Dream Big

Por: Mona Vilardo

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Chicago, cinco e dezessete da manhã. Se tem uma coisa que eu não me acostumei aqui foi com a diferença do fuso horário em relação ao Brasil – mesmo sendo o 16° dia dos meus 17 dias aqui. Nossa, não me acostumaria nunca no Japão. Mas, isso é assunto para outra história.

A primeira vez que vim aos EUA, eu tinha 15 anos. Não…não foi presente de aniversário de debutante, como você deve ter pensado logo. Nos meus 15 anos eu quis a tradicional festa, com troca de vestido ao badalar da meia noite e valsa com pai, irmão e o melhor amigo da época.

Mas, como que um “duplo presente”, dois meses depois da festa vim aos Estados Unidos cantar em Kansas e, de quebra, passar um dia em um parque da Disney no retorno ao Brasil. Nada mal para um Coral de umas vinte crianças e jovens viajando sem os pais e fazendo o que mais gostava: cantar e brincar. Que grande sonho ganhar dois momentos significativos quando se completa o tão esperado 15 anos.

Exatos vinte anos se passaram, e eu me dei de presente uma viagem para NY com o objetivo de assistir 6 espetáculos da Broadway em 7 dias. Mais um grande sonho da época de estudante de teatro, onde ir  na Broadway era algo inalcançável pra mim.

Chicago, dia dois de agosto, cinco e quarenta e cinco da manhã. Três anos se passaram da minha ultima vinda aqui. Hoje é o penúltimo dia de um sonho que começou a ser elaborado há um ano atrás, junto com uma amiga da época do coral (coral esse, que meu deu a oportunidade de conhecer a Áustria) – mas isso também é assunto pra outra história.

Em Chicago, venho com o mesmo propósito da primeira vez que estive nos EUA:  fazer música. Sendo que agora, não sou mais a adolescente de 15 anos. Agora, os meus alunos que têm 15 anos…

Primeiro dia de aula na Biblioteca de Oak Park, somando a turma da manhã com a da tarde, um total de 50 alunos, com idades que variam de 7 à 15 anos.

Criança e jovens com suas histórias de vida totalmente desconhecidas entre eles, e claro, para mim. A maioria das crianças olham pra mim com a cara de “ Quem é essa brasileira branca, que veio lá do outro canto do mundo pra achar que vai me ensinar algo?”

Num canto da sala, uma menina bem retraído tira da mochila uma fronha, que ela mesma pintou, onde está escrito “DREAM BIG”, ela me mostra e eu peço pra tirar uma foto.

Essa mesma menina se divide em momentos de muita participação nas aulas e em momentos de extrema carência afetiva, onde ela me agarra o braço e pergunta: – Onde você vai sentar? (ela rapidamente senta ao meu lado)

Sua voz? É linda, cristalina, muito afinada e se empenha para cantar músicas africanas e brasileiras.

As aulas terminam, nove dias se passam e meu primeiro passeio turístico é conhecer o famoso prédio John Hancock, com sua vista 360 ° da cidade e algumas janelas que vão virando pra baixo, com o turista segurando em duas barras de ferro – praticamente um exame de labirinto, ao meu ver.

Admirar a vista – check

Ser uma daquelas pessoas agarradas naquele ferro, se imaginando cair – pra quem tem fobia de altura tem coisas que nem o Mastercard paga. (no check)

Resolvo dar uma volta na lojinha, e, entre canetas, copos e camisas da cidade do vento, me chama atenção uma pulseira escrita: DREAM BIG.

Logo me recordo da garotinha do primeiro dia de aula, de todo ensinamento que também levo daqui e do meu maior propósito nessa viagem: fazer com que, através da música, esses alunos sonhem grande. A história clichê mas verdadeira de que a música transforma e une todas as pessoas numa só linguagem.

Semana passada, foi aniversário do compositor Flávio Venturini que canta uma canção que diz “…sonhos não envelhecem”…

Talvez um dia, eu volte aqui e encontre aquela mesma garotinha com seu grande sonho e cante essa música pra ela. Cante essa música pra todos, que já não serão tão jovens assim, mas seus sonhos sim.

Amanhã volto para o Brasil. Comigo, levo no braço, praticamente uma aliança escrita “DREAM BIG “. Na alma e no coração, levo a certeza de que fiz diferença na vida desses 50 alunos e deixei, em cada criança e adolescente, mais um grande sonho. Seja ele qual for.

 

5 Comments on “Dream Big”

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