Em Si

Por: Valéria Shirá

Em Si

O poema se embrenha em mim como uma brisa leve…
Que atravessa o tumulto barulhento de um recipiente cheio
Entra trançando vísceras
Ressignificando
Recordando
Poetando ao seu modo de Ser

Leve recolhe
e transborda a Vida
Leve voa
vestido da lealdade ao que é
Leve flutua em retorno esférico
Circula
Sempre em paz
Sempre maís
Deleite
de um compromisso único

Corre nos jardins do mundo
Criando a certeza dos encontros
Desperta
A dança das flautas e dos lírios

A música que encanta os braços parte do coração
As lágrimas sabem dizer as canções das Águas
Sua gentileza,
Sua alegria
E sua fúria
Rasgam as veias,
E nos mares q
Imensas gargalhadas

Salta no ar
No seu trote
Corre com as mulheres
Se confunde nelas

E o poema é vento que leva
Sutil certeza
Traz para perto
Corre por fora
livre por dentro
O poema eternamente corre
Sem se dar conta de quantas são suas travessias
De em quantos oceanos velejou
Quantas ilhas
Quantas terras distantes
Do quanto viajou
Plenamente ficou
Infinito gozou
Em si
Sempre retornou

Valéria Shirá


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SENHORA DA PASSAGEM (VISITA-SE A VIDA)

Por: Diogo Verri Garcia

SENHORA DA PASSAGEM (VISITA-SE A VIDA)

“Se a vida fosse justa, não seria vida.
Justeza verdadeira há só na morte,
Que leva a todos: a ti, a ele, a outros.
Garante uniformemente a mesma sorte”.

Assim, a senhora da passagem recebia
todos quantos chegavam, sem pesares, nem contras, nem prós.
Por vezes, vezes e vezes, seu verso repetia.
Recebeu poetas, malandros, pessoas nossas, fidalgos, heróis.

Até ela, porém, não mais admite
Que todos tantos vão e vêm,
E a vida, inquietante que palpita, só assiste.
Feito turista, encantou-se pelo que outros acham ser corriqueiro,
Queria ter um mês ou dois; ou mês e meio

Para sentir a brisa no rosto,
Para pisar na água que molha a areia do mar.
Para ver, só por ver o mundo que rumina,
assistir crianças e meninas,
perceber o tempo passar.

E, assim, declarou aos atentos e aos dispersos
Que teria plenas horas vagas, na vida, à passeio.
Todo mês, nem menos que um dia, nem muito mais que um dia.
Exatamente: um dia e meio.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 2018)


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À ZERO HORA

Por: Diogo Verri Garcia

À ZERO HORA

O tempo é estampido
Quando o relógio vira,
Os fogos queimam e ascendem,
Um novo tempo almeja-se,
Os festejos transcendem.

Percebemos que doze meses atrás
Um pouco de mais era almejado.
Também fizemos promessas.
Talvez menos ou mais festejado.

Mas nada mudará; talvez tudo mudou.
Certamente um reluto, e o entusiasmo vigora como a mola da alma.
O propósito é como o vapor, um foco resoluto.
Engaja e impulsiona,
e vistas as resoluções, acalma.

Com o mesmo entusiasmo de hoje,
Doze meses atrás, era esperado o momento.
Como se um algo novo bastasse, pondo finda a vigência do que houve em outrora.
Por si, nada muda: a intencionalidade é irmã do tempo.
Mas já basta, a vida passa.
O relógio soa: zero hora.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 29 de dezembro de 2018)


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DEZEMBRO E O TEMPO

Por: Diogo Verri Garcia

DEZEMBRO E O TEMPO

Quando passa à frente outro ano
Logo tanto tempo, em rompante, vai embora.
Amanhã, nunca mais será o mesmo dezembro.
Passa e passou nas ruas povo farto e alegre,
(Andam também alguns avarentos).
No caminhar de crianças e moças, vem ainda mais gente:
Um senhor sorridente, e em passo breve a sua senhora.
Está tudo acabado e a contento,
Feito dezembro.

Eu entendo todo esse evento,
Todo riso, todo pranto, todo alento.
Observo o passar da vida,
Sempre atento ao correr das horas.
Noto palavras que são merecidas;
Hoje, menos ponderadas, porém faladas em vida.
Pois há o tal tempo que vai,
Tornando posto o momento afora.

Tome as ações que deseja,
Beije feliz quem feliz bem te beija.
Veja-se em festas,
Em votos sinceros
Ou mesmo de simples sermões.
Refresque-se em abraços, tenha resoluções.
Faça boas odes ao bom pensamento.
Pondere, pois as palavras não ditas, no tempo passam.
Porém, as mal ditas não passam no tempo.

E o correr desse tempo, justo hoje, feito o mar, não falta e não falha.
É o véu quente e humano, corrente de gente de que rompe a praia,
Era dezembro.

(Diogo Verri Garcia, dezembro de 2019)


Créditos da imagem: Freepik

A DIZER SOBRE O VERSO

Por: Diogo Verri Garcia

A DIZER SOBRE O VERSO

A dizer sobre o verso,
Certa vez expuseram
Que melhor poeta vive da tristeza,
Pois narrar em vida grandeza
não marca e não graceja
tanto quanto falar da saudade.

Que poesia boa ou é tragédia ou é autoajuda,
Que o verso a si mesmo desnuda: é escrito porque há vaidade.

Expuseram que o poema é perda de tempo,
que serve de alimento para quem nada tem ou quer.
Que é só palavras em andamento, assentada sem intento,
Que não acresce, não cria aquisições
e ilude feito uma fé.

Alegaram que poesia amorosa é desgraça,
É o arrojo de um sem graça, incauto pelo que não viveu.
Ou pior, que a poesia afrontosa é pirraça,
tamanho o dano de arruaça,
plasmado em alguém que algo ou muito perdeu.

Dispuseram que em ocupada vida
não há tempo hábil para fazer poesia,
tentativa de impor ao mundo sua própria desordem.
Mas se esquecem que a palavra que amargura, igualmente reata,
Que a poesia, por si, não diz nada,
Quem dita o caminho é que o percorre.

É inato: não procuramos o verso,
ele é quem nos procura.
É inoportuno, justo quando não se consente,
Quando a tristeza é premente
ou quando é nulo o luto,
ele vem.

E sem descalabros nem cerimônias ao procurar,
faz-se em rimas,
rimando o anverso de tudo o que há
E procurando, sabe bem por quem:
por alguém, o poeta.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 03/01/2019)


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Por: Mauricio Luz

O ensurdecedor silêncio da casa vazia
Faz-me ouvir minha própria voz
Eu não a ouvia.
Eu não conseguia.
O que escuto me perturba.
É a voz de um prisioneiro
Enjaulado pelas grades frias das obrigações,
Trancafiado entre as paredes grossas das crenças alheias.
Fui para o quarto,
Olhei-me no espelho.
Estava diferente.
Uma máscara minha caiu
E outra face aparecia
Escondida debaixo da mesma face
Que no espelho surgia.
Estava tão igual, mas tão diferente!
Eu não me reconheci
Pois finalmente eu me vi

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Eu-Cidade

Por: Bia Latini

Eu-Cidade

Somos muitos parecendo APENAS UM
Não somos monobloco, paralelepípedo condensado, feito apenas de cimento
Somos cidade, bairro, quarteirões, ruas, esquinas, ladeiras , vielas, becos, cruzamentos
Terrenos baldios, plantações, inundações, incêndios, parques, lagos, rios, mares…marés

Na calçada de onde moramos, olhando para baixo, vemos apenas asfalto, pixe, paralelepípedo
Ao sobrevoarmos de avião ou helicóptero, heis a cidade:
Nós-imensidade

Somos tudo isso

Alternadamente
Concomitantemente
Paralelamente
Intermitentemente
Significantemente
Insignificantemente
Lentamente
A-B-R-U-P-T-A-M-E-N-T-E

Estamos tentanto fechar “O Diagnóstico”
Mas não somos médicos
Somos HUMANOS
Nos esforçamos para sermos singular
Só que somos plural: únicos na combinação de transversais e paralelas

Como seria contemplar toda a cidade?

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Freepik

POEMA À PRAIA

Por: Diogo Verri Garcia

POEMA À PRAIA

Nossos melhores caminhos levam à praia,
Onde vige a lei de Deus,
A regra do vento, o compêndio das águas,
Onde não sobra espaço para problemas teus.

Que ficam na praia, com nada a lastimar.
Ficarão por lá, sem voltar contigo.
Até teus erros e anseios já gostam da praia.
Lá encontraram leveza, porque lhes é permitido.

O vento toca o rosto,
a água abre os caminhos.
Se algum desgosto contigo, veio:
voltará sozinho.

Os grãos de areia que te encontram na praia
São obra do mar
e ao tempo convém
dispersá-los ao sol,
entregues a quem os tocar,
Como orações pequenas que são,
de paz e bem.

(Diogo Verri Garcia. Rio de Janeiro, 14 de janeiro 2019)


Créditos da imagem: Freepik

Por: Mauricio Luz

Se quiseres encontrar a Paz,
Procura-a em ti
É o único lugar onde poderás encontrá-la
Se continuares a buscá-la fora dos contornos de sua pele
Andarás em círculos como o beduíno
Que vê na miragem surgindo no horizonte
A vã esperança de saciar a sede que o tortura
Até ser engolido pelas areias do tempo.
Se quiseres encontrar a Paz,
Aceite-a em ti
Pois se desejas a aceitação longe do alcance de seus cabelos
Serás como o capitão de navio que apenas navega
Na certeza de encontrar bons ventos
Nunca se afasta do porto “seguro”
E seguro jamais conhecerá o mar e a si mesmo.
Se quiseres encontrar a Paz,
Toma-a para ti.
Pois se crês que tua Paz depende do silêncio dos inimigos,
De como eles agem, como pensam de ti,
Serás como a bela ave que vislumbra a gaiola aberta,
Mas coloca a culpa no carcereiro
Por não voar nos rumos do infinito.
Se quiseres encontrar a Paz,
Construa-a para ti.
Faça dela tua casa, tua fortaleza, teu castelo.
Saiba que uma vez erigida,
Ventos açoitarão as paredes, aríetes baterão à porta.
Falharás fragorosa e vergonhosamente até perceber
Que feita de muros e granitos, essa Casa cairá.
Mas com tijolos de Esperança, Ela se sustentará.
Esse espaço será apenas teu,
Inalcançável para deuses e demônios,
Inabalável às intempéries da Vida.
Se quiseres encontrar a Paz,
Planta-a em ti.
E como a pequena semente que rompe o asfalto e o concreto,
Sinta as raízes racharem teu cimento de certezas,
Tornar em pó as pedras que teimas carregar,
Fazer da raiva e da amargura o adubo que a elevará ao Sol
Até que possas subir em seu galhos e descansar em suas próprias Sombras.
Se quiseres encontrar a Paz,
Para de procurá-la na humanidade, nos animais, nas plantas,
Chega de buscá-la nos elementos, nos planetas, nas estrelas.
E verás surpreso que Ela está na mesma distância
Que tu estás de ti mesmo.
Tem o tamanho de teu Coração.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Por: Mauricio Luz

Amanhece; o pássaro canta agitado
Meus olhos se encontram com a luz
Que sussura “bom dia” e entra pela janela
Me convida para mais alegrias e tristezas
Nos momentos que formam a Existência.
A gatinha dorme a meus pés,
Lembra-me da beleza e da graça
Compartilha de seu calor comigo,
Me aquece o corpo e o coração.
Vida.
O pássaro, a gata, a luz…
Eu e você.
O Mistério que nos move é o mesmo.
Ele não pode ser visto ou descoberto
Pelos mesmos olhos que nos tornaram cegos;
Apenas entendido em um tempo além da razão.
O que eu não faria para que você percebesse:
Aquilo que tanto valoriza
Não tem valor algum.
E as medidas com as quais mede os outros
Na verdade mostram as suas próprias medidas,
O tamanho de seu medo.
Nada, eu não posso fazer nada.
A ignorância nos torna prisioneiros,
Carcereiros de nós mesmo,
Condenados com as chaves das celas nas mãos.
O que posso fazer é ouvir o canto do pássaro,
Sentir o aconchego felino,
Ver a luz dançando e me chamando para o imprevisível,
E te esperar do lado de fora.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay