O tempo pára

Por: Mona Vilardo

foto 2017 (2)

O tempo pára

Hoje terei que discordar do Cazuza, mesmo sendo seu aniversário.
Cazuza, preciso dizer que o tempo pára. E, estranhamente, parou no mundo todo, para todos nós. Mas, olha que curioso, no tempo que parou eu escutei o canto dos pássaros na minha rua, que sempre está cheia de carros e onde esse canto não tem vez. Que canto bonito tem o pássaro que voa por essas bandas de cá.
Com o tempo congelado, pude também ver que a vizinha da minha frente é uma senhora bem senhorinha mesmo, que todos os dias às 15h senta na poltrona de vime da sua varanda e olha pra frente, como se estivesse assistindo o filme da sua própria vida passar. Aliás, filme é o que mais se compartilha nesses dias de tempo parado. Nem sei se vou dar conta de assistir todos, porque o melhor seria se o tempo estivesse como antes, andando.
Será?
Bem, voltamos às coisas que tenho visto durante esse tempo estacionado.
Nesse tempo suspenso, pude perceber que o vizinho do outro prédio a minha frente é o cara que sempre tá no ponto de ônibus toda terça feira, quando eu também pego ônibus nesse mesmo ponto. Quer dizer, pegava, né? Com o tempo parado tudo é tão incerto, e os ônibus também pararam. Cazuza, você estava completamente enganado em afirmar que o tempo não pára. Ainda bem que você não tá mais aqui pra rebater minha afirmação. Eu, discordando de você? Desculpa aí!
Está bem, devo concordar que ando preocupada se agora é “Matar ou morrer”. É cada coisa que a gente pára pra pensar com o tempo imobilizado.
Desculpa, também discordo que “Dias sim, dias não, eu vou sobrevivendo sem um arranhão”, se você estivesse aqui não escreveria isso. Depois desse tempo estático, mais que isso, sem certeza nenhuma do amanhã, vai ser difícil ninguém sair sem nenhum arranhão, até mesmo os mais lúdicos e loucos. Eu juro que nessas horas “é melhor não ser um normal’ – manda beijo pro maluco beleza aí em cima, e avisa que tá puxado por aqui.
Ok, Agenor (olha, tô te chamando pelo nome de batismo), você venceu a batalha. Sua genialidade é muito maior do que a minha. Realmente é triste pensar que nesse tempo não vai ter beijo de namorada.
Antes de terminar, lembrei de uma coisa que você também tem razão: Eu não tô derrotada, saiba que ainda estão rolando os dados. E a caridade nunca se fez tão necessária.

4 de abril de 2020, aniversário do Cazuza, que é sempre tão passado e tão atual.

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