Os Meninos de Vila Isabel

Por: Renato T. de Miguel.

Eram cinco horas e acordei com as primeira luzes da manhã, mas não foram elas a razão do meu despertar. Era aquela sinfonia de caos, sons tristemente corriqueiros em Vila Isabel, na zona norte carioca. Rajadas, estampidos, estouros; parecia que todas as armas do morro e da pista foram lustradas na madrugada e usadas pela manhã. Do meu quarto, deitado, onde a tênue claridade entrava em pequenos raios com o sopro vento que ondulava as cortinas, soava como uma guerra recém deflagrada.

Das grandes guerras sobre as quais nos contam os livros, sabemos que eram feitas de caos e terror e da bravura dos homens que nelas lutam, sempre qualificada pela queda em combate. Quando as guerras acabam, e voltam aos seus lares os generais e os corpos amortalhados com as cores da pátria, ficam para trás os horrores e ali e à frente a glória dos feitos narrados pelos vencedores. De outro lado, ao largo do esplendor da vitória, seguem os traumas que resultam do peso da guerra; nações entram em colapso, famílias são desintegradas, veteranos são deixados à sombra da depressão, da paranóia e da amargura pelos amigos que sucumbiram às balas dos canhões. Para estes, nada resta a senão a superação.

As guerras carregam em sua trilha através do tempo essa dualidade, a glória e a infâmia, o herói e o vilão, o fim e o recomeço. Mas a dualidade que coroa a guerra, romantizando-a na nossa memória, é um fruto do seu fim. Só se pode colher as medalhas e superar os rastros de sangue quando a matança termina.

Em Vila Isabel ela nunca acaba.

Os disparos se encerram e se perdem no eco, mas a guerra segue. Os soldados de ambos os lados retornam pra casa ao fim da escaramuça. Das vestes o sangue é lavado e a farda é estendida na janela, à espera de ser vestida novamente dali a alguns dias.

Mas era sábado. O relógio eventualmente marcou dez horas da manhã e não se ouvia mais o cruel ribombar de uma FAL 7,62, apenas o ronco do motor dos carros na Rua Luís Barbosa, o chacoalhar dos jambeiros ao sabor do vento e o transitar normal dos pedestres. No horizonte, entre a Av. 28 de Setembro e o Morro dos Macacos, o céu era enfeitado pelas pipas de meninos e meninas dispostos a se divertirem um pouco naquela manhã fria de sol.

Porque aquela era uma velha guerra sem fim, portanto uma guerra sem grandes traumas. Perdiam-se vidas, sim, e as viúvas choravam, muitos filhos cresciam sem pai ou mãe, mas aquelas eram pequenas cicatrizes em um gigante já habituado à dor e ao verter do próprio sangue. Não há nada a se superar, salvo a nossa insistência em nos lembrarmos de quem somos e de onde estamos.

Ali, olhando pela janela, contemplando as pipas que subiam e desciam, tentava não pensar sobre a loucura daquilo tudo. Não parece haver resolução que não passe pela atitude e vontade dos grandes homens, aqueles que guardam as chaves do cofre e dão as ordens nos grandes quartéis. Talvez a solução mais sábia para nós, gente comum, seja esquecer a noite anterior e olhar para o céu, como os meninos de Vila Isabel.

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