19 HORAS
Postado no 14 de outubro de 2024 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

19 HORAS
Funcionava enquanto a gosto.
Desandou quando tendeu a ser proposital.
Vingou-se da boca como do rancor amargo de um preposto
Que consentiu o que não foi consensual.
De quem tantas vezes falou coisa pouca,
Palavreado fácil, frases soltas,
Sem afago, nem apelo;
Sem tempero.
Quando terminou, sussurrou-me falas boas,
Embora talvez pensasse, em verdadeiro desejo,
Dedica-me o pior e mais mesquinho mal,
Mal verídico, e não só qualquer malfazejo;
Não males pequenos e paráveis
de uma tristeza constante e geral.
Quanto a ela, antes houvesse
algo mais que o olhar pálido enraivecido.
Preferia as palavras soltas de fúria, gritadas;
Os desabafos medonhos, verdadeiras lâminas de navalha,
Às boas lembranças de um adeus agradecido.
Tudo seria preferível ao dubitável fim,
tão maduro, educado e formal,
Que ela rapidamente aquiesceu, face a mim.
Percebi nos abraços os embaraços que,
quando afastados, causavam alívio.
Com ela vividos que nas viradas amorosas,
em um calor que já era mais gelado que o frio.
Nem nos corpos enlaçados,
não mais se esquentavam,
nem mesmo no verão do Rio.
Balançadas em anseios internos
Estavam às portas as opiniões.
Que encaminham a tudo, confundindo mais
Que a razão e a emoção juntas,
E nos impõe ter quase que uma fé.
O que sufoca não é secreto, nem quieto
É um incômodo constante,
que desafia a calma, torna a presença pedante.
E que tão logo afoga, tão mais
que mal se apercebe o que é.
Feito a água que encharca aos poucos as paredes,
A excessiva presença de quem nem tanto mais se quer,
causa suador, agonia.
É confessional do excesso de intromissão.
Maltrata o interesse, que desalinha.
E se aparece outra, feito ela,
o velho quadro se alinha:
Entre o certo e o errado,
entre o acabado e o então.
Quando beijou, plantou a armadilha
Mas não soube levar:
sufocou quem até então esperava
– e que hoje, dela, quase nada espera.
Quando nos braços sobrou,
não sabia: mais dia, menos dia,
Beijo bom, se é de amor, não tarda;
Mas no excesso, mata tudo; emperra.
(Diogo Verri Garcia. Rio de Janeiro, 19/08/2018 , 00h59)
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OUTRO BRILHO, MESMOS OLHOS
Postado no 25 de setembro de 2024 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

OUTRO BRILHO, MESMOS OLHOS
São os mesmos olhos daquele dia,
Porém já distantes e frios
Os olhos dela não mais se abrilhantam:
Passam demonstrando nada mais que vazio.
E percebo que tais olhos não têm sua luz própria
Só refletem o que penso dela em meus pensamentos
Que por inexatos que sejam, mesmo que racionalmente os ignore,
Revelam sentimentos.
E o que sinto e o que vejo, nos olhos dela
São o motivo e a desgraça,
A argumentação para o que embaraça
O embaraçado amor que já tive.
Não sei se algo substancioso tencionou a mudar
Ou se apenas a direção do barco começou a girar
E eu me entretive.
Hoje tenho a ver que os mesmos olhos,
Dos quais tantas palavras saltavam,
não mais escrevem.
Que nem mesmo para curar a culpa
Dessa previsão não fortuita
talvez nem para isso eu mais reze,
Pois é possível demais que alegar desamor
seja um intento
Para quem – tal qual eu – não tem melhor argumento
Para não querer mais.
(Diogo Verri Garcia, Rio, 23/07/2019)
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POEMAS PÁLIDOS
Postado no 11 de setembro de 2024 1 Comentário
Por: Diogo Verri Garcia

POEMAS PÁLIDOS
Sorrateiramente, sem violência,
Poemas vêm e vão.
Como passagens de trem, como o verão.
Nem todos são vigentes,
confortáveis ou frequentes.
Há poemas que são pálidos;
outros, que são quentes.
Quando encorpam, avançam e arrastam
Feito forças do vento abrasivo, que é bravo.
Quando desandam, são blocos de verso
que não causam, nem intencionam.
Sem sabor, não tencionam furor, tampouco sucesso.
Mas quando empolgam, traçam bem o caminho
E tornam-se oportunos para quem os lê.
Quando inspiram,
Nutrem paixões que arrepiam.
Fazem o poeta parecer afortunado, face a quem o vê.
Mas depois, cansam:
de tanto repetidos, versos entediam.
Caminha o poema como receita instintiva
Que tem métrica, rima, etecetera e tal
Mas que de nada serve, sem quentura nem clima.
Porque se é só verso e rima,
Sem alma, não é poema;
Não é formal. Não é verso. É normal.
(Diogo Verri Garcia, Rio, 04/02/2019)
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O TEMPO DO TEMPO
Postado no 26 de agosto de 2024 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

O TEMPO DO TEMPO
Depois de um pouco esperar, o tempo chegou.
A demora nos trouxe sobriedade
em saber que a distância do tempo não é intocável,
que a vontade melhor difere da nossa vontade.
É um caminho que não engrandece a angústia,
Eis que angustiados somos nós, per si.
É passagem por onde não se andarilha, se busca
A solução que aprouver do que houver a remir.
O importante é que o tempo segue
E o mundo gira no entorno de sua própria passagem,
demais desigual do que a nossa vontade espera.
E tem-se na vida lição maior de verdade:
Seremos nós, da nossa exata diretriz, ora donos;
Mas, ora parte, feito só passageiros à janela.
(Diogo Verri Garcia, Rio 14/01/2019)
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UM PISANTE LUSTROSO
Postado no 7 de agosto de 2024 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

UM PISANTE LUSTROSO
Se existisse um solado no samba
Que fosse um andarilho tipo principal
Conhecedor das canções e das bandas
Bem experimentado pelo carnaval.
Que tudo sambasse e rimasse
Com sapateado fino de desinibir.
Era o sapato todo desavergonhado
Que buscou a gafieira pra se distrair.
O solado sozinho andou,
Procurou por um ponto de samba
mas não encontrou.
Caminhou bem ao largo da areia do mar.
Cuidadoso, bem cuidou para não se molhar.
O sapato que não era bobo
Esperou chover, esperou ventar.
Andejou a calçada central,
Andando em frente a faixa junto ao areal.
Ao encontro foi de outro par de pés,
Queria samba, mas cogitou até o arrasta-pé.
Arrumou-se todo elegantemente,
Sentiu-se até contente após se vestir.
Encontrou enfim uma gafieira
Tocando samba de primeira e resolveu subir.
Encantado com o salão tão vistoso,
Viu no liso e plano taco um viçoso espelho.
Eu avisei, mas não aceitava conselho:
O salão, deveras cheio, inspirava receio.
O sapato lançou-se contente,
sapateando impertinente a se exibir
Mas a sorte que era faceira
Achou a casa muito cheia e resolveu sair
O sapato levou um tostão,
Uma esbarrada, uma pisada e até um arranhão.
Tropeçou cambaleante quase por todo o lugar
A gargalhada era tanta que fez o som parar
Mas do desastre tristonho e premente
Que coube graça a tanta gente
também se corrigiu
Quando a sorte voltou no tablado
Viu o sapato alvoroçado e se compungiu.
Beliscou a sorte logo um salto fino,
Que passava alheia ao atino,
sem sequer notar.
Que olhou para o tablado finalmente com afinco
E viu o sapato em baixa estima a se lamentar.
Tanto gostou do rapaz que assistiu,
Pôs-se o elegante salto fino a se compadecer.
Caminhou até o sapato abatido,
Ali brotou o amor que o samba fez nascer.
(Diogo Verri Garcia, Rio, 21/10/2018)
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MAR EM ORAÇÃO
Postado no 24 de julho de 2024 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

MAR EM ORAÇÃO
Seja forte, como o mar é forte,
Mas te amolde e te quebre como as ondas que batem.
Seja leve, como o mar é leve,
Com ondas breves, como as que rompem a tarde.
Seja bravo e te defenda do argumento,
Quanto te calarem o pranto e te pretenderem agonia.
Seja estupendo, feito o mar em tormento,
Se te transgredirem a luz, não permaneças em calmaria.
Veja a onda que explode e prensa o rochedo:
Seja fereza sem raiva; tem equilíbrio, tem paz.
O mar que alimenta e refresca: é servidão sem medo.
O mar que retira, repõe – nas ondas de leva e traz.
E quando o sublime solar pelo céu se exaltar,
Seja como o mar e reflita a luz que lhe toca.
Se acerque dos que te doam a paz sem te cobrar,
Tal qual um corpo de água salgada,
Que se cerca de terras nas bordas.
Mas se o céu te parecer mais cinza,
Não o espelhes na dúvida, olhe para o mais profundo de ti.
Não te tornes pedante, descrente ou ranzinza.
E te acalme: contenha-te do furor, do desamor, do frenesi.
Seja leve, como o mar é leve.
Feito as águas que chacoalham ao vento,
E que repousam tão logo a brisa pausar.
Trazem paz alheia ao amalgamento.
Seguem mansas e resilientes.
Sem apatia, são benevolentes.
Fortes e calmas, bem sabem:
Tudo tem o seu tempo.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 16/08/18).
Créditos da imagem: Unsplash
DESCREDENCIADO POETA
Postado no 17 de julho de 2024 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

DESCREDENCIADO POETA
A poesia, quando sai do poeta,
É livre, sem responsabilidade.
Quem assume seu próprio risco é o leitor
Que lê o que quer, adota suas próprias verdades.
Descredencia cada palavra dita,
Que não pertence mais a quem as fez.
Os prantos podem se tornar sorrisos;
Os risos, desatar de vez.
As saudades, que eram felizes em mesa de chope,
Lembram palavras tristes, ofensivas e torpes.
A dor, que quem escreveu quis contar,
Pode virar samba de Chico, ao som de “Vai passar”.
A poesia, quando ab-roga seu dono,
É livre, nunca será de mais ninguém.
É feito o amor que traz ao mesmo tempo beijo e abandono:
Ama instantes a ti, ama logo mais outro alguém.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 11/08/18)
Créditos da imagem: Unsplash
A céu aberto
Postado no 10 de julho de 2024 Deixe um comentário
Por: Bia Latini

Não é sobre velocidade
Não é sobre quantidade
Não é sobre idade
Nem sobre riqueza
Não é sobre tempo, espaço, compasso
É sobre escorregar em arco-íris e chuva prateada
É sobre sapatear contente com tantos estalidos
E ver a lua com toda sua luminosidade e crateras
É sobre deitar-se debaixo das estrelas e agasalhar-se no sereno
É sobre desaguar-se em choro de gratidão e salgar lágrimas de presença
É ir deitar leve …
Depois de perceber que o mundo não tem teto.
Por Bianca Latini
Créditos da imagem: Unsplash
Amar
Postado no 4 de julho de 2024 Deixe um comentário
Por: Valéria Shirá

Amar
Amar é quase Mar
Contemplação e Combate no mesmo Navegar
Amar!
É só um silêncio antes da volúpia do Mar
É
Ah…Mar!
Valéria Shirá
Créditos da imagem: Freepik
PONTUAÇÕES
Postado no 26 de junho de 2024 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

PONTUAÇÕES
Um ponto
parou frente ao fim da frase,
Sem base para torná-la um conto,
Sem instrumento para constitui-la
em algo que bastasse.
Nem crase socorria-lhe ao encontro.
Até que aos poucos, outros pontos juntaram,
vieram palavras novas,
pontuações,
que chegaram meio fora de hora,
Mas formaram algo grande, pois não buscavam ir embora,
Tão só lhe quiseram acudir.
O ponto não soçobrou, houve fim ao entrave.
Enfim criou corpo bastante para dar forma a um tema.
Ganhou rima,
pronto a achegar-se.
O ponto não virou conto,
mas virou poema.
(Diogo Verri Garcia, Rio 18/06/2019, 23h13)
Créditos da imagem: Unsplash
