O Parto da Náusea

Por: Raquel Alves Tobias

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O parto da náusea

A náusea gosta de passear
Vive por aí a disfarçar
Olha pra uns com fome
Pra outros, finge que come

Mas o fato é que está cheia
Em gravidez de lua cheia
Tentando digerir a estase
De comidas de outras fases

De tanto engolir desgosto
Entala no fundo do poço
Instala-se em seu conforto
Esperando a sede chegar

Quem chega também é cheio
E só quer vazar o anseio
De alguém a quem culpar

Então tudo vira resto
Dos vômitos indigestos
Das partes a completar

Por: Raquel Alves Tobias


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Criação

Por: Valéria Shirá

Criação

O poema em mim
Saliva, solve na boca
A Campanha
Me diz
Eu digo
Em Minha companhia

No peito inspira
Uma conversa simples…a capela
Expira
Embaixo dos Arcos
Canta

Diálogo por dentro
Sacia
Entre
Acolhimentos
Parceria
Cópula
Completa
Entrelace, a Trança tece

Nas Sensações
Na Consciência
No Corpo preenchido
Por ondas em evolução
Respiração serena
Deleite
Em diversas conjugações 
Criação

Valéria Shirá


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Obscuridade

Por: Bia Latini

Obscuridade

Sim, eu perdi
Eu caí
Eu chorei
Eu amei demais
E não fui correspondida
Eu não fui destemida
Eu errei
Não olhei bem
Não saquei
Não escutei
Me perdi
E não me achei
Procurei o caminho de volta
E não encontrei

Eu usei mal a palavra
E ela, assim, como a flecha lançada
Não voltou mais à minha garganta
Tomou rumo próprio
Se foi
Feriu
Matou
E por fim se suicidou

Joguei nos outros
Um balde de água fria
Gastei dinheiro à toa
Não planejei
Me ferrei
Caí no buraco
Me ralei
Tomei atitudes impensadas
Insanas
Me frustrei

Julguei mal
Tirei a capa pelo livro
Só olhei pro meu umbigo
Meti os pés pelas mãos
Dei voltas em rodamoinho
Murro em ponta de faca
Idas e voltas em labirinto
De burrice
De tolice
Imaturidade
Procrastinação

Mas para o todo mundo lá fora
Minha vida foi uma avalanche de sucessos
Sou Sã
Não preciso de divã
Sou diva
Prodígio
Sortuda
Raçuda
Tenho uma trajetória incrível
Sou tudo que você gostaria de ser                                                                                                                                            E pensa que eu sou…
Sem saber quem sou eu na minha
Integralidade

Por Bianca Latini


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Fogueiras Contemporâneas

Por: Priscila Menino

Fogueiras contemporâneas

Alguns anos e anos atrás, certamente eu teria minha fogueira.
Fogueira essa que criaram para me queimar por querer ser fiel a minha autenticidade.
Costumo pensar que ser da galera das bruxinhas sempre foi mais divertido.
Sempre pude dançar na chuva.
Pude cantar a plenos pulmões aquela canção favorita.
Pude saltar.
Pude falar palavras de baixo calão.
Pude me permitir.
Não eram os justíssimos espartilhos que prendiam aquelas mulheres, era a crítica e julgamento da sociedade.
Hoje não temos espartilhos, mas há quem queira ainda nos colocar mordaças do moralismo exacerbado.
Não temos mais fogueiras para matar as supostas bruxas, mas temos dedos em riste para pré julgamentos e ofensas que podem transformar ânimos e esperanças em cinzas.
Mas, sejamos realistas: não conseguiram nos queimar há anos atrás e não será agora que devemos ceder. Eles não podem! Não dê esse poder a eles!
Continuemos gargalhando alto, andando livremente por ai, deixando a leveza da nossa essência nos guiar.
Confiemos! Se continuamos a causar incômodo, é sinal de que estamos no caminho certo.
Continuemos livres.
E se houver fogueiras, que o fogo seja de tanta emoção e amor pela vida, que explodem em nossos corações.

Por: Priscila Menino


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O JORNAL DAS COISAS AMENAS

Por: Diogo Verri Garcia

O JORNAL DAS COISAS AMENAS

Um jornal oficial que publicava
Não mais as leis,
Tão só notícias: e era devotado às amenas.
Se houvesse proposto uma estrofe e a ele quisesse apor,
Publicado seria,
Tal como a letra de um compositor
Poderia.
Só há restrição para coisas pequenas.

Que assim compreendem, nem pelo quantum
nem pela forma do verso,
Não por termos qualificativos ou quão são expressos.
Sequer se valha do número de caracteres.
Por exemplo, são pequenas as frases que falam maldades;
São ricas e aprazes, quando bem tratam as mulheres.

Se não me basta ser tão explicativo,
Seja aprazível e compassivo
e publicado serás sem reparos ou custos.
Fale teus causos bem a olhos vistos,
Sem termos complexos,
como cnidoblastos ou nematocistos,
ao descrever tal como te enroscas,
feito em tentáculos, em teus amores injustos.

E quanto a teus olhares congestos,
Se temem que tuas palavras os deixem expostos,
Já de tão exaustos e indispostos
De repaginarem bens aquestos.
Leia em nosso FAQ os termos propostos,
Escreva sem nome
E haverá privacidade em nossos esforços,
Para que nenhum de teus amores identifiquem autores
em teus manifestos.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 22 de dezembro de 2019)


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Por: Raquel Alves Tobias

Muita gente parecida
Muito ódio de si mesmo
Que muda de endereço
Com rímel ou cavanhaque
Esperei uma vida
Para que as coisas mudassem
Muda de casa, muda o cabelo
muda de cidade
muda o corpo inteiro
e espera…
O sol entra pela janela
da mesma forma
O vento dança com as palmeiras
e a criança chora
enquanto os olhos ardem
Dedos próprios se entrelaçam,
se abraçam,
Tudo se move em detalhes.
Enquanto a espera,
continua inacabada.
Então por que desejo, você corre quando te beijo?

Raquel Alves Tobias

Por: Raquel Alves Tobias


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Epifania

Por: Mauricio Luz

Epifania

A carícia das folhas na pele
A canção do vento entre os galhos
O suave perfume das carambolas
Que formam constelações nos ramos acima de mim
Tudo me leva a Você
Os pés sentem a grama macia
Dedos respeitosos acalentam o tronco da árvore
Cujos frutos se oferecem ao suave toque de minhas mãos.
Você se mostra abundante, vibrante, sem pudores,
E apenas pede em troca,
A mesma entrega em mim.
A vida sorri e canta em cada canto
E os pássaros convidam minha alma a dançar irrestrita
Tudo me lembra a Você.
Das formigas que se aproveitam da abundância no solo
Ao Sol que a toca minha pele
Você está em todo lugar
Por que fui tão longe lhe procurar
Quando esteve sempre tão próximo de mim?
Fecho os olhos e finalmente vejo.
Presente é o único tempo a ser conjugado
para sentir a sua presença
E o poder do silêncio
Que grita sua mensagem
Através das finitas coisas que formam o infinito
Como o Oceano profundo
É formado pela Unidade
de minúsculas e tênues gotas.

Por: Mauricio Luz


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Meu Sonho de Voar

Por: Priscila Menino

Meu sonho de voar

Sempre tive uma atração pelo céu, seja em contemplar a beleza das nuvens e o contraste com a imensidão azul, ou seja, em ficar horas e horas olhando pela janela do avião e observando a paisagem ficando tão pequena, ao ponto de parecer uma maquete que fazíamos na fase escolar.
Certa vez, em um súbito impulso de coragem, resolvi saltar de pára-quedas. Obviamente não avisei para meus pais, dirigi até o local do salto, coloquei aquela parafernália toda que nos garante as mínimas condições de segurança, mandei mensagem para meus familiares com pequenas orientações sobre a criação da minha filha e entrei no avião para me dirigir ao local do esperado salto.
Enquanto eu via que a distância percorrida ia aumentando e as coisas lá embaixo ficando pequenininhas, o medo surgiu na mesma proporção e pensei: “o que diabos estou fazendo aqui, tenho uma filha pra criar”, paralisei.
Pessoa após pessoa ia saltando daquela porta aberta, a qual somente se sentia o vento e não se enxergava nada, até que chegou minha vez.
Saltei, meio torta por tentar ainda buscar um piso que sustentasse meus pés, o que foi em vão e somente me trouxe ainda mais desespero.
Certamente se eu tivesse a opção de voltar dali, eu o teria feito.
Mas quando abri os olhos e a explosão de adrenalina parecia ter estabilizado, contemplei aquela cena tão linda, aquela sensação de liberdade que marcava de forma tão leve aquele momento.
Ali no ar eu vaguei meus pensamentos e me deixei levar naquela onda de paz que me atingiu em cheio.
Penso então em quantas vezes congelei por medo e não arrisquei saltar de cabeça em um sonho.
Que esse dia sirva de lição para mim, me lembrando sempre daquela estranha e vigorosa sensação da liberdade de não ter amarras, de me permitir desprender meus pés das certezas do chão, de me despentear e perder o receio do inesperado.
Se eu soubesse que ia ser tão bom, não teria esperado tantos anos para esse dia, eu teria (literalmente) me jogado antes.

Por: Priscila Menino


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BALAIO TORTO DAS RUAS

Por: Diogo Verri Garcia

BALAIO TORTO DAS RUAS

Dedico
Aos que emburrecem, ao viver o amor que eu não vivi.
Ao refrasearem a canção que não obrei;
Os refrões que, sem percussão, cantavam.
Ao criticarem os beijos sinceros que, beijados dela, dediquei,
Mas que eram pouco mais, para caminhar nos passos
Que, falseantes ou falseados,
mesmo importantes, não prossegui.
Pois, ainda das razões,
pouco sei…

Cumprimentariam-se todos,
Os que não deixaram a alma aberta e se expuseram;
Os que aceitaram a paixão correta e se engalfinharam.
Em uma rua deserta, beberam e bradaram
Porque por um instante feliz, eles foram.

Foram os haveres…
Por evitarem causos, sem querer anuências, como eu perdi.
Talvez por retinência de mudar tanto ares, como mudei.
Ao colecionar olhares, posto vivi.
Conservaram-se vulgares; nisso avisei,
Pois temem ser cotidiano,
e se atrapalham,
Ao pretenderem ter nobreza sem ter lastros de rei.

Mas isso é tão engano,
Que soa como um balaio tonto e torto,
Um louco falante nas ruas.
É como um enxadrista que se diz atleta.
Feito confundir copista e poeta.
Como esperar que a hora exata
Se enunciasse à alma;
nos notificasse, desse alerta.

Mas se em algo caminharam triste, tenho certeza.
Pois tudo que se inicia, ao fim se achega
E atormenta a calma, que se encantara
A ponto de não prever, tal como eu vejo
Que todo fim é o mesmo, quando acaba.
Ao menos felizes, todos foram.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 09/11/2019)


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A criança em mim

Por: Bia Latini

A criança em mim

Não é sobre ser infantil
É sobre não deixar de ser criança
É sobre escrever as linhas que o coração dita
Cantar, marota, aquela canção
que não sai da cabeça e faz os pés sorrirem de tanta inquietação
É sobre não ter juízo, nem reprimenda, muito menos amolação
Fazer piada de tudo
Jogar bola de gude na pista da rota da vida
Soltar pipa, voar a criatividade, tecer a imaginação
É sobre não perder a essência do gosto da coisa…coisa doce e brilhante, feito maçã do amor
É sobre banhar-se de chuva de risadas que despenca sobre o vestido rodado, faz gargalhar e depois encarar a rouquidão
É sobre ter asas e super poderes, mesmo depois de saber que os heróis ficaram congelados nos quadrinhos
É sobre viver as possibilidades do ser que não se esgota de maneira estanque
Viver cada dia de um jeito: um dia sendo professora, no outro cozinheira de bolos, no outro médica de peixes ou quem sabe astronauta ou perfurador de sonhos…
É sobre não ouvir o que os outros pensam
porque a tua alma fala tão alto contigo,
que não é possível escutar nada mais
É sobre brincar até dizer chega,
até as pestanas começarem a querer fechar, tipo cortina pesada
E ir deitar exausto, de pés já limpos e cabelo molhado
Talvez com alguns arranhões e algumas cicatrizes
Mas feliz por ter vivido o dia como se só existe ele.

Por Bianca Latini


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