Palavra Dançada
Postado no 26 de novembro de 2024 Deixe um comentário
Por: Valéria Shirá

Palavra Dançada
A escrita que se mostra
Com a sua repercussão
Sua escuta seu registro
Sua Impressão
Lapidar palavras soletradas
Ser a letra que se move sem desdém
Na Arte
No desenho
Ou no sopro da voz em ação
Afiando a língua
e o signo
Limpando a espada Constelada
Rodando Ela no ar
Para ouvir as falas não honradas
E atravessar a folhas escassas desta dimensão
Encontrar a pele machucada
Alma não lavada
A palavra calada
O caminho delicado da emoção
Luz ascendente pelo chão
Abre Rios
Da passagem
Para dizer o dito escrito no coração
A palavra que é Fala
Palavra Dançada
Valéria Shirá
Créditos da imagem: Freepik
POEMA DE UMA SÓ PASSAGEM
Postado no 22 de novembro de 2024 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

POEMA DE UMA SÓ PASSAGEM
Tento fazer um poema de uma só passagem
Na tentativa de fazer com que qualquer verso
que me venha à boca
e que da alma saia
exprima-se em suas letras,
Expresse sempre a melhor tiragem,
Traga a todos a melhor imagem.
Um poema que tenha sonoridade
Daquelas que jamais se fez tão benquista.
Que fale de tudo mais que aprouver,
Notando como a vida sobra e alegra
quando a paz, em si, é sentida
e bem-vista.
Procuro um verso
que detenha o bom declamante, uma voz.
Falo de um poema que não precise de remendo,
Que não dê azo a referendos
que não desfrute de nós.
Nos primeiros passos, tanto os versos bem correm
que até assustam e motivam,
Feitos as noites que naturalmente vão,
até o sono incidir.
Assim segue, segundo os planos, o verso,
Como as palavras fortes de um refrão,
as tardes longas no verão,
ou o vindouro inverno a se fazer sentir.
São novas rimas, que pouco a pouco,
de alma boa e boêmia se autoapetecem.
Se socorrem da boa palavra, entretêm e entretecem.
Que se acolhem nos seus próprios cantos,
e nada há de queixumes ou reclamos:
Até agora, o tal poema acontece.
Mas o que haverá se eu retomar o início
e deixar inacabado, posto de lado,
tudo aquilo que já registrei?
Será que o mesmo papel aceita tal como eu assinto
ser reescrito,
ou é ar que gradualmente estraga o vinho tinto?
Será que se porta em propagar tal como, versando, rezo?
Em anotar como eu versei?
Era só tentativa de um poema
Feito de uma só passagem,
Ainda que a criatividade não me honrasse,
nem me desse hospedagem,
Insistiria tentando, ao menos, em tentar.
Em pensar em algo que é bom e que caiba ao verso,
Sem um intento não só de sucesso;
nada oportuno: apenas tentando em escrever, a levar…
Mesmo quando não há nem brisa, nem a menor aragem a abrandar.
São versos de passagem:
então, sem paixões, que os deixemos ficar
Ou que o vejamos amargar.
E, ansioso, questiono
se gostarão dos meus versos, ou não,
de passagem.
Fico inoportuno, em sondagem, inquieto a saber.
Por certo, hoje, apegado, a resposta correta não tenho.
Mas amanhã saberá, nunca eu:
só conhecerá quem os ler.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 22/02/2019)
Créditos da imagem: Unsplash
Arqueologia
Postado no 6 de novembro de 2024 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Arqueologia
Sou um poço de MEDO
Sou um medo no poço
Sou o osso sem carne
Osso sem pele
Osso em chama
O medo me chama pelo nome
Não me encara nos olhos
Chega bem perto e quando me confundo com ele,
veste o controle e o contorno de que tanto precisava para existir em materialidade e fé
Eis que depois de tantos assombros
de ir…de ficar
de partir…
de existir…
de parir…de não parir…
de faltar…de transbordar…
de desnudar…de desmoronar…
de calcificar…de não calcificar
de ser tudo…de não ser nada…
de encher…de desencher…
de murchar…
de desaparecer…
Eu, tomada por ele,
Pensando ser ele,
Pensando ser pele e contorno,
Confronto-me com o vazio
E na angústia de não saber, de esfalecer
Chacoalho com ele, por ele, apesar dele, pensando ser ele
De tanto chacoalhar, desfibrilar,
Deixo cair o que penso ser o último véu:
Eu me sei osso insólito
Por Bianca Latini
Créditos da imagem: Unsplash
A MAIS TENAZ CALMA
Postado no 29 de outubro de 2024 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

A MAIS TENAZ CALMA
Quando não sei ao certo
O que é certo,
O que vai dar certo
E o que restará parado
se algo der errado.
É o momento que mais inquieta
Quando causa silêncio
o excesso de coisas que repetem e acontecem
quando só resta prece
para devolver o real silêncio.
Quando totalmente fico mudo,
Mas ela não se deixa calada
Com gestos sinceros, sorriso aberto,
Faz que não percebe a calma
que tão mais me desagrada.
Quando fiz algo mais,
Por ter feito menos.
Quando traço uma culpa voraz
por meus erros pequenos.
Ela, nem assim, se desalegra.
É um sorriso que cativa,
que traz um alento de riso e de paz
e feito um afago,
agrega.
Então me ponho falando
Sem ela nem suspeitar
Que traço meus próprios planos,
Conduzo-me em contornar
Por alguns internos reclamos.
Sempre por pensar fugaz,
por não saber pensar sereno.
Ela, quando o sorriso alegra,
Pouco a pouco, a resolução
começa a ser sincera, torna-se tenaz.
Quando sua voz não sossega,
não causa falta, nem sobrecarrega.
É ela, a calma, a paz.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 28/04/2019)
Créditos da imagem: Unsplash
Exílio
Postado no 22 de outubro de 2024 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Exílio
Minha garganta está doendo a beça
Quantas salivas estão emboladas, reprimidas e em aperto?
Quantas coisas queria expelir e não consigo?
Quanto Amor guardado?
Por medo de dizer, expor a carne crua
A pele nua
A ferida aberta
Antes de sucumbir, parti
E longe me encontro
No exílio achei dor mais profunda ainda…
Você sabe voltar?
Me conta?
Me desmonta?
Não estou sabendo desconsertar …
Por Bianca Latini
Créditos da imagem: Pixabay
19 HORAS
Postado no 14 de outubro de 2024 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

19 HORAS
Funcionava enquanto a gosto.
Desandou quando tendeu a ser proposital.
Vingou-se da boca como do rancor amargo de um preposto
Que consentiu o que não foi consensual.
De quem tantas vezes falou coisa pouca,
Palavreado fácil, frases soltas,
Sem afago, nem apelo;
Sem tempero.
Quando terminou, sussurrou-me falas boas,
Embora talvez pensasse, em verdadeiro desejo,
Dedica-me o pior e mais mesquinho mal,
Mal verídico, e não só qualquer malfazejo;
Não males pequenos e paráveis
de uma tristeza constante e geral.
Quanto a ela, antes houvesse
algo mais que o olhar pálido enraivecido.
Preferia as palavras soltas de fúria, gritadas;
Os desabafos medonhos, verdadeiras lâminas de navalha,
Às boas lembranças de um adeus agradecido.
Tudo seria preferível ao dubitável fim,
tão maduro, educado e formal,
Que ela rapidamente aquiesceu, face a mim.
Percebi nos abraços os embaraços que,
quando afastados, causavam alívio.
Com ela vividos que nas viradas amorosas,
em um calor que já era mais gelado que o frio.
Nem nos corpos enlaçados,
não mais se esquentavam,
nem mesmo no verão do Rio.
Balançadas em anseios internos
Estavam às portas as opiniões.
Que encaminham a tudo, confundindo mais
Que a razão e a emoção juntas,
E nos impõe ter quase que uma fé.
O que sufoca não é secreto, nem quieto
É um incômodo constante,
que desafia a calma, torna a presença pedante.
E que tão logo afoga, tão mais
que mal se apercebe o que é.
Feito a água que encharca aos poucos as paredes,
A excessiva presença de quem nem tanto mais se quer,
causa suador, agonia.
É confessional do excesso de intromissão.
Maltrata o interesse, que desalinha.
E se aparece outra, feito ela,
o velho quadro se alinha:
Entre o certo e o errado,
entre o acabado e o então.
Quando beijou, plantou a armadilha
Mas não soube levar:
sufocou quem até então esperava
– e que hoje, dela, quase nada espera.
Quando nos braços sobrou,
não sabia: mais dia, menos dia,
Beijo bom, se é de amor, não tarda;
Mas no excesso, mata tudo; emperra.
(Diogo Verri Garcia. Rio de Janeiro, 19/08/2018 , 00h59)
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OUTRO BRILHO, MESMOS OLHOS
Postado no 25 de setembro de 2024 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

OUTRO BRILHO, MESMOS OLHOS
São os mesmos olhos daquele dia,
Porém já distantes e frios
Os olhos dela não mais se abrilhantam:
Passam demonstrando nada mais que vazio.
E percebo que tais olhos não têm sua luz própria
Só refletem o que penso dela em meus pensamentos
Que por inexatos que sejam, mesmo que racionalmente os ignore,
Revelam sentimentos.
E o que sinto e o que vejo, nos olhos dela
São o motivo e a desgraça,
A argumentação para o que embaraça
O embaraçado amor que já tive.
Não sei se algo substancioso tencionou a mudar
Ou se apenas a direção do barco começou a girar
E eu me entretive.
Hoje tenho a ver que os mesmos olhos,
Dos quais tantas palavras saltavam,
não mais escrevem.
Que nem mesmo para curar a culpa
Dessa previsão não fortuita
talvez nem para isso eu mais reze,
Pois é possível demais que alegar desamor
seja um intento
Para quem – tal qual eu – não tem melhor argumento
Para não querer mais.
(Diogo Verri Garcia, Rio, 23/07/2019)
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POEMAS PÁLIDOS
Postado no 11 de setembro de 2024 1 Comentário
Por: Diogo Verri Garcia

POEMAS PÁLIDOS
Sorrateiramente, sem violência,
Poemas vêm e vão.
Como passagens de trem, como o verão.
Nem todos são vigentes,
confortáveis ou frequentes.
Há poemas que são pálidos;
outros, que são quentes.
Quando encorpam, avançam e arrastam
Feito forças do vento abrasivo, que é bravo.
Quando desandam, são blocos de verso
que não causam, nem intencionam.
Sem sabor, não tencionam furor, tampouco sucesso.
Mas quando empolgam, traçam bem o caminho
E tornam-se oportunos para quem os lê.
Quando inspiram,
Nutrem paixões que arrepiam.
Fazem o poeta parecer afortunado, face a quem o vê.
Mas depois, cansam:
de tanto repetidos, versos entediam.
Caminha o poema como receita instintiva
Que tem métrica, rima, etecetera e tal
Mas que de nada serve, sem quentura nem clima.
Porque se é só verso e rima,
Sem alma, não é poema;
Não é formal. Não é verso. É normal.
(Diogo Verri Garcia, Rio, 04/02/2019)
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O TEMPO DO TEMPO
Postado no 26 de agosto de 2024 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

O TEMPO DO TEMPO
Depois de um pouco esperar, o tempo chegou.
A demora nos trouxe sobriedade
em saber que a distância do tempo não é intocável,
que a vontade melhor difere da nossa vontade.
É um caminho que não engrandece a angústia,
Eis que angustiados somos nós, per si.
É passagem por onde não se andarilha, se busca
A solução que aprouver do que houver a remir.
O importante é que o tempo segue
E o mundo gira no entorno de sua própria passagem,
demais desigual do que a nossa vontade espera.
E tem-se na vida lição maior de verdade:
Seremos nós, da nossa exata diretriz, ora donos;
Mas, ora parte, feito só passageiros à janela.
(Diogo Verri Garcia, Rio 14/01/2019)
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UM PISANTE LUSTROSO
Postado no 7 de agosto de 2024 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

UM PISANTE LUSTROSO
Se existisse um solado no samba
Que fosse um andarilho tipo principal
Conhecedor das canções e das bandas
Bem experimentado pelo carnaval.
Que tudo sambasse e rimasse
Com sapateado fino de desinibir.
Era o sapato todo desavergonhado
Que buscou a gafieira pra se distrair.
O solado sozinho andou,
Procurou por um ponto de samba
mas não encontrou.
Caminhou bem ao largo da areia do mar.
Cuidadoso, bem cuidou para não se molhar.
O sapato que não era bobo
Esperou chover, esperou ventar.
Andejou a calçada central,
Andando em frente a faixa junto ao areal.
Ao encontro foi de outro par de pés,
Queria samba, mas cogitou até o arrasta-pé.
Arrumou-se todo elegantemente,
Sentiu-se até contente após se vestir.
Encontrou enfim uma gafieira
Tocando samba de primeira e resolveu subir.
Encantado com o salão tão vistoso,
Viu no liso e plano taco um viçoso espelho.
Eu avisei, mas não aceitava conselho:
O salão, deveras cheio, inspirava receio.
O sapato lançou-se contente,
sapateando impertinente a se exibir
Mas a sorte que era faceira
Achou a casa muito cheia e resolveu sair
O sapato levou um tostão,
Uma esbarrada, uma pisada e até um arranhão.
Tropeçou cambaleante quase por todo o lugar
A gargalhada era tanta que fez o som parar
Mas do desastre tristonho e premente
Que coube graça a tanta gente
também se corrigiu
Quando a sorte voltou no tablado
Viu o sapato alvoroçado e se compungiu.
Beliscou a sorte logo um salto fino,
Que passava alheia ao atino,
sem sequer notar.
Que olhou para o tablado finalmente com afinco
E viu o sapato em baixa estima a se lamentar.
Tanto gostou do rapaz que assistiu,
Pôs-se o elegante salto fino a se compadecer.
Caminhou até o sapato abatido,
Ali brotou o amor que o samba fez nascer.
(Diogo Verri Garcia, Rio, 21/10/2018)
Créditos da imagem: Freepik
