Facultas
Por: Mona Vilardo
Hoje, bem mais perto dos 40 do que dos 30 anos, posso dizer que meu estado social é facultativo (como se fosse estado civil, entende?). Se tivesse que preencher algum documento que pedisse tal informação, eu colocaria isso.
Totalmente o contrário de quando era bem jovem, época que procurava estar em todos os lugares ao mesmo tempo e que não tinha muito isso de escolher ou não. Queria me fazer presente. Posso dizer que hoje, meu estado social é muito mais facultativo. Escolho bem mais se quero ir ou não, sem me obrigar a ir. E claro, em se tratando de Rio de Janeiro, a violência e o descaso que cidade se encontra, me impõe que muitas vezes devo realmente escolher não ir.
Faculta vem do latim facultas: Subst. Feminino. Capacidade; permissão; poder; dar a alguém a possibilidade.
Até agora estou falando de coisas “banais”: Festinhas, programas sociais e escolhas que dizem respeito apenas a mim, não colocando em risco a vida de ninguém, muito menos a vida de uma família e, digo mais, de uma sociedade.
Em se tratando de Brasil, em se tratando de Estado ou Cidade, NADA deveria ser facultativo. E essa palavrinha parece estar na moda. Bastou chover demais, tudo vira facultativo. As aulas, que viram facultativas para os alunos apenas (surreal também), é o que há de menos assustador nesse “virar facultativo”.
Na minha cabeça, não é facultativo não conseguir chegar em casa porque o Rio Maracanã transbordou. Não é facultativo alguém precisar dormir no emprego, pois a Rua Jardim Botânico está em estado crítico, onde motoristas sobem em seus carros tentando achar um lugar mais “seguro”, durante um temporal que devasta a cidade do Rio de Janeiro.
Não é e nunca foi facultativo uma ciclovia cair a cada temporal ou ressaca.
Sem nos darmos conta, o caos vai virando obrigatório e não facultativo.
Enquanto isso, o prefeito do Rio de Janeiro, que deve viver em estado facultativo/vegetativo, diz que está tudo sob controle. É facultativo ou obrigatório querer que ele saia desse cargo?
Brasil, meu Brasil brasileiro….
Não é facultativo dar 80 tiros num carro com uma família dentro. De “escolha, permissão ou possibilidade de”… esse ato não tem nada. Ele é PROIBIDO!
Viver é facultativo, mesmo o suicídio sendo um tabu a ser discutido, qualquer um tem o direito de tirar a vida. Mas a vida não é facultativa para os dirigentes de uma nação. Ninguém tem permissão de tirar.
O voto é obrigatório, mas governar me parece, assombrosamente, facultativo.
Para a população nada resta, nem escolhas.
Créditos da imagem: Evandro Teixeira
👏 👏 👏 👏Excelente crônica real da nossa sociedade e do Rio de Janeiro!
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