O tempo do Tempo

Por: Mauricio Luz

O tempo do Tempo

Tão cheio é meu dia
Tão vazio ele parece
Tão cheio de boletos, obrigações, tarefas
Tão vazio de sol, flores e poesia
O Tempo me encara
Pergunta a mim quando darei tempo
Ao tempo que realmente quero levar
“Em breve!”, respondo, “Em breve!”
E o Tempo apenas sorri entristecido
Pois bem sabe ele que de tarefa em tarefa
De boleto a boleto
Apenas preencho o tempo
Com um enorme vazio
Tão cheio é o meu dia
Tão vazio ele parece

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Freepik

Início, meio e fim

Por: Raquel Alves Tobias

Início, meio e fim

Um dia nasceu uma rosa, bela e iluminada.
Viveu num planeta árido onde tudo era escasso. Lidou com pragas, chorou por cortes. Passou por secas e por enchentes.
Por vezes ficou à sombra do que cresceu ao seu lado. E assim, sem luz, já não produzia a própria energia.
Seu perfume doce não mais pairava no ar.
Sobrevivia do resto da rega da vizinhança. Estava cinza, contaminada e havia perdido quase todas as suas pétalas.
Mas, um dia chegou um jardineiro. A viu, ali, em profundo desespero.
Contaminada, machucada, despetalada. Envergada e em queda para o solo seco e desnutrido no qual se encontrava.
Ele encheu os olhos de lágrimas e acariciou suas poucas pétalas restantes. Se abaixou, e de joelhos, respirou a sobra do seu perfume. Ainda era doce e fazia bem ao coração.
Desse dia em diante passou a regá-la, selecionou os melhores adubos. Limpou em volta o que lhe cercava e abriu espaço para que ela visse e fosse vista.
Assim ela pôde sentir a luz integralmente em suas folhas. Percebeu sua limitação por ter vivido apenas de finos feixes perdidos entre as sombras.
Aquilo era assombrosamente maravilhoso. Voltou a produzir sua própria energia. Passado algum tempo, teve suas pétalas revigoradas. Novas ocuparam o lugar das cicatrizes que as velhas deixaram ao cair. Já era possível sentir o seu perfume a longas distâncias. Aquele que adocicava o coração.
Certa vez o jardineiro lhe sussurrou: você ainda está muito longe do que pode ser. E ela ruborizou ao modo das rosas.
Aprendeu a traçar caminhos, a sorrir.
Foi amada e aprendeu a amar.
Está crescendo e quer se manter a florir.
Nesse momento, regada do perdão de si mesma, entendeu a vida que nasce quando se persevera.
Aprendeu a dar início, meio e fim.
A surgir e ressurgir do vazio.
A viver.

Você não desistiu.
Você sorriu.
Você amou.
O amor não desiste.
Ele ensina a voar.

Por: Raquel Alves Tobias


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OS MALABARES

Por: Diogo Verri Garcia

OS MALABARES

O que está a ser reservado, será.
Não há flores, não há guerras, nada que possa abrandar.
O que tende a ser certo,
malfadado não se faz e não se fez.
Acontece em que pese a força,
Mas se reforça na prece.
Jaz a paz, mas chega a vez.

Só não sei se o acaso cobiça algo em troca,
Se joga-nos tão ao alto quanto malabares,
Que não conserta-nos, e desconcertante, entorta-nos.
O que há em ser destino se não um cassino em que nos aposta a sorte?
Tanto infirma-nos, posto que encaminha-nos:
Chega a dar tontura,
em corporatura de cadeira em garrote.

E segue em todos a comum visão do inquieto,
Que tende a olhar mais o pranto
Que não explica ao certo,
Que não acha o encanto,
Mesmo que seco,
Mesmo que não doa,
Não é feliz pois deixou-se
(em ceguidade e renitência) sucumbido.

E desinibiu-se na teima de um léu descaso.
No que é fé ou afincado passo,
Segue o andaço, mesmo abatido.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 10 de setembro de 2019)


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Im Pressão

Por: Valéria Shirá

Im Pressão

Essa sou eu
Na pele que encobre e na vida que escorre
Entre Carne e músculos
Entre dutos e tubos
Poros e pelos
Elasticidade e estruturas
Fáscias e ossos

Pulsa por dentro em função
Contínua, ativa
Entre veias e artérias
Sangue e água
Volume e espaço
Percorre o vaco
Descendo e subindo
Da assimilação a evacuação

Me habito sorrateira
Desejo me preencher por inteira
Para onde me levo
Quem significa?

Em qualidades e diversidades
Transporto,
Algo desconhecido
Estranho não se revela
Em meio a tanta orgânica massa
O que me sobra de habitação?

Não me vejo
Em linha
Me perco
Entre transpasses e passes
Quem respira?
Quem conduz?
Quem é conduzida?

Em contínua Pressão
Se move…
Perceptível
Im Pressão

Ser Infinito

Por: Valéria Shirá


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Quando Estiver, Esteja

Por: Bia Latini

Quando estiver, esteja

Quando estiver, esteja
Às vezes a gente fica, sem permanecer
Doa, sem entrega
Mergulha, sem molhar
Atira-se, com os pés presos na bola de ferro
Beija, sem sentir o gosto dos lábios
Fala, sem dizer
Agradece, sem gratidão
Perdoa, sem liberar a mágoa…

Parece muito óbvio
Mas o óbvio precisa ser dito, compreendido, desenhado, sentido, vivido, vivenciado
Não é sobre dar rasante
É sobre imergir e SER a própria imersão
Não é sobre VER o machucado
E, sim, SER a ferida, o corte, a ardência, a potência da latência
Para, no processo de cura,
Poder, enfim, SER o amor
E não mais esperar por ele….

Por Bianca Latini


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Casa Grande e Senzala

Por: Valéria Shirá

Casa Grande e Senzala

Um lugar reconhecido
Uma versão não contada
Encoberto e escondido
Repetição e Esquecimento

Vagueia um espectro pela superfície

Ausências
Impossíveis são as
Terras interiores ….

O suor percorre
meu coração
Sua expansão e penetração flagram quartos escuros,..
Com braceletes, algemas fincados no chão…

Prisões não visitadas
De histórias não contadas
Em sorrateira coerção…

Cárcere devassado
A escrava revelada…
Estreita é a ferida
Contenção reconhecida
Onde foi perdida a Decisão

O início do resgate
Espanto, torpor
Estranheza
Sistema imune em rodopios
Onde está o corpo para além da prisão?
Em tempos esquecidos
Entre entranhas passadas

Uma revelação sagrada
Um ponto no espaço tempo
Penetro nesse ponto
O reencontro
Perplexa…
Em fluxo
Em silenciosa escuridão

A Dança da noite
Explode
Rompe pelos poros
Nos olhos que se abrem
O Grito do silêncio!

Por: Valéria Shirá


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DESINSPIRADO

Por: Diogo Verri Garcia

DESINSPIRADO

Sigo sem inspiração
A ponto que a palavra não garante
Nem bom som, nem confortável situação,
Para que se siga adiante.

Nesse intendo de fazer poesia,
Vejo que não é todo dia que frases e versos vêm.
Têm humor próprio, daqueles que fazem pinima,
Versos querem seu tempo, sua boa rima.
Não obedecem a ninguém.

Pensei em escrever coisas fáceis,
Mas elas deixam o que faço sem brilho, pouco sincero.
Escrevo e escrevo,
e os rascunhos são cada qual tão menos afáveis.
Faço dúzias de pausas, suscito dúvidas, espero.

Retomo o poema, e não basta.
Hoje ele não quer, porque não quer,
Ao menos por mim, ser escrito.
Deixo as causas, mudo os temas,
as dubiedades, as pausas.
Finalmente, contrariado, assinto.

(Diogo Verri Garcia, 31/01/2019)


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PLAYAS DEL SOL

Por: Diogo Verri Garcia

PLAYAS DEL SOL

Águas sem fim,
Sotaques ouvidos,
Primavera que poderia ser quente.
Se, em outrora, fostes menos aguerrido,
Este solo, serias parte de imenso Brasil.
Nesta terra bela, de vento rastejante e exibido,
As leves tardes – têm esquinas de quatro mares –, aqui, são diferentes.

Taças constantes sendo postas à mesa,
Que se enchem e se esvaem feito a maré ali no mar.
Sol, que se faz como eterno farol aceso,
E o farol, que põe as tardes a descansar.

Erguem-se as mãos afogadas na areia,
De maré a marear, em playas bravas e mansas.
Tem cheiro de azeite, de vinhedo verde e de flor,
Tem igreja e a Santa Candelária pondo o mar em andor.
Tem peixe a assar
Sem pescador em labor, que descansa…
Há algum gosto a mais de Marselan e de Tannat, e efeito de bom terroir.

O sol se põe, em cerimônia ao seu culto,
Expõe a branca casa à negridão da natureza.
Para que no breu da noite se reúnam os adultos,
Entre pianos e salões,
Brindem ao autor,
Aproveitem a escureza.

A noite roda, ludibriada em lua – não chove –, sob moderadas estrelas.
Resisto a apostas, pois tenho noutra a minha sorte.
E no jogo que aqui jogam, ninguém sabe jogar:
só se perde, não se ganha; a derrota é em litisconsorte.

Taças a mais, por favor.
Passantes, luzes, casa cheia.
É a madrugada que passa feito maré,
Que hora é alta, que hora mal toca a areia.

O tempo é rápido: amanhã me encaminho.
O curso do Rio se faz pelo céu.
Aqui, que me encontro tão longe de casa,
Jardim tranquilo de águas mansas e rasas;
Aqui, que estou a alguns passos de Montevidéu.

Cartas! Cartas? Não, somente taças, por favor.
Mas é tarde, hora de parar…
Concluo: tanto aqui, tanto acolá,
É perto do mar que se quer estar.

(Diogo Verri Garcia), Punta del Este, 26 de setembro de 2018.


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OS AZEVINHOS

Por: Diogo Verri Garcia

OS AZEVINHOS

Há vezes que a solidão é o melhor adivinho,
Sem importar o que nos importa no mundo.
Deixar esvair a mente, que vá.
É fricção do perigo que corre o gosto
De não esvaecer a tensão de deixar-nos
No tumulto que nos entorna a rodar.
A pausa não é sem graça, nem morna,
É azevinho
das folhas verdes, onduladas e espinhosas.
Alongadas e com flores, de bagas vermelhas;
Iniciantes singelas e que põem copiosas,
Pois que brilhantes e longevas,
tal como o longe chegamos ao permitirmo-nos parar.
Lembrando só de quem queremos
Pelo bem – e ponha o resto a andar.
Dedicando um silêncio que só é cortado
pelo som das folhas passadas,
Da caneta posta à mesa,
Das teclas já datilografadas,
Do verso que interrompe a rotina
(que, extenuada, cobrou-me um tempo,
o qual, merecidamente, aquiesço,
tamanha a sorte que só agora me atina).
É no solitário refinamento que
vejo o quanto é veneno
Nunca ser o próprio destinatário.
Saber que até o vento
Segue hora e itinerário.
Mas para: não sopra a todo acontecimento.
Seguir solitário? Não, a ser perene não quero,
Pois não sobrevivo se for.
Mas aquiesço, se me for proposto
E corroboro a mim mesmo propor.
Mas que seja assim mesmo…
Só neste momento.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 08/09/2019)


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ENQUANTO HOUVER MAR

Por: Diogo Verri Garcia

ENQUANTO HOUVER MAR

Deve seguir a navegar,
Enquanto houver mar.
Falou-me, ao vento, o pescador antes de ir.
Zarpou no pesqueiro, recolhendo cordas
Para se soltar.
Foi tudo o que contou, antes de no mar quase se afogar.
Ou porque perdeu coragem,
Ou porque pecou por sorrir.

Soube por outrem que as ondas eram maiores que o barco
Mas de naufrágio não tinha medo o tal pescador,
Recolheu e içou velas, desacelerou
e acelerou no mar salgado
Que de tanto sal, salgava as gentes e os fardos
Sem ter abrigo ao cansaço,
vislumbrando-se desassossegado,
Mas não questionou: subiu mais ainda o clamor.

Quando o mar acalmou,
pretendeu de imediato que houvesse algo mais.
Mas nada mais havia.
Na úmida aflição entre peixes
Percebeu que ao deixar o cais,
era descontente, para quem a tudo tinha.
Mas tendo apegos por sonhos, isso ocupava sua paz.
Era a forma como vivo se fez ou ainda se faz,
Tem-se o modo como a vivacidade o mantinha.

Não entendeu por que na imensidão sem gente
O mar não lhe mostrou apreço,
Só lhe debruçou nem sob, do céu, gotas;
só do mar, amargas correntes.
Em que pese disposto a qualquer tempo ou vento,
Não contava mais,
Pois, como antes, o mar
Não mais lhe era, como já foi, fiel.

Soçobrou ao acreditar remando dentre torrentes,
Ao superar tempestades chegadas
Em um anuviar de repente,
E, mesmo assim, não ver nem terra, só mar;
Sem porto claro, nem céu.
Se era sol brilhoso, que queimava, se queixava.
E por lá também lamentou o dia nuvioso.
Tomou-lhe algo em alma entrelaçado, como em um opaco cordel.

Mas não se deve desistir de navegar
Enquanto houver mar.
E por haver mar,
Ao aportar, percebeu-se melhor do que ao partir.
Chegou sem peixe,
Mas quedou-se a retornar
Do infiel do mar,
Que dor causou,
Mas consertando o que levou,
Entregou-lhe tudo,
para outra vez repetir.

(Diogo Verri Garcia, 18/09/2019)


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