GRÃO E MIGALHAS

Por: Diogo Verri Garcia

GRÃO E MIGALHAS

Por vezes, insistem em dar migalhas,
Enquanto minha mente anda morta de fome.
Fome por fome, estou acostumado,
Mas não acho engraçado não saber ler meu nome.

Parece até princípio de fim.
Meio de vida é qualquer um, afinal.
E se não acho um caminho certo para mim,
O fim, no início, é normal.

Há quem diga que é um direito o estudo,
Mas na vida só conto mesmo com a sorte.
Se há equidade no mundo? Não creio.
Somos iguais só na hora da morte.

E para que me falar de educação,
Se cultura, aqui, só se conhece de retrato?
Não dá não, doutor! Isso é para filho de patrão.
E como comprar livro, se mal consigo ter um prato?

Começo a achar que estudo é pra quem pode.
Sigo sem vida, sem letras, sem saber.
Não sei se é culpa de Deus, do mundo, da sorte,
Ou se é só minha, por não saber ler.

Prevejo piada em querer diploma em moldura,
Porque para mim já é muito ter nada.
Se alguém nos desse algo mais de cultura,
Deixava de vez o cabo da enxada.

Mas tem moço que parece não ver.
Saber, até sabe, mas finge que não.
No fim, para os nossos, farelo.
Para eles, fartura e quinhão.

Mas de que me adianta farelo sem grão?
Moço, dê-me uma escola,
Que lá eu aprendo. E depois faço meu pão.

(Diogo Verri Garcia)
(Publicado em Poesias Brasileiras. 3. ed. São José do Rio Preto: THS Arantes Editora, 2006).


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Por: Mauricio Luz

Ó Filha, Ó Filho,
Eu lhes peço perdão.
Erigi a vocês um mundo de aço e carvão
E com as riquezas que lhes deixarei
Vocês pagarão o preço
Que o dinheiro não pode pagar.
Com o ferro domesticado devastei montes e florestas
Os corpos e as almas de vidas ancestrais
Queimei para voar como os pássaros, nadar como os peixes
Correr mais rápido que a mais veloz das gazelas
Mesmo sem saber o porquê.
Na orgia dos vampiros sedentos por ouro e poder
Suguei as águas antes cristalinas e puras, berço pujante da vida.
Remodelei a Terra a meu bel prazer
Movido por um vazio interior tão profundo…
Eu poderia ter preenchido de Amor
Mas escolhi abraçar a Ganância
Enquanto Mamom gargalhava maravilhado
Testemunha do que fiz ao jardim do Éden
Ó Filha, Ó Filho!
Vocês pagarão o preço!
A terra está abrasiva e inclemente
Não mais fresca e florescente,
Mas árida e seca como minha mente ávida
Em conseguir mais prata e platina
A água, escurecida e putrefata
Envenenada de química e física
Plástica como meu coração se tornou.
O ar, esfumaçado, quente, sufocante,
Se revolta e nos açoita, violento e rancoroso
Inclemente como eu ao encarar outras formas de vida
Que não eu mesmo, e apenas eu.
Pois até mesmo aqueles, Ó Filho, Ó Filha,
Que penam convosco no que eu construí
De mim nada obtinham além do vinagre do desdém.
O que vos deixei de herança? O que fiz?
Como o ouro que extraí da terra
Poderá alimentá-los?
De onde virá o líquido que saciará suas sedes,
Banhará as suas peles?
Gaia nos perdoará pelas centenas de anos,
Que a escravizei e violentei incessante, impiedoso?
Como se lembrarão de mim?
Ao olhar o céu, obscuro e sem estrelas,
E inspirar o ar venenoso e pestilento,
Reconhecerão o amor que sinto por vocês?
Ou olharão ao redor e consternados,
Gritarão em sussurros inaudíveis para mim:
“O que nos deixaste?”
Ó Filha, Ó Filho,
Eu lhes peço perdão.
Que meu legado de Morte
Seja o testamento da Vida
A fatalidade vem quando a Esperança se vai
Devemos reaprender a Amar, mas…
Conseguirão isso vocês, depois que tudo que ensinei?
Meus exemplos destrutivos serão exemplo
Para o que deve ser construído?
Conseguirão o perdão de Gaia, o seu afeto,
A regeneração de nosso lar cósmico?
A vocês, um aviso e uma chance.
Erigi um mundo de aço e carvão
De objetos plásticos e pessoas plásticas
E com as riquezas que lhe deixarei
Vocês pagarão um preço
Que o dinheiro não pode pagar…

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Por: Mauricio Luz

Obrigado, Mãe.
Gratidão por tudo.
Fizeste-me nascer duas vezes.
Na primeira, a dor do parto foi tua.
Na segunda, a dor da partida é minha.
Em ambas as vezes, deste-me a vida e a consciência.
Tua ida destroçou-me
Mas nunca estive tão inteiro.
Encontro segredos nos meus fragmentos e lascas
Que brilham mostrando novos desenhos de mim
Talvez se chame partida justamente
Porque quando alguém que amamos se vai,
Pedaços nos são arrancados
Formando novos mosaicos do que ficou
E até nesse momento me mostras
Que há em mim uma força que nunca será levada por nada e ninguém
Obrigado, Mãe.
Mentiria se dissesse
Que não sei como te agradecer.
Basta ser eu mesmo
Sem jamais deixar de reconhecer
O quanto de ti viverá eternamente em mim
Até eu mesmo encontrar o momento
Que todos encontrarão.
Até logo, Mãe.
Nos vemos nas estrelas,
O porto de onde viemos e para onde vamos
Na viagem sem fim que é a Vida.

Mauricio Luz


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MANANCIAIS DE PROMESSAS

Por: Diogo Verri Garcia

MANANCIAIS DE PROMESSAS

Prometo que serei mais ponderado, mais contido.
Menos acelerado, terei maiores cuidados,
Prometo portar-me como se fossemos tão só conhecidos
Juro ser mais ausente, também complacente, a Deus temente,
Mesmo que a oportunidade se apresente, abrirei mão de te ter.
Contudo, não mentirei pra gente: a distância é prudente,
Para deixar só de prometer

Prometo refletir nas ações
Antes calorosas,
Silenciar os bordões,
Não te mandar a ações em noites tão perigosas.
Perceber que nas horas da tua ausência,
Nisso não há inocência:
É só uma forma de não comprometer.

Assim juro não fazer mais convites,
Nem por ousadia
– tais quais tanto te fiz quando ainda não prometia.
Prometo não te falar em sussurros,
Não ter pensamentos obscuros,
Iguais aos que me vêm todo dia.

Considero não mais abraçar-te no escuro,
Ou prensar-te nos muros,
Nos cantões de qualquer casa.
Eu pondero que, por sermos vorazes,
Temos razões razoáveis
Para ponderar, e não requentarmos a brasa.

Asseguro limitar-me à luz da claridade,
Por precaução que, na verdade, é por nossa cupidez.
E por saber que a decisão mais sensata, é rapidamente afastada:
Quando aparece a vontade, não há sobriedade, é feito uma embriaguez.

Prenuncio não mais procurar-te quando for tarde,
Pois sem meias verdades, logo corre a hora, e tudo já se fez.
Prometo saber que sem ter saciedade, a imprudência se arvora,
E a resolução impensada não acontece só uma vez.

Prometo só agendar horários que atrapalhem compromissos,
Pois não temos juízo, nem maturidade.
Prometo, quanto estiver em outros braços, silenciar-te meus passos,
Faltar a ti com a verdade.
E compreendo o mesmo tratamento, ainda que me cause tormento e ansiedade.

Eu prometo, afastar-me de tudo que inclua a vontade que queremos conter.
Eu prometo, a prometer um dia
Em que vamos parar só de prometer.

(Diogo Verri Garcia)
Postado no dia 28 de novembro de 2018


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Por: Mauricio Luz

Passam os anos e os séculos
Voam as horas e os segundos
Mas não passa o pensamento
Mudam os climas e os ventos
Caem as folhas e os orvalhos
Mas não mudam os homens
Não caem seus medos e suas fraquezas.
Suas sombras continuam no escuro
Fazem de seus pontos fracos
Suas débeis fortalezas.
A rocha, imponente e dura,
Destroçada será pela suavidade dos elementos.
O ar e a água se mostram mais firmes que o granito
Pois sabem que o verdadeira força está no tempo
Infinito formado por horas e segundos
Que passam… como os anos e os séculos.
Mudam os céus e mudam as terras,
Mas não passa o pensamento…

Mauricio Luz


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ESPÍRITO DE VINDITA

Por: Diogo Verri Garcia

ESPÍRITO DE VINDITO

Já tive livros confiscados,
Malfazejos direcionados,
Atos meus mal comparados,
Tive amores complicados.

Desses que eu já gostei,
Outros pouco me importei.
Alguns até admirei,
Mas não me apaixonei.

Já vi cruzarem a rua,
Logo que eu aportei.
Segui só pela calçada,
Vi a dor de quem gostei.

Presenciei o choro preso,
Desesperos indefesos,
Rompimentos com desprezo,
dos quais nunca saio ileso.

A vida segue expedita,
Leve, mansa, inaudita.
Mas tem ações sem contradita
A retomar coisas desfeitas.

Tem espírito de vindita,
Se apega ao corpo feito maleita.
Bela, lúdica e esquisita
Ela que segue, a vida à espreita.

Tive amores mal-acabados,
Cachos negros, fios dourados.
E nada é mais descuidado
Do que ver versos meus rasgados

Se são versos não padecem
Feito livros que perecem.
Quando alguém, em mãos se atreve,
Faz confisco e os subscrevem.

Não foi só por uma vez.
Sobre livros e amores, eu bem sei.
Por sorte, outros encontrei.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 05/09/2018)


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Por: Mauricio Luz

Há em mim um cadáver insepulto
Perfumado, atraente, sedutor,
Se recusa a aceitar sua morte
Que o seu tempo já passou.
Há em mim um morto-vivo
um vampiro sedento, insaciável
Se alimenta do sangue da aceitação alheia
Sugando qualquer vontade própria
Que seu hospedeiro possa ter
Há em mim um zumbi, um golem,
Comandado por desejos e vontades que não suas
Indo aonde querem que vá,
sonhando os sonhos alheios, dormindo sem nunca acordar
Cercado de tantos monstros,
Obliterado por tantas forças…
Terei Eu a vontade e coragem
De buscar no veneno o remédio
Que irá me curar?

Mauricio Luz


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SETEMBRO

Por: Diogo Verri Garcia

Setembro bom, que de vez o inverno espanta.
Já torna longas as tardes, encanta
Todo aquele que observa um jardim de setembro.

É tempo
Do arvoredo quedar-se exulto,
Envolto em flores, em chão de colorido tumulto,
Que dura até meados de novembro.

Setembro, o vento frio cá já não sopra mais o rosto,
É mais quente que o último agosto,
Tão bom como sempre me lembro.

Calor competente, o ambiente torna o corpo suado,
O suficiente para o chope gelado
– Bebida frequente no vindouro dezembro.

Setembro, que em Lisboa já faz frio ao fim de tarde,
Que no Rio traz o sol, que vem matar minha saudade
– Desço do voo, e segue quente o desembarque;
Em Porto Alegre, perde-se do inverno cinza o fomento.

Setembro, que mês bom – só não melhor do que dezembro,
Em que o verão traz expansão, prolonga o tempo.
Quando o amor ainda é amor, e não destempo,
Tal qual o será, tal qual em um mês…

(Diogo Verri Garcia, Belo Horizonte, 01/09/2018)


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A JOVEM NARRATIVA

Por: Diogo Verri Garcia

A JOVEM NARRATIVA

Aplicam-se as obrigações, no que couber.
Ela assim diz, acompanhada da sua formação, dos seus pertences.
Seus pais ou responsáveis, parentes,
Assistem ao confinamento, apáticos e descontentes.

Impossível o reatamento dos vínculos – expressam alguns.
Face à rotina que tumultuou o lar faz um mês.
Oferecer vestuário e alimentação, não basta;
Oferecer amor – alguém nunca o fez.

A jovem pretendia ser feliz,
Por destino quis o afastamento rouco, grave e profundo de seus dirigentes,
Face a planos que a vida lhe dedicou, agente.
Se provisório? talvez.
A lógica causou-lhe tumulto, da borda da pele à, na alma, raiz.

E ela, alegre, no início seguiu.
Tomou por proa a razão, já que o amor direção nunca lhe deu.
Tentando atender prioritariamente aos seus justos interesses, partiu.
Porém, a roda grande que gira, novas distorções concedeu.

São impedidos de servir – diz do credo a norma –
Aqueles que, encarregados de zelar pelo cumprimento dos anseios,
Erram a mão nas medidas – isoladamente ou de cumulativa forma.
Sem fundamentos – indicados pela lei (da sutil lógica) vigente -,
À nossa jovem impõe desarrazoados freios.

Procurou o eudemonismo – ingênua e intensa, na busca por felicidade.
Conheceu o egoismo e, no amor, a maldade.
Quis uma união contínua, pública e duradoura.
Recebeu solidários ou espiritualizados pêsames,
Pela mágoa vindoura.

E assim se escondeu
Dentro dos seus próprios abismos, incrédula, calada.
Ansiando pelos beijos que nunca recebeu,
Rogando pelo afeto, que só houve em palavra.

Mudou-se do domicílio dos pais ou responsável
Frustrou-se, domiciliando com seus capatazes:
A dor, que lhe traz solidão; a angústia, que lhe retira a razão;
E a falta de amor, essa que não tem perdão.

Propôs a ele um destino feliz, de austeridade.
Ele, com ela negligenciou, faltou com a verdade.
Ela, que só buscava alento, razão que dá paz,
Quedou-se no rumo de volta, para a casa dos pais.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 12/09/2018).


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AQUESTOS FINAIS

Por: Diogo Verri Garcia

AQUESTOS FINAIS

Oremos
Para que nenhum mal adicional nos apareça;
Para que o improvável venha a nós com sutileza;
Para que, por felicidade, a vida se restabeleça.

Peçamos
Um pouco mais, face ao tanto que a rotina já nos dera;
Um ar mais leve, feito o começo de nossa paquera;
Um beijo de paz, sem dissabor – não um tapa de guerra.

Arrumemos
Um jarro novo, para o lugar do que quebrou por ser lançado;
Taças (em jogo), espatifadas no bar ao lado;
Um meio termo entre o indolente e o esforçado.

Dividimos
Os bons momentos, os juramentos, um pouco de tudo;
O bem maior, muitos prazeres, o nosso mundo;
Promessas feitas, que se perderam em segundos.

Repartiremos
Alguns retratos, outros farrapos, nossos caminhos;
Simples adornos, um só cachorro, o melhor vinho;
A sensação estranha e o prazer feliz de estar sozinho.

Talvez tenhamos:
Daqui a um tempo, versões mais nobres das nossas verdades;
Algumas lembranças das nossas danças, da nossa amizade;
Ao esbarramos, a impressão de que o passado traz saudade.

Merecemos,
Tuas palavras, que foram duras – tais quais as minhas;
O que passou, desde o amor às nossas rinhas,
Dos dias de sóis ao mar escuro que ao fim se tinha;
O que roubou o prazer, fez desgostar de você,
Também me fez merecer.

Além do mais,
Só oremos…

(Diogo Verri Garcia, Rio, 22/08/2018)


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