ÀS MENORES COISAS

Por: Diogo Verri Garcia

ÀS MENORES COISAS

Não me busque
Quando houver tristeza.
Quando eu me fizer triste
Que seja do tamanho exato do vazio
Que cabe em um verso posto em guardanapo.
Um pedaço de papel dobrado
Contendo um esforço baldio.
Que se perca, pequeno o bastante para não seguir adiante
Não permita a ela destreza; aperceba
Que somente louco torna a tristeza confiante.

Mas quando os sorrisos forem amplos
Que não haja cantos para onde os prantos se acomodem
Traga todos quantos alegres nos envolvem:
Os amigos reais, os amores carnais, os pais.
Quem nos revira no mosto que se torna vinho em seguida.
Não me busque só,
Quando houve felicidade.
Que se aperceba e que a receba com o sorriso mais alegre,
Tenha algo que lhe dê albergue e não espere
Haver momento melhor: então me busque, mas não só.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 14/05/2019)


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O ESCUTAR DO TEMPO

Por: Diogo Verri Garcia

O ESCUTAR DO TEMPO

Apenas ouça
Como passa o vento.
O silêncio que traz o tempo.
Silencioso ao não se notar passar.

Ouça os risos dos amigos,
Os suspiros contidos.
E ao pé do ouvido,
Ouças as palavras de que irás se lembrar.

Escolha a bela música que te toca,
Leia o verso que mais te adota,
Na ocasião que te importa,
Por algo ou alguém cuja falta corroeu,
E te ponha a ouvir:
Que cada linha sirva in totum a ti.

Ouça a chuva que cai nos telhados,
Balançando as gramas e os arvoredos aos lados.
Lembre o afago,
Escute o temporal
A se desinibir.

Ouça o desgovernado tempo que embola tantas coisas.
Veja o esvoaçar das folhas,
O mudar das tuas escolhas.
Que já não são mais do tempo: é o alento,
Sinônimo de passagem;
É a ocasião; a estação,
Condição feito o verão.
É o vendaval que vê o mar exasperar.
E agora ouça…
Ouça o amor que o teu calado amor
Emudeceu
E que deixou passar.

E quando a angústia te disser respeito,
Procure um jeito de só agora ouvir,
Ouça o vento, ouça o chamado do tempo
Que só pertence a ti.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 20/04/2019)


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Kintsugi

Por: Mauricio Luz

Kintsugi

Olá! A hora do adeus chegou.
É o momento de ir embora
Pois nossa relação terminou
Mas não o nosso Amor
E longe de ti preciso ficar.
Pois a cura do alcoolatra
É a distância da gargalo da garrafa
E eu, ainda inebriado de ti,
Só me resta buscar no espaço entre nós
O perdão do tempo pelo que não mais vivi.
Triste destino do poeta,
Tão mergulhado estava na poesia da vida,
Que se perdeu nas linhas que a própria vida traçava:
Para longe daquela a quem se entregou.
Que se sanem os corações, que se colem os pedaços!
Que os cacos se unam em dourado!
Dos meus escombros, que eu possa me recriar;
Do vazio em meu peito, uma cuia
Para levar água fresca
aos sedentos de Amor.
E que as cicatrizes me guiem
Nos misteriosos caminhos
Abertos dentro de mim.

Mauricio Luz


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POR UMA BOSSA NOTA

Por: Diogo Verri Garcia

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POR UMA BOSSA NOTA

Se tivesse tão boa vontade, te daria uma nota
Que não demore mais
que muitas frações de segundos, uma semibreve.
Para tornar teu sorriso ainda mais leve
feito a canção que leve
à bancarrota
As tolices mais idiotas
Que, quanto a mim, te deixam confusa.

Se tivesse uma inspiração,
talvez não sei se te faria
uma graça qualquer, um feito em melodia,
uma poesia,
Que atravesse essa mesma mania
De não querer mais quem até ontem quiseras.
Isso amedronta, maltrata e usa,
Feito blusa que tanto aperta que
machuca a pele.

São tuas as palavras mais bobas,
Que inebriam, causam tanto brilho
Num almoço qualquer de um março vazio.
São tão leves as tuas paixões
Tontas e estonteantes
como bolhas de frisante,
que, passado o tempo, dispersam.
E pra quem sobra, fica o copo vazio:
Sente-se entediante,
Do qual riem todos, vestido de comediante.
Afrontando seu próprio riso,
Não há razão que impere.

Na oração, quem te espera,
Espera por um qualquer momento ou por um rompante
Em que apareças sem outro acompanhante,
Caminhe adiante. Frente aos olhos,
digas de tudo, desde que não sejas sincera.
Em um amor, uma demonstração qualquer,
algo extravagante.
Que tagarele sussurros benditos
Ditos ao ouvido em tom atenuante
E que o desgosto sela.

Mas não há graça, nas tuas graças,
Feios vazios que há nos vazios,
Em tantos rios que passam ao arrepio
De quem com as mesmas águas quer querer se acostumar.
Todo qual que desarranjas por entre as franjas dos teus braços
Viveu afagos, mas embarcou em embaraços,
Sentiu martírios em cansaço
Na angústia tardia de querer ficar.

Feito coisas boas que depois passam,
Vidros que embaçam,
Cintos que desafivelem
São teus traços, teus espaços, os teus laços.
Que inebriam e acalmam,
Mas dores trazem à alma.
Só servem à pele.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 15/02/2019)


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DUAS ESTAÇÕES

Por: Diogo Verri Garcia

DUAS ESTAÇÕES

Quem reza por duas orações
Acaba se enganando e caminhando a pé
É como pretender ter dois quinhões,
duas prendas, duas estações;
No mar, duas marés.

Aprenda que nem tudo que alimenta, que é bom em sinergia,
Deve ser dobrado, para ser tido em dubiedade.
É bom viver feliz, na causa que nos contagia,
Mas se pretenderes a mais,
causará furor; virará vaidade.

Veja que te projeta a luz, o sol que aqui brilha.
Assim como na estação toca uma melodia,
em tom que, tanto faz, se maior ou menor.
Há sintonia; se fossem dois sóis, não haveria noite, só dia.
Tocados ao mesmo tempo, confusos aos ouvidos,
os sons não soariam o melhor.

Com essa fala, que passa em tempos
tão longos como fios de cabelos em mecha,
O pensamento feito flecha,
Daquelas que rasgam e acertam
Menos o que se mostrou e mais o que se escondeu.
Eu sei: em um sopro de ingenuidade que aparece, risonha, sincera,
Depois de tempos remidos, em que o peito oprimido soluçou,
Recolhido na sombra, em mar de breu.

Veja: há sempre peças que se apresentam ao jogo
Jogado por francos, incautos,
por bobos…
E não há que cure muitas rezas,
Para viver em um rompante como o mais feliz;
Em outro, mal à beça.

A conclusão é certa:
O andor apadrinhando dois santos
Quer seguir o melhor, mas terá o maior dos prantos.
Não importa o quanto andou,
Não importa se mais bem do que mal fez.
Quem jura manter dois quinhões,
duas estações,
perderá todas as peças, finda a vez.

Quando a tragédia é revelada, amalgamada,
Dói a alma que amou,
mas que deu causa ao que amargou,
Perdeu por querer mais, pois fez.

Muito se saciou, mesmo não querendo ser voraz
Não haverá duas fés,
Não há no mar duas marés,
Não se abonou a insensatez.
Quando a paz acaba,
ressacada:
Inevitavelmente,
Inicia-se a dor. E os porquês.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 2018)


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Em Si

Por: Valéria Shirá

Em Si

O poema se embrenha em mim como uma brisa leve…
Que atravessa o tumulto barulhento de um recipiente cheio
Entra trançando vísceras
Ressignificando
Recordando
Poetando ao seu modo de Ser

Leve recolhe
e transborda a Vida
Leve voa
vestido da lealdade ao que é
Leve flutua em retorno esférico
Circula
Sempre em paz
Sempre maís
Deleite
de um compromisso único

Corre nos jardins do mundo
Criando a certeza dos encontros
Desperta
A dança das flautas e dos lírios

A música que encanta os braços parte do coração
As lágrimas sabem dizer as canções das Águas
Sua gentileza,
Sua alegria
E sua fúria
Rasgam as veias,
E nos mares q
Imensas gargalhadas

Salta no ar
No seu trote
Corre com as mulheres
Se confunde nelas

E o poema é vento que leva
Sutil certeza
Traz para perto
Corre por fora
livre por dentro
O poema eternamente corre
Sem se dar conta de quantas são suas travessias
De em quantos oceanos velejou
Quantas ilhas
Quantas terras distantes
Do quanto viajou
Plenamente ficou
Infinito gozou
Em si
Sempre retornou

Valéria Shirá


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SENHORA DA PASSAGEM (VISITA-SE A VIDA)

Por: Diogo Verri Garcia

SENHORA DA PASSAGEM (VISITA-SE A VIDA)

“Se a vida fosse justa, não seria vida.
Justeza verdadeira há só na morte,
Que leva a todos: a ti, a ele, a outros.
Garante uniformemente a mesma sorte”.

Assim, a senhora da passagem recebia
todos quantos chegavam, sem pesares, nem contras, nem prós.
Por vezes, vezes e vezes, seu verso repetia.
Recebeu poetas, malandros, pessoas nossas, fidalgos, heróis.

Até ela, porém, não mais admite
Que todos tantos vão e vêm,
E a vida, inquietante que palpita, só assiste.
Feito turista, encantou-se pelo que outros acham ser corriqueiro,
Queria ter um mês ou dois; ou mês e meio

Para sentir a brisa no rosto,
Para pisar na água que molha a areia do mar.
Para ver, só por ver o mundo que rumina,
assistir crianças e meninas,
perceber o tempo passar.

E, assim, declarou aos atentos e aos dispersos
Que teria plenas horas vagas, na vida, à passeio.
Todo mês, nem menos que um dia, nem muito mais que um dia.
Exatamente: um dia e meio.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 2018)


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À ZERO HORA

Por: Diogo Verri Garcia

À ZERO HORA

O tempo é estampido
Quando o relógio vira,
Os fogos queimam e ascendem,
Um novo tempo almeja-se,
Os festejos transcendem.

Percebemos que doze meses atrás
Um pouco de mais era almejado.
Também fizemos promessas.
Talvez menos ou mais festejado.

Mas nada mudará; talvez tudo mudou.
Certamente um reluto, e o entusiasmo vigora como a mola da alma.
O propósito é como o vapor, um foco resoluto.
Engaja e impulsiona,
e vistas as resoluções, acalma.

Com o mesmo entusiasmo de hoje,
Doze meses atrás, era esperado o momento.
Como se um algo novo bastasse, pondo finda a vigência do que houve em outrora.
Por si, nada muda: a intencionalidade é irmã do tempo.
Mas já basta, a vida passa.
O relógio soa: zero hora.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 29 de dezembro de 2018)


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DEZEMBRO E O TEMPO

Por: Diogo Verri Garcia

DEZEMBRO E O TEMPO

Quando passa à frente outro ano
Logo tanto tempo, em rompante, vai embora.
Amanhã, nunca mais será o mesmo dezembro.
Passa e passou nas ruas povo farto e alegre,
(Andam também alguns avarentos).
No caminhar de crianças e moças, vem ainda mais gente:
Um senhor sorridente, e em passo breve a sua senhora.
Está tudo acabado e a contento,
Feito dezembro.

Eu entendo todo esse evento,
Todo riso, todo pranto, todo alento.
Observo o passar da vida,
Sempre atento ao correr das horas.
Noto palavras que são merecidas;
Hoje, menos ponderadas, porém faladas em vida.
Pois há o tal tempo que vai,
Tornando posto o momento afora.

Tome as ações que deseja,
Beije feliz quem feliz bem te beija.
Veja-se em festas,
Em votos sinceros
Ou mesmo de simples sermões.
Refresque-se em abraços, tenha resoluções.
Faça boas odes ao bom pensamento.
Pondere, pois as palavras não ditas, no tempo passam.
Porém, as mal ditas não passam no tempo.

E o correr desse tempo, justo hoje, feito o mar, não falta e não falha.
É o véu quente e humano, corrente de gente de que rompe a praia,
Era dezembro.

(Diogo Verri Garcia, dezembro de 2019)


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A DIZER SOBRE O VERSO

Por: Diogo Verri Garcia

A DIZER SOBRE O VERSO

A dizer sobre o verso,
Certa vez expuseram
Que melhor poeta vive da tristeza,
Pois narrar em vida grandeza
não marca e não graceja
tanto quanto falar da saudade.

Que poesia boa ou é tragédia ou é autoajuda,
Que o verso a si mesmo desnuda: é escrito porque há vaidade.

Expuseram que o poema é perda de tempo,
que serve de alimento para quem nada tem ou quer.
Que é só palavras em andamento, assentada sem intento,
Que não acresce, não cria aquisições
e ilude feito uma fé.

Alegaram que poesia amorosa é desgraça,
É o arrojo de um sem graça, incauto pelo que não viveu.
Ou pior, que a poesia afrontosa é pirraça,
tamanho o dano de arruaça,
plasmado em alguém que algo ou muito perdeu.

Dispuseram que em ocupada vida
não há tempo hábil para fazer poesia,
tentativa de impor ao mundo sua própria desordem.
Mas se esquecem que a palavra que amargura, igualmente reata,
Que a poesia, por si, não diz nada,
Quem dita o caminho é que o percorre.

É inato: não procuramos o verso,
ele é quem nos procura.
É inoportuno, justo quando não se consente,
Quando a tristeza é premente
ou quando é nulo o luto,
ele vem.

E sem descalabros nem cerimônias ao procurar,
faz-se em rimas,
rimando o anverso de tudo o que há
E procurando, sabe bem por quem:
por alguém, o poeta.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 03/01/2019)


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