Cabra-cega

Por: Bia Latini

Cabra-cega

E de repente estou a repetir padrões
Emuladores das minhas opções de chegada
Que escolhas serão essas
Que me fazem cair no mesmo bueiro, tropeçar na mesma lombada?
São eles, os soldados inibidores da liberdade da alma
Aqueles que querem aprisionar-nos em padrões, jargões, fantoches, piadas
Sabotadores
Convidam-nos a mantermo-nos anões, mudos, ensurdecidos, beatos, canonizados
Morais, moralizados
Reduzem-nos a um corpo imaculado
Condutas, posturas, tradições, verdades a serem cegamente encenadas
Costuras …
Desse nosso invólucro corporal
Nas bordas, muito bem arrematadas
Religiões, culturas, sociedades
Em sua essência endividadas, disfarçadas,
Mal amadas
Pretendem que repousemos em leito de obediência, acomodação, IRRESISTÊNCIA
Sugerem que morramos em vida
E vivamos apenas a vida eterna quando a morte chegar…

Por Bia Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Bonsai

Por: Mauricio Luz

Bonsai

Como ousas? Como se atreve a brilhar tanto?
Com que audácia és autêntico e se mostra para o mundo?
Eu me submeti aquilo que me ordenaram
Acreditei no que me disseram as pessoas que eu amava
E que me amavam muito
Mas não a ponto de permitir me amar
Do jeito que eu quisera
Passivo, segui as trilhas que me deram
Ativo em ser aceito e considerado.
Pelo caminho, deixei sonhos e fantasias.
Busquei a ordem e a primazia.
Eu me formei, conformei, deformei.
E uma felicidade de plástico eu alcancei.
Aí, você vem.
Quer ser você.
Vem você, que sai do armário.
Que vive de arte, clamando poesias em troca de poucas moedas.
Que canta nas noites, embalando a boemia,
Que sorri quando quer sorrir, chora quando quer chorar.
Aí, você vem!
E apenas sendo,
Joga na minha cara a coragem
Que eu não tive em ser eu mesmo.
Apenas sendo,
Desmente a minha compaixão ensaiada,
Minha humanidade certificada.
Você vem!
E apenas sendo,
Cospe na artificialidade na qual eu me moldei
E chuta os castelos de mármore que construí
Sobre as areias de regras sem sentido.
Você vem!
E como um implacável espelho
Me mostra as marcas que lutei tanto para esconder
As cicatrizes do que amputei para me encaixar
As rugas do tempo que se foi para que eu não fosse.
E quer minha consideração? O meu abraço?
Eu não consigo! Eu não posso!
Meus olhos se acostumaram à escuridão
E doem à luz da menor chama da menor vela.
Tudo que ilumina meus recantos escondidos,
Minhas gavetas, meus baús secretos,
Precisa ser apagado e eu continue
Na paz sombria que vivo.
Vá embora! Não te quero aqui!
Pára de me lembrar do que poderia ter sido
Se não fosse o molde, o corte, o formato!
Sou um bonsai humano
A potência da árvore
Reduzida a uma planta de vaso.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Faróis

Por: Bia Latini

Faróis

Ser pai e mãe é ser alavanca, maçaneta
É ser degrau, escada
Piscina sem água
A água é justamente o filho
E a piscina pode ser rasa, funda, bem demarcada ou de borda infinita, permitindo ver o horizonte
Ser pai e mãe é ser ponte, farol, guia
É ser veículo e não caminho em si
As pegadas: firmes ou amedrontadas, vão depender do quanto você abre a porta do carro para que seu filho vá a pé
E ser um bom veículo é, também, por vezes, saber se fazer bicicleta, que é transporte com liberdade, velocidade, abertura, vento batendo na cuca que refresca os pensamentos e faz sonhos voarem
É lidar com a dualidade de querer reter e precisar soltar
É saber que não se é dono, apenas instrutor, semáforo, indicador
Ser pai e mãe é não saber e achar que tem que saber
Depois concatenar e assimilar que não se é Deus
Apenas humano, trocando com outro humano que veio depois
É errar porque faz parte da vida
De quem é pai e mãe ou não…
É que quando colocam algo ou alguém sob sua guarda, você sente o peso nas costas,
os dedos e os holofotes apontados para o seu desempenho
Mexe com seu ego e sua potencialidade, seu senso de capacidade
Estarta um julgamento, um apertamento do ” tem que ser” e do “preciso performar”
Mas não!! Esquece isso tudo!
Permita-se apenas ser, transbordar…
Toda sua essência, sua caminhada, buscando ser melhor, fazer o melhor
Sabendo que isso nem sempre vai acontecer e está tudo certo!
Afinal, o que é a vida, senão ela mesma?
Ser pai e mãe é dar-se oportunidade:
De doar e receber, sem expectativa no outro e em si mesmo
É apenas se permitir e sentir
Deixar-se vulnerável, exposto à aprendizagem.

Por Bia Latini


Créditos da imagem: Freepik

Por: Mauricio Luz

Por que me nomeias?
Por que me classificas?
Qual o motivo de quereres
Limitar-me por substantivos
Que não mostram minha substância?
Por que me rotulas?
Por que me analisas?
Qual o motivo do anseio
Em diminuir a grandeza incalculável do ser
Ao tamanho de tua própria prisão?
Por acaso queres que me reduza
A uma identidade que me foi imposta
Por impostores que não identificam a si mesmos?
Por aqueles que transformam em bengalas
O que seriam degraus de uma escada?
Lagartas, que por medo de voar,
Jamais ousam abandonar o casulo!

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Bastidores

Por: Bia Latini

Bastidores

Parecia tudo tão fácil, tão simples, tão acessível…
Só que existe um abismo enorme entre o que eu vejo, enxergo e o que eu executo
Quando é com a gente, tudo se torna uma montanha enorme a escalar, um terreno não auspicioso
Como eles conseguiram?!
Eu não sabia que aquele espaço era tão maior do que o que eu tenho aqui….
Eu não sabia que custava tanto e dava tanto trabalho…
Eu não sabia….
Eu não sabia, porque enquanto estava no plano da conjectura, do devaneio, da contemplação
A vida estava urgindo, o circo estava pegando fogo, o palhaço estava caçando piadas para fazer a plateia rir, a cozinheira estava picando legumes, desde 4h da manhã, o padeiro estava fazendo a massa do pão….
A vida é sobre os bastidores e não sobre o palco
O palco é sobremesa
e a plateia: ludibriados! Coitados!
Não sabem da missa a metade, da reza, um terço, do pranto, uma lágrima
A plateia faz fila para ser igual
Dança em marcha de Carnaval
Joga confete e serpentina
Em algo que nem atina
Cortina: Que abram suas vestes e mostrem-lhes o bacalhau!

Por Bia Latini


Créditos da imagem: Freepik

Por: Mauricio Luz

Contempla! Pára e contempla!
Contempla o que está à sua volta!
Te comportas como uma ilha de ignorância,
Mas estás cercado de beleza infinita,
Incontáveis milagres por todos os lados.
Contempla! Sente e contempla!
Contempla a catedral que há em ti
Um templo onde o tempo inexiste
A singularidade que une luz e sombra
Em um beijo de Amor interminável.
Contempla! Respira e contempla!
Contempla e sinta os elementos
Dançando a misteriosa dança da Vida
Bailando no rufar das batidas de seu Coração
No mesmo ritmo do mar e das estrelas
Contempla! Sonha e contempla!
Contempla para além do infinito
Para além d’onde a Mente consegue alcançar
Entrega-te, renda-te, una-te
E perceberás: o canto que busca
Está mais próximo do que imaginas.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Viva

Por: Bia Latini

Viva

Você estreia e a vida segue
Você vai embora deste corpo e a vida também segue
Mas quanto de vida você vai levar desta vida?
Não deixe para viver depois que passar no vestibular, depois que casar ou se emancipar
Não deixe pra viver, quando finalizar o mestrado, o doutorado, quando for promovido, sorteado, empoderado
Viva enquanto come, enquanto toma banho, enquanto respira e também quando sente-se sufocado
Viva este breve instante
A coisa mais certa é que nada é certo e que nada está sob controle
Viva, mesmo no caos e flua procurando alternativas para sair dele
Mas, enquanto se esquiva, flexibiliza, apara, acerta…Viva!
A todo momento, quando a tensão fizer morada, senta na calçada e lembra que é para ser divertido, sortido, colorido e não um fardo
Não é para ser pesado, retido, espremido, muito menos dolorido
Mas mesmo assim….a dor vem
E nela, também: viva!
Extrai o suco de cada fruta
O aroma de cada flor
A vertente de cada amor
Respira no ócio, no vazio, na presença
Esteja sempre aqui
Você pode ir, mas não deixe de voltar
Aqui, agora, este segundo…
É tudo o que temos
E não se esqueça: sorria
Não aquele sorriso falso, amarelo, exagerado
Sorria internamente, contente, sabendo que sente
Aquele sorriso dançante, que pode nem aparecer do lado de fora,
mas mora do lado de dentro;
alicerça-se na leveza e fluidez de quem…

Vive.

Por Bia Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Por: Mauricio Luz

Palavras, palavras…
São mais do que aparentam significar.
São cristais, forjadas no fogo da Terra,
Gerando encantamento ou volúpia, conforme os olhos que as admiram.
São veneno e fel, quando urdidas no calor do ódio e da raiva,
E escritas na tinta do medo, tornam-se mortais para quem as escuta ou lê.
São bálsamos quando florescem na beleza do amor e da compaixão
Que brotam do peito como a água pura rompendo a dureza do granito.
São mapas e caminhos, nortes oriundos de solidões e buscas perdidas,
Dos passos errantes que servem de esperança para quem tem medo de andar.
São sementes cuspidas, lançadas ao vento ou ao mar,
E germinam como frutos, doces ou amargos,
Como a aorta que lhes serve de horta.
São bombas incendiárias, que provocam caos e destruição
Ou pombas da paz, provocando calma e bem-estar.
Ah, palavras, palavras…
Quando tivermos consciência de vosso poder de Shiva,
Haverá palavra para descrever tamanha conexão, tamanho esplendor?
Ou o destino das palavras é justamente não ser capaz de mostrar
Em nomes, pronomes, verbos e advérbios
Aquilo que pode provocar?

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

E se ninguém pudesse te ver?

Por: Bia Latini

E se ninguém pudesse te ver?

E se de repente você ficasse invisível e ninguém mais conseguisse te ver?
Se você não recebesse mais elogios ou críticas?
Se ninguém mais dissesse o quanto você está bonito hoje, ou como tem evoluído no trabalho, nas finanças?
Se não tivesse mais seus filhos ou marido para dizer o quanto você é importante e o quanto eles te amam?
Se os seus vizinhos não sentissem mais a sua falta?
E o seu professor não dissesse mais o quanto você é inteligente?
Se fosse apenas você e você mesmo??
Você estaria satisfeito com quem você é??
Com sua aparência?
Com o tipo de pessoa que você se tornou?
Com o que tem feito da sua vida?
Com a profissão que escolheu?
Com o modo como se relaciona e trata as pessoas a sua volta?
Com a maneira como usa seu tempo?
Com as escolhas que tem feito?
Você estaria orgulhoso de você??
Teria admiração pela sua pessoa??
Você se amaria???
Se para algumas dessas perguntas você disse “não”, acredito que está na hora de parar de se pautar pela opinião alheia, achando que você é o que os outros dizem a seu respeito, julgando ter valor pelo que ouve sobre você
Ame-se, Respeite-se, Admire-se…
no vazio, na escuridão, na solidão, na imensidão e na inteireza da sua essência… Ainda dá tempo!!
De mudar o rumo, aparar as arestas,virar de cabeça para baixo, soltar o freio, tirar a máscara, ficar nú …e feliz!
De viver a sua verdade…
Sem apego, sem amarras, sem identificação
Apenas sendo…

Por Bia Latini


Créditos da imagem: Pexels

Tira o pé do acelerador e desce do carro

Por: Bianca Latini

Tira o pé do acelerador e desce do carro

Para de correr
De não querer ficar para trás
De achar que não dá mais
Para de se afobar, se desesperar e achar que não pode piscar
Para
Desacelera
Espera
Respira e apenas segue leve, fluida e, se precisar, sim, devagar
Dê tempo ao tempo
Tempo de entender, absorver
Tempo de Ser
Tira o pé do acelerador
Desce do carro e vai a pé
Mire o cume, mas comece no sopé
Esquece, por um momento, da linha de chegada
Vai contemplando, olhando, curtindo a caminhada
Sai do efeito manada
Catapulta-se da matriz
Faz no seu tempo
De acordo com seu relógio biológico
Rumina, se entender necessário
Desenvageta, sai do armário
Deixa quem quiser “passar à frente”
Cada um tem seu próprio cronograma, sua própria engrenagem, sua peculiar vertente
Não se ache fora da linhagem
Sinta-se livre para deixar o tempo correr
Nem todo dia é dia de produção, de tiragem, de amostragem
Tem dia que é só de passagem
Só de deixar ir, permanecer no silêncio, na abstração, na contemplação ou na leseira
Descendo ladeira
Desmanchando em preguiça
Dia de ficar jogado, jogando…tempo fora
Recolhendo alimento, abastecendo o corpo, a mente e o coração de combustível sensível
Dia em que você quer apenas ficar invisível
Deixa quieto
Deixa mansinho
Vai bem devagarinho
Não é sobre quem chega primeiro
É sobre chegar melhor
O SEU melhor,
Não o do seu vizinho.

Por Bia Latini


Créditos da imagem: Freepik