A HORA DO SÓ
Postado no 25 de agosto de 2025 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

A HORA DO SÓ
Quando apressa-se em achegar a madrugada
Em que me finjo aos outros desfraterno,
Pois não há mal que faça um ruído, um nada.
Permaneço só, privado da distração malfamada,
Pois é nesta hora apenas
que tenho no silêncio um subalterno.
Diferente de quando toca a alvorada
E tudo mais insiste em dizer: – é dia!
O zelador que canta, o cão que persiste e ladra,
Até o vigário que, sem culpa alguma, Deus lhe valha,
Faz em minha porta romaria.
Mesmo quem nunca, por razão alguma, chama,
Insiste em fazer-me atender telefonema.
Assim, as horas voam, com o sol lá claro,
E eu, já tão aprazado,
Aguço-me em ver a distração que é a menor dentre as pequenas.
Por isso, quando tudo se cala
E o céu sente sono,
Anoto: ter café vale igual a ter palavras.
Estando madrugada,
Sinto-me como se um minuto fosse longo; que a pressa desse abono.
Quando antes, ainda claro,
Cada segundo me calava.
(Rio de Janeiro, 09/12/19, 2h05)
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Des-EAT-se
Postado no 20 de agosto de 2025 Deixe um comentário
Por: Raquel Alves Tobias

Des-EAT-se
Apesar da sede
Apesar da fome
Apesar da angústia
De quem se come
Apesar do freio
Apesar do medo
Apesar do cheio
Parido do ontem
Não se pode numerar
Incontáveis toneladas
Que definem o apesar
Pois no dedo ficará
O desejo que na ponta
Gostaria de pesar
Apesar deles
Apesar de tudo
Precisamos ser nós
Que desatam
Desate-se.
Des-EAT-se.
Por: Raquel Alves Tobias
Créditos da imagem: Freepik
Prisão
Postado no 17 de agosto de 2025 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Prisão
Não tem paredes a serem quebradas
Ou grades a serem partidas
Não tem portas a serem rachadas
Ou celas escurecidas
Mas até onde chega a mente
Até onde a vista alcança
Não há prisão mais inclemente
Que a ausência de esperança
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Unsplash
Coração
Postado no 14 de agosto de 2025 Deixe um comentário
Por: Bia Latini

Coração
É ele que guia meus passos silenciosos
Meu caminhar de infinitude
Meu trilhar de evolução
Por vezes aperta, machuca, corrói
Em outras, salta, exulta, alegra-se
explodindo em gratidão
É forte e majestosamente rico
das respostas que preciso:
o perigo que pressinto
o caminho que desvio
o rio em que decido me banhar
É absortamente esperto
Para buscar o rumo que acha certo
E a qualquer momento
em outra direção, dar guinada para virar
De alguma forma sinto o seu ritmo
E os sinais dos segredos
que ele quer me contar
Aprendi a não ser teimoso
A dançar a dança em que pretende me guiar
Entendi que coragem é agir com ele
E não contra ele, ao ser pretensiosamente audacioso, rancoroso e danoso a mim mesmo
Agora fecho os olhos
para enxergá-lo melhor
Pergunto, conecto, respiro
Busco uma ligação direta
Sem interferências
Sem ruídos
Sem zumbidos
Para haurir no que preciso
Para luzir no meu atuar
Por Bianca Latini
Créditos da imagem: Unsplash
Tá tudo bem
Postado no 11 de agosto de 2025 Deixe um comentário
Por: Priscila Menino

Tá tudo bem!
A verdade é que todo mundo já passou por um daqueles dias que não acordamos de bom humor e a vontade real é que a cama se transforme em um casulo de proteção. Falta a animação, falta a disposição e sobra preguiça.
E a culpa que sentimos quando estamos nesses dias, nos deixa ainda mais angustiados, afinal, a gente acredita ter vindo programado de fábrica pelo cosmos para produção em tempo integral, ou qual seria a nossa finalidade?
Mas não se deixe enganar por essa overdose de informações e exigências que recebemos todos os dias, não se cobre tanto, está tudo bem! E até quando não está tudo bem, também está bem, amanhã será um dia melhor.
‘Tá’ tudo bem se permitir não estar com a animação habitual de uma adolescente efusiva, está tudo bem ter vontade de gritar, está tudo optar por usar o jeans velho favorito, comungado com aquela camiseta surrada que você tem um apego emocional, está tudo bem se permitir não estar com a sobrancelha, cabelos e unhas impecáveis.
Por favor vamos parando com essa necessidade de acharmos que precisamos sempre sermos ótimas companhias e estamos alegres o tempo todo, a gente pode se dar o luxo de ficarmos reclusos no nosso marasmo, recarregarmos nossa energia.
Quando eu penso sobre isso, eu gosto de lembrar dos jogos de luta que eu jogava no vídeo game quando jovem (saudades Tekken 3) e já deixo antecipadamente registrado aqui minhas vênias àqueles que não estão habituados a esse mundo geek e podem não entender perfeitamente essa analogia.
Imagino que nesses dias que estou mais desanimada, minha barrinha de vida está no limite anterior ao game over, por isso, eu preciso de descanso e solitude pra recuperar meu ‘life’ e voltar ao jogo com força total para enfrentar os desafios e vencer as lutas.
Portanto, reafirmo: está tudo bem, não se cobre tanto! Amanhã será um novo dia, se permita voltar ao jogo com a força revigorada e não desista de sempre se preparar para vencer e evoluir para os próximos níveis do jogo da vida.
Por: Priscila Menino
Créditos da imagem: Pexels
VERMUTE E JAZZ
Postado no 8 de agosto de 2025 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

VERMUTE E JAZZ
Quando vi que chegava tarde,
Na verdade, era bem cedo.
Quando soube que a voz
era sinceridade,
Corri ao encontro; não houve desterro.
Sem perceber que o dia de penumbra
na verdade, era sol.
Ao não aquiescer que o sustenido maior que tocava
Era menor bemol.
Quando vi que o tudo o que se passava,
Passava e pouco se agradecia.
Ao notar que as trevas que tantos se queixavam
Era o mais lindo dia.
Notei que a vida que adiante passava,
passava diferente
Entre gente que sem refrão já chorava
E os sensatos felizes que se punham contentes.
Percebi que o jeito calado que pouco olhava,
Era de contentamento.
Notei que o momento que espreitava
Já aguardava por um tempo.
Um momento de brisa entrecortada,
Não em frente, mas tendo algo do mar.
Tendo a razão da maré que se achegava
Já querendo ficar.
Observando um pouco de paz, em semitons infiéis.
Como uma alvorada em jardim.
Esperando um drinque de vermute e gim
E um piano de jazz.
(Diogo Verri Garcia, setembro de 2019)
Créditos da imagem: Unsplash
Goteira
Postado no 5 de agosto de 2025 Deixe um comentário
Por: Raquel Alves Tobias

Goteira
Pára e escuta
A gota e o som
Membrana que rompe
A gota e o som
Respinga, se espalha
A gota e o som
Atinge e escorre
A gota e o som
Respira e acalma
A gota e o som
O vento que toca
A gota e o som
O frio na carne
A gota e o som
O toque na alma
A gota e o som
A pressa da mente
A gota e o som
O filme da vida
A gota e o som
Encobre o vazio
A gota e o som
Descobre o amor
A gota e o som
E tudo se molha
A gota e o som
Se enche, transborda
A gota e o som
E logo se sabe
Sua velocidade
Você tem o dom
Da onda de vida
Da gota e o som
Por: Raquel Alves Tobias
Créditos da imagem: Unsplash
Ignorância
Postado no 31 de julho de 2025 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Ignorância
A um sábio perguntei
Como o coração dominaria.
Por violência ou magia
O que fazer eu teria?
Sem olhar para mim
Ele me respondeu:
“Como tantos no mundo
Você ainda não entendeu”
“Se não pode o navegante
Mudar o rumo dos ventos
Como pode você querer
Dominar seus sentimentos?”
“Faça como o marinheiro inteligente
Ou a gaivota que no ar flutua
Ajuste as velas! Solte as asas!
Apenas sinta o vento, e flua!”
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Pexels
Onde Existo
Postado no 28 de julho de 2025 Deixe um comentário
Por: Bia Latini

Onde Existo
Eu existo onde o amor está
Depois da rua
Onde o entusiasmo faz a curva
Eu canto onde há lirismo
Onde a brisa da poesia
acaricia o meu rosto
Macia
Suave
Purpurinante
Eu habito onde a rotina não
Assentou assoalho
E descanso debaixo do telhado
Da esperança
Aquela de criança
Que tudo pode
E que de tudo quer brincar
Aquela que não se cansa
De ser tola
Insana
Devaniante
E que em absolutamente tudo
Pode acreditar
Sem limite
Sem ouvido para palpite
De adultos carentes
Poluentes
Corrosivos
Frustrados
E, principalmente, sem
Imaginação para sonhar
Eu borbulho fertilidade
E me travisto de profusão
Quando sou livre
Quando tenho espaço para acoplar minhas asas nas costas
Asas grandes, largas
De Ser que deseja
Içar novos voos
Todo dia
Toda hora
A cada minuto
A cada longa perpetuação
Da novidade que virou previsível
E ainda que eu faça rota igual
Eu voo quando o faço de maneira diferente
Trocando as cores das asas
Ou trocando a mente do pássaro
Ou, ainda, achando novo acorde
Para o seu coração
É nesse lugar que eu moro
Nessa atmosfera respiro de verdade
Nesse espaço minha existência se faz
Latente
Presente
Desperta
Acordada
Preservada
Perspicaz
Por Bianca Latini
Créditos da imagem: Unsplash
A menina do velho tênis amarelo
Postado no 25 de julho de 2025 Deixe um comentário
Por: Priscila Menino

A menina do velho tênis amarelo
Naquela casa da esquina mora uma menina. Otimista como Poliana, ela cantarola desafinada, enquanto caminha com seu velho tênis amarelo.
Aquele tom atípico do seu tênis, reluz quando os raios de sol batem, ilumina onde quer que passe.
Seus olhos profundos e castanhos transmitem um olhar de acalento e o jeito desengonçado de caminhar é tão singular, é leve.
Pobre menina, um dia tiraram seu tênis amarelo, a luz que ele irradiava, incomodava aos que não gostavam do seu brilho.
A menina então parou de passar cantarolando, agora ela mantinha um olhar vago, faltava aquela graciosidade desengonçada, até no por do sol já não havia mais aquela aquarela costumeira.
Foi então que um dia a menina recebeu a visita inesperada de uma borboleta em sua janela. Observou atenta a leveza com a qual a criaturinha batia suas asas e a forma como a luz era translúcida em suas asas.
Curiosa como é, observou que a borboleta voou e pousou em um girassol igualmente amarelo reluzente.
Nesse momento, a pequena menina se deu conta de que o brilho e a magia não estavam em seus tênis amarelos, muito mais do que isso, o brilho irradiava do seu sorriso e da esperança que trazia com suas canções para aquela velha redoma da cidade.
Outro dia passei na rua, abracei a pequena grande menina e pedi que nunca deixasse apagar novamente seu rastro de cor amarela, pois ele me inspirava e trazia paz.
Ela, surpresa, me disse com um tom de voz doce e gentil que eu e ela somos uma só, pois ela era a criança interior que habitava em mim. Mais surpreendentemente, pediu-me ainda que eu não me esquecesse da simplicidade de colocar meus velhos tênis amarelos e me permitir dançarmos juntas.
Após esse dia, nos encontramos sempre nos finais de tarde para contemplarmos mais um por do sol juntas.
Por: Priscila Menino
Créditos da imagem: Unsplash
