Bicho Espinhoso
Postado no 6 de julho de 2025 Deixe um comentário
Por: Raquel Alves Tobias

Bicho Espinhoso
Primeiro a voz quis falar.
Mas aí os dentes se cerraram com uma forte mordida. E então nasceu um bicho, que ficou preso ali, zanzando dentro da cavidade, nervoso e inquieto, se batendo de um lado pra outro até inchar as bochechas. Gritou pra ver se alguém o ouvia, mas a sua voz de tão distante, parecia até ser algo da imaginação. Quando os lábios quase se abriram depois de tanta pressão, veio uma forte onda e… glupt! Foi engolido.
E foi descendo pelo esôfago em total desmantelo. Era muito desajeitado, de cantos pontiagudos e muito maior do que a passagem que o esperava. E foi só tropeço atrás de cambalhota. Onde quer que encostasse parecia não desgrudar. E lá vinha a deglutição tentar empurrá-lo mais uma vez “goela abaixo”. Mas a saliva era seca e os movimentos peristálticos o deixavam cada vez mais pegajoso. Parecia se entrelaçar desordenado em meio a uma ninhada de fios enquanto tecia nós.
E cada gole grudava em um nó.
Pouco a pouco era empurrado.
E depois dessa descida cheia de pausas desajeitadamente dolorosas, chegou ao seu destino anatômico. Por lá se deparou com o suco gástrico e com ele saiu aos tapas, como antigos arqui-inimigos. Cada novo machucado ganhava um punhado de fermento. E dessa briga, coisa boa não poderia sair. E assim, fermentado, foi crescendo, crescendo, crescendo até não caber mais no estômago. Virou náusea, virou angina, comprimiu o tórax até faltar o ar. Precisava continuar crescendo, já que no peito não cabia mais. Então subiu, ainda por dentro, como um vapor quente até a cabeça.
Ardeu.
Queimou.
Depois de todo esse estrago, o vapor desfeito deixou o olhar mais claro. Condensou-se no teto em inúmeras gotas aglomeradas e brilhantes.
Foi o fim?
O silêncio transformou-se em água e caiu em lágrimas.
Era o adeus.
Ou, talvez, um até breve.
O silêncio, calado, é bicho espinhoso e tem vontade própria.
Cuidado ao tentar domá-lo.
Por: Raquel Alves Tobias
Créditos da imagem: Unsplash
Noite na Montanha
Postado no 2 de julho de 2025 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Noite na Montanha
Ela chega e me cobre com o seu manto negro
E se despe mostrando seu corpo coberto de estrelas
Ó Noite, bela e sedutora,
Que mistérios escondes caprichosamente de mim?
Deixa-me ser seu amante,
Seu namorado, seu brinquedo!
Acalenta meu coração com teu beijo orvalhado
E nubla a minha mente com o teu abraço frio
Toma meu espírito e leva-me onde
Apenas aqueles que se entregam totalmente
Conseguem chegar
E lascivos, apaixonados e amorosos
Tornar-nos-emos apenas um
Deitados em uma cama de nebulosas
Cúmplices amantes do infinito.
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Unsplash
CAFÉ EM O’HIGGINS
Postado no 27 de junho de 2025 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

CAFÉ EM O’HIGGINS
A história de uma história vazia
Tal como a noite que termina entrepassando clara,
Com a escuridão entrecortada
Tão logo vem a sombra da luz, clareando a via.
Iluminando arvoredos,
Retirando da sombra os ramos e os gravetos
Fazendo o monte em frente mais claro,
A rua, mais cheia;
A temperatura, por instantes, mais fria.
Passa tudo,
Tal como o vento que corre menos que a brisa,
Enquanto este alguém realiza
a ver a mudança das horas.
Um olhar de quem está sentado
olhando fluxos de carros, mirando as moradias.
Passam estudantes, passam senhoras
Passa o café quente, o apressado atendente,
passa o que passou em outrora,
Passam jovens de Angola; passam moças de Hungria.
Uma gradual mudança, sem nada para estar atento,
Sem tormentos,
Nem calmos, nem briguentos.
Nenhum acontecimento,
Nada a carecer vigília.
Aqui há a história de uma história tão rasa,
Mas que se fosse sem graça,
Apenas triste, aviltante,
como parece,
Não vos contaria tão frisada.
Vejo palavras em gente calada,
Faces há pouco acordadas,
Talvez, com mais sono do que se gostariam:
a zero grau, tal qual o termômetro marca.
Passagens que me lembram de outras horas,
Deixadas nos entornos de casa,
Lugar dos pensamentos aprazados.
Tomando cada segundo como toda uma semana,
Tramando contra um falso tempo, largo e demorado,
Sem cronograma.
Não é um conto brilhante,
que narra o pedante tempo
insistente em passar.
É um poema,
de quem toma instante só a ver
A manhã a nascer
Quase como em um momento parado.
Mas, ainda assim,
Nos aguarda o tempo ao lado.
De pé, prostrado a recordar
Que mesmo quando não nos apressamos,
Felizes em vê-lo ou ao mundo ver,
Ele passa, ainda que calado.
Já anda mais o sol,
Segue ficando mais quente
E nossa gente quer resolver andar.
Fecho o verso na pressa,
Que ficou entre goles e conversas,
Abandono o café no bar.
(Diogo Verri Garcia, Santiago, 03 de julho de 2019)
Créditos da imagem: Freepik
Espelho
Postado no 21 de junho de 2025 Deixe um comentário
Por: Raquel Alves Tobias

Espelho
Os olhos dizem muito, dizem tudo.
Os tímidos têm vergonha
Por medo do que é bom.
Os do medo se bloqueiam
Porque querem se jogar.
Os calados guardam a dúvida
Da resposta que já têm.
Os distantes já andaram
E não querem mais voltar.
Os que gritam por socorro
Não conseguem se olhar.
Nos seus olhos tive medo
Do além que não conheço
Precisava desviar
Mas não pude mais fugir
Foi preciso encarar
Não consigo olhar tão fundo
Porque quero navegar
E me perder
Lambuzar
Dormir e acordar
Me vestir
Me despir
Me perfumar
Exalar
Dançar por aí
A derramar
Tudo o que eu vi
Em você
E em mim
É morada
É lar
Por: Raquel Alves Tobias
Créditos da imagem: Freepik
Confessionário
Postado no 18 de junho de 2025 Deixe um comentário
Por: Bia Latini

Confessionário
Ahh… Santo Universo!
Eu tenho tantos medos
Você bem sabe disso
Tenho medo de assumir algumas responsabilidades
Então, eu te rogo:
Dê-me um abraço imenso
Deite-me em seu colo
E aqueça em meu peito
A confiança que comigo nasceu
O propósito que você me deu
Para que eu possa trilhar o melhor rumo
O correto caminho
Aquele com o qual firmei compromisso
Pelo qual poderei acessar lugares inóspitos
Levando perfumes, lavandas, sorrisos
Que eu possa perfurar minhas camadas superficiais
E deparar-me com minhas profundezas
Com coragem para encontrar no trajeto
As barreiras das minhas fraquezas
As vaidades do meu ego
As expectativas frustradas das minhas ilusões
As calamidades da minha alma imersa
As feridas de todas as minhas vidas
As falhas das minhas tentativas
Ohhh… Querida esfera infinita de luz
Clareie o meu Ser
Segure a minha mão
Para que eu sinta a sua indicação
Fazendo-me caminhar em frente
Ainda que tudo pareça escuridão
Que meu corpo aqueça em plenitude
E eu saiba que em determinada direção preciso seguir
Que meu coração seja bússola indefectível
E minha fé nele indubitável
Que eu tenha serenidade e certeza em renúncias
Alegria e firmeza em escolhas
Concretude em aglutinar minha unicidade
Por Bianca Latini
Créditos da imagem: Freepik
OS MIRADORES
Postado no 10 de junho de 2025 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

OS MIRADORES
Havia um monte em que todos iam.
E a um prédio mais alto, feito um mirador,
Para ver a altura em que a chuva molhava,
Pouco lhes importando
se quanto mais alto a friagem chegava,
Pois o pisco causava calor.
Nela, meus olhos encontravam o frio.
Entregando um clima nem um pouco mais tenro,
de um ar seco, sem aragem,
causador de arrepio.
Simples, mas de incômodo agradável, ameno.
Era uma tarde já glaciada,
Prometedora de um momento gelado,
em Santiago.
E lá do alto,
Viram o sol que, por pouco, tornou-se a render
Por uma lua que se vestiu descoberta.
Deixou de esplender,
para se eclipsar.
Olhando a todos,
Deixando a multidão parada,
Os miradores cheios,
as ruas desertas.
Agasalhavam-se todos tão menos que eu.
Mesmo de alma calorosa, quem mais precisava.
Mas vi maratonista chileno que pela noite correu
Em trajes próprios de quem do frio zombava:
Louco ele; o que não faço eu,
posto que me resfriava.
No frio, os passos são enxutos,
de um caminhar apertado
em um dia frígido,
e de um anoitecer ainda mais gélido,
quanto mais alto…
Completando o tempo que, se deixar, quase neva,
Logo ali, bem ao lado,
Em Santiago.
(Diogo Verri Garcia, Santiago, 06 de julho de 2019)
Créditos da imagem: Unsplash
Postado no 7 de junho de 2025 Deixe um comentário
Por: Raquel Alves Tobias

Só aprende a amar
Quem foi verdadeiramente amado
Todo o resto é extensão invasiva
De eternos ciclos inacabados
Quando juntos dividem
Seus corpos num copo
Num gole, a dúvida.
No outro, o amargo.
E seguem assim:
Metade vazio
Metade a vácuo.
Consumindo a alma
Na saliva do prato.
Por: Raquel Alves Tobias
Créditos da imagem: Unsplash
Viva o circo – Parte 2 – Algo sobre nós…
Postado no 4 de junho de 2025 Deixe um comentário
Por: Bia Latini

Viva o circo!- Parte 2 – Algo sobre nós…
Como deixamos sair esta voz que há dentro de nós?
Esta Voz que sai rouca, fininha, tímida, mansinha
E às vezes nem sai?
Essa voz potente que veio brotando na gente
Crescendo que nem semente
Muitas vezes nem se sente…
E quando se percebe
Estamos com uma energia acumulada, uma insatisfação, uma busca desenfreada
Uma necessidade de fazer coisas
E nada satisfaz!
Como libertamos essa leão criativo que quer rugir?
Essa borboleta do tamanho do mundo, com asas imensas e coloridas, que quer valsar pintando pelos ares da vida?
Como desabrochamos nossas abotoaduras, para deixarmos sair tamanha potência que cresceu em nós?
Um libido, um algo proibido, um estrondo, um cupido, algo grande demais…
Sugeriram-nos ser simples, discretos, a guardar nossas opiniões nos bolsos, a calarmo-nos, a ficarmos na nossa e a não pagarmos mico
Daí a gente não paga mico, o mico cresce e vira gorila enjaulado
Enclausurado
Na masmorra do tanto faz
Libertemos nossos gorilas, nossas borboletas, nossas bailarinas, nossos malabaristas, nossos palhaços e o circo inteiro!!!
Ergamos esta lona cansada,
Agora mofada, desbotada
Deixada pra trás
O circo continua vivo em nós!!
Ele sempre esteve!
É o nosso Eu criativo, sinestésico
Nosso Eu artista
Que tira uma carta mágica da cartola
Pinta uma tela em branco
Desfaz qualquer quebranto
Chora e ri sem nenhum espanto
Morre e vive
Nasce e morre
Conta, reconta, refaz
Reconstrói
Às vezes destrói…
Mas faz parte do processo….
No final de tudo, a lona está de pé!
Cheia de colorido e diversidades
Com muita história pra contar, muitas jornadas, itinerários, excursões pra fora e, principalmente, pra dentro
Há muita vida no epicentro do picadeiro da nossa essência pulsante
Viva o Circo!!
Por Bianca Latini
Créditos da imagem: Freepik
O QUE SE VÊ SÓ NOS OLHOS
Postado no 30 de maio de 2025 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

O QUE SE VÊ SÓ NOS OLHOS
Sobre os olhos que não falam
E imaginam tudo da falsa verdade.
Não serenam, mas se calam,
Repercutem agudos, mudos,
esclarecidos, sem sinceridade.
Despejam sobre outros olhos, sem calma, todo rancor,
Tudo de súbita vez.
Transcendem a olhares agressivos,
Aqui já apreendidos, tal como já perceberam vocês.
Se os olhares não fossem surdos,
Ouviriam os sons do mundo,
O que há de real a ser reconhecido.
Sem julgares, fossem só olhares,
Olhariam, menos vulgares, mais apercebidos.
Menos desaforados, mais envaidecidos.
(Diogo Verri Garcia, Rio, 12/11/2019)
Créditos da imagem: Unsplash
Fio de Prata
Postado no 27 de maio de 2025 Deixe um comentário
Por: Valéria Shirá

Fio de Prata
Abre o Palco do Arco presente
Inaugura a Existência com sua oculta Aparição
Seu Alo metálico
Imperceptível cintila
Agulha prata
Tecendo as linhas na imensidão
Sutil e delicada revelação
Aliança fina com o Destino
Consorte brilhante
Poetiza da inspiração
Aquela que compõe passos, caminhos, pontes
Constrói argumento
É fundamento em ação
A Bela Negra move-se por trás dos véus da noite
Seu poder latente é sensibilidade
Escolha e liberdade
Vibra majestosa
Entre envolventes aromas
Sons, vozes, danças transparentes
Mágica atuação
Misteriosa Ilumina!
Na reclusão sábia da sua escuridão
Desperta nas águas
da Terra o movimento
Invisível
Intenção
Ela está onde não está
Recolhida e singela
Emana a sabedoria feminina
Dos Povos do Cėu
Deuses amantes
Histórias da Criação
Nasce
A Nova
Cresce
Carrega
Gera em seu fino ventre pequenas sementes de gratidão
Valéria Shirá
Créditos da imagem: Unsplash
