A última que desaba

Por: Mona Vilardo

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Em 10 de novembro de 2018, às 17h28, um pai não vai mais voltar para casa levando o pão do lanche da tarde.

Simultaneamente, a avó que costumava se preparar para rezar o terço, não irá rezá-lo quando o relógio bater às 18h.

Um pouco mais tarde, às 19h35, com o dia se tornando noite, a adolescente não vai se preparar para a festa que ia com as amigas da escola. Escola essa que ela também não irá mais frequentar.

No mesmo momento, onde ficava a pizzaria, dois amigos não celebram nada. Vai faltar um amigo nos lanches com pizza aos sábados!

Enquanto isso, num ponto de ônibus próximo, um jovem rapaz retorna de um passeio e não entende nada do que está acontecendo.

No dia seguinte, 11 de novembro de 2018, às 14h34, a estudante que não tem notícias da tia escuta Legião no celular: “Mas é claro que o Sol vai voltar amanhã, mais uma vez, eu sei! ”

Uma semana depois, às 6h da manhã, nem um minuto a mais ou a menos, o homem do gás não vai passar para vender seu ganha pão. Na lembrança de todos, fica o bom humor daquele garoto trabalhador.

Em dezembro de 2018, próximo ao Natal, um bebê de 11 meses não irá completar seu primeiro ano.

Nove meses na frente, a grávida não terá sua filha, ainda sem nome, no colo.

1 ano depois, no dia 10 de novembro de 2019, às 20h25, a jovem citada acima por ter faltado a festa também não vai comemorar seus 15 anos. Ela se foi aos 14.

Niterói. Morro da Boa Esperança. Uma semana atrás. Madrugada de 10 de novembro de 2018.  No momento da tragédia, não deslizaram apenas areias e casas. Tudo que desliza de uma certa forma desaba. Naquela madrugada, desabaram histórias e combinados. Desabaram famílias e sonhos. Desabaram Nicole, Arthur, Dalvina e Marta.

A última a desabar se chama ESPERANÇA, e curiosamente é o nome do lugar onde tudo desabou. Que esta permaneça firme, na certeza de que só o tempo cura tanto desabar.

4 comentários em “A última que desaba

  1. “Se todos fossem iguais a você.”
    Se todos ,ou alguns pelo menos,tivessem essa sensibilidade e esse perceber dos acontecimentos que você tem.
    Se nossos governantes descessem um degrau de sua arrogância e ,se ,amassem mais o povo que os colocaram lá.
    Quanto dessas tragédias poderiam ter sido evitadas mas infelizmente só permanecemos no”Se”.Parabéns pelo lindo texto.

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