Super-heróis das rotinas

Por: Priscila Menino

Super-heróis das rotinas

Quem é que nunca perdeu o controle, ao ponto de sentir a iminência de uma explosão interna?
Quando pequena, eu sentia uma pequena inveja e admiração do Incrível Hulk, imagina só que maravilha ganhar força sobre-humana quando estivesse com raiva, ficar com uma tonalidade atípica de um brócolis maduro e deixar evidente para quem está próximo que aquele não é um momento propício para se manter por perto.
Nesses momentos de perda de controle, eu só queria mesmo ter um superpoder de correr o mais rápido possível, ao ponto de ultrapassar o Flash e me refugiar em uma ilha secreta da Marvel, onde ninguém pudesse me importunar e nem me encher de mais preocupações, eu deitaria ali, tomaria um agradável sol solitário, observando os pássaros, manteria a frequência da respiração e, evidentemente, eu usaria meus músculos bem definidos para abrir uma água de coco e me deliciar com a paz do barulho das ondas.
Acontece que a gente tem que voltar para a realidade, onde a raiva, a perda de controle, as preocupações, as dores e os dissabores não fogem e não há um alerta amarelo de estafa que informe que há um colapso psicológico próximo de acontecer (desculpe Hulk, mas verde não integra minha melhor paleta de cores).
Então me deito em minha cama, afofo meus travesseiros, beijo o rosto de minha filha já entregue a um inocente sono, seguro as mãos do meu super esposo, pego aquele livro que irei finalizar a leitura hoje e vejo que sobrevivi a mais um dia, a mais uma semana e a uma vida inteira tipicamente humana, com meus rebolados diários e a força de uma mulher maravilha que habita em mim.
Ah, percebo então que não tenho olhares biônicos; não tenho músculos definidos como uma pedra; não corro mais do que 10 km/h; mas tenho minha escrita para levar esperança e eternizar meus pensamentos; tenho meu sorriso para ser gentil com quem eu encontrar no meu caminho e ser uma kriptonita contra energias negativas; tenho o carinho do meu parceiro de aventuras e tenho o abraço da minha filha para ser meu anel de poder.
Sou uma humana cheia de super-defeitos, mas, parando para pensar, talvez isso que me permite ser a mulher maravilha que ganha diariamente milhares de batalhas que o Hulk com aquela força toda, jamais conseguiria. Uma salva de palmas para todas os super-heróis e super-heroínas da vida real!

Por: Priscila Menino


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A TORRE DE LIVROS

Por: Diogo Verri Garcia

A TORRE DE LIVROS

Quando se guardam livros a mais,
Sem saber que, dentro deles, mais e quais palavras há,
Tornam-se questões pendentes.
Que cada vez que mais livros chegam,
tomam ainda menos ar,
São comichões, que há nas palavras a querer falar,
Mas que se calam,
Em folhas já resilientes.

Elas soçobram e embrutecem,
Comportadas como meras tintas,
tratadas como nada distintas e fechadas em breu.
Das folhas que amarelam e esfacelam-se.
Oxidam,
frente ao incauto que não doou nem leu.

Tanto quanto há algo mais a ser lido
Mal de guarda há…
Feito quando se guarda amores de mais de um colo,
Pretendendo ter a todas sorridentes.
Sente-se conteúdo, pelas palavras que sabe falar.
Mas pelas que estão paradas,
Nas estantes, a esperar,
Poderia ser continente.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 08/12/2019)


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Por: Raquel Alves Tobias

Hoje não quero rima.
Tenho olhos pesados demais para enxergar.
A soma de ontem com anteontem cria novas rugas no rosto.
Cílios improvisados seguem colados no espelho do banheiro.
Piscares lentos anseiam pelo colapso ininterrupto nas próximas oito horas.
Tolice! O relógio sempre desperta às duas horas, dando voltas e voltas em décimos repetitivos.
Quer ser visto, marcar ponto.
De hora em hora procura o nada.
E nada encontra.
A dormência no quinto dedo repete a pontuação.
Diz não.
Então as lentes repousam sobre o criado:
Amanhã há mais espaço como os demais.

Por: Raquel Alves Tobias


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Conexões Humanas – Corações sob peles

Por: Bia Latini

Conexões Humanas – Corações sob peles

O contato com as pessoas me move
A troca
A integração com elas
Gosto de saber suas histórias
Suas memórias
Seus remorsos
Suas alegrias
Suas vitórias
Seus dia a dias
Gosto de prestar atenção ao timbre de suas vozes
À cor dos seus sorrisos
À luminosidade dos seus olhos
E ao direcionamento deles
Às vezes intensos
Vivazes
Assustados
Tristes
Cabisbaixos
Às vezes perdidos

O tom e o ritmo
com os quais pronunciam suas palavras
em muitos momentos fazem-me tocar em frente
Repensar algum posicionamento
Ou encorajam-me
a ser mais dedicada
São vozes de gente
Viva
Carregada de emoções
Sentimentos
Pensamentos
Sensações
São corpos que envolvem almas
Peles que armazenam corações

Bia Latini


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Gratidão, gratitude, gratiluz

Por: Priscila Menino

Gratidão, gratitude, gratiluz

É engraçado como a gente aprende a se incomodar e banalizar conceitos que a gente nem mesmo sabe direito o significado real.
O mundo vive em um processo de transformação evidente. Seja pela pandemia, seja pelo interesse mais constante das pessoas em assuntos mais holísticos, é fato irrefutável que as gerações estão cada vez mais instigadas com a busca do conhecimento, a descoberta de novos conceitos e desconstrução daqueles dogmas e verdade absolutas que existem desde quando nos entendemos por gente.
Minimalismo, autoconhecimento, meditação, aromaterapia, thetahealing, busca pelo sagrado e vários outros conceitos geram um desconforto em quem insiste em ignorar que a tendência é que haja cada vez mais espaço para esses assuntos estarem em voga.
Eu posso afirmar que há alguns anos atrás eu satirizava a prática da meditação, hoje me ajuda como um refúgio do meu caos interno de pensamentos constantes.
A gente precisa aprender a nos abrirmos mais para as mudanças, estarmos aptos para entendermos todo o processo de evolução.
Mas precisamos também entender que quem não quiser viver isso, não há uma fórmula mágica para enfiar goela a baixo, é uma decisão pessoal e intransferível.
De forma particular e ínfima, posso afirmar o quão bem me faz me permitir buscar mais conexão com meus pensamentos internos, me entender na minha essência.
Quisera eu ter me permitido há anos atrás.
Mas, sabendo que tudo tem seu tempo e acontece da forma como deve ser, cabe a mim sentir a gratidão de poder ser livre para buscar o que é o meu sagrado e respeitar o momento de cada um.

Por: Priscila Menino


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OS PASSOS SEM PASSAGEM

Por: Diogo Verri Garcia

OS PASSOS SEM PASSAGEM

Quando os passos deixarem de fazer passagem,
Quando a trama for só miragem,
No que já houve opção.
Quando a vela atrás da porta não estiver acesa,
Quando a reza não for para afastar tristeza,
Mas for por gratidão.

Então acharás quem já não encontra,
Depois que tanto perdeste a conta,
De cada alguém que
Já passou por ti.
Mas que nunca marcou-te ao sentir presença
Passou normal, feito indiferença,
Nem por mal, nem a sorrir.

Então teus olhos vão fazer sentido,
Ouvirão o que vos contam os ouvidos,
Posto que não quiseram ver.
Bem de ti diante,
O que foi significante,
Mas que deixou perder.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 21 de dezembro de 2019)


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Por: Raquel Alves Tobias

A loucura certa no momento errado.
No momento errado, a loucura certa.
O momento certo na loucura errada.
Na loucura errada, o momento certo.
Regra de três
Regra de dois
Regra de vários
Um cálculo:
a vida imprecisa.
A ferida.
Haveria outra alternativa?

Por: Raquel Alves Tobias


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Ruptura

Por: Bia Latini

Ruptura

Hoje desejo fazer uma faxina geral
Varrer de mim, de minhas entranhas
Todo lixo acumulado
Todos os medos incorporados
Toda impotência acreditada
Toda menos-valia espelhada
Toda arrogância vestida
Toda dependência assumida
Sem saber que sou dona de mim e das minhas escolhas
Que não sou joguete na mão do acaso, das circunstâncias
Que, muitas vezes, vestida na pele de vítima, sou algoz
Esculpi-me como estátua inanimada
Que deve receber elogios, olhares e por vezes críticas, julgamentos
Me fiz refém e não contei com ajuda alguma para isso
Eu mesma fiz o trabalho de encarcerar-me e dar um monte de cópias das chaves para os primeiros que passassem
Hoje, desejo limpar esta cela, quebrar a escultura, transformar-me em pássaro que só vê o horizonte e infinitos ares para voo
Desejo integrar-me à natureza
A natureza de mim mesma
Que ainda não sei do que é feita
Mas, certamente, germinada pelo amor

(Por Bianca Latini, 10/4/19)


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E a sua vida, é boa?

Por: Priscila Menino

E a sua vida, é boa?

Eis que estou despretensiosamente imersa em meu ritual noturno para dormir, quando sou surpreendida com uma pergunta da minha filha de cinco anos: “mamãe, você acha que sua vida é boa?”.
Era mais provável cair um meteoro com um unicórnio colorido o guiando até minha casa, do que estar preparada para uma pergunta dessas inesperadas.
Quase que de imediato, respondi apenas: “sim, mamãe tem você comigo e isso me faz feliz e ser feliz me faz ter uma vida boa”.
Muito embora eu tenha respondido isso a ela naquele momento, aquela breve perguntinha não saia da minha cabeça, como um jingle ruim de uma propaganda que cola na cabeça e você se pega cantarolando inoportunamente.
Já pensou sobre a definição do que é ter uma vida boa e como este conceito pode mudar de formas drásticas ao longo da nossa vida?
Para minha filha, ter uma vida boa hoje pode ser apenas a simplicidade de não fazer o dever de casa e comer guloseimas até enjoar, assistindo algum youtuber gritando de maneira efusiva, mas, daqui uns anos, pode ser que ter uma vida boa seja, na contramão, manter hábitos alimentares saudáveis e uma vida social afinada, considerando que a adolescência é uma fase cruel e confusa (quase sempre).
Ha uns anos atrás, eu achava que uma vida boa era quase o oposto do que tenho hoje, eu quebrei todos os meus próprios paradigmas, eu aprendi a ver a vida de uma forma mais leve e mais tranquila, sem me apegar tanto ao que esperavam para mim como uma “vida boa de uma família tradicional brasileira”.
Se me falassem que eu já teria sobrevivido a um divórcio bem antes dos 30 anos, teria uma enooorme dificuldade em controlar e organizar meus horários, me dividindo entre ser mãe, ser profissional, estar com saúde mental em dia e com o CrossFit frequentado cinco vezes por semana, ainda roeria as unhas e usaria óculos de graus enormes, eu definitivamente acharia que minha vida seria o oposto de ser boa.
Mas, parando para pensar, eu realmente tenho uma vida boa sim, pois agora eu sei que ela será sempre boa, mesmo com os percalços que eu sei que vão surgir, afinal, aprender a lidar com a relatividade dessa definição de “vida boa” e permitir que isso seja sempre mutável é o que me dá base para acreditar nessa premissa.
E se minha filha me perguntar novamente, eu apenas direi: “filha, minha vida não é boa, ela é excelente e sempre será assim, enquanto eu confiar que tudo vai ficar bem, mesmo que tudo saia do controle em certos momentos”. (É evidente que ela não entenderá nada, mas lá na frente, ela há de concordar com a maluquinha da mãe dela, não tenho dúvidas disso).

Por: Priscila Menino


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A TARDE DA PRAÇA

Por: Diogo Verri Garcia

A TARDE A PRAÇA

Era a tarde na praça.
Em que correu alegre, caindo.
Feito lembrança que passa a galope afagando o brinquedo.
E se alistava a um período seleto,
sem medo,
em que havia graça em correr perseguindo.
Mas aos poucos, notará: quem nos segue é o tempo,
De gosto ainda duvidoso, do desconhecido tempero,
Sem esmero.

E na escorrida que fez,
lembrará para si e me trouxe lembrança.
Ao olhar aquela praça,
Deu saudade da infância,
Da ignorância que por acaso existia.
Era só ver felicidade quando a chuva caía.
E haver-se na sorte de ter um dia a ser lento.

Era tarde na praça.
Em que se apressou alegre, exibindo, esbarrando.
Sem saber que há sempre algo
Passando a galope,
E eu, com um misto folhas, entufadas em um só envelope,
Enquanto poderia estar ali, feito ela,
Rindo.

De mãos entre o paletó,
Eu a notava, e ela com a vida brincava.
Em um tempo – sempre o meu predileto –
Em que criança caía e nem sequer se importava.
Exceto a dor mal causada,
Na aflição que doía a alma, quando a bola batia e a unha subia.

Quando o tempo passou,
Em meio a verões que de tão quentes embaçam,
Substituímos a bola pelo (des)amor,
Pela bebida gelada junto à brisa no Astor.
Melhoramos de altura, mas nem tanto no garrancho em cadernos.
Ocupamos titulações em molduras,
Viramos adultos em jalecos ou ternos.
Tomamos opções que tornaram poemas
Algo menos que um nada…

Desde aquela hora
Que passou pela praça,
Houve leveza,
Tornou a vida mais bela.
É a tarde, apressada, que passa.
Todos nós, passageiros,
Que se arriscam na chuva carregando uma chama de vela.
É a vida: sempre tão entretidos,
Quando devíamos estar,
Só um pouco mais,
Orando por ela.

Vi passado o tempo,
Vi-me formando estrada,
chegando aos que sabem,
partindo os que sentem.
Criou-se uma pausa no rosto,
Posta bem em minha frente.
Que sem o amor que nos traz,
De tudo isso, importa o nada.

Era a tarde na praça.
Em que ela correu alegre, tendo alguns solavancos.
E eu, com sorriso no rosto,
Em meus passos rumando,
Querendo aquilo tudo, só mais um pouco,
E agradecendo ter paz.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, novembro de 2019)


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