Cicatrizes

Por: Mona Vilardo

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Sempre pensei na palavra cicatriz como algo ocasionado por uma dor, podendo ser física e, digamos, vista à olho nu. Ou aquela que não se vê, mas se sente: a dor da perda de um grande amor, a dor da decepção com um amigo. Essa que se sente, muita gente tem. As vezes até coleciona.

Mas, essa semana me lembrei da frase do poeta Manoel de Barros. “Não gosto de palavra acostumada”. Poeta, concordo com você, e, em poucas linhas, mudarei o sentido doloroso que a palavra cicatriz carrega.

Sim, eu tenho cicatrizes felizes. E, muitas delas, foram ao lado do meu irmão.

Até hoje, no meu joelho direito eu tenho uma cicatriz de quando brincávamos de correr um atrás do outro no Clube do Fluminense, onde íamos em família todos os finais de semana. Numa dessas corridas, abri o joelho num azulejo quebrado. Choro, sangue e uma cicatriz considerável. Mas ali, a maior cicatriz foi a diversão de dois irmãos brincando de pique pega!

Na mesma época do joelho machucado, descobri aquele mertiolate que ardia – e o meu irmão ria de mim, lógico! Nessa hora, eu queria matar ele. E, como uma criança perversa, dizia que ele tinha sido achado no lixo. Quem nunca disse isso pra um irmão quando criança?

Quando me formei no jardim, ele entrou comigo de mãos dadas na cerimônia de formatura, fazendo muito bem o papel do irmão que devia estar pensando: – Agora você vai aprender a ler e eu não preciso mais ficar dizendo o que tá escrito nos lugares! Ufa!

Depois da aula da escola, dividíamos o tatame de lutas juntos, construindo ali cicatrizes de quedas e perdas nas competições, mas sabendo que um sempre torceria pelo outro.

Aos 11 anos tive a cicatriz de ser irmã de um menino. Essa, vem com todas as brincadeiras típicas de…menino. Me lembro de me vestir como tal (boné, bermuda larga e uma blusa da Ala Moana) e ir brincar com ele de se esconder na garagem do prédio. Era uma noite chuvosa e estávamos nos achando praticamente dois super-heróis entre os carros. Por algumas horas, a garagem virou um parque de diversão para nós dois.

Na juventude, me recordo da cicatriz que ele deixou em mim quando eu tomei meu primeiro porre. Lembro dele cuidando de mim, me dando o chocolate Diamante Negro aos montes e me levando para dormir na casa da mãe de um amigo da escola. Lógico, que entre o Diamante Negro e a ida pra casa da mãe do amigo, teve um esporro básico de irmão mais velho. Mas, aquela cicatriz foi a de um cuidado extremo que ele teve comigo.

Por sorte dele (e minha, claro), o episódio não se repetiu. Não o do cuidado, mas o da “bebedeira” … rsrs

E as cicatrizes das boates dos anos 90? Essas, temos aos montes, não daria para contar aqui.

Depois, tivemos a cicatriz de eu sair da casa dos nossos pais primeiro que ele. Essa, não foi muito feliz no ato em si, mas foi a primeira vez que não iríamos mais dormir na mesma casa, onde muitos anos atrás brincávamos de fazer cabana unindo uma cama na outra – mais uma cicatriz de alegria, eu me lembro como se fosse hoje.

Há três anos, ele me deu de presente, a cicatriz de ser tia. Eu nunca imaginei que, ver o meu irmão saindo da sala de parto com sua filha no colo, fosse me causar tamanha emoção.

– Poxa, outro dia mesmo ele brincava comigo de Atari e descíamos a rua que morávamos num carrinho de rolimã!!! Agora, ele é pai! Que tempo é esse que passa tão depressa?

Você pode estar pensando que eu poderia ter mudado a palavra cicatriz pela palavra memória.

– Poderia mesmo! Mas, além de ser fã de Manoel de Barros e também não gostar de palavras acostumadas, foi exatamente olhando a cicatriz no meu joelho direito, no dia do irmão, que me lembrei de tantas outras cicatrizes felizes ao lado dele.

Cicatrizes, memórias, lembranças. Não importam as palavras ou rótulos. O que importa é colecionar sentimentos. Isso, eu e meu irmão fazemos até hoje.

Haja esparadrapo!

Poemas Pálidos

Por: Diogo Verri Garcia

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Sorrateiramente, sem violência,
Poemas vêm e vão.
Como passagens de trem, como o verão.
Nem todos são vigentes,
confortáveis ou frequentes.
Há poemas que são pálidos;
outros, que são quentes.

Quando encorpam, avançam e arrastam
Feito forças do vento abrasivo, que é bravo.
Quando desandam, são blocos de verso
que não causam, nem intencionam.
Sem sabor, não tencionam furor, tampouco sucesso.

Mas quando empolgam, traçam bem o caminho
E tornam-se oportunos para quem os lê.
Quando inspiram,
Nutrem paixões que arrepiam.
Fazem o poeta parecer afortunado, face a quem o vê.
Mas depois, cansam:
de tanto repetidos, versos entediam.

Caminha o poema como receita instintiva
Que tem métrica, rima, etecetera e tal
Mas que de nada serve, sem quentura nem clima.
Porque se é só verso e rima,
Sem alma, não é poema;
Não é formal. Não é verso. É normal.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 04/02/2019)


Créditos da imagem: pixabay

Sequestro na ponte

Por: Thiago Amério

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Ônibus lotado.
Gente atrasada.
Vida corrida.
Vida escorrida.
Um tiro comemorado.
Muita atenção.
Helicóptero.
Político.
Mansão.
Dívida.
Quem é vítima de quem?
Uma sociedade suicida
Ou mais um louco homicida.
Nunca se saberá.
Enquanto se comemora morte
Ficamos sem um norte
Quando se mata um pouco da gente
A gente morre também
Ou você acha que também não é refém?
Salva 30. Perde 100.
A conta não fecha.
Enquanto juntos não formos além.
Amém.

(Thiago Amério, 22 de agosto de 2019)


Crédito da imagem: pixabay

 

A mais tenaz calma

Por: Diogo Verri Garcia

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Quando não sei ao certo
O que é certo,
O que vai dar certo
E o que restará parado
se algo der errado.
É o momento que mais inquieta
Quando causa silêncio
o excesso de coisas que repetem e acontecem
quando só resta prece
para devolver o real silêncio.

Quando totalmente fico mudo,
Mas ela não se deixa calada
Com gestos sinceros, sorriso aberto,
Faz que não percebe a calma
que tão mais me desagrada.

Quando fiz algo mais,
Por ter feito menos.
Quando traço uma culpa voraz
por meus erros pequenos.

Ela, nem assim, se desalegra.
É um sorriso que cativa,
que traz um alento de riso e de paz
e feito um afago,
agrega.

Então me ponho falando
Sem ela nem suspeitar
Que traço meus próprios planos,
Conduzo-me em contornar
Por alguns internos reclamos.
Sempre por pensar fugaz,
por não saber pensar sereno.

Ela, quando o sorriso alegra,
Pouco a pouco, a resolução
começa a ser sincera, torna-se tenaz.
Quando sua voz não sossega,
não causa falta, nem sobrecarrega.
É ela, a calma, a paz.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 28/04/2019)


Crédito da imagem: pixabay

Quando se perde um voo

Por: Mona Vilardo

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✓ Mala feita – check

✓ Separar a roupa mais confortável para viajar – check

✓ Chegar no aeroporto com antecedência – super check

✓ Ter certeza de que a mala não ultrapassou o peso determinado – check (ufa)

✓ Beijos são distribuídos e adeus são dados – ckeck (a vida é feita de encontros e desencontros)

Chegou a hora de tirar o sapato, o cinto, o celular, o casaco. Nessas horas eu sempre imagino uma área de embarque com todo mundo nu. Sério! Imagina só, ia ser mais rápido pra todo mundo. Pra quem embarca, pra quem apalpa… enfim! Minha cabeça que vôo longe…

Você passou tranquila em todo esse processo chato de tirar tudo, levantar os braços, ser simpático (todo mundo faz cara de simpático na imigração, não mintam) e… colocar toda a roupa de volta. Roupa não, acessórios. Roupa seria no caso de todos estarmos nu, mas essa parte não existe, é apenas fruto da minha imaginação fértil.

✓ Ir direto dar uma olhada no horário do seu voo – check…não!!!!! No check. (o voo já está com previsão de atrasar)

É a segunda vez que acontece isso comigo: atrasos por causa de tempestades. A única explicação que vem na minha cabeça é que São Pedro não anda colaborando em nada com os meus retornos pra casa. #oquefizpravocêsãopedro?

– Mas qual o problema o voo estar atrasado?

– Problema nenhum, a questão é a conexão que eu pego logo em seguida. Tenho apenas 20 min para ir de um portão ao outro e tentar, veja bem, tentar embarcar na minha conexão de volta pra casa.

 Um voo perdido atrasa o abraço apertado que eu quero dar logo e o beijo de amor que eu tenho pra dar. Um voo perdido faz demorar ainda mais todas as histórias que eu quero contar em detalhes. E claro, atrasa também a abertura da mala que eu quero abrir e dizer: – Lembrei de você!

Perdi o meu voo!

A todo momento pessoas perdem voos, conexões e demoram a chegar em casa. Acontece quando perdemos ônibus, trem, ou qualquer outro meio de transporte.

É nessas horas, que eu queria fechar os olhos e poder já estar no lugar que eu quero, do lado de quem eu quero.

Tá aí, esse seria um superpoder que eu queria ter. Tem gente que queria ficar invisível pra ver se alguém fala mal dela, tem gente que queria ser super veloz e chegar primeiro que o outro em tudo que é lugar. O que eu escolheria par ser meu superpoder, eu acho que é bem mais simples: apenas querer estar logo onde minha morada está, tipo num piscar de olhos.

Já dizia Mario Quintana: viajar é trocar a roupa da alma. Concordo com ele, mas também acho que voltar pra casa é bem melhor. E sem atrasos, de preferência!

Os miradores

Por: Diogo Verri Garcia

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Havia um monte em que todos iam.
E a um prédio mais alto, feito um mirador,
Para ver a altura em que a chuva molhava,
Pouco lhes importando
se quanto mais alto a friagem chegava,
Pois o pisco causava calor.

Nela, meus olhos encontravam o frio.
Entregando um clima nem um pouco mais tenro,
de um ar seco, sem aragem,
causador de arrepio.
Simples, mas de incômodo agradável, ameno.

Era uma tarde já glaciada,
Prometedora de um momento gelado,
em Santiago.

E lá do alto,
Viram o sol que, por pouco, tornou-se a render
Por uma lua que vestiu-se descoberta.
Deixou de esplender,
para se eclipsar.
Olhando a todos,
Deixando a multidão parada,
Os miradores cheios,
as ruas desertas.

Agasalhavam-se todos tão menos que eu.
Mesmo de alma calorosa, quem mais precisava.
Mas vi maratonista chileno que pela noite correu
Em trajes próprios de quem do frio zombava:
Louco ele; o que não faço eu,
posto que me resfriava.

No frio, os passos são enxutos,
de um caminhar apertado
em um dia frígido,
e de um anoitecer ainda mais gélido,
quanto mais alto…
Completando o tempo que, se deixar, quase neva,
Logo ali, bem ao lado
De Santiago.

(Diogo Verri Garcia, Santiago, 06 de julho de 2019)


Crédito da imagem: pixabay

O Carioca Hipotérmico

Por: Diogo Verri Garcia

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Protegei-me, alguém,
do tão frio incauto
Que flagela e traz maus-tratos
À medida que esfria.
Eis que logo aos quinze graus,
Carioca já sofre hipotermia.

Não vejo razão nos que acham
esse agorento frio, no Rio, tão fofo.
Não há lareira em minha sala,
Devo descer roupas quentes da mala,
No mercado, armários de vinho esvaziam,
Pois, aqui, o inverno faz até calor, nunca frio.
E meus livros já temem o mofo.

Juro que acalento a frieza do tempo,
Não sendo este, pois, só um sem intento reclamo,
Eis que em outros lugares que tão bem guardo e amo,
deve haver alguns dias friorentos,
Vendo cair a neve sobre os arbustos e pisos,
Assistindo à branquidão criar um respirar gelado.
Pois que, assim, juro que até procuro o frio,
Seja rente, em Petrópolis, já na serra do Rio;
Seja mais longe, em Santiago.

Contudo,
Por cá, esse tempo não causa bem, não assente.
Os bares não têm aquecedor ambiente,
As praias nos expõem a um vento que sopra engabelado,
Pois deveria ser algo quente ao soprar pelas beiras.
É lugar em que não se projetam lareiras,
apenas ar-condicionado.

Por isso, rogo ao vinho que quiser levar,
A todo alguém que me possa ouvir.
Peço por um lugar quente,
Se não for muito pedir,
se não houver motivo a negar;
E por rever o tal calor que não demora.
Pois carioca não merece
ter tanto frio no Rio, sua casa,
Só fora.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 05/08/2019)

Petição inicial – Autor convidado – Rafaelclodomiro do Poerídica

Como a arte em conjunto é muito mais forte, continuo neste espaço, o terreiro do artista.

Desta vez é do companheiro Rafael Clodomiro. Seja bem-vindo e que a arte sempre seja reposta!

(Thiago Amério)

 

Petição inicial

Eu, solteiro, largado,

quero expor os FATOS e contar detalhes chatos da história que nós vivemos.

Em seguida preciso abordar sobre o DIREITO a se aplicar diante dos erros que cometemos.

E no final, num primeiro plano, vou PEDIR a restituição do dano das mágoas que não esquecemos.

 

Dream Big

Por: Mona Vilardo

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Chicago, cinco e dezessete da manhã. Se tem uma coisa que eu não me acostumei aqui foi com a diferença do fuso horário em relação ao Brasil – mesmo sendo o 16° dia dos meus 17 dias aqui. Nossa, não me acostumaria nunca no Japão. Mas, isso é assunto para outra história.

A primeira vez que vim aos EUA, eu tinha 15 anos. Não…não foi presente de aniversário de debutante, como você deve ter pensado logo. Nos meus 15 anos eu quis a tradicional festa, com troca de vestido ao badalar da meia noite e valsa com pai, irmão e o melhor amigo da época.

Mas, como que um “duplo presente”, dois meses depois da festa vim aos Estados Unidos cantar em Kansas e, de quebra, passar um dia em um parque da Disney no retorno ao Brasil. Nada mal para um Coral de umas vinte crianças e jovens viajando sem os pais e fazendo o que mais gostava: cantar e brincar. Que grande sonho ganhar dois momentos significativos quando se completa o tão esperado 15 anos.

Exatos vinte anos se passaram, e eu me dei de presente uma viagem para NY com o objetivo de assistir 6 espetáculos da Broadway em 7 dias. Mais um grande sonho da época de estudante de teatro, onde ir  na Broadway era algo inalcançável pra mim.

Chicago, dia dois de agosto, cinco e quarenta e cinco da manhã. Três anos se passaram da minha ultima vinda aqui. Hoje é o penúltimo dia de um sonho que começou a ser elaborado há um ano atrás, junto com uma amiga da época do coral (coral esse, que meu deu a oportunidade de conhecer a Áustria) – mas isso também é assunto pra outra história.

Em Chicago, venho com o mesmo propósito da primeira vez que estive nos EUA:  fazer música. Sendo que agora, não sou mais a adolescente de 15 anos. Agora, os meus alunos que têm 15 anos…

Primeiro dia de aula na Biblioteca de Oak Park, somando a turma da manhã com a da tarde, um total de 50 alunos, com idades que variam de 7 à 15 anos.

Criança e jovens com suas histórias de vida totalmente desconhecidas entre eles, e claro, para mim. A maioria das crianças olham pra mim com a cara de “ Quem é essa brasileira branca, que veio lá do outro canto do mundo pra achar que vai me ensinar algo?”

Num canto da sala, uma menina bem retraído tira da mochila uma fronha, que ela mesma pintou, onde está escrito “DREAM BIG”, ela me mostra e eu peço pra tirar uma foto.

Essa mesma menina se divide em momentos de muita participação nas aulas e em momentos de extrema carência afetiva, onde ela me agarra o braço e pergunta: – Onde você vai sentar? (ela rapidamente senta ao meu lado)

Sua voz? É linda, cristalina, muito afinada e se empenha para cantar músicas africanas e brasileiras.

As aulas terminam, nove dias se passam e meu primeiro passeio turístico é conhecer o famoso prédio John Hancock, com sua vista 360 ° da cidade e algumas janelas que vão virando pra baixo, com o turista segurando em duas barras de ferro – praticamente um exame de labirinto, ao meu ver.

Admirar a vista – check

Ser uma daquelas pessoas agarradas naquele ferro, se imaginando cair – pra quem tem fobia de altura tem coisas que nem o Mastercard paga. (no check)

Resolvo dar uma volta na lojinha, e, entre canetas, copos e camisas da cidade do vento, me chama atenção uma pulseira escrita: DREAM BIG.

Logo me recordo da garotinha do primeiro dia de aula, de todo ensinamento que também levo daqui e do meu maior propósito nessa viagem: fazer com que, através da música, esses alunos sonhem grande. A história clichê mas verdadeira de que a música transforma e une todas as pessoas numa só linguagem.

Semana passada, foi aniversário do compositor Flávio Venturini que canta uma canção que diz “…sonhos não envelhecem”…

Talvez um dia, eu volte aqui e encontre aquela mesma garotinha com seu grande sonho e cante essa música pra ela. Cante essa música pra todos, que já não serão tão jovens assim, mas seus sonhos sim.

Amanhã volto para o Brasil. Comigo, levo no braço, praticamente uma aliança escrita “DREAM BIG “. Na alma e no coração, levo a certeza de que fiz diferença na vida desses 50 alunos e deixei, em cada criança e adolescente, mais um grande sonho. Seja ele qual for.

 

Sobre Poetas e Balastros

Por: Diogo Verri Garcia

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A hora passa.
Pouco fiz nesse último quarto de hora,
Na última meia hora,
No último dia.
Que rapidamente se assenta.
Mas antes de parar, ele dispara.
É veloz, feito projétil que vara
E desorienta.

As poucas palavras que, hoje,
nem no papel contive,
São fruto das questões,
das ponderações sobre o que se vive
Quanto ao que Deus tencionou guardar.
O que será que houve? O que será que há?

Percebido sobre esse questionado dia
que, entre produções no papel,
até teve algum proveito,
Percebo que as mãos não mais amansam,
mas dá-se um jeito.
Noto que o poeta não sabe do que é merecedor,
Se a vida é ardor,
Se a vida é triste.
Mas, tanto faz, resiliente quem escreve se faz,
De tanto dissabor que registra e, registrando, assiste.

Sobre as palavras mal feitas,
Os papéis que não foram amassados,
posto que os apago em tela.
Hoje, formam parágrafos que nenhuma bancada sequer os aceita,
Tomam conclusão que o eclesiástico rejeita,
Criam questões sobre os desígnios de Deus,
Que até ateus poderão falar:
O que há com a fé, o que há?

Mas creio que a poesia trata até do que não se sente,
A ponto que, quando se sofre a dor, tornou-se já resiliente.
A certo passo de não saber ao certo,
O que há com o credo de desimportar.
O que há, poeta? O que há?

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 30/07/2019)


Crédito da imagem: pixabay