A forma de a vida passar

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Por: Diogo Verri Garcia.

Sinto-me inexato
Sobre como corre a vida.
É assim que estou
vendo o rosto que busca, já em cansaço.
É tal como percebi a cada passada, um descompasso.
Ainda que me veja, na vida, acolhido,
Talvez não mais sinto, pois que faça-me o ferido
Na proposição de não querer ser
displicente ou sem graça
frente ao que ela colhe: face à vida,
passo entretido.

Sigo,
Porém sem pensar que seja la algo triste ou
a se evitar.
Não digo que ela é um bem, em que algum mal haverá.
Apenas proponho que ela propõe armadilhas sem dó.
Feito uma moça que é linda,
mas que se torna apenas bonita
quando nos deixa só.

E assim como elas, as moças,
a vida instiga-nos em tê-la,
Pondo jovens amores
e velhos senhores a entretê-las
Crendo ser fácil que tudo pautará felicidade,
E esconde o desastroso perceber
da menor dor, da menor tristeza
E da inevitável saudade,
na morte pelo amor,
ou pela idade.

Nem que me faça o todo sempre contente,
Tenho sempre no mais profundo de minha mente
que a vida insiste em girar.
E gira de modo que, feito roda
Não há ponto plano: tampouco aqui, nem acolá.
Entenda-a e só assim seguirás resiliente;
Não é boa nem má,
É ela, quanto a nós, indiferente,
Sem ter o nó da euforia, nem o pesar.
É a forma de a vida passar.

Então
Quando o inexato fizer seu trato a incutir
alguma sombra de pavor: não tema a vida;
quanto ao rancor, deixe esvair.
Ainda que o momento não exista propício,
Um algo bom haverá,
e igualmente assim, nos deixará,
Feito o medroso de altura,
No altaneiro edifício.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 23 de julho de 2019).


Créditos da imagem: pixabay

Outro brilho, mesmos olhos.

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Por: Diogo Verri Garcia

São os mesmos olhos daquele dia,
Porém já distantes e frios
Os olhos dela não mais se abrilhantam:
Passam demonstrando nada mais que vazio.

E percebo que tais olhos não têm sua luz própria
Só refletem o que penso dela em meus pensamentos
Que por inexatos que sejam, mesmo que racionalmente os ignore,
Revelam sentimentos.

E o que sinto e o que vejo, nos olhos dela
São o motivo e a desgraça,
A argumentação para o que embaraça
O embaraçado amor que já tive.

Não sei se algo substancioso tencionou a mudar
Ou se apenas a direção do barco começou a girar
E eu me entretive.

Hoje tenho a ver que o mesmos olhos,
Dos quais tantas palavras saltavam,
não mais escrevem.
Que nem mesmo para curar a culpa
Dessa previsão não fortuita
talvez nem para isso eu mais reze,
Pois é possível demais que alegar desamor
seja um intento
Para quem – tal qual eu – não tem melhor argumento
Para não querer mais.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 23/07/2019)

Os Azevinhos

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Por: Diogo Verri Garcia

Há vezes que a solidão é o melhor adivinho,
Sem importar o que nos importa no mundo.
Deixar esvair a mente, que vá.
É fricção do perigo que corre o gosto
De não esvaecer a tensão de deixar-nos
No tumulto que nos entorna a rodar.
A pausa não é sem graça, nem morna,
É azevinho
das folhas verdes, onduladas e espinhosas.
Alongadas e com flores, de bagas vermelhas;
Iniciantes singelas e que põem copiosas,
Pois que brilhantes e longevas,
tal como o longe chegamos ao permitirmo-nos parar.
Lembrando só de quem queremos
Pelo bem – e ponha o resto a andar.
Dedicando um silêncio que só é cortado
pelo som das folhas passadas,
Da caneta posta à mesa,
Das teclas já datilografadas,
Do verso que interrompe a rotina
(que, extenuada, cobrou-me um tempo,
o qual, merecidamente, aquiesço,
tamanha a sorte que só agora me atina).
É no solitário refinamento que
vejo o quanto é veneno
Nunca ser o próprio destinatário.
Saber que até o vento
Segue hora e itinerário.
Mas para: não sopra a todo acontecimento.
Seguir solitário? Não, a ser perene não quero,
Pois não sobrevivo se for.
Mas aquiesço, se me for proposto
E corroboro a mim mesmo propor.
Mas que seja assim mesmo…
Só neste momento.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 08/09/2019)


Créditos da imagem: pixabay

Cicatrizes

Por: Mona Vilardo

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Sempre pensei na palavra cicatriz como algo ocasionado por uma dor, podendo ser física e, digamos, vista à olho nu. Ou aquela que não se vê, mas se sente: a dor da perda de um grande amor, a dor da decepção com um amigo. Essa que se sente, muita gente tem. As vezes até coleciona.

Mas, essa semana me lembrei da frase do poeta Manoel de Barros. “Não gosto de palavra acostumada”. Poeta, concordo com você, e, em poucas linhas, mudarei o sentido doloroso que a palavra cicatriz carrega.

Sim, eu tenho cicatrizes felizes. E, muitas delas, foram ao lado do meu irmão.

Até hoje, no meu joelho direito eu tenho uma cicatriz de quando brincávamos de correr um atrás do outro no Clube do Fluminense, onde íamos em família todos os finais de semana. Numa dessas corridas, abri o joelho num azulejo quebrado. Choro, sangue e uma cicatriz considerável. Mas ali, a maior cicatriz foi a diversão de dois irmãos brincando de pique pega!

Na mesma época do joelho machucado, descobri aquele mertiolate que ardia – e o meu irmão ria de mim, lógico! Nessa hora, eu queria matar ele. E, como uma criança perversa, dizia que ele tinha sido achado no lixo. Quem nunca disse isso pra um irmão quando criança?

Quando me formei no jardim, ele entrou comigo de mãos dadas na cerimônia de formatura, fazendo muito bem o papel do irmão que devia estar pensando: – Agora você vai aprender a ler e eu não preciso mais ficar dizendo o que tá escrito nos lugares! Ufa!

Depois da aula da escola, dividíamos o tatame de lutas juntos, construindo ali cicatrizes de quedas e perdas nas competições, mas sabendo que um sempre torceria pelo outro.

Aos 11 anos tive a cicatriz de ser irmã de um menino. Essa, vem com todas as brincadeiras típicas de…menino. Me lembro de me vestir como tal (boné, bermuda larga e uma blusa da Ala Moana) e ir brincar com ele de se esconder na garagem do prédio. Era uma noite chuvosa e estávamos nos achando praticamente dois super-heróis entre os carros. Por algumas horas, a garagem virou um parque de diversão para nós dois.

Na juventude, me recordo da cicatriz que ele deixou em mim quando eu tomei meu primeiro porre. Lembro dele cuidando de mim, me dando o chocolate Diamante Negro aos montes e me levando para dormir na casa da mãe de um amigo da escola. Lógico, que entre o Diamante Negro e a ida pra casa da mãe do amigo, teve um esporro básico de irmão mais velho. Mas, aquela cicatriz foi a de um cuidado extremo que ele teve comigo.

Por sorte dele (e minha, claro), o episódio não se repetiu. Não o do cuidado, mas o da “bebedeira” … rsrs

E as cicatrizes das boates dos anos 90? Essas, temos aos montes, não daria para contar aqui.

Depois, tivemos a cicatriz de eu sair da casa dos nossos pais primeiro que ele. Essa, não foi muito feliz no ato em si, mas foi a primeira vez que não iríamos mais dormir na mesma casa, onde muitos anos atrás brincávamos de fazer cabana unindo uma cama na outra – mais uma cicatriz de alegria, eu me lembro como se fosse hoje.

Há três anos, ele me deu de presente, a cicatriz de ser tia. Eu nunca imaginei que, ver o meu irmão saindo da sala de parto com sua filha no colo, fosse me causar tamanha emoção.

– Poxa, outro dia mesmo ele brincava comigo de Atari e descíamos a rua que morávamos num carrinho de rolimã!!! Agora, ele é pai! Que tempo é esse que passa tão depressa?

Você pode estar pensando que eu poderia ter mudado a palavra cicatriz pela palavra memória.

– Poderia mesmo! Mas, além de ser fã de Manoel de Barros e também não gostar de palavras acostumadas, foi exatamente olhando a cicatriz no meu joelho direito, no dia do irmão, que me lembrei de tantas outras cicatrizes felizes ao lado dele.

Cicatrizes, memórias, lembranças. Não importam as palavras ou rótulos. O que importa é colecionar sentimentos. Isso, eu e meu irmão fazemos até hoje.

Haja esparadrapo!

Poemas Pálidos

Por: Diogo Verri Garcia

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Sorrateiramente, sem violência,
Poemas vêm e vão.
Como passagens de trem, como o verão.
Nem todos são vigentes,
confortáveis ou frequentes.
Há poemas que são pálidos;
outros, que são quentes.

Quando encorpam, avançam e arrastam
Feito forças do vento abrasivo, que é bravo.
Quando desandam, são blocos de verso
que não causam, nem intencionam.
Sem sabor, não tencionam furor, tampouco sucesso.

Mas quando empolgam, traçam bem o caminho
E tornam-se oportunos para quem os lê.
Quando inspiram,
Nutrem paixões que arrepiam.
Fazem o poeta parecer afortunado, face a quem o vê.
Mas depois, cansam:
de tanto repetidos, versos entediam.

Caminha o poema como receita instintiva
Que tem métrica, rima, etecetera e tal
Mas que de nada serve, sem quentura nem clima.
Porque se é só verso e rima,
Sem alma, não é poema;
Não é formal. Não é verso. É normal.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 04/02/2019)


Créditos da imagem: pixabay

Sequestro na ponte

Por: Thiago Amério

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Ônibus lotado.
Gente atrasada.
Vida corrida.
Vida escorrida.
Um tiro comemorado.
Muita atenção.
Helicóptero.
Político.
Mansão.
Dívida.
Quem é vítima de quem?
Uma sociedade suicida
Ou mais um louco homicida.
Nunca se saberá.
Enquanto se comemora morte
Ficamos sem um norte
Quando se mata um pouco da gente
A gente morre também
Ou você acha que também não é refém?
Salva 30. Perde 100.
A conta não fecha.
Enquanto juntos não formos além.
Amém.

(Thiago Amério, 22 de agosto de 2019)


Crédito da imagem: pixabay

 

A mais tenaz calma

Por: Diogo Verri Garcia

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Quando não sei ao certo
O que é certo,
O que vai dar certo
E o que restará parado
se algo der errado.
É o momento que mais inquieta
Quando causa silêncio
o excesso de coisas que repetem e acontecem
quando só resta prece
para devolver o real silêncio.

Quando totalmente fico mudo,
Mas ela não se deixa calada
Com gestos sinceros, sorriso aberto,
Faz que não percebe a calma
que tão mais me desagrada.

Quando fiz algo mais,
Por ter feito menos.
Quando traço uma culpa voraz
por meus erros pequenos.

Ela, nem assim, se desalegra.
É um sorriso que cativa,
que traz um alento de riso e de paz
e feito um afago,
agrega.

Então me ponho falando
Sem ela nem suspeitar
Que traço meus próprios planos,
Conduzo-me em contornar
Por alguns internos reclamos.
Sempre por pensar fugaz,
por não saber pensar sereno.

Ela, quando o sorriso alegra,
Pouco a pouco, a resolução
começa a ser sincera, torna-se tenaz.
Quando sua voz não sossega,
não causa falta, nem sobrecarrega.
É ela, a calma, a paz.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 28/04/2019)


Crédito da imagem: pixabay

Quando se perde um voo

Por: Mona Vilardo

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✓ Mala feita – check

✓ Separar a roupa mais confortável para viajar – check

✓ Chegar no aeroporto com antecedência – super check

✓ Ter certeza de que a mala não ultrapassou o peso determinado – check (ufa)

✓ Beijos são distribuídos e adeus são dados – ckeck (a vida é feita de encontros e desencontros)

Chegou a hora de tirar o sapato, o cinto, o celular, o casaco. Nessas horas eu sempre imagino uma área de embarque com todo mundo nu. Sério! Imagina só, ia ser mais rápido pra todo mundo. Pra quem embarca, pra quem apalpa… enfim! Minha cabeça que vôo longe…

Você passou tranquila em todo esse processo chato de tirar tudo, levantar os braços, ser simpático (todo mundo faz cara de simpático na imigração, não mintam) e… colocar toda a roupa de volta. Roupa não, acessórios. Roupa seria no caso de todos estarmos nu, mas essa parte não existe, é apenas fruto da minha imaginação fértil.

✓ Ir direto dar uma olhada no horário do seu voo – check…não!!!!! No check. (o voo já está com previsão de atrasar)

É a segunda vez que acontece isso comigo: atrasos por causa de tempestades. A única explicação que vem na minha cabeça é que São Pedro não anda colaborando em nada com os meus retornos pra casa. #oquefizpravocêsãopedro?

– Mas qual o problema o voo estar atrasado?

– Problema nenhum, a questão é a conexão que eu pego logo em seguida. Tenho apenas 20 min para ir de um portão ao outro e tentar, veja bem, tentar embarcar na minha conexão de volta pra casa.

 Um voo perdido atrasa o abraço apertado que eu quero dar logo e o beijo de amor que eu tenho pra dar. Um voo perdido faz demorar ainda mais todas as histórias que eu quero contar em detalhes. E claro, atrasa também a abertura da mala que eu quero abrir e dizer: – Lembrei de você!

Perdi o meu voo!

A todo momento pessoas perdem voos, conexões e demoram a chegar em casa. Acontece quando perdemos ônibus, trem, ou qualquer outro meio de transporte.

É nessas horas, que eu queria fechar os olhos e poder já estar no lugar que eu quero, do lado de quem eu quero.

Tá aí, esse seria um superpoder que eu queria ter. Tem gente que queria ficar invisível pra ver se alguém fala mal dela, tem gente que queria ser super veloz e chegar primeiro que o outro em tudo que é lugar. O que eu escolheria par ser meu superpoder, eu acho que é bem mais simples: apenas querer estar logo onde minha morada está, tipo num piscar de olhos.

Já dizia Mario Quintana: viajar é trocar a roupa da alma. Concordo com ele, mas também acho que voltar pra casa é bem melhor. E sem atrasos, de preferência!

Os miradores

Por: Diogo Verri Garcia

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Havia um monte em que todos iam.
E a um prédio mais alto, feito um mirador,
Para ver a altura em que a chuva molhava,
Pouco lhes importando
se quanto mais alto a friagem chegava,
Pois o pisco causava calor.

Nela, meus olhos encontravam o frio.
Entregando um clima nem um pouco mais tenro,
de um ar seco, sem aragem,
causador de arrepio.
Simples, mas de incômodo agradável, ameno.

Era uma tarde já glaciada,
Prometedora de um momento gelado,
em Santiago.

E lá do alto,
Viram o sol que, por pouco, tornou-se a render
Por uma lua que vestiu-se descoberta.
Deixou de esplender,
para se eclipsar.
Olhando a todos,
Deixando a multidão parada,
Os miradores cheios,
as ruas desertas.

Agasalhavam-se todos tão menos que eu.
Mesmo de alma calorosa, quem mais precisava.
Mas vi maratonista chileno que pela noite correu
Em trajes próprios de quem do frio zombava:
Louco ele; o que não faço eu,
posto que me resfriava.

No frio, os passos são enxutos,
de um caminhar apertado
em um dia frígido,
e de um anoitecer ainda mais gélido,
quanto mais alto…
Completando o tempo que, se deixar, quase neva,
Logo ali, bem ao lado
De Santiago.

(Diogo Verri Garcia, Santiago, 06 de julho de 2019)


Crédito da imagem: pixabay

O Carioca Hipotérmico

Por: Diogo Verri Garcia

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Protegei-me, alguém,
do tão frio incauto
Que flagela e traz maus-tratos
À medida que esfria.
Eis que logo aos quinze graus,
Carioca já sofre hipotermia.

Não vejo razão nos que acham
esse agorento frio, no Rio, tão fofo.
Não há lareira em minha sala,
Devo descer roupas quentes da mala,
No mercado, armários de vinho esvaziam,
Pois, aqui, o inverno faz até calor, nunca frio.
E meus livros já temem o mofo.

Juro que acalento a frieza do tempo,
Não sendo este, pois, só um sem intento reclamo,
Eis que em outros lugares que tão bem guardo e amo,
deve haver alguns dias friorentos,
Vendo cair a neve sobre os arbustos e pisos,
Assistindo à branquidão criar um respirar gelado.
Pois que, assim, juro que até procuro o frio,
Seja rente, em Petrópolis, já na serra do Rio;
Seja mais longe, em Santiago.

Contudo,
Por cá, esse tempo não causa bem, não assente.
Os bares não têm aquecedor ambiente,
As praias nos expõem a um vento que sopra engabelado,
Pois deveria ser algo quente ao soprar pelas beiras.
É lugar em que não se projetam lareiras,
apenas ar-condicionado.

Por isso, rogo ao vinho que quiser levar,
A todo alguém que me possa ouvir.
Peço por um lugar quente,
Se não for muito pedir,
se não houver motivo a negar;
E por rever o tal calor que não demora.
Pois carioca não merece
ter tanto frio no Rio, sua casa,
Só fora.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 05/08/2019)