ser árvore.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

De Camaleoa para Leoa

Por: Juliana Latini

De Camaleoa para leoa

Assim como no mundo animal, existe a possibilidade de se camuflar.
A camuflagem é uma estratégia de sobrevivência, de se disfarçar e passar desapercebido em um meio.
Essa forma de agir é uma defesa, mas não somente em função de uma ameaça externa. Para mim, era também um lugar que permitia repousar pensamentos distorcidos sobre mim mesma.
Fazendo com que no exterior, eu transparecesse algo que de fato não era. Com o simples objetivo de não ser notada.
Ao perceber esse equívoco, despertei!
As cores pálidas do meu ser foram ganhando vivacidade.
Eu comecei a aparecer, a me expressar como ser único que sou.
Ah, quanto tempo eu perdi com esses falsos pensamentos que só se alimentavam de insegurança.
Pensamentos de comparação não são mais bem vindos nessa nova condição!
Agora, quanto mais me conecto comigo mesma e supero os medos de me expor, apresento para o mundo o meu colorido único.
Com o alerta para não voltar ao padrão antigo de buscar aceitação alheia.
Ao sair do modo sobrevivência, percebi quanta energia eu dispendia buscando aparentar algo.
Passei a canalizar toda essa energia vital em simplesmente ser.
Naturalmente, cores vivas começaram a brotar em mim!
Uau! Sinto-me explorando novos espaços e me expandindo, até que me deparo com o colorido da criança que eu fui. Acrescento a sabedoria do equilíbrio e sigo com alegria, coragem e cabeça erguida.
Deixando de agir como uma camaleoa, me vejo como leoa.

Juliana Latini


Créditos da imagem: Pixabay