Decúbito Final

Por: Diogo Verri Garcia

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Decúbito Final

Quando tudo mais parar,
E o aperto descansar,
Que assim seja.
Que a alma possa se acomodar,
E o corpo parar de lutar
Para que o fim do amor cá esteja.

Finalmente, haverá tenacidade
e tranquilidade em perceber ser assim.
Que a certeza não põe cartas na mesa.
O coração esbraveja,
Mas tudo, afinal, é natural chegue ao fim.

Então, todos vão parar de falar,
Não haverá mais jantar.
E o que era futuro não será mais concreto.
É duro, mas haverá algum outro encontrar,
Logo um alguém para começar,
E o antigo amor estará encoberto.

É que a vida gira,
Mas somos nós que a empurramos a girar.
E só em outra vida
Pode haver um outro encontrar.

Quando então, passado todo o caminho,
E o corpo cansar, após longa idade.
Frente a Deus, pergunte,
Para se espantar.
Ele contará a verdade.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 27/04/2020).


Créditos da imagem:  Somchai Chitprathak por Pixabay

Gota no Oceano Cósmico (Autor convidado: Maurício Luz)

Por: Maurício Luz (autor convidado)

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Ninguém é imprescindível. Sempre que alguém desaparece, seja por qualquer motivo, depois de algum tempo a vida volta à sua normalidade. Pode não voltar à rotina e ao ritmo anteriores, mas em breve uma nova rotina e um novo ritmo surgem no lugar da anterior. E a vida continua.
Mas todos são insubstituíveis. Quem desaparece leva consigo sua capacidade de realizar, de sonhar, as experiências passadas e aquelas que estariam por vir. E as contribuições únicas que poderiam fazer não podem ser feitas por mais ninguém, pois ninguém é cópia perfeita de outra pessoa.
Somos prescindíveis mas insubstituíveis, o infinito contido na unidade. Feliz é aquele que é perfeitamente consciente de sua importância única, da exclusividade inata que lhe é concedida pela vida; e ao mesmo tempo, percebe-se como uma gota inserida no oceano cósmico.

Fotografia

Por: Bianca Latini

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Fotografia

Fotos, imagens
capturas de alguma coisa
Ou de coisa nenhuma
Depreende-se de fora o que está dentro
A foto e seu negativo
Colorido e contraste
Dois registros distintos
da mesma identidade
Coleto para ter comigo
Mostro o que me soa belo
A imagem transmite
Comunica
E ganha vida própria
Quem a recepciona
Vê apenas o que quer enxergar
E quem a tira
Quer levar consigo
para sempre
Aquele momento
que o faz relembrar
Marcas que ficam em impressões
Pedaço do todo que se fez recortar
Ângulos, luzes, sombras
Penumbras
Cores e ausências que se quis ou não revelar


Créditos da imagem: Pixabay.

Leveza da minha realidade (Autora Convidada: Raquel Alves Tobias)

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Por: Raquel Alves Tobias (Autora convidada)

Leveza da minha realidade

Incoerência coerente
Conexão inconsequente
Do doar sem receber

Abismo do vôo livre
Derrame do transbordar
Melado doce das rimas
Que não querem descolar

Dentro do meu bom gosto
Você tem o gosto bom

Preciso
Aceito
E permito

Não quero a metade,
Interrompida pelo talvez,
Mas o inteiro completo do até breve.

Então, exploda.


(créditos da imagem: pixabay)

Carta em entrevista

Por: Diogo Verri Garcia

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(Carta em entrevista)

Se a vida fosse sempre calada e nada incerta,
Passaria discreta,
Sem qualquer conotação.
Haveria só dores literais ou iguais sorrisos,
Talvez nada que opusesse a vida ideal que avalizo,
Porém sem o que nos elevasse além do chão.

Se a vida fosse sempre reta,
Seria dessalgada, descomprometida e não compromissada,
Talvez até sem razão de ser.
Não haveria o rubor das praças
Ou a graça do sons dos mares,
Nem as boas obras de milhões de exemplares,
Nada de bom a se tão bem viver.

Por essa razão que essa entrevista, tida em caminhada,
É muito mais do que jornada,
É tempo que conta,
Mesmo face ao nosso reclamo,
Em que pedimos ao tempo para pausar.
É rotação que roda igual para quem não quer parada,
Para quem quer só ter tudo, quando levará um nada,
Ou para quem só tem em contas
o amor que quer amar.

Se a vida fosse sempre reta e completa,
Não haveria pranto latente, desforço, nem meta
E a saudade só seria para os bem presentes,
Para fazer ainda mais felizes os já contentes,
E os descontentes, abandonar pelo caminho.
Mas se a vida fosse toda ajustada, não haveria poeta,
Pois, primordialmente, é quando a tristeza dá alerta,
Quando o amor capaz nos mata,
Ou o amor mordaz nos cega,
Que o verso deixa de vencer à prestação.
E vem se valendo de nós, feito toda uma reza,
chega de uma vez,
sozinho,
em inspiração.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 10/05/2020)


Créditos da imagem: pixabay

Retrovisor

Por: Bianca Latini

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Retrovisor

Como é bom dar nó em pingo d’água
Achar saída onde não tem entrada
Fumar cachimbo de nostalgia
Ouvir vitrola antiquada
Gosto de viajar no tempo e depois
retornar para cá, com alguns insights
Acho um privilégio revisitar outrora com
a cabeça de agora
É tanta clarividência
Tanta enxergação
Tanta ficha que cai,
mesmo depois da hora!
Acho que sempre é tempo
de fazer remendo,
de entrar no compasso
ou desfazer esse passo,
que a gente se impôs
na cegueira, na imaturidade,
na incompreensão
Gosto de ver fotografia antiga
E olhar quem fui, quem ainda sou
O que ficou para trás…o que sobrou
Acho graça ver meus cortes de cabelo
Meus penteados, meu corpo ora mais magro, ora mais moreno e meu sorriso
sempre querendo ganhar largura
Gosto de folhear minhas fases, minhas épocas, meus itinerários
Fazer terreno baldio ser usucapido
por tanta saudade.


Imagem de Erin Alder por Pixabay

Réquiem pelo verso

Por: Diogo Verri Garcia

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(Réquiem pelo verso)

Há momento
De quem reverbera a própria parada.
E se dá um descanso,
Tão mais breve que o tempo seja
Tão mais calmo quanto a tudo veja,
Sem que haja em sua sorte sequer
Uma luz apagada.
Afinal é parada, só parada.
Pois é chama que reluz quando cansa,
E mesmo assim permanece acesa.
Aparente e mais mansa
Que o sono leve em prontidão,
É instante de tudo mais, então.
Projetando algum jeito de a paz perenar,
Talvez sem fazer que pareça.

Já se aflita essa chama,
Pois se enfastia e se agita.
Nem por tão exausta,
pois da própria vontade será a alma sua única dona.
Ali se afiança em não haver sorte vã
E vê-se com culpa por querer dormir seu próprio abono,
Mas confiante no tempo que se abrirá amanhã.

O solo é o mesmo, e rega,
Sem o qual nem espinhos nem flores dão,
Pois o risco do amor é o ódio,
O peso da entrega é a saudade,
O contraponto da paixão é o abandono,
O anteparo da mentira, a felicidade.

E quem amou de verdade a si, esquece o resto.
É aquele que guarda de outrem tão só decepção.
Pois se fez amor sofrer, amou em vão;
Mas se foi sofrido, quebrou o tédio.
E transformou a finda paz em poemas,
E se zangou e depois riu, recordando a disparidade
De quem partiu e de quem deixou saudade
E de quem foi só capítulo para mais um verso.

E chega a parada finda.
Mais rápida do que se esperava,
Mais incauta que o momento que tanto abomina.
Mas chega a querer a paz,
Que é a brisa mais leve,
Pois o tempo vai,
e sempre se esvai.
Então, que seja breve.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 18 de dezembro de 2019)


Imagem de Suzeet Twanabasu por Pixabay

Assim Sou

Por: Bianca Latini

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Assim sou

Sou teatral
Passional
Existencial
Não sei viver
Sem picadeiro
Não sei existir por derradeiro
Sou pele queimada
em dia de sol
Sou ferida aberta
De cor de sangue vivo
Sou sensorial
Olfativa
Embevecida
Lentes de aumento ou diminuição
Visual
Minha audição pode me levar à lua
Ou para debaixo do fundo do mar
sem escafandro
Gosto de ser tateada
E logo tomada por aquele
Que me abraça
e a minha língua sabe falar
Sou inovadora
Inventiva
Criativa
Arranjo entrada em saída
E prefiro retirar-me
Onde não há mais vida
Sou exagerada:
Gosto de vento que bate forte
E tira os pés do chão
E o chão da cabeça
No meu exagero,
Gosto,também, de brisa extremamente suave
Que embala
meu sono manso
Daqueles em cesto de criança
Que faz dormir meu corpo
Acordando minha intuição
Renovada, amanheço para a próxima jornada
Nas teias da imaginação.


Imagem: arquivo pessoal

O espinho do eu (Autora Convidada: Raquel Alves Tobias)

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Por: Raquel Tobias (Autora Convidada)

O espinho do eu

Eu sou espinho
Que espinha
Todo dia
Roço no espaço
E no tempo
Todo o tempo
Entre a roupa
A pele e a vida

Se mova!
Incomodo
Parado!
Incomodo
Não haverá paz,
Não!
Não me esquecerás,
Não!
Não encobrirás…

Dipirona
Algum “colato”
Salicilato
Anestesia não há!
Não fujas!
Nada resolverá
Estarei ali
Sempre
A cutucar

De tanto roçar
Me fiz ferida
Quente, crescente
E agora
Infeccionada.
Dia após dia
Vai doer, latejar
Pulsar e pulsar
E então você saberá
Que agora é cirúrgico
É extremo
Chegou o momento,
O fim da linha

Se nada for feito
Vira sepse
Vira morte
É preciso um corte
Que vai doer mais,
Muito mais

E em superfície vulcânica
Efervescente
Em rubor doloroso
Nenhum acalento chega

Mas é preciso
Seja inciso
Um corte
Um grito

O alívio…

O que se esvai
Traz a paz
Foi-se o peso
Foi-se a dor
Vira você
Vira eu
Vira nós
E expande
Todos os nossos sóis

(Raquel Alves Tobias)

Por: Victor Cabral

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Tantos vidros entre em nós
Telas de celular, ponte pro desejo
Lentes, enquadram nossos olhos ( a sós )
Janelas de carro, despedida em segredo

Nasce mais um dia estagnado
Vidrado
Sem notícias suas, sem nenhum recado
Virado
Vejo você me olhar do outro lado
Pecado
É todo esse tesão não realizado

Em sua casa que nunca visitei
No seu corpo que eu nunca adentrei
Os seus gostos que nunca sentirei
Nasce fértil a semente da imaginação

Completo as lacunas com meus devaneios
Te imagino agora deitada, camiseta velha folgada dormindo quieta, sem receios
Talvez se eu te acompanhasse
Procuro um espaço, encaixo um abraço, seu cheiro adocicado, minha mão nos teu seios

Ouço seu canto, sotaque gostoso
Chiando baixo pra te deixar dormir mais um pouco
Que sufoco
Tão pouco — de ti — parece-me muito
Todos os escritos dão sobre o mesmo assunto

Não é você quem eu afago, abro meus olhos E era só o travesseiro, o corpo que me jaz ao lado

Que saco

O jeito é dormir, temos um encontro marcado.