Crônica – o que eu sei sobre o samba.

Por: Diogo Verri Garcia

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No último domingo, 02 de dezembro, comemorou-se o dia nacional do samba. Hoje, dia 05, o aniversário de meu pai. Alinhavando as duas datas, faço esta crônica em cumprimento à minha agenda semanal de textos, mas também em saudação ao natalício de meu genitor, neste ano, comemorado exatamente em uma quarta-feira, data dedicada às minhas publicações.

Faz alguns dias, divulguei em uma rede social um vídeo do show do cantor e compositor Paulinho da Viola, a que compareci, após algum longo tempo sem ir. O espetáculo ainda trazia as vozes da Velha Guarda da Portela e do Cantor Criollo, apresentado no Centro do Rio de Janeiro, na casa de espetáculos nominada Fundição Progresso

Tão logo foi ao ar a publicação, várias pessoas que me conhecem há menos tempo “se surpreenderam” por eu gostar de Paulinho e por ser visto em um samba – de roupa social, inclusive. “Você é muito formal para isso” – disseram alguns, quer pessoalmente, quer por mensagens. Talvez a gravata do dia-a-dia e o modo da fala deem essa impressão que, ressalto, não é por toda imprecisa.

Não foi a primeira vez que ouvi esse estilo de música – som cadenciado que inaugura a crônica, já em seu título –, tampouco era debutante em um show do referido artista. O meio musical, por um longo tempo, fez parte do cotidiano da minha vida. Hoje estou afastado, é fato. Mas também é fato que passei o final da minha infância até o início da minha juventude frequentando a quadra da Portela, em Madureira, assim como pontos desse gênero musical espalhados pelo Rio de Janeiro – bem como os de seu coirmão instrumental, o choro. Aqueles que me conhecem há mais tempo, sabem do que passo a falar; os mais recentes, talvez não.

Desde pequeno, sempre fui criado no mundo da música: aos cinco anos, era levado pelo meu pai aos programas de samba que ocorriam na Rádio Roquette Pinto, em que existia uma enorme mesa oval com variadas cadeiras e microfones, e uma luz vermelha que, quando acesa, eu não poderia falar – e, naquela ocasião, ainda não entendia o porquê de tal regra.

Do mesmo tempo vem a lembrança do primeiro momento em que decidi compor: ao ver meu pai cantarolando na área de serviço de nossa antiga casa, vestido com uma camisa preta, que estampava um barco e algumas ondas em tom de azul claro, na altura do peito. Naquele dia, pensei: – também consigo! – arrazoei, mas não consegui. De certo, aquele barco não virou música alguma – o que, no Direito, chamaria de ineficácia relativa do meio, no caso, eu, garoto de quatro ou cinco anos –, mas abriu caminho para minha primeira canção, alguns meses depois: a repetitiva “Você é a luz do meu olhar” – cantada na voz aguda e desafinada de uma criança –, escrita para a filha da vizinha da casa de trás.

“Você é a luz do meu olhar,

É a luz do meu viver

É a luz do meu sonhar

Você é uma estrela de cinema

Uma estrela de amor

Uma estrela de paixão

Você é a namorada que sonhei

E que tanto desejei

Bate forte no meu peito.

Será que você não entendeu

Que meu amor é só teu

Você tem todo direito”

(Repetir 35 vezes, ou mais)

Daquele tempo, trago a feliz lembrança de que sequer ou mal sabia escrever, e sempre pedia ao meu pai – quando se sentava em uma cadeira de balanço, há muito não mais existente –, para registrar as tentativas de versos que me vinham à mente. A motivação para o então nascimento de um novo compositor – hoje, abraçado menos à música e tão mais ao Direito – teve nome: Murilo Garcia de Souza, ou, nas assinaturas musicais e no cadastro do ECAD, Murilo Garcia.

Meu pai sempre foi – e ainda é – aficionado por música. Iniciou compositor da GRES Unidos de Lucas, ainda na década de 1970 e posteriormente migrou para o GRES Portela. Nos idos de 1985, teve sua própria produtora musical (ProArt Rio), paralela às atividades que exercia no Mercado de Capitais, época em que lançou o LP (disco de vinil, para quem não sabe) “Só Falta Você”, produzido por Adelzon Alves, amigo de papai, o mesmo que assinou obras de Clara Nunes, Alcione, João Nogueira, Dona Ivone Lara, dentre outros – e que presidia programas de samba da Rádio MEC e Nacional.

Nesse mesmo período – permito-me a observação –, de coexistência de vida musical e laborativa, conheceu minha mãe, em meio às reuniões que movimentavam as chefias do Banco, situado próximo ao Passeio Público: ele, responsável pelo setor de liquidações; ela, pelo departamento pessoal. Essa união deu azo a um moleque que nasceu e cresceu feliz e que, nesse crescimento, também caminhou pelas notas musicais – sim, estudei piano, teoria musical e cavaquinho –, antes de descambar, com satisfação, para o Direito.

Em toda minha infância e adolescência, minha casa sempre foi frequentada por musicistas e por compositores, muitos deles que, de alguma forma, registraram seu renome no ofício do samba. Na juventude, os amigos reclamavam quando eu condicionava minha ida às festas jovens (denominadas: balada, boate, matinê ou somente festa, a depender da região do país) à vindoura ida deles à Roda dos Embaixadores da Folia – que ocorria na Av. Gomes Freire, posteriormente transferida para a Rua do Lavradio, por volta de 2005, sob coordenação de Claudio Cruz. Já um pouco mais crescido, desistiram de vez de convidar para as baladas juvenis. E, adulto, foi minha vez de, por conta própria, reduzir minhas idas, até o momento em que praticamente cessei a frequência aos eventos de samba e de choro, muito por conta dos primeiros estudos para concursos públicos, em 2007, e pela intensa dedicação ao Direito, nos anos finais de faculdade.

Na data de hoje, revivendo  aquela época – uma das vantagens que nos traz a escrita –, permito-me lembrar um pouco das pessoas que frequentavam nossas vidas, brilhantes nas obras autorais que apresentavam ou na forma como conduziam seus instrumentos musicais. O palco, muitas vezes, era minha própria casa, quando organizávamos (nisso me incluo, embora tivesse onze ou doze anos) feijoadas repletas de música, samba, chorinho, cavaquinhos e violões.

Se posso citar alguns deles, os quais guardo com boas lembranças, pois fizeram parte de uma etapa feliz da minha vida, trago logo à mente a figura de um carismático senhor, que me foi apresentado como Picolino da Portela – cujo nome real era Claudemiro –, o qual tem seu nome cantado na música “De Paulo a Paulinho”, canção que anima frequentemente as apresentações e os shows de samba. Dele, ganhei um caminhão de madeira, por ele próprio construído, guardado por mim até hoje.

Dessa mesma época, também conviveram conosco Ary do Cavaco, autor que, após seu falecimento, deu nome à Ala de Compositores da agremiação Portela; Jurandir da Mangueira; Hélio, da Em Cima da Hora; Mauro Duarte Filho, e tantos outros. Entre os instrumentistas, ressalto Pedrinho Sete Cordas (nome que é dado em referência à sétima corda que é plasmada em alguns violões, tornando a execução mais complexa), exímio violonista e ex-integrante do grupo Chapéu de Palha; Sebastião, ou apenas “Bizu do Cavaco”; “Seu Josué”, bandolinista primoroso, pai de meu antigo professor de cavaquinho, Cláudio; e Ismael Silva, irreverente pandeirista, marido de Dona Ana e sobrinho do homônimo Ismael Silva, fundador da primeira escola de samba de nossa história, a “Deixa Falar”.

Dentre os cantores, recordo da qualidade vocal de Clarice Seabra e de Cesar do Vale, dos quais não tive mais notícias…

Foram dias felizes, assim como os atuais são. Hoje, troquei o palco pelas tribunas e os momentos de versos pelas noites de livros. Mas quem sabe um dia apareço por lá…

Ao meu pai, Murilo Garcia, fantástico amigo e compositor, uma felicitação pelos seus 69 anos, comemorados hoje. E um agradecimento por ter me apresentado a música, o amor de pai e a vida. Te amo.

Rio de Janeiro, 05 de dezembro de 2018

Diogo Verri Garcia

Ps: compartilho agora com vocês, por fotografias, um pouco dessa história:

Foto 1: provavelmente, de 2001, época de música e feijão em minha casa, em que aparecem Ary do Cavaco, Pedrinho 7 cordas, Clarice, Hélio, Cesar e Ismael Silva

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Foto 2: que inaugura a capa desta publicação, datada de 2003 (exatidão na data), em que se repetem as pessoas acima, adicionadas as imagens dos velhos amigos Hesly e Carine.

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Foto 3: sem data. Da esquerda para a direita, com papai, Piccolino, Ary e Jurandir.

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Foto 4: do ano 2000, quando subi pela primeira vez para cantar em um palco, acompanhado pelo Grupo Show da Portela, com Ary e Clarice. Esse dia contou com as apresentações de Piccolino e de Guilherme de Brito.

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Foto 5: de papai, na época em que teve um programa de rádio com Picolino.

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Vídeo 1: Por fim, deixo o registro de um vídeo, de 2014, quando reunimos alguns amigos e fomos comemorar o dia do aniversário de papai, também em um 5 de dezembro, na quadra da sua escola de samba, a Portela – última vez que apareci por lá.

 

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