OS MIRADORES
Postado no 10 de junho de 2025 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

OS MIRADORES
Havia um monte em que todos iam.
E a um prédio mais alto, feito um mirador,
Para ver a altura em que a chuva molhava,
Pouco lhes importando
se quanto mais alto a friagem chegava,
Pois o pisco causava calor.
Nela, meus olhos encontravam o frio.
Entregando um clima nem um pouco mais tenro,
de um ar seco, sem aragem,
causador de arrepio.
Simples, mas de incômodo agradável, ameno.
Era uma tarde já glaciada,
Prometedora de um momento gelado,
em Santiago.
E lá do alto,
Viram o sol que, por pouco, tornou-se a render
Por uma lua que se vestiu descoberta.
Deixou de esplender,
para se eclipsar.
Olhando a todos,
Deixando a multidão parada,
Os miradores cheios,
as ruas desertas.
Agasalhavam-se todos tão menos que eu.
Mesmo de alma calorosa, quem mais precisava.
Mas vi maratonista chileno que pela noite correu
Em trajes próprios de quem do frio zombava:
Louco ele; o que não faço eu,
posto que me resfriava.
No frio, os passos são enxutos,
de um caminhar apertado
em um dia frígido,
e de um anoitecer ainda mais gélido,
quanto mais alto…
Completando o tempo que, se deixar, quase neva,
Logo ali, bem ao lado,
Em Santiago.
(Diogo Verri Garcia, Santiago, 06 de julho de 2019)
Créditos da imagem: Unsplash
Postado no 7 de junho de 2025 Deixe um comentário
Por: Raquel Alves Tobias

Só aprende a amar
Quem foi verdadeiramente amado
Todo o resto é extensão invasiva
De eternos ciclos inacabados
Quando juntos dividem
Seus corpos num copo
Num gole, a dúvida.
No outro, o amargo.
E seguem assim:
Metade vazio
Metade a vácuo.
Consumindo a alma
Na saliva do prato.
Por: Raquel Alves Tobias
Créditos da imagem: Unsplash
Viva o circo – Parte 2 – Algo sobre nós…
Postado no 4 de junho de 2025 Deixe um comentário
Por: Bia Latini

Viva o circo!- Parte 2 – Algo sobre nós…
Como deixamos sair esta voz que há dentro de nós?
Esta Voz que sai rouca, fininha, tímida, mansinha
E às vezes nem sai?
Essa voz potente que veio brotando na gente
Crescendo que nem semente
Muitas vezes nem se sente…
E quando se percebe
Estamos com uma energia acumulada, uma insatisfação, uma busca desenfreada
Uma necessidade de fazer coisas
E nada satisfaz!
Como libertamos essa leão criativo que quer rugir?
Essa borboleta do tamanho do mundo, com asas imensas e coloridas, que quer valsar pintando pelos ares da vida?
Como desabrochamos nossas abotoaduras, para deixarmos sair tamanha potência que cresceu em nós?
Um libido, um algo proibido, um estrondo, um cupido, algo grande demais…
Sugeriram-nos ser simples, discretos, a guardar nossas opiniões nos bolsos, a calarmo-nos, a ficarmos na nossa e a não pagarmos mico
Daí a gente não paga mico, o mico cresce e vira gorila enjaulado
Enclausurado
Na masmorra do tanto faz
Libertemos nossos gorilas, nossas borboletas, nossas bailarinas, nossos malabaristas, nossos palhaços e o circo inteiro!!!
Ergamos esta lona cansada,
Agora mofada, desbotada
Deixada pra trás
O circo continua vivo em nós!!
Ele sempre esteve!
É o nosso Eu criativo, sinestésico
Nosso Eu artista
Que tira uma carta mágica da cartola
Pinta uma tela em branco
Desfaz qualquer quebranto
Chora e ri sem nenhum espanto
Morre e vive
Nasce e morre
Conta, reconta, refaz
Reconstrói
Às vezes destrói…
Mas faz parte do processo….
No final de tudo, a lona está de pé!
Cheia de colorido e diversidades
Com muita história pra contar, muitas jornadas, itinerários, excursões pra fora e, principalmente, pra dentro
Há muita vida no epicentro do picadeiro da nossa essência pulsante
Viva o Circo!!
Por Bianca Latini
Créditos da imagem: Freepik
O QUE SE VÊ SÓ NOS OLHOS
Postado no 30 de maio de 2025 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

O QUE SE VÊ SÓ NOS OLHOS
Sobre os olhos que não falam
E imaginam tudo da falsa verdade.
Não serenam, mas se calam,
Repercutem agudos, mudos,
esclarecidos, sem sinceridade.
Despejam sobre outros olhos, sem calma, todo rancor,
Tudo de súbita vez.
Transcendem a olhares agressivos,
Aqui já apreendidos, tal como já perceberam vocês.
Se os olhares não fossem surdos,
Ouviriam os sons do mundo,
O que há de real a ser reconhecido.
Sem julgares, fossem só olhares,
Olhariam, menos vulgares, mais apercebidos.
Menos desaforados, mais envaidecidos.
(Diogo Verri Garcia, Rio, 12/11/2019)
Créditos da imagem: Unsplash
Fio de Prata
Postado no 27 de maio de 2025 Deixe um comentário
Por: Valéria Shirá

Fio de Prata
Abre o Palco do Arco presente
Inaugura a Existência com sua oculta Aparição
Seu Alo metálico
Imperceptível cintila
Agulha prata
Tecendo as linhas na imensidão
Sutil e delicada revelação
Aliança fina com o Destino
Consorte brilhante
Poetiza da inspiração
Aquela que compõe passos, caminhos, pontes
Constrói argumento
É fundamento em ação
A Bela Negra move-se por trás dos véus da noite
Seu poder latente é sensibilidade
Escolha e liberdade
Vibra majestosa
Entre envolventes aromas
Sons, vozes, danças transparentes
Mágica atuação
Misteriosa Ilumina!
Na reclusão sábia da sua escuridão
Desperta nas águas
da Terra o movimento
Invisível
Intenção
Ela está onde não está
Recolhida e singela
Emana a sabedoria feminina
Dos Povos do Cėu
Deuses amantes
Histórias da Criação
Nasce
A Nova
Cresce
Carrega
Gera em seu fino ventre pequenas sementes de gratidão
Valéria Shirá
Créditos da imagem: Unsplash
O tempo do Tempo
Postado no 23 de maio de 2025 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

O tempo do Tempo
Tão cheio é meu dia
Tão vazio ele parece
Tão cheio de boletos, obrigações, tarefas
Tão vazio de sol, flores e poesia
O Tempo me encara
Pergunta a mim quando darei tempo
Ao tempo que realmente quero levar
“Em breve!”, respondo, “Em breve!”
E o Tempo apenas sorri entristecido
Pois bem sabe ele que de tarefa em tarefa
De boleto a boleto
Apenas preencho o tempo
Com um enorme vazio
Tão cheio é o meu dia
Tão vazio ele parece
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Freepik
Início, meio e fim
Postado no 20 de maio de 2025 Deixe um comentário
Por: Raquel Alves Tobias

Início, meio e fim
Um dia nasceu uma rosa, bela e iluminada.
Viveu num planeta árido onde tudo era escasso. Lidou com pragas, chorou por cortes. Passou por secas e por enchentes.
Por vezes ficou à sombra do que cresceu ao seu lado. E assim, sem luz, já não produzia a própria energia.
Seu perfume doce não mais pairava no ar.
Sobrevivia do resto da rega da vizinhança. Estava cinza, contaminada e havia perdido quase todas as suas pétalas.
Mas, um dia chegou um jardineiro. A viu, ali, em profundo desespero.
Contaminada, machucada, despetalada. Envergada e em queda para o solo seco e desnutrido no qual se encontrava.
Ele encheu os olhos de lágrimas e acariciou suas poucas pétalas restantes. Se abaixou, e de joelhos, respirou a sobra do seu perfume. Ainda era doce e fazia bem ao coração.
Desse dia em diante passou a regá-la, selecionou os melhores adubos. Limpou em volta o que lhe cercava e abriu espaço para que ela visse e fosse vista.
Assim ela pôde sentir a luz integralmente em suas folhas. Percebeu sua limitação por ter vivido apenas de finos feixes perdidos entre as sombras.
Aquilo era assombrosamente maravilhoso. Voltou a produzir sua própria energia. Passado algum tempo, teve suas pétalas revigoradas. Novas ocuparam o lugar das cicatrizes que as velhas deixaram ao cair. Já era possível sentir o seu perfume a longas distâncias. Aquele que adocicava o coração.
Certa vez o jardineiro lhe sussurrou: você ainda está muito longe do que pode ser. E ela ruborizou ao modo das rosas.
Aprendeu a traçar caminhos, a sorrir.
Foi amada e aprendeu a amar.
Está crescendo e quer se manter a florir.
Nesse momento, regada do perdão de si mesma, entendeu a vida que nasce quando se persevera.
Aprendeu a dar início, meio e fim.
A surgir e ressurgir do vazio.
A viver.
Você não desistiu.
Você sorriu.
Você amou.
O amor não desiste.
Ele ensina a voar.
Por: Raquel Alves Tobias
Créditos da imagem: Unsplash
OS MALABARES
Postado no 17 de maio de 2025 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

OS MALABARES
O que está a ser reservado, será.
Não há flores, não há guerras, nada que possa abrandar.
O que tende a ser certo,
malfadado não se faz e não se fez.
Acontece em que pese a força,
Mas se reforça na prece.
Jaz a paz, mas chega a vez.
Só não sei se o acaso cobiça algo em troca,
Se joga-nos tão ao alto quanto malabares,
Que não conserta-nos, e desconcertante, entorta-nos.
O que há em ser destino se não um cassino em que nos aposta a sorte?
Tanto infirma-nos, posto que encaminha-nos:
Chega a dar tontura,
em corporatura de cadeira em garrote.
E segue em todos a comum visão do inquieto,
Que tende a olhar mais o pranto
Que não explica ao certo,
Que não acha o encanto,
Mesmo que seco,
Mesmo que não doa,
Não é feliz pois deixou-se
(em ceguidade e renitência) sucumbido.
E desinibiu-se na teima de um léu descaso.
No que é fé ou afincado passo,
Segue o andaço, mesmo abatido.
(Diogo Verri Garcia, Rio, 10 de setembro de 2019)
Créditos da imagem: Freepik
Im Pressão
Postado no 14 de maio de 2025 Deixe um comentário
Por: Valéria Shirá

Im Pressão
Essa sou eu
Na pele que encobre e na vida que escorre
Entre Carne e músculos
Entre dutos e tubos
Poros e pelos
Elasticidade e estruturas
Fáscias e ossos
Pulsa por dentro em função
Contínua, ativa
Entre veias e artérias
Sangue e água
Volume e espaço
Percorre o vaco
Descendo e subindo
Da assimilação a evacuação
Me habito sorrateira
Desejo me preencher por inteira
Para onde me levo
Quem significa?
Em qualidades e diversidades
Transporto,
Algo desconhecido
Estranho não se revela
Em meio a tanta orgânica massa
O que me sobra de habitação?
Não me vejo
Em linha
Me perco
Entre transpasses e passes
Quem respira?
Quem conduz?
Quem é conduzida?
Em contínua Pressão
Se move…
Perceptível
Im Pressão
Ser Infinito
Por: Valéria Shirá
Créditos da imagem: Freepik
Quando Estiver, Esteja
Postado no 10 de maio de 2025 Deixe um comentário
Por: Bia Latini

Quando estiver, esteja
Quando estiver, esteja
Às vezes a gente fica, sem permanecer
Doa, sem entrega
Mergulha, sem molhar
Atira-se, com os pés presos na bola de ferro
Beija, sem sentir o gosto dos lábios
Fala, sem dizer
Agradece, sem gratidão
Perdoa, sem liberar a mágoa…
Parece muito óbvio
Mas o óbvio precisa ser dito, compreendido, desenhado, sentido, vivido, vivenciado
Não é sobre dar rasante
É sobre imergir e SER a própria imersão
Não é sobre VER o machucado
E, sim, SER a ferida, o corte, a ardência, a potência da latência
Para, no processo de cura,
Poder, enfim, SER o amor
E não mais esperar por ele….
Por Bianca Latini
Créditos da imagem: Freepik
