Machado

Por: Thiago Amério

axe-984008

Corta a lenha.
Esmera quando afiado.
Quando cego, machuca.
Se empunho com jeito
É instrumento perfeito.
Defende vulneráveis.
Ataca covardes.
Protege quem precisa.
Lapida a madeira.
Odin, tupã, Zeus ou Xangô
Machado é fogo de amor


Créditos da imagem: pixabay

Enquanto houver mar

Por: Diogo Verri Garcia

waves-1867285
Deve seguir a navegar,
Enquanto houver mar.
Falou-me, ao vento, o pescador antes de ir.
Zarpou no pesqueiro, recolhendo cordas
Para se soltar.
Foi tudo o que contou, antes de no mar quase se afogar.
Ou porque perdeu coragem,
Ou porque pecou por sorrir.

Soube por outrem que as ondas eram maiores que o barco
Mas de naufrágio não tinha medo o tal pescador,
Recolheu e içou velas, desacelerou
e acelerou no mar salgado
Que de tanto sal, salgava as gentes e os fardos
Sem ter abrigo ao cansaço,
vislumbrado-se desassossegado,
Mas não questionou: subiu mais ainda o clamor.

Quando o mar acalmou,
pretendeu de imediato que houvesse algo mais.
Mas nada mais havia.
Na úmida aflição entre peixes
Percebeu que ao deixar o cais,
era descontente, para quem a tudo tinha.
Mas tendo apegos por sonhos, isso ocupava sua paz.
Era a forma como vivo se fez ou ainda se faz,
Tem-se o modo como a vivacidade o mantinha.

Não entendeu porque na imensidão sem gente
O mar não mostrou-lhe apreço,
Só debruçou-lhe nem sob, do céu, gotas;
só do mar, amargas correntes.
Em que pese disposto a qualquer tempo ou vento,
Não contava mais,
Pois, como antes, o mar
Não mais lhe era, como já foi, fiel.

Sossobrou ao acreditar remando dentre torrentes,
Ao superar tempestades chegadas
Em um anuviar de repente,
E, mesmo assim, não ver nem terra, só mar;
Sem porto claro, nem céu.
Se era sol brilhoso, que queimava, se queixava.
E por lá também lamentou o dia nuvioso.
Tomou-lhe algo em alma entrelaçado, como em um opaco cordel.

Mas não se deve desistir de navegar
Enquanto houver mar.
E por haver mar,
Ao aportar, percebeu-se melhor do que ao partir.
Chegou sem peixe,
Mas quedou-se a retornar
Do infiel do mar,
Que dor causou,
Mas consertando o que levou,
Entregou-lhe tudo,
para outra vez repetir.

(Diogo Verri Garcia, 18/09/2019)


Créditos da imagem: pixabay

Frango na Sauna

Por: Mona Vilardo

Olá, leitores do Literarte!

Ando bastante sumida daqui e aproveito esse espaço para explicar um pouco o que aconteceu. Expressar-se pela arte, ao meu ver, sempre é o melhor caminho, e confesso que passei algum tempo sem conseguir me expressar nos meus textos quinzenais. Pode ser inusitado isso, mas é real. Sem inspiração, sem coragem, sem escrever nada.

Acontecimentos inusitados nunca fizeram parte da minha vida, embora tendo feito 10 anos de aula de improvisação no Teatro O Tablado. Improvisar no palco é muito mais fácil do que na vida real. Hoje, analisando a minha trajetória artística que começou aos 8 anos de idade, vejo que o inusitado nunca esteve presente. A começar pelo que escolhi seguir: a música clássica.

Na música clássica não há espaço para o inusitado, para o “não ensaiado”. Sempre me recordo de como eu era refém da partitura quando estudei piano. Aprendi muito cedo todas as regras estabelecidas num pentagrama: compasso, dinâmica, mãos esquerda e direita, leitura antecipada do que vem – para que as mãos já estivessem preparadas quando o próximo sistema musical chegasse, e todas as notas estivessem “debaixo do dedo” –, como sempre dizia minha cruel e adorada professora Dona Ruth. Na minha trajetória musical, não houve espaço para erros, e a disciplina era rigorosíssima.

Nunca me queixei disso e cresci dessa maneira, eu realmente gostava desse rigor. Na faculdade isso não foi diferente. Mas, como tudo tem dois lados, nunca consegui improvisar num showzinho entre amigos, contando coisas corriqueiras da vida.

Cadê a partitura? Minha voz não tá boa hoje! Desafinar no karaokê? Nem se eu quisesse.

Cresci assim, onde o inusitado não cabe. Onde o erro não tem espaço.

*Aqui já começa o inusitado na minha vida. O texto vai continuar semana que vem…


Créditos da imagem: Mona Vilardo.

Promessa (des)cumprida

Por: Thiago Amério

mc3a3o

Dez Mandamentos:

Um norte.
Um caminho cumprido.
Uma porta larga.
Vários pedidos.
Muitos arrependimentos.
Alguns compromissos.
Inúmeras promessas.
Mesma conduta.
Um grande sentimento:
se as pessoas descumprem
por que se comprometem?


Crédito da imagem: Thiago Amério

A cabeceira dois.

Por: Diogo Verri Garcia

sugar-loaf-pao-de-acucar-1679231.jpg

Passou mais um, em compasso lento, aguardando na cabeceira dois.
Não na vinte, eis que não permite o vento;
nem em outra mais, pois não existe a três.
Antes, passaram tempos,
Passaram tantos, quem perdeu as contas, que voltou a vez.

Fazia dias que não olhava à sua volta
prostrada às costas a janela,
Onde laborava o sol todo prosa ao nascer.
De lá, onde se via o mar, cego,
Deixava a janela entrepassava
E acendia as luzes,
Para que fosse possibilitado ver.

Mas um dia o sol, de calor que arde feito vela,
Aproveitou-se da janela mal fechada
– a sempre cerrada janela -,
De frestas em frestas, refletiu na tela,
ocupou a sala.

De modo que a luz abafada,
De ar feio, virou paisagem em veraneio
Quando subiu a tranca,
permitiu-se a brisa, abriu as cortinas.
Era uma manhã tão clara.

E então notou que passava outro mais,
Mirando a cabeceira dois.
Assim como barcos rumo ao cais.
Havia a tal paz que agrada; que já se exacerbara.
Era o mesmo mundo,
mas entrou o sol ao abriu a janela:
Viu-se a Guanabara.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 18/10/2019)


Crédito da imagem: Pixabay

A Procissão

Por: Diogo Verri Garcia

corpus-1869603.jpg

Três velas foram acesas
Para prorrogar o que ensejam
outras três que apagaram.
Mais seis pares foram ofertados ao santos,
para acalentar dores e prantos,
para alcançar o necessário.

Dezenas foram à igreja
Caminharam com firmeza
Passaram e fizeram promessas
Compareceram até em procissão.
Tantos entregaram juras
Virtuosos ao som da reza,
Que finda nem sua metade,
Já repediam, em devoção.

Muitos que fizeram reza,
Prometeram as mais árduas promessas,
Muitas das quais não poderiam nem cumprir.
Falavam a verdade, quando juraram tão depressa,
Que nem lembrariam um dia,
O que não se deixou concluir.

Fizeram prece de tamanha veracidade,
Levantaram estandartes,
Juraram tudo, a cumprimento severo,
Feito o devoto em devoção
Mas que depois se esqueceu de adimplir.

Ganharam as graças,
Foram as praças,
Comemoraram a tudo.
E nunca mais rezaram para agradecer,
só outra vez para pedir.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 05/10/2019)


Crédito da imagem: pixabay

Vermute e Jazz

Por: Diogo Verri Garcia

piano-1846719

Quando vi que chegava tarde,
Na verdade era bem cedo.
Quando soube que a voz
era sinceridade,
Corri ao encontro; não houve desterro.
Sem perceber que o dia de penumbra
na verdade era sol.
Ao não aquiescer que o sustenido maior que tocava
Era menor bemol.
Quando vi que o tudo o que se passava,
Passava e pouco se agradecia.
Ao notar que as trevas que tantos se queixavam
Era o mais lindo dia.
Notei que a vida que adiante passava,
passava diferente
Entre gente que sem refrão já chorava
E os sensatos felizes que se punham contentes.
Percebi que o jeito calado que pouco olhava,
Era de contentamento.
Notei que o momento que espreitava
Já aguardava por um tempo.
Um momento de brisa entrecortada,
Não em frente, mas tendo algo do mar.
Tendo a razão da maré que se achegava
Já querendo ficar.
Observando um pouco de paz, em semitons infiéis.
Como uma alvorada em jardim.
Esperando um drinque de vermute e gim
E um piano de jazz.

(Diogo Verri Garcia, setembro de 2019)


Créditos da imagem: pixabay

 

Os malabares

Por: Diogo Verri Garcia

juggler-1216853

O que está a ser reservado, será.
Não há flores, não há guerras, nada que possa abrandar.
O que tende a ser certo,
malfadado não se faz e não se fez.
Acontece em que pese a força,
Mas se reforça na prece.
Jaz a paz, mas chega a vez.

Só não sei se o acaso cobiça algo em troca,
Se joga-nos tão ao alto quanto malabares,
Que não conserta-nos, e desconcertante, entorta-nos.
O que há em ser destino se não um cassino em que nos aposta a sorte?
Tanto infirma-nos, posto que encaminha-nos:
Chega a dar tontura,
em corporatura de cadeira em garrote.

E segue em todos a comum visão do inquieto,
Que tende a olhar mais o pranto
Que não explica ao certo,
Que não acha o encanto,
Mesmo que seco,
Mesmo que não doa,
Não é feliz pois deixou-se
(em ceguidade e renitência) sucumbido.

E desinibiu-se na teima de um léu descaso.
No que é fé ou afincado passo,
Segue o andaço, mesmo abatido.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 10 de setembro de 2019)


créditos da imagem: pixabay

A deselegância do cretino

Por: Diogo Verri Garcia

tie-690084

Deselegantemente,
Escolhe seu melhor terno.
De desalinho notado,
panos mal costurados,
De corte nada moderno.

Com uma calça sem vinco,
De vividez sem afinco.
Não minto: a fivela surrada e o couro nada distinto
tomam conta do cinto.

Os punhos da camisa são menores que as mangas
de um terno de listras, com camisa xadrez
e desbotada gravata da cor de pitanga.
Carrega um lenço de branco amarelado,
Pente de osso quebrado.
Toma uma caneta guardada,
com falsa aparência de cara,
Que nem se achada eu quero.

Sai com um pisante vindo do sapateiro,
Contando com um devido cuidado
para reformá-lo inteiro.
Exagerando na graxa, para cobrir arranhões.
Mudado o solado ruim de borracha,
desgastado por muitos pisões.

Abre um sorriso tão franco,
Marcado por um enorme brilho,
Pois vai esperar por um filho
que tencionou visitar.
Era um palácio de salas, cheio de empecilhos,
Com gente imponente
que lhe manda aguardar.

Finalmente chegou um rapaz apressado,
Com traços já desgastados,
Quase tão velhos que o pai.
Este a tempos não via: que a vida não permitia,
Filho que sempre dizia,
Mal como sempre se sai.

Tantos que ao jovem apressavam,
A afugentá-lo da imprensa,
E dos credores de contas
de exigibilidade já não mais suspensa.
Dos prejudicados que exigiam
nem que uma mentira, uma qualquer explicação.

Repetiu-lhe o velho
Que deselegante é viver na mesmice.
agir com tolices,
Buscar a forma errada,
Entrega-se ao preguiçoso atrevimento,
Criar tormentos,
Ferir os outros por nada.

Mas era impassível o filho,
sem demonstrar vergonha,
palidez ou desatino,
Pois era folgado o cretino.
Em meio a dúzias de fotos
e a gritos de populares,
Vídeos de celulares de gente sem compaixão.
Trajava o filho um terno de pano caro e corte fino,
Cortado às custas de muitos destinos,
Que só lamentava
Por não ter nada mais caro nas mãos.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 30 de maio de 2019).


Crédito da imagem: pixabay

A forma de a vida passar

technology-3230663

Por: Diogo Verri Garcia.

Sinto-me inexato
Sobre como corre a vida.
É assim que estou
vendo o rosto que busca, já em cansaço.
É tal como percebi a cada passada, um descompasso.
Ainda que me veja, na vida, acolhido,
Talvez não mais sinto, pois que faça-me o ferido
Na proposição de não querer ser
displicente ou sem graça
frente ao que ela colhe: face à vida,
passo entretido.

Sigo,
Porém sem pensar que seja la algo triste ou
a se evitar.
Não digo que ela é um bem, em que algum mal haverá.
Apenas proponho que ela propõe armadilhas sem dó.
Feito uma moça que é linda,
mas que se torna apenas bonita
quando nos deixa só.

E assim como elas, as moças,
a vida instiga-nos em tê-la,
Pondo jovens amores
e velhos senhores a entretê-las
Crendo ser fácil que tudo pautará felicidade,
E esconde o desastroso perceber
da menor dor, da menor tristeza
E da inevitável saudade,
na morte pelo amor,
ou pela idade.

Nem que me faça o todo sempre contente,
Tenho sempre no mais profundo de minha mente
que a vida insiste em girar.
E gira de modo que, feito roda
Não há ponto plano: tampouco aqui, nem acolá.
Entenda-a e só assim seguirás resiliente;
Não é boa nem má,
É ela, quanto a nós, indiferente,
Sem ter o nó da euforia, nem o pesar.
É a forma de a vida passar.

Então
Quando o inexato fizer seu trato a incutir
alguma sombra de pavor: não tema a vida;
quanto ao rancor, deixe esvair.
Ainda que o momento não exista propício,
Um algo bom haverá,
e igualmente assim, nos deixará,
Feito o medroso de altura,
No altaneiro edifício.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 23 de julho de 2019).


Créditos da imagem: pixabay