Casa Velha

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Por: Diogo Verri Garcia

Casa Velha (prosa rimada)

A casa era velha, tão velha quanto suas emoções.
Pouco havia dentro, apenas retratos, panelas,
lembranças, devoções.
Também velha era sua moradora, que não sabia mais quando iria partir.
As tarefas diárias já se tornaram batalhas vindouras,
Que sempre especulava se iria realmente conseguir.
Aquela senhora, de jeito simples, palavras meigas,
E coração apertado – inebriado como o que me deixou.
Vestia-se elegantemente com seus trapos, pelo tempo desgastados.
As de outrora finas sedas tornaram-se farrapos,
com que espantalhos vestiriam-se a contento.
Perguntei sobre sua família, mães, tias, histórias e paixões.
Ela mostrou-me uma pilha, amontoada em uma caixa, com retrato e decepções.
Mencionou que o amor funcionou, por um determinado tempo, de forma mais feliz.
Porém, depois, Deus a provocou, o amor falhou e, conformada, só queixou:
– o destino assim quis.
Filhos? – questionei, quase como um entrevistador ávido pelo que o entrevistado escondeu.
A frágil senhora sorriu, em um sorriso triste, que calou-me a voz – amedrontada pela resposta – e tornou minh’alma um tenebroso breu.
O que houve? – insisti. Já arrependido das perguntas torpes e vorazes que fiz.
Triste em vida – relatou a infante senhora triste; infante, por acreditar ingênua, nos olhos a esperar por alguém que nunca mais apareceu.
Disse que sua família era raiz, com Beatriz e outros dois, cujo nome esqueci – pois não anotei.
Que, por longo tempo, foram em cinco, um tempo que viviam com doce afinco. Para viver outra vez, percebi que das lembranças mais profundas a sóbria senhora recorreu.
Mas continuou, ao afirmar que a vida dá voltas, como anedotas que só são engraçadas para que não as sente.
O final – como toda história – tem gente que saí e bate a porta, gente que não é mais devota, e gente – no caso, ela – que ressente.
Explicou que Beatriz casou-se, e desde o início ela desconfiou que ali não haveria felicidade.
O outro filho mudou-se, foi viver fora – longe mesmo, ponderou: em distante cidade.
O filho que sobrou viveu com ela e com o marido, por não ter outro abrigo, emprego, um canto seu.
E dali em diante, chorou aquela senhora, em pranto soluçado, preparando-se a contar o que se sucedeu.
Beatriz casou-se com José Maurício, rapaz bonito, mas propício a ter mãos dadas com a deslealdade.
Ele sempre visou seu próprio benefício, mas aguardou – pacientemente – o passar de um interstício para demonstrar quem era, na verdade.
O então rapaz convenceu a filha, que pressionou a família a penhorar seu melhor bem.
– José é rapaz sabido, minha mãe! – disse-lhe a filha, alegando que nunca haveria mal a ninguém.
José alegava ter três faculdade, o que, com sinceridade, eu, incrédulo, não acreditei.
Mas a sóbria senhora acenou, confirmou que era verdade: que a maldade se prepara, veste fina fardagem, como quem vai ao baile do rei.
E foi feita a penhora, para que Zé investisse no ofício – que, em tese, seria propício a trazer fortuna a família.
– José vai construir edifício! – com orgulho, repetia sua tola e apaixonada jovem filha.
Mas o rapaz ostentava vício, desde o início era visto nos rincões mais torpes da cidade.
O negócio não foi tratado com afinco e, no casamento, frouxo cinto amarrava-lhe a castidade.
Os pais, assustados, rezavam. E a obra ficava abandonada, quando Zé fugia para o Rio, por três vezes, sempre no carnaval.
O dinheiro que a fortuna anunciava, agora já faltava, e houve nos bens dos pais um novo empenho.
José, quase pobre, anunciou-se mudado, procurou o pastor, o caboclo, o vigário,
Retomou a frente no comando da obra, que desde então ganhou novo desempenho.
Mas o que inicia errado, segue fadado – ponderou a senhora, já em consternação.
José Maurício em nada havia se transformado. Se existiu vontade – não bastava -, não houve devoção.
Gastava o (pouco) dinheiro com damas e meretrício. Então, o armistício quebrou-se, e os credores exigiram sua parte.
Os pais pressionaram a filha, que voltou-se contra a família, acusada em sua dignidade.
O filho mais novo, compreendendo o factício, confrontou José Maurício, que uma pancada lhe deu.
O jovem precipitou-se contra um bloco do edifício, bateu a cabeça, morreu.
O pai, ao tomar causa do fato, teve suador, náuseas, mal extremo, um infarto.
No mais fino indumento, acompanhou o filho em sepultamento: e nada mais se avençou, além do tempo da dor.
Beatriz apoiou o marido, gastou o pouco dinheiro restante com advogado – não enviou sequer recado.
Não procurou a mãe, para acalentar-lhe o sofrimento, ou doar-lhe amor.
O filho do meio talvez nem saiba do ocorrido. Nunca voltou: ninguém dele sabe, desde que partiu.
Alguns dizem que por outrem se apaixonou, conseguiu boa vida e seguiu.
A triste senhora ficou só, envolta naquela casa, que tanta felicidade e tristeza lhe deu.
Deixou-me calado, com dó, e com alma pesada, por deixá-la lá – com a entrevista acabada -,
com as lembranças ousadas que este alguém lhe reviveu.
Aquela mal pintada parede – de tinta suja e desgastada pela passagem das épocas –
Refletiam a sombra dela, quando sentou-se perto da janela, tomando algum sol que a manhã traz.
Aquela mesma sombra, hoje triste e velha,
Já foi sombra de alguém feliz demais…

(Diogo Verri Garcia, Rio, 14/09/2018).

*Autoral


Crédito da imagem: pixabay.

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