POEMA AO VERBO NAMORAR

Por: Diogo Verri Garcia

POEMA AO VERBO NAMORAR

Namoro aquela cuja alma me agrada,
Cuja paixão me afaga
E me faz, em manter presença, teimar.
De razão tão franca,
A ponto de ter a doçura mais fácil e sincera;
É a personificação da insistência severa,
De mesmo, às minhas tolices, amar.

Namoro – aquela que me acode e que tanto valoro –
Quase uma parte de mim mesmo,
Que se vê tão completa em outra pessoa.
É a certeza de que tudo passa,
Mas nem sequer o percebo;
Se me quedo ausente, é abalado, tão assim, meu sossego;
Mas, perto, as desimportâncias se aquietam,
Para longe revoam.

Namore, se entrelace, valore,
Para que o tempo não roube de ti a saudade daquele momento;
E dele, tu nunca exijas piedade, ao te faltar – feito ar –
O aprazível e aprazável alento,
Da vontade que te açode a alma,
Por não ter o sincero enamorar.
É o amor, que desejo, não te haverá de faltar.
Namorar edifica, solidifica,
É cimento.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 09/06/2021)


Créditos da imagem: Unsplash

Por: Mauricio Luz

Em minha direção você caminha
Altiva, decidida, sedenta,
E eu, homem menino obediente,
Inebriado de tanta beleza e desejo,
Espero sua vontade, que também é minha.
Você me toca, me abraça,
Sinto o calor e maciez de seu colo.
E antes que meus lábios possam explorar
Os frutos quentes que se oferecem,
Você se esvai.
Sonho, tudo era um sonho,
Tornado pesadelo quando acordo
E você não está ao meu lado.
Que faço para você sair de mim
Quando não estou em você?
Que faço para que eu possa domar essa chama
Mesmo quando não está ao meu lado?
Pensamentos dançam no teto do quarto,
Enquanto espero o ardor de minha pele esfriar
O Sono sorri por ter sido derrotado
Por tão doces e quentes devaneios.
É o que me resta: fechar os olhos, mergulhar na saudade,
Torcer para que Morfeus cumpra seu trabalho,
E esperar para tê-la em meus braços,
Até o frustrante momento de despertar.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

O QUE VAI ALÉM DAS COLHEITAS

Por: Diogo Verri Garcia

O QUE VAI ALÉM DAS COLHEITAS

Saiba dar a mesma desimportância
Que outros e tantas circunstâncias
Na vida vão lhe dar.
Não dedique estoque para palavras alheias
Pois nem no plantar, nem nas colheitas,
Os calos que são teus, poderão suplantar.


Não percas a tua elegância,
Nem te ponhas em inconstância
Com as certezas que na alma tens,
se não são teus os pensamentos.
Saiba que flores não morrem de espinhos
Mas despetalarão sozinhas
Eis que ninguém lhes segura ao vento.


Afinal, tem gente que pilota a vida
Como parca aventura, mostra-se desinibida,
Que nunca nota gente amiga, que lhes tenta alertar.
É um fluxo tão assim desgovernado,
Que por pouco não termina errado,
Entre alguns prantos e um penar.


Por isso não se iluda
com as multidões das avenidas,
Que lhe sopram ideias, dizem-se sabidas.
Siga a vida como quem já quer aonde chegar.


Se tuas metas deixarem-te desacompanhado,
Não se acanhe, adite o planejado.
Pois todos tem defeitos – só para avisar.
Nem tudo são acertos – só para aceitar.
Há sempre um outro jeito – só para quem tentar.


(Diogo Verri Garcia, 25/04/2019)


Créditos da imagem: Unsplash

Por: Mauricio Luz

Você se despe, e se mostra inteira,
Além da sua pele macia e quente.
No seu abraço eu sinto
Os elementos pulsando em você.
O furacão de seus beijos me colocam em turbilhão,
Tornado que torna o respirar,
O delicioso exercício de dois
Que desejam se tornar um.
O fogo me queima inteiro,
E em brasas renasço para arder
Na pira que se tornou seu leito.
Sob as camadas de tecido algo mais se revela.
Sem máscaras, sem rodeios,
Sem formalidades compridas a serem cumpridas,
Eu a vejo como é:
Intensa, inteira, indomável!
Um espírito livre que se finge aprisionar
Apenas para voar ainda mais alto,
Rindo daqueles que tolamente achavam
Que a tinham prendido.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Por: Mauricio Luz

Vamos, me conte seus defeitos
Confesse algo que me faça
Nunca mais olhar para você.
Diga-me que é pedófilo,
Que envenena velhinhas,
Que solta gatos em aviários,
Que rouba dinheiro do vigário!
Vamos, me diga algo inconfessável,
De horrorizar o próprio demônio!
Fale-me algo que me permita,
Odiá-lo a ponto de não olhar mais em seu rosto,
Querer jogá-lo pela janela!
Você não pode ser tão perfeito.
A dose exata e inebriante,
De luz e sombra,
Remédio e veneno,
inferno e salvação…
A ponto de fazer a minha vontade a sua vontade!
Vamos, por favor, me diga!
Salve-me de mim e de você,
Salve-me do seu maior pecado,
Que é ser a realidade em carne
Do que sempre sonhei encontrar.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

O ATRASADO DE MAIO

Por: Diogo Verri Garcia

O ATRASADO DE MAIO

O atrasado quando chega ao evento
Passa esbaforido, quase tropeçante no próprio passo
Acredita que o quase lustro perdido passado
Serviu a todos a contento.
E se atrasou, posto que mal percebeu seu descaso.

Os que os aguardavam nem mais aquiesciam
Que a presença vindoura seria alvissareira.
E não foi: foram cinco palavras e a manhã logo finda;
Atrasou mais que o enfeitar da moça namoradeira.

E já estava gelado o café que o aguardava.
De tanto esperar, cansaram, os revoltosos, até do levante.
E agora, calmamente, feito tropa esperavam.
Impassíveis, como quem dá palavras com infante.

Mas, no giro da hora, a demora não mais se acanha,
Era um atraso que foi pressa, chegada a hora de ir.
O novo café, já quente, nem lhe viu a fumaça;
Da letargia acordou; correndo, passa.
Era muita a pressa em partir.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 14/05/2019).


Créditos da imagem: Freepik

Por: Mauricio Luz

Meus dedos passeiam por seu corpo
Infinitos desenhados infinitamente em sua pele
Mãos suavemente dançam pela suavidade de seu corpo
Decoro seus contornos em braile
Deixando o decoro em segundo plano.
Meus lábios percorrem sua geografia
Sedentos em encontrar a fonte que saciará
Uma sede que só aumenta, mesmo quando
Bebo direto daquilo que tanto buscava
Sem fôlego, roubo seu ar com um beijo
Procurando um alento que se vai
Assim que nossas bocas se desgrudam.
Minha retidão se desvanece em suas curvas
E minha razão só encontra sentido
Em algo que está além do que consigo compreender.
Eu estava perdido, e você me encontrou
Apenas para que eu me perca
Nos saborosos caminhos de sua beleza!
Oxalá eu me mantenha desencontrado!
Que em suas trilhas eu saia dos trilhos,
Um trem desgovernado que encontra refúgio
Na doce e quente estação de seus braços.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Por: Mauricio Luz

Lá estava eu
Preso na lama de meus próprios dramas
Acorrentado aos cacos de um amor que se foi
Mas que permanecia como um encosto, uma alma penada
Assombrando meu presente e futuro.
Lá estava eu
Esmagado pelo peso das obrigações mundanas
Sufocado pela saudade e o luto de uma morte minha.
Tudo era dor – e perspectiva de dor
Então, você apareceu.
Do nada, convidou-me para perto de ti.
Firme e serena, abriu suas mãos e enlaçou seus dedos nos meus
E rasgou minhas trevas como um raio de sol faz com o fim da noite.
Seu hálito juntou-se ao meu, transplantando desejo e vida,
O fogo queimando a pele,
Derretendo as algemas que me mantinham curvado.
Busco em sua fonte o néctar para matar minha sede,
Apenas para aumentar a fome que é saciada,
Quando nos tornamos um em seu abraço.
Eu me entrego, e na entrega, eu me liberto,
Você se liberta.
Saímos juntos de uma prisão que enjaulava nossa vontade,
Nossa ânsia de viver o que não poderia ser detido.
E lá estava eu.
Sentindo minhas asas livres e fortalecidas
Pronto para voar ao infinito
Redescobrindo a potência e o sonho.
Lembrando que liberdade não é fazer o que se quer,
Mas assumir o que se deseja e pagar o preço por isso.
Voando ao meu lado, você sorri.
Soltos e eternamente ligados por uma força,
Mais poderosa que o tempo e o espaço:
O poder das almas livres que se encontram.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Fendas

Por: Valéria Shirá

Fendas

Todas as palavras em mim
Rompem
Abrem fendas
Rasgam a pele
E…
Sedentas
Descansam no papel

Para escrever é preciso
Atravessar
Através sanar
Recuperar a lembrança do que nunca foi esquecido.

Valéria Shirá


Créditos da imagem: Unsplash

A FLOR E O SERRADOR

Por: Diogo Verri Garcia

A FLOR E O SERRADOR

A Flor olhou para o alto,
Viu mato que se pusera a reinar.
Desconcertante aquele verde.
Um ponto frio, sem importância,
um minúsculo vazio, um ressalto.
Era sua cor naquela mata a vigorar.

Pensou sozinha: o que há comigo?
Se há desabrigo, maior deles é a solidão.
Não se vê mais cor, não há mais brilho
neste solo vazio de outra flor alçada do chão.

Temerosa, percebeu um tom esquisito,
Nem rosa, nem lírio, nem nada mais.
Só sabia que era um tom bem mais bonito
Que a imensidão verde, que aqui jaz.

Percebeu que outros tons se aproximavam,
Junto de um som pouco crível de devassidão
Enquanto a mata tremia, a flor se alegrava.
Um cheiro estranho o vento trazia, desconhecido então.

O ponto lustroso reluzia ao sol,
De jeitos de prata e de amarelo vivo brilhante
A mata caía, a flor perguntava:
Que será tanto brilho? Mais flores, ou não?

Finalmente, tão perto da flor,
Não era uma máquina só, mas outras quantas.
Chegou o estrondoso som, chegou a cor.
Feriu-se a mata, teve a flor sua pétala caída.
Em fim de vida,
Passado o tremor, não há mais flores tantas.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 04/02/2019).


Créditos da imagem: Freepik