Meditação Ativa (Experiência vivida na “Dança Intuitiva da Alma”, com teoria inspirada nos 5 Ritmos de Gabrielle Roth)

Por: Bianca Latini

Meditação Ativa

É tanto ar na minha boca
Tanto vazio nos meus espaços
Tanta emoção
Tantas perguntas
A dança nos faz evaporar
A liberdade nos faz pertencer
A ausência de forma
De certo, de errado, de passo, de ritmo, de precisão
A vagarosidade e a rapidez que se misturam
Uma fenda no espaço
A infinitude e a desfragmentariedade
A loucura recobrando a sanidade
O suor devolvendo a vida
O calor trazendo idas
O cabelo que quer se descabelar
O pescoço que quer virar molusco
O pulso que quer viver robusto
A entrega à maluquice, à brincadeira, ao divertimento, ao derretimento…
A ausência de qualquer freio
O lugar onde não se quer esteio
Só se quer fluir
Ruir
Despir
Expurgar possibilidades
Vestir-se de insanidade do bem
Rodopiar nesse vórtice de energia singular
Onde se pratica terapia ativa
Através de nossa nave espacial mais lunática, mais fantástica, mais espetacular:
Nosso corpo humano
Feito de ossos, órgãos, tecidos, músculos e crepúsculos
Na mais perfeita engrenagem


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Fogueiras contemporâneas

Por: Priscila Menino

Fogueiras contemporâneas

Alguns anos e anos atrás, certamente eu teria minha fogueira.
Fogueira essa que criaram para me queimar por querer ser fiel a minha autenticidade.
Costumo pensar que ser da galera das bruxinhas sempre foi mais divertido.
Sempre pude dançar na chuva.
Pude cantar a plenos pulmões aquela canção favorita.
Pude saltar.
Pude falar palavras de baixo calão.
Pude me permitir.
Não eram os justíssimos espartilhos que prendiam aquelas mulheres, era a crítica e julgamento da sociedade.
Hoje não temos espartilhos, mas há quem queira ainda nos colocar mordaças do moralismo exacerbado.
Não temos mais fogueiras para matar as supostas bruxas, mas temos dedos em riste para pré julgamentos e ofensas que podem transformar ânimos e esperanças em cinzas.
Mas, sejamos realistas: não conseguiram nos queimar há anos atrás e não será agora que devemos ceder. Eles não podem! Não dê esse poder a eles!
Continuemos gargalhando alto, andando livremente por ai, deixando a leveza da nossa essência nos guiar.
Confiemos! Se continuamos a causar incômodo, é sinal de que estamos no caminho certo.
Continuemos livres.
E se houver fogueiras, que o fogo seja de tanta emoção e amor pela vida, que explodem em nossos corações.


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Dois do Onze

Por: Diogo Verri Garcia

Dois do Onze

Há mais um dia frio.
Não há tantos sinos que dobrem,
Ou candelabros que lotem
a exaltar mais chamas acesas.
Postas estão algumas velas, tateando a mesa,
Em um instante de paz, de pesar.
Com preces todas
dispostas no cruzeiro, no altar,
Em respeito de quem deixou saudade e foi,
pois precisou partir.

É um dia sem chuva,
Cujo sol não tem brilho,
não há intensidade no vento, nem mormaço.
Só alguns sopros gélidos de ares
Inoportunos,
Que não medem o hoje desaconselhável
acalorado abraço,
Que nos pede a data
E esse dia mais frio.

Peça-se sossego a todos os amores
que em meu peito morrem.
E a todas as almas que podem,
Que fiquem em paz.
Que esperem só preces,
Não lamentos de luto,
Nem prantos já profundos e largos
Dos abraços outroras em exulto…
Deixem a saudade,
de modo que não a maltrate a mais,
Em finados.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 02/11/2020)


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Impaciência

Por: Bianca Latini

Impaciência

Hoje queria que todas as situações chatas, inconvenientes e que me deixam impacientes
fossem um vidro bem fininho e espelhado
para eu quebrar com um martelo bem pesado
e vê-lo estilhaçar-se e despedaçar-se em pedacinhos bem minúsculos
Impossíveis de serem colados
Iria pegar uma pá de lixo bem grande
Catar tudo, jogar no vaso sanitário e dar descarga!
Para ter certeza de que não iriam retornar
Sabendo que, naquela enxurrada, seriam levados
Queria soprar bem forte
e ver sair da minha boca um vendaval de insatisfações, inquietações e acomodações
Deixaria fazer um tornado
que se movimentasse para bem longe
lá no meio do oceano
Colidindo com a tempestade poderosa e devastadora
Não sobraria nem um lamento dentro do meu paladar
Nem um amargor nas minhas cordas vocais
Nenhum espinho nas minhas palavras cuspidas
Nenhuma irritação na minha deglutição engasgada
Faria essa catarse catastrófica e arrebatadora
Deixaria chover tempestade
E relampejar trovões
Invocaria que o céu ficasse preto e bem escuro
Para ouvir lampejo fazer barulho
E, num estrondo do tamanho do mundo,
ver minha irritação explodir
Numa fração de segundo.


Créditos da imagem: pixabay

Por: Victor Cabral

Vem cá, ensina-me essa coisa
De entender o que dizem as palavras
Para além do que querem dizer

Perdemos nosso sono de casal
Em cama de solteiros, tão pouco são
Manhãs em solitária companhia

“Bom dia, meu bem, o café acabou”
Em nosso cardápio só os desejos da carne
Seu corpo, meu desjejum


Créditos da imagem: acervo pessoal (o próprio autor)

Geração X, Y, Z… até onde vai ser?

Por: Priscila Menino

Geração X, Y, Z… até onde vai ser?

Estava eu aqui refletindo sobre as gerações e as mudanças na sociedade. Eu faço parte de uma geração que, em uma grande maioria, teve pais que lutaram para buscar oportunidades de emprego e busca de condições melhores. As mulheres ainda estavam encontrando seu espaço no mundo corporativo e deixando de ter ser a única responsável por manter o conforto do lar e a criação dos filhos saudáveis e ortodoxos. Meu pai sempre nos contava que veio do interior do Paraná para a então recém capital do Brasil em busca de melhores oportunidades e para “crescer” na vida. Ele não pode estudar, pois tinha que optar entre estudar ou trabalhar para obter dinheiro para auxiliar na renda doméstica. Aprendeu com meu falecido avô a a profissão de mecânica. Acostumado a rir das mazelas da vida, meu pai vivia falando que meu avô falava: “meu filho, estude ‘medicina’, mas ele entendeu “oficina’” e acabou sendo mecânico por herança do meu avô. Meu pai é o que se pode denominar como uma pessoa autodidata, um verdadeiro “MacGyver fundido com Chuck Norris” (se alguns da minha época ou mais novos não souberem, perguntem ao oráculo Google). Para vocês terem ideia, já vi meu pai produzir peças para carros e resolver o problema mecânico do motor, arrumar armários em casa, fazer ajustes na lavadora, ajustar o jardim de casa, montar e desmontar um brinquedo que tinha parado de funcionar e fazê-lo ser ainda melhor após isso e mais umas mil coisas que envolvem uma furadeira, uma chave de fenda ou uma chave Philips. E o mais impressionante é que ele não concluiu a quarta série, mas, quando eu preciso de alguma ajuda, seja ela qual for, ele dá um jeito de aprender pra resolver. Não fala nada de inglês e não se ajustaria em uma sala de cursinho o ensinando o verbo to be, mas me ensinou a amar Beatles, respeitar Bee Gees, ABBA, Roxette, Air Supply, The Police e mais umas lista enorme de bandas e cantores internacionais.
Para compensar o que não teve, meu pai e minha mãe pagaram escola particular para mim e para meus irmãos. Houve dias que eu não via meu pai (muitos e muitos dias), pois ele precisava entregar os carros prontos e nunca teve uma organização de um esmero administrador de empresas, afinal, ele aprendeu com meu avô e ele também não era um bom administrador. Eu e meus dois irmãos tivemos oportunidade de estudarmos e nos formamos, pois meu pai de uma forma instintiva queria que fôssemos “dôtores”.
Eu saí de casa cedo, casei jovem e me formei jovem também, seguindo os passos da minha mãe, que se casou com apenas 16 anos.
Mas a maioria dos meus amigos não tiveram um caminho similar. Minha geração teve uma grande dificuldade de entender o que era se rebelar contra uma predeterminação que nossos pais queriam para nós, com os limites de ser exatamente o oposto.
Em seguida, veio uma nova geração, com ainda mais informação e acesso a tecnologia que acabou optando por não fazer os métodos tradicionais de educação, conheço tantas pessoas que optaram por não concluir o ensino médio, por exemplo.
Agora a ironia da vida é que curiosamente nossos pais ou avós não puderam estudar e ter uma formação acadêmica por não poderem, seja pela dificuldade financeira ou pela dificuldade de locomoção ou mesmo pela dificuldade geográfica.
Enquanto isso hoje a juventude está deixando de fazer os métodos tradicionais de postulados de “educação básica” em decorrência de uma opção.
Aí eu me pergunto: será que eu serei vista como uma pessoa antiquada pelos meus netos quando eu disser como era complexo o período de provas na faculdade e conciliar isso com os dois estágios que eu tinha nos turnos opostos?
E como estão as novas profissões que vai surgir na nova sociedade com essa juventude? Bem, aparentemente vamos esperar para ver e eu espero estar sentada tomando uma taça de um bom vinho e com propriedade dizendo aos meus netos: “me ensina a mexer nesse troço aqui, na minha época, a gente ainda precisava procurar as respostas, vovó não está habituada com essas mania de vocês…”


Crédito da imagem: pixabay

Poema do Amor em Prognose

Por: Diogo Verri Garcia

(Poema do Amor em Prognose)

Amar é a arte da mágoa
Que se faz compartilhada
Até a felicidade que, por vezes, nos encontra,
Em tantas, é por nós repassada,
Na tentativa de achar,
dentro do verbo amar,
Uma resposta.
Pena que não se sabe tanto ser feliz
E passa-se tão perto, por um triz,
De quem de ti gostou e de quem, enfim, tu gostas.

É ver que no verbo amar há sempre um esperar,
vê-se a repetição
de crônicas, atos e poemas.
Há uma mudança de atores,
mas sempre, em vão, o então dilema,
a ponto de não se encontrar,
entre certezas e dúvidas,
amparos e medos,
Entre as variáveis mais expostas,
e até os irreais segredos,
Toda quem que já te fez mal,
Mas isso nunca fez, porque te amou.
E toda aquela que, ao amar a mais,
Feriu ou fez ferir,
Quando então viu que o amor deixou.

A arte do verbo amar
Não tem amparos, nem termos médios,
sequer cabe na conjugação
Quando o tempo do verbo é o presente,
eis que o passado não se assente
e o futuro não pode,
para então amar, ser aguardado:

Não se cabe em opção.
É verbo a ser proclamado
sempre em primeira pessoa,
desde que conjugado vivamente também por
uma alma presente,
Que se faça, na gramática do verbo,
patente e latente
uma feliz terceira pessoa.

E o amor assim que é, mutuamente, compartilhado.
Sem o qual nunca vale,
Não serás verdadeiramente,
nem amoroso,
nem verbalizadamente
amado.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 04/10/2020).


Créditos da imagem: pixabay

Por: Victor Cabral

Fosse tu um violão, singelo instrumento
Quais notas arrancaria de ti?
A receberia em meu colo, terno sentimento
Com meus braços, te puxo a mim

Canto pra ti, pra me deixar tocar-te
Minha voz é chamamento e ilusão
Encaixa-te em mim, feito obra de arte
União de dois corpos em um só som

Mão esquerda que desliza em teu braço
Mão direita que dedilha seu bojo
Faz-me sons: minha corda, como aço
Acorda-me com tétrades de gozo

Eu, você, nós, um: músicas-pessoas
Complexas obras-primas de carne e som
Mão direita que desliza entre suas coxas
Mão esquerda que borra a cor do seu batom

Enrosco meu dedos em suas cordas-cabelos
Que me soam cheiros de alecrim
Não deixo-te ir, joga teus sons em mim
Toquemos mais uma, ei de dormir entre seus seios


Créditos da imagem: o próprio autor (acervo pessoal)

Poema do Erro Redundante

Por: Diogo Verri Garcia

Prezados Leitores,

Em comemoração ao Dia Nacional do Poeta (ontem, 20/10), republicamos “Poema do Erro Redundante”, autoral, de 2019, dada a possibilidade de lidar com palavras, emoções, significados e até com a norma padrão, que o ofício da poesia nos garante.

Tal como outrora expressamos em “Descredenciado Poeta”, de 2018, “a poesia, quando ab-roga seu dono, É livre, nunca será de mais ninguém […] Ama instantes a ti, ama logo mais outro alguém” (Diogo Verri Garcia, “Descredenciado Poeta”, 11/08/2018).

“Poema do Erro Redundante” suscita interpretações e significados de cada um que o lê. Representa a perda da propriedade, da titularidade, que abandona aquele que escreve e encaminha-se para o domínio da percepção do leitor, fazendo dele, nisso, também um poeta.

Parabéns pela data a todo aquele que tem por hábito a leitura, pois faz em sua interpretação um importante passo da poesia. Em suma, todo leitor é um poeta hermeneuta.

Boa leitura.

Diogo Verri Garcia, Rio, 20/10/2020.


Poema do Erro Redundante (#repost)

Inicio meus versos nos erros
Desacertados.
Vindos de um surpreendente inesperado,
Tão bem guardado há anos atrás.
Que impediu o planejamento antecipado.
Na vida, entre uma verdade e um fato,
Em metades iguais.

Quem visou seu desgosto ao largo,
Sem encará-lo de frente.
Fez como quem favoravelmente assente
E pouco caso faz, até.
Com os olhos, trabalhou as palavras nas minúcias detalhistas.
Mantendo patente no rosto, aparente e à vista
O rubor de quem se desolou na mais triste tristeza,
De quem perdeu a confidência na fé.

Que não fizesse daquilo um todo,
Para repetir, no amor, seu novo lançamento;
Tal como um novel feito em debute,
Querendo ter o protagonismo em querer ser o principal.
Mantiveram o mesmo,
Conviveram juntos.
Da fartura da sorte, até o mal
Parco e escasso do que era bom,
Mas que se firmava completo e integral.

Sobre ser feliz…
A última razão que quis foi derradeira,
De que, no amor que dá causa, não houve fatos reais.
Passado o tempo, as cinzas, as faltas,
Buscava a agastada braveza que lhe garantisse algo mais,
Além do somente mais.

Não queria ser apenas redundante,
Tal como os desacertos
Que não se acertam aqui, neste poema.
Pensou que a vida passa ao tempo, rápida, feito instante.
Sem momento para bobagens;
No amor, meias certezas ou verdades.
Feito o erro de quem imponha,
Ao poema,
Um trema.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 04/02/2019)

*publicado originalmente em 24/04/2019


Crédito da imagem: pixabay

Poeta

Por: Bianca Latini

Poeta

Poeta é tradutor de sentimentos
Poeta é contador de momentos
Poeta é peito que fala
Olhar que se encanta
Poeta é aquele que vê lirismo até no sofrimento
E desliza suaves rios de lamento
Poeta é mais do que escritor
É narrador de histórias
Confeiteiro de palavras
Bordadeiro de fragmentos, de percepções
Fotógrafo de reações e expressões faciais
Auditor de fenômenos naturais
Poeta é aquele que vê beleza
até mesmo na tristeza
Poeta é sensibilidade à flor da pele
É laçador de possibilidades
De um pingo, faz transbordar letras, encaixes, metáforas, trocadilhos, rimas, sonetos, versos, repentes, conectividade
Poeta é buscador de almas
Extrator de interiores
Cantor de frases arrebatadoras
Ainda que singelas
Poeta é pulsar de vida, do que se vê, do que se imagina
Do que se sente de olhos fechados
Poeta é aquele que põe tudo isso em linhas
E sabe que um texto, depois que sai da ponta do seu lápis, nunca mais será seu.


Créditos da imagem: pixabay