Carta- Reflexões de um ano que dá aceno em despedida e passo o bastão da esperança para outro que quer dar partida

Por: Bianca Latini

Carta- Reflexões de um ano que dá aceno em despedida e passo o bastão da esperança para outro que quer dar partida

Está terminando 2020..

Este ano teve confinamento
E máscara no rosto virou obrigatório
Os olhos ganharam destaque
Estar dentro e não fora tornou-se a bola da vez
Assim, também, fez-se imperioso, lidar, ininterruptamente, com o nosso quadrado dentro de casa, com o marido, a esposa, os filhos, com nossos coabitantes
Foi salutar virar mutante
E perceber o que não mais servia
O que, no pouco, não cabia
O que era imprescindível, essencial, raiz, espinha dorsal
Teve medo do inimigo invisível
Da contaminação em massa
Teve esclarecimento, desesclarecimento, notícia na contramão
Teve Presidente fazendo pouco caso da saúde pública e menos valia da devastadora Pandemia
Teve gente que acoplou as normas de higiene para a vida
E outras fecharam os olhos e os ouvidos pra prescrição e pro coletivo
Olharam só para o próprio umbigo!
Mas teve, também, quem resolveu fazer reflexão, introspecção, saudação ao Ser que se tinha esquecido existir
Teve gente que percebeu que não precisava mais ficar aqui, em prédios cerceados, e resolveu mudar, de vez, para serra, fazenda, ou tentou achar um terreno baldio com ar puro e liberdade
Teve gente que sentiu muita saudade
e fez doer o peito pela distância dos amigos, da família, dos queridos…
Embriagou-se em nostalgia
Teve uma debandada estrondosa de gente que foi e não volta mais…
Teve esforço descomunal de profissionais
Corrida sem precedentes em busca da vacina
Avanço da ciência, da medicina
Teve gente que arriscou a própria vida em prol do outro, honrando seu ofício, seus ideais
Teve muita gente que se deu a mão
Outras as soltaram de vez
O caos assolou o mundo inteiro e não só cidadão chinês
O globo terrestre meio que se equiparou
E, por alguns meses, um quinhão de cidades parou de rotacionar
A natureza agredida ganhou trégua
Começou a nascer vida onde jazia somente ferida,
Destruição, poluição, degradação
Educação foi parar nas mãos de sua fonte primária: pai e mãe
E não mais na sobrecarregada escola
Ao contrário do que muitos pensam, educar é tarefa, primordialmente, para dentro de casa e, depois, para fora dela
Teve gente se lamuriando, contando suas mazelas
O home schooling, ensino à distância, EAD e aulas na tela
Fizeram surtar os adultos que antes entregavam seus filhos, pela manhã, aos docentes, dirigentes de escola, pedagogos, tios do futebol, natação, inglês, desenho, ballet… E só à noite retomavam o contato com a molecada
Sentiram-se num jogo de xadrez
Verdadeiros malabaristas
Tendo que equilibrar os pratos da vez
Mas, afinal, será que não seria hora de repensar essa inversão de papéis?
Colocar, nos dedos certos, os anéis?
É um caso a se pensar…
Que paire a pergunta no ar…

Ahhhhh…teve muito divórcio, muita separação
Estranhos que passaram a se conhecer e não gostaram do que viram
Outros que, ainda mais, se uniram
E juntos realizaram projetos incubados
No início, muitos não sabiam como e o que fazer com o tempo
A cabeça surtou
O eixo saiu do lugar
Pais não sabiam como colocar criança para brincar
O tic tac do relógio começou a incomodar
Mas as horas não continuaram a ser as mesmas?
Os minutos, os segundos, desaceleraram?
Ou foram os humanos que, absortos com a novidade, ficaram surpresos com os ponteiros?
Aniversários passaram a ter mais gente, afinal, no zoom, dá para convidar até quem está em outro hemisfério
Era só marcar o horário, enviar o link, acessar do celular ou computador. Nenhum mistério!
O bolo passou a ser egoísta e impossível de ser compartilhado com os convidados
A maioria das festas passaram a ser filmadas, fazendo um remake dos anos 80, versão digital
Este ano foi o ano das lives! Acho que agora ninguém as aguenta mais! Rsrs
Para muitos, trem, ônibus e metrô foram trocados pela passagem, via login no computadô
Filas e engarrafamentos, só de pratos, copos e talheres na pia
Aliás, esse foi um local da casa muito povoado!
Ninguém sabia que louça era tipo alien e se multiplicava!
E por falar em louça, limpeza…
Teve muita lavagem de roupa suja
Em casa e no cenário mundial
Na sociedade, nos Estados, na política
Unicidade foi pro buraco
Cada um por si e Deus por todos
Salve-se quem puder!
Mas os pilotos não sumiram
Eles continuam aqui

Já é fim de ano e um tantão de coisas inimagináveis aconteceram!
Fomos colocados de cabeça para baixo
Mas, acredito eu, que para virarmos de cabeça para cima de uma outra maneira
Com outro enfoque
Com lentes novas, trocadas, renovadas
Nos foi permitido silenciar um pouco para falarmos a língua que realmente importa
O que cada um fez com isso é problema seu
Sinto muitíssimo pelos que silenciaram para sempre e, a eles, rendo minhas homenagens e respeito
Agora, nós, que estamos vivos, que honremos nossa condição e saibamos extrair o pólen mais sadio, o perfume mais abissal e tirar de toda essa história de 2020
O que é crucial
Arregaçemos nossas mangas e façamos valer nossa existência
Exportemos de nossas singularidades a essência transformadora
Cuidemos do planeta com magneficência
Entendamos que, polarizados, apartados, fragmentados …não vamos a lugar nenhum
Somos um todo, somos partículas divinas, somos o universo inteiro
Não hemos de nos contentar com o derradeiro!
Ainda que com máscaras nos rostos,
Vamos sorrir com os olhos e
Respirar na comunidade, na irmandade, no respeito, na consciência, na Humanidade.

Que viremos essa página de 2020, mas não esqueçamos dela!
Como boa e velha Poliana que sou, só posso desejar que venha um 2021 com muita luz, transformação, união, resgate, combinatividade, visão holística, sistêmica, transversal, multidisciplinar e com novas possibilidades criadas por nós, habitantes desse planeta!!!
E, ainda, que além de nos perguntarmos que mundo queremos deixar para os nossos filhos, indaguemos: que filhos queremos deixar para o nosso mundo?

Feliz Natal e boas festas a todos vocês, que quase não vi este ano, mas que moram em meu coração e povoam meus melhores pensamentos!
Grande bjo,
Bia

(Bianca Latini, Rio de Janeiro, 19/12/2020)


Créditos da imagem: Pixabay

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