As Janelas e os Vitrais

Por Renato T. de Miguel

No mundo da lua, vez ou outra me via pensando em Camus. Ele dizia que o homem chega aos trinta e assim afirma sua juventude, ao mesmo tempo em que se põe diante do tempo e reconhece ali o seu inimigo; trata-se da morte, que se agiganta à sua frente e ordena: viva. Mas o caminho se esvai. Crescem as ervas em meio à estrada; árvores secas tombam no horizonte, escondendo a passagem.

A rebelião contra o absurdo é necessária. Do contrário, resta o suicídio filosófico, o abandono da razão. Seja como for, não há espaço para felicidade, a felicidade das grandes histórias… Há apenas…

Uma sombra? Não, eram as mãos dela abanando meu rosto, despertando-me do devaneio que o silêncio provocara.

– Ei, você está aí? O último capítulo vai ficar pra amanhã… E você, cansou de olhar pro teto? – Perguntou ela com um meio sorriso, os olhos grandes contemplando os meus, num brilho de curiosidade que me deixava sem graça. Ela me encarava feito uma criança que vê as ruas através das janelas fechadas, e em meio aos prédios enxerga o reflexo das próprias feições, distorcidas nas imperfeições e poeira da vidraça.

E eu estava ali parado, fitando-a como um homem de pouca fé que contempla, quieto, os raios filtrados pelos vitrais de uma igreja. Nada disse, apenas devolvi o sorriso torto. Deitada sobre a cama com as pernas estendidas uma sobre a outra, tirou os óculos, repousou sobre a escrivaninha o livro que segurava e afastou as cobertas de lado. Seguia me olhando em silêncio. Aguardando.

 Nunca fui versado nos dialetos não verbais que toda gente aparenta entender tão bem. Isso parecia cativá-la. De todo modo, fui até ela e deitei ao seu lado, beijando-lhe o rosto. O riso fácil e os maneirismos afáveis vibravam como um chicote. Ela parecia feliz e sendo assim eu também estava. Porque pra mim tudo era muito simples, mas para ela tão diferente (às vezes eu penso que sou um menino, esse menino que ela sabe que eu sou).

Fazia frio e eu me aquecia com ela. Algo a fez sorrir de novo e eu não sabia o que dizer.

– Seus dentes são muito brancos.

Ela gargalhava.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: