ÓTICA

Por: Juliana Latini

ÓTICA

Havia um lugar onde se encontrava um produto inovador. Óculos que possuíam lentes especiais. Ao experimentar as variedades disponíveis logo podia se perceber algo diferente. O fato era que ninguém houvera de passar por essa experiência permaneceu com a mesma visão. Mas o que será que esses óculos proporcionavam assim de tão fenomenal?

No início, a loja criou tanto burburinho que o movimento podia se perceber ao longe. No entanto, passou a pairar algo estranho depois de um tempo. Pois o movimento foi decaindo…Eu de perto observava e nutria certa curiosidade sobre o fato. Um dia, tomei coragem e fui à ótica experimentar o tal dos óculos. Mesmo que o boom tivesse diminuído, não fui guiada pelo marketing alheio. Lá fui eu de manhã cedo, ser uma das clientes a adentrar no recinto. A loja era moderna, com ar minimalista. A vendedora que me atendeu tinha um estilo nada convencional. Achei tudo curioso. Estavam expostos poucos exemplares dos óculos. Não eram bonitos, nem feios. Eram óculos comuns olhando à primeira vista.

Bem, respirei fundo e solicitei um exemplar para provar. Passados poucos minutos, a vendedora chegou com algumas caixas e colocou-as ao meu lado e me deixou à vontade. A única coisa que me informou foi sobre o fato de uns serem de longe, outros de perto. Eu não entendi muito bem, mas peguei um modelo de “longe” com armação vermelha. Coloquei e tive uma experiência de passar a enxergar o campo físico e o etéreo da alma. Eu enxerguei os transeuntes caminhando na rua, na calçada em frente à loja de modo que tinha pessoas que os corpos andavam à frente de suas almas – que como num efeito elástico, puxavam-na. Enquanto outros tinham almas tão pesadas que o corpo caminhava com dificuldade. Havia ainda algumas que a alma voava como um parapente e tendiam com a direção do vento. Poucos possuíam a sensação de equilíbrio, com as crianças que passaram na frente da ótica naquele instante. Mas uma pessoa em especial me chamou a atenção. Uma moça carregava sua alma como um bebê de colo. Era bem introspectiva. Quem a olhasse, talvez nem a notasse, mas ela portava um óculos tal como o que eu experimentava. Ela carregava a alma com muito cuidado e afeto. Se olhasse com atenção podia-se perceber um leve sorriso de aceitação. Aquilo mexeu tanto comigo que eu tirei os óculos e como numa louca viagem voltei a enxergar tudo como antes. Parecia que tinha sido um sonho, algo ilusório da imaginação.

Então fui experimentar os óculos de “perto”. Escolhi um de armação mais discreta, com medo de emoções fortes. Ao colocar os óculos, as lentes projetaram minha visão para perto, mas de fora para dentro. Comecei a me enxergar como nunca vira antes. Minha alma olhou para mim. Eu pude encará-la por uns instantes. Sem saber me relacionar com ela, olhei e sorri como cumprimentando. Ela reagiu aliviada por ter sido percebida, notada por mim. Parecia que tinha muito a me dizer, mas sem palavras pude entender sua queixa em ter esperado tanto tempo para ser notada. Não disse uma palavra, mas sei que ela entendeu que a força da rotina me carregava a pontos de muitas vezes deixa-la pra trás. Mas sabia ela também, mesmo que sem som, que eu a amava.

Após suspirar e um sincero perdoar, sorrimos. Senti-a ao meu lado, como uma grande parceira. Não levei os óculos, mas saí de braços dados com minha alma. Não fiz promessas, mas me comprometi a não deixa-la mais para trás. Ainda que eu demore mais para chegar ao meu destino, estaremos juntas nessa viagem da vida. Numa comunhão entre o físico e o emocional, entre a força e a sutileza, sem ela não sou eu.

Niterói, 21 de maio de 2019

Juliana Lopes Latini da Silva 


Créditos da imagem: Pexels

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