Casa Grande e Senzala

Por: Valéria Shirá

Casa Grande e Senzala

Um lugar reconhecido
Uma versão não contada
Encoberto e escondido
Repetição e Esquecimento

Vagueia um espectro pela superfície

Ausências
Impossíveis são as
Terras interiores ….

O suor percorre
meu coração
Sua expansão e penetração flagram quartos escuros,..
Com braceletes, algemas fincados no chão…

Prisões não visitadas
De histórias não contadas
Em sorrateira coerção…

Cárcere devassado
A escrava revelada…
Estreita é a ferida
Contenção reconhecida
Onde foi perdida a Decisão

O início do resgate
Espanto, torpor
Estranheza
Sistema imune em rodopios
Onde está o corpo para além da prisão?
Em tempos esquecidos
Entre entranhas passadas

Uma revelação sagrada
Um ponto no espaço tempo
Penetro nesse ponto
O reencontro
Perplexa…
Em fluxo
Em silenciosa escuridão

A Dança da noite
Explode
Rompe pelos poros
Nos olhos que se abrem
O Grito do silêncio!

Por: Valéria Shirá


Créditos da imagem: Freepik

DESINSPIRADO

Por: Diogo Verri Garcia

DESINSPIRADO

Sigo sem inspiração
A ponto que a palavra não garante
Nem bom som, nem confortável situação,
Para que se siga adiante.

Nesse intendo de fazer poesia,
Vejo que não é todo dia que frases e versos vêm.
Têm humor próprio, daqueles que fazem pinima,
Versos querem seu tempo, sua boa rima.
Não obedecem a ninguém.

Pensei em escrever coisas fáceis,
Mas elas deixam o que faço sem brilho, pouco sincero.
Escrevo e escrevo,
e os rascunhos são cada qual tão menos afáveis.
Faço dúzias de pausas, suscito dúvidas, espero.

Retomo o poema, e não basta.
Hoje ele não quer, porque não quer,
Ao menos por mim, ser escrito.
Deixo as causas, mudo os temas,
as dubiedades, as pausas.
Finalmente, contrariado, assinto.

(Diogo Verri Garcia, 31/01/2019)


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PLAYAS DEL SOL

Por: Diogo Verri Garcia

PLAYAS DEL SOL

Águas sem fim,
Sotaques ouvidos,
Primavera que poderia ser quente.
Se, em outrora, fostes menos aguerrido,
Este solo, serias parte de imenso Brasil.
Nesta terra bela, de vento rastejante e exibido,
As leves tardes – têm esquinas de quatro mares –, aqui, são diferentes.

Taças constantes sendo postas à mesa,
Que se enchem e se esvaem feito a maré ali no mar.
Sol, que se faz como eterno farol aceso,
E o farol, que põe as tardes a descansar.

Erguem-se as mãos afogadas na areia,
De maré a marear, em playas bravas e mansas.
Tem cheiro de azeite, de vinhedo verde e de flor,
Tem igreja e a Santa Candelária pondo o mar em andor.
Tem peixe a assar
Sem pescador em labor, que descansa…
Há algum gosto a mais de Marselan e de Tannat, e efeito de bom terroir.

O sol se põe, em cerimônia ao seu culto,
Expõe a branca casa à negridão da natureza.
Para que no breu da noite se reúnam os adultos,
Entre pianos e salões,
Brindem ao autor,
Aproveitem a escureza.

A noite roda, ludibriada em lua – não chove –, sob moderadas estrelas.
Resisto a apostas, pois tenho noutra a minha sorte.
E no jogo que aqui jogam, ninguém sabe jogar:
só se perde, não se ganha; a derrota é em litisconsorte.

Taças a mais, por favor.
Passantes, luzes, casa cheia.
É a madrugada que passa feito maré,
Que hora é alta, que hora mal toca a areia.

O tempo é rápido: amanhã me encaminho.
O curso do Rio se faz pelo céu.
Aqui, que me encontro tão longe de casa,
Jardim tranquilo de águas mansas e rasas;
Aqui, que estou a alguns passos de Montevidéu.

Cartas! Cartas? Não, somente taças, por favor.
Mas é tarde, hora de parar…
Concluo: tanto aqui, tanto acolá,
É perto do mar que se quer estar.

(Diogo Verri Garcia), Punta del Este, 26 de setembro de 2018.


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OS AZEVINHOS

Por: Diogo Verri Garcia

OS AZEVINHOS

Há vezes que a solidão é o melhor adivinho,
Sem importar o que nos importa no mundo.
Deixar esvair a mente, que vá.
É fricção do perigo que corre o gosto
De não esvaecer a tensão de deixar-nos
No tumulto que nos entorna a rodar.
A pausa não é sem graça, nem morna,
É azevinho
das folhas verdes, onduladas e espinhosas.
Alongadas e com flores, de bagas vermelhas;
Iniciantes singelas e que põem copiosas,
Pois que brilhantes e longevas,
tal como o longe chegamos ao permitirmo-nos parar.
Lembrando só de quem queremos
Pelo bem – e ponha o resto a andar.
Dedicando um silêncio que só é cortado
pelo som das folhas passadas,
Da caneta posta à mesa,
Das teclas já datilografadas,
Do verso que interrompe a rotina
(que, extenuada, cobrou-me um tempo,
o qual, merecidamente, aquiesço,
tamanha a sorte que só agora me atina).
É no solitário refinamento que
vejo o quanto é veneno
Nunca ser o próprio destinatário.
Saber que até o vento
Segue hora e itinerário.
Mas para: não sopra a todo acontecimento.
Seguir solitário? Não, a ser perene não quero,
Pois não sobrevivo se for.
Mas aquiesço, se me for proposto
E corroboro a mim mesmo propor.
Mas que seja assim mesmo…
Só neste momento.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 08/09/2019)


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ENQUANTO HOUVER MAR

Por: Diogo Verri Garcia

ENQUANTO HOUVER MAR

Deve seguir a navegar,
Enquanto houver mar.
Falou-me, ao vento, o pescador antes de ir.
Zarpou no pesqueiro, recolhendo cordas
Para se soltar.
Foi tudo o que contou, antes de no mar quase se afogar.
Ou porque perdeu coragem,
Ou porque pecou por sorrir.

Soube por outrem que as ondas eram maiores que o barco
Mas de naufrágio não tinha medo o tal pescador,
Recolheu e içou velas, desacelerou
e acelerou no mar salgado
Que de tanto sal, salgava as gentes e os fardos
Sem ter abrigo ao cansaço,
vislumbrando-se desassossegado,
Mas não questionou: subiu mais ainda o clamor.

Quando o mar acalmou,
pretendeu de imediato que houvesse algo mais.
Mas nada mais havia.
Na úmida aflição entre peixes
Percebeu que ao deixar o cais,
era descontente, para quem a tudo tinha.
Mas tendo apegos por sonhos, isso ocupava sua paz.
Era a forma como vivo se fez ou ainda se faz,
Tem-se o modo como a vivacidade o mantinha.

Não entendeu por que na imensidão sem gente
O mar não lhe mostrou apreço,
Só lhe debruçou nem sob, do céu, gotas;
só do mar, amargas correntes.
Em que pese disposto a qualquer tempo ou vento,
Não contava mais,
Pois, como antes, o mar
Não mais lhe era, como já foi, fiel.

Soçobrou ao acreditar remando dentre torrentes,
Ao superar tempestades chegadas
Em um anuviar de repente,
E, mesmo assim, não ver nem terra, só mar;
Sem porto claro, nem céu.
Se era sol brilhoso, que queimava, se queixava.
E por lá também lamentou o dia nuvioso.
Tomou-lhe algo em alma entrelaçado, como em um opaco cordel.

Mas não se deve desistir de navegar
Enquanto houver mar.
E por haver mar,
Ao aportar, percebeu-se melhor do que ao partir.
Chegou sem peixe,
Mas quedou-se a retornar
Do infiel do mar,
Que dor causou,
Mas consertando o que levou,
Entregou-lhe tudo,
para outra vez repetir.

(Diogo Verri Garcia, 18/09/2019)


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POEMAS ÀS MULTIDÕES

Por: Diogo Verri Garcia

POEMA ÀS MULTIDÕES

Atenção com as ruas ocupadas demais.
Elas trazem em demasia gente, para ti sem importância,
Uma sensação sem elegância que pouco te apraz.
Tantos que passam por ti,
Que te cruzam o caminho sem você se importar.
Não percebes quantos no rosto trazem algo a sorrir,
Ou mesmo quando têm a chorar.

Cuidado com essas ruas,
e com toda essa gente que por ti passa,
pois algo há de arrogância.
Talvez haja o mesmo com quem tu seletas,
Mas que pouco te adornam em relevância.

Por certo, de forma segura, alguma vez me juras
que não notas em quem passa
alguma outorga que a vida traz?
Quem por ti passa, talvez mais não volte,
não mais,
porque tem o mundo alternância.
Percebas que respondes pelo mal que faz,
ou pelo bem que deixas e que jaz, ali, sem importância.

E com toda essa gente que pouco te importa,
ensinas aos teus, que a elas já não conseguem nem ver.
Hoje, nada relevas por elas;
Amanhã, quem sabe
Quanto do tempo quererás reescrever.

Não te notas que quem passa em teu caminho é um caminhante sozinho
que, talvez, também contigo queira se importar?
E não te importas que, por esse desalinho, o mundo piorará mesquinho,
de tantos sozinhos, que não ligam com quem lhes irá passar?

Até corrigiria o poema,
Para que fossem acertados o bastante
e até consoantes
os pronomes que se misturam entre você e ti
em uma singela anedota.
Mas não mexo; deixo tudo como está,
deixe a palavra errar.
Até porque nada disso te importa.

(Diogo Verri Garcia, fev. 2019)


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SOBRE POETAS E BALASTROS

Por: Diogo Verri Garcia

SOBRE POETAS E BALASTROS

A hora passa.
Pouco fiz nesse último quarto de hora,
Na última meia hora,
No último dia.
Que rapidamente se assenta.
Mas antes de parar, ele dispara.
É veloz, feito projétil que vara
E desorienta.

As poucas palavras que, hoje,
nem no papel contive,
São fruto das questões,
das ponderações sobre o que se vive
Quanto ao que Deus tencionou guardar.
O que será que houve? O que será que há?

Percebido sobre esse questionado dia
que, entre produções no papel,
até teve algum proveito,
Percebo que as mãos não mais amansam,
mas dá-se um jeito.
Noto que o poeta não sabe do que é merecedor,
Se a vida é ardor,
Se a vida é triste.
Mas, tanto faz, resiliente quem escreve se faz,
De tanto dissabor que registra e, registrando, assiste.

Sobre as palavras mal-feitas,
Os papéis que não foram amassados,
posto que os apago em tela.
Hoje, formam parágrafos que nenhuma bancada sequer os aceita,
Tomam conclusão que o eclesiástico rejeita,
Criam questões sobre os desígnios de Deus,
Que até ateus poderão falar:
O que há com a fé, o que há?

Mas creio que a poesia trata até do que não se sente,
A ponto que, quando se sofre a dor, tornou-se já resiliente.
A certo passo de não saber ao certo,
O que há com o credo de desimportar.
O que há, poeta? O que há?

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 30/07/2019)


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A FORMA DE A VIDA PASSAR

Por: Diogo Verri Garcia

A FORMA DE A VIDA PASSAR

Sinto-me inexato
Sobre como corre a vida.
É assim que estou
vendo o rosto que busca, já em cansaço.
É tal como percebi a cada passada, um descompasso.
Ainda que me veja, na vida, acolhido,
Talvez não mais sinto, pois que faça-me o ferido
Na proposição de não querer ser
displicente ou sem graça
frente ao que ela colhe: face à vida,
passo entretido.

Sigo,
Porém sem pensar que seja la algo triste ou
a se evitar.
Não digo que ela é um bem, em que algum mal haverá.
Apenas proponho que ela propõe armadilhas sem dó.
Feito uma moça que é linda,
mas que se torna apenas bonita
quando nos deixa só.

E assim como elas, as moças,
a vida instiga-nos em tê-la,
Pondo jovens amores
e velhos senhores a entretê-las
Crendo ser fácil que tudo pautará felicidade,
E esconde o desastroso perceber
da menor dor, da menor tristeza
E da inevitável saudade,
na morte pelo amor,
ou pela idade.

Nem que me faça o todo sempre contente,
Tenho sempre no mais profundo de minha mente
que a vida insiste em girar.
E gira de modo que, feito roda
Não há ponto plano: tampouco aqui, nem acolá.
Entenda-a e só assim seguirás resiliente;
Não é boa nem má,
É ela, quanto a nós, indiferente,
Sem ter o nó da euforia, nem o pesar.
É a forma de a vida passar.

Então
Quando o inexato fizer seu trato a incutir
alguma sombra de pavor: não tema a vida;
quanto ao rancor, deixe esvair.
Ainda que o momento não exista propício,
Um algo bom haverá,
e igualmente assim, nos deixará,
Feito o medroso de altura,
No altaneiro edifício.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 23 de julho de 2019).


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O NECESSÁRIO VOLTAR

Por: Diogo Verri Garcia

O NECESSÁRIO VOLTAR

Necessário voltar
para aquele lugar
em que a alma nos alegra.
Onde é fácil dormir e acordar.
Lá, que tão bem se quer estar.
Ter uma alma de poeta.

Necessário voltar
para aquele lugar
Onde a saudade não nos mata.
E, certos de que a paz é leve,
É tão normal de lá sentimos falta.

Necessário voltar
para aquele lugar
em que a brisa é diferente.
Onde talvez não tenha mar,
Quer arda em muito o quente sol,
Quer faça falta os dias quentes.

Mas é necessário voltar
Para aquele lugar
Em que a beleza profunda, o quão palpável, nos é rasa.
Necessário voltar
para aquele lugar
Que dentre tantos outros nomes,
reconhecemos como casa.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 14/01/2020)


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ALMA MATER (O QUE NÃO ESCLARECE)

Por: Diogo Verri Garcia

ALMA MATER (O QUE NÃO ESCLARECE)

Alma encantada pela alma
Que de rubor lhe aparece.
Sem tal alma, não haveria nada.
Nem sombra na luz, nem alvorecer que espairece.
Carrega a minh’alma pesada,
desafinada, em um desarranjo a cumprir.
Uma alma engarrafada,
Já tão desafiada por ti.
Mas o que faz uma alma prezada,
Que não se desarma, em um notável aprender?
Que se mostra engulipada, por caminhar cansada,
Por querer proceder?
Alma que nota a sua sorte,
Quase galopante de tão forte que vai
em direção à alma que sorri, e se estarrece
Ao ver a noite enciumada,
Após a tarde ensolarada
lamentar que o dia esmorece.

(Diogo Verri Garcia, Rio 09/07/2019)


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