Carta à morte (Helena Lahis, autora convidada)

Por: Helena Lahis (autora convidada)

Hoje trazemos o texto inédito da talentosa escritora Helena Lahis (@helenalahis), sócia-fundadora da Editora Lago de Histórias e da Casa Cultural Lago de Histórias (@lago_de_historias). É também autora de diversos livros premiados nacional e internacionalmente, dentre eles, Olga, Mais felizes do que sempre, Bia Sem Pressa, Os medos da Bel, Soldado, Grande ou Pequena?, Vicky, A moça artista do topo do morro e Contos de encantar o céu.

Ela nos traz uma incrível reflexão, em uma carta enviada a ela: a Morte! Em uma conversa direta e muito sincera. É uma prévia de seu próximo livro, exclusivamente para o Literarte.

Confiram a seguir: Hoje, sábado, 20/06/2020, também no @literarteweb, além de aqui, no https://literarte.art/. Após o texto, curtam também o vídeo de apresentação, feito pela autora para o nosso canal.

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Carta à morte

Quando você me encontrar, por favor, um pouco de delicadeza. Se eu tiver com algo a concluir, uma história, um beijo, uma garrafa de vinho ou uma noite de amor, senta um pouquinho, faz uma hora, não se apresse da minha demora.

Quando resolver que meu tempo acabou, eu te peço, tenha cuidado. Não me machuque, eu sempre fui amorosa. Além disso, faça um favor, ponha-se em meu lugar, sinta a minha dor.

Quando entender que preciso ir, morte, não chegue bruta, não chute a porta, não pise na grama, não ponha a mão no meu cabelo. Eu não gosto.

Quando acordar me querendo, queira com vontade. Não costumo ceder a galanteios frívolos e passageiros, de seduções rasas e diluídas.

Quando quiser mesmo escrever meu fim, escolha palavras bonitas. Abuse dos versos, recite baixinho no meu ouvido. Tenho queda por sussurros rimados.

Quando preparar meu enterro, saiba, não gosto de flores arrancadas. Prepare um jardim bem vivo, escolha o mais colorido, se possível perfumado. Tenho os sentidos bem apurados. Ah, por favor, me poupe de drama e choradeira. Prefiro lágrimas sentidas, pouco molhadas, discretas, contidas. Daquelas que derramam no silêncio da sala vazia quando a plateia já deixou o teatro.

Quando resolver beber do meu sangue, saiba, vou logo avisando, meu recheio é calórico. Nunca fiz dieta de vida, contenção de atitude, nem pensei duas vezes. Mergulho o pescoço e depois afundo a cabeça. Não ponho pezinho na água, nem arregaço a calça pra viver até o joelho.

Minha intensidade corre nas veias. Tem que ter a casca grossa pra não me transbordar.

Tenha a santa paciência e me espere ajeitar o cabelo, pintar as unhas, passar meu batom preferido, me ver bonita no espelho. Sou vaidosa e gosto de me aprontar. Seja um café da manhã, festa, encontro, trabalho, viagem, fim de tarde no terraço ou despedida de solteiro, costumo me arrumar com elegância. Aprendi que essas importâncias mostram cuidado com quem divide o momento comigo.

Por último, e sempre muito importante, não ponha a mão em mim. Já disse que sou rebelde, não grosseira. Escolho meus toques. Gosto de contato, calor, enrosco. Olho no olho, mãos dadas, abraço de fora a dentro. Mas já disse e repito: eu escolho quem brinca comigo. Mantenha a devida distância, aquela da sua própria segurança. Não pretendo dar vexame, mas posso começar um terremoto com direito a tsunami, se você avançar a linha e não respeitar a minha faixa de insegurança.

De resto, fique à vontade, sinta-se em casa, aceite um chá de pêssego. Vá assistindo, aí do seu camarote, os sonhos largos que de mim deságuam e fertilizam. Multiplicam e me espalham.

Saiba, vou te dar trabalho.

Sinto muito, é a vida.


Créditos da imagem: acervo pessoal da autora

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