Às vezes

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Por: Tadany Cargnin dos Santos

Às vezes, sigo certeiramente o caminho
Outras tenho sentimentos tortuosos, estagnante redemoinho
Às vezes, desejo fielmente peregrinar
Outras sou liberdade, pecados tenho que inventar
Às vezes, sou uma produtiva imaginação
Outras um desleixo, letargia e inanição
Às vezes, ando alegremente sozinho
Outras me entrego à primeira, crio um doce ninho
Às vezes, sou bondade e caridoso
Outras, sou pequeno, mesquinho e maldoso
Ás vezes, sou alegria, vida e sorte
Outras, sou perdas, desalento e morte
Ás vezes, sou cores vivas, aquarelas de amor
Outras, um degradê moribundo, sombras de dor
Ás vezes, sou a voz da divindade que a dentro de mim
Outras, sou dúvidas, mendigando por um querubim
Às vezes, ando ereto e dignamente
Outras, perambulo por becos incandescentes
Às vezes, sou luz sublime em ascensão
Outras sou trevas, horripilante escuridão
Às vezes, sou a vida que inventei
Outras um papel, protagonista do que?. Não sei
Às vezes, e em outras vezes, me descubro e me desnudo
Por vezes um eu magnânimo e loquaz, noutras um ser ordinário e mudo
Tudo isso, porque as vezes sou a manifestação e suas efêmeras imagens
Noutras sou oráculos revelando-se, vivificantes mensagens.

(Tadany- 03 01 15)

PS: Para citar este Poema: Cargnin dos Santos, Tadany. Às vezes. http://www.tadany.org®

O que eu não sei sobre o amor

Por: Renato T. de Miguel

Aonde você foi?
Há tempos foste embora.
A imagem do teu canto
Não tarda, mas demora.
Quem disse que há vida
Nos veios desta estrada?
Cala e me assombra.
Berra e não diz nada.
Prossegue e não enxerga.
Procura e não encontra.
Discursa e ninguém ouve.
Não bebe, mas derrama.
Tu sangras sem chorar.
Tu choras sem sofrer.
Cortou-se sem sangrar,
Matou-me sem saber.
Não sabe o que te espera
Nesta cidade morta.
Lá, a mágoa é que é sincera;
Lá, o falso é quem te exorta.
Não vê o que te salta
Às portas da visão?
Não sabe que as palavras
Não seguem o coração?
Tens tudo e não tem nada
Este ouro não é seu.
Teu corpo é belo e triste.
Deitado aqui estou eu.

[Mas, veja…]
Houve um findo tempo
De lágrimas vertidas,
De tristes desalentos,
De flores não colhidas,
De um céu frio e cinzento,
De joias destruídas.
Mas foi-se, não há mais.
Despreza esse rancor.
Não olhe para trás
Não dê razão à dor.
Não sonhe com as estrelas.
O céu não podes tocar.
Não se iluda com promessas.
Não se deixe acreditar
Que a rotina é uma aventura,
Que o amor já se perdeu,
Que a tristeza não tem cura,
Que há fulgor maior que o seu.
Porque vejo aos pés de Deus
Velhos homens terminados.
Amargor no céu da boca
Olhos tristes, desolados.
Podes ler este poema
E a estes homens explicar
Que ao viver não há dilema
Se souberem como amar.

Créditos da imagem: Disponível em: < https://pixabay.com >. Acesso em: 05 ago. 2018.

Mineral

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Por: Alvaro Assis

É mineral a tarde onde o cachorro late sua melancolia cinza
Tem chumbo, molibdênio e aço essa tarde vestida de tempestade
O homem que vive dentro dessa tarde
não o homem da palavra: homem)
Mas o da palavra: cinza, da palavra: chumbo, também é mineral
O mastro da bandeira, que ainda é vegetal na mata metida nesta tarde, nem imagina que estará morto, na manhã inerte, na praça, no dia da bandeira
O vento, molhado de chuva, escorregando pela montanha, resiste a ser musgo, a ser lodo, a ser líquen
Plantada na pedra, a tarde vai perdendo os passos, vai perdendo vento, vai perdendo a chuva, vai virando homem.
(Alvaro Assis)

Créditos da imagem: Disponível em: < https://pixabay.com >. Acesso em: 03 ago. 2018.

Palavras sentidas

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Por Thiago Amério

Se as palavras que são ditas,
cujas as formas são escritas,
São difíceis de explicar…
Imagine as que sentidas
(Não passíveis de tocar),
não se podem ser ouvidas…
Será que sabem falar?

 
Ora, não é porque ninguém as vê,
que são frutos de ilusão,
na realidade é da mais pura linguagem:
– o idioma do coração.

 

 

Grão e Migalhas

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Por: Diogo Verri Garcia

Nesta quarta-feira, escrevo a poesia autoral “Grão e Migalhas”, publicada no ano de 2006 na antologia “Poesias Brasileiras”, sob o nome de “Migalhas”. Espero que gostem.

Rio de Janeiro, 01/08/2018

“GRÃO E MIGALHAS”
Por vezes, insistem em dar migalhas,
Enquanto minha mente anda morta de fome.
Fome por fome, estou acostumado,
Mas não acho engraçado não saber ler meu nome.

Parece até princípio de fim.
Meio de vida é qualquer um, afinal.
E se não acho um caminho certo para mim,
O fim, no início, é normal.

Há quem diga que é um direito o estudo,
Mas na vida só conto mesmo com a sorte.
Se há equidade no mundo? Não creio.
Somos iguais só na hora da morte.

E para quê me falar de educação,
Se cultura, aqui, só se conhece de retrato?
Não dá não, doutor! Isso é pra filho de patrão.
E como comprar livro, se mal consigo ter um prato?

Começo a achar que estudo é pra quem pode.
Sigo sem vida, sem letras, sem saber.
Não sei se é culpa de Deus, do mundo, da sorte,
Ou se é só minha, por não saber ler.

Prevejo piada em querer diploma em moldura,
Porque para mim já é muito ter nada.
Se alguém nos desse algo mais de cultura,
Deixava de vez o cabo da enxada.

Mas tem moço que parece não ver.
Saber, até sabe, mas finge que não.
No fim, para os nossos, farelo.
Para eles, fartura e quinhão.

Mas de que me adianta farelo sem grão?
Moço, dê-me uma escola,
Que lá eu aprendo. E depois faço meu pão.

Diogo Verri Garcia

(Poesias Brasileiras. 3. ed. São José do Rio Preto: THS Arantes Editora, 2006).

Créditos da imagem: Disponível em: < https://pixabay.com >. Acesso em: 01 ago. 2018.

Temos um novo escritor!

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Por: Diogo Verri Garcia

Acabamos de receber um novo membro, que escreverá conosco às sextas-feiras. Diretamente da Feira Literária de Paraty (FLIP 2018), Álvaro Assis contatou Thiago Amério e vem fazer parte do grupo do Literarte: a arte procurando ser reposta.

O escritor petropolitano, que tem por acervo poemas e crônicas, é autor, dentre outros, dos livros “Palavra Atirada”, contando poesias da vida diária, e “Eutros”, que promove um passeio, entre prosas e versos, por algumas localidades que inebriaram o cotidiano do artista, incluindo, obviamente, sua formosa cidade.

Credenciando a cidade tanto quanto o autor, Petrópolis assumiu dianteiras em nossa história: teve a feliz iniciativa para a fabricação de cerveja do Brasil (em 1853, com a Imperial Fábrica de Cerveja Nacional de Henrique Leiden & Cia, que, a partir de 1898, começa a se chamar Cervejaria Bohemia), a primeira estrada de ferro de nosso país (pelas mãos do Visconde de Mauá, em 1854), e a primeira estrada pavimentada (estrada União e Indústria, ligando Petrópolis a Juiz de Fora, em 1861, ainda existente como direção ao garboso reduto de Itaipava). Ainda esteve na vanguarda da exibição de filmes em território nacional (Teatro Cassino Fluminense, em 1897; sem prejuízo da atribuição do pioneirismo ao belga Henri Paillie, em sala alugada do Jornal do Commercio, na Rua do Ouvidor, centro do Rio, em 1896), bem como a iniciadora transmissão de rádio do Brasil (em setembro de 1922, inaugurada com discurso do então Presidente Epitácio Pessoa, comemorando o centenário da Independência), além de – consoante algumas vozes – ter sido palco da partida não oficial que desbravou nossos gramados para o futebol, no Colégio São Vicente de Paulo, em razão da experiência proporcionada por um professor inglês – também forma artística, tal como pretendemos.

Nós, do Literarte, temos a ideia de dedicar um autor para cada dia da semana. Por enquanto, somos cinco, e teremos, em breve, nova subscrição.

Com Álvaro, as publicações seguem os seguintes dias:

  • Renato T. de Miguel: domingo;
  • Alexandre Costeira Frazão: segunda-feira;
  • Diogo Verri Garcia: quarta-feira;
  • Thiago Amério: quinta-feira;
  • Álvaro Assis: sexta-feira.

Sendo assim, damos boas-vindas a Álvaro Assis e a sua magnífica cidade. Espero que desfrutem do autor e da obra.

Um abraço,

Rio de Janeiro, 31/07/2018

Diogo Verri Garcia.

Referências Bibliográficas (sobre Petrópolis):

FOLHA DE S. PAULO. Quem construiu a primeira ferrovia no Brasil? leia texto da ‘folhinha’ e descubra. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br&gt;. Acesso em: 30 jul. 2018.

INSTITUTO HISTÓRICO DE PETRÓPOLIS. Cinema, tradição e pioneirismo. Disponível em: <http://ihp.org.br/26072015/lib_ihp/docs/jeds20080604.htm&gt;. Acesso em: 30 jul. 2018.

O ESTADO DE S. PAULO. 1ª sessão de cinema do Brasil completa hoje 115 anos. Disponível em: <https://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,1-sessao-de-cinema-do-brasil-completa-hoje-115-anos-imp-,742130&gt;. Acesso em: 30 jul. 2018.

SOU PETRÓPOLIS. 11 fatos históricos em que petrópolis foi pioneira no Brasil. Disponível em: <http://soupetropolis.com/2018/06/25/11-fatos-historicos-em-que-petropolis-foi-pioneira-no-brasil/&gt;. Acesso em: 30 jul. 2018.

Créditos da imagem: Disponível em: < https://pixabay.com >. Acesso em: 30 jul. 2018.

Bob Dylan, poeta.

Bob Dylan_litrararte

Por: Alexandre Costeira Frazão

Conhecido pelo estilo musical único e pelas canções de protesto que embalaram os anos 1960, Bob Dylan já era uma lenda da música em 2016, quando venceu o Prêmio Nobel de Literatura.

Apesar de algumas críticas à escolha da Academia Sueca, na base do erudito bobo do “rock não é literatura”, a homenagem foi, em geral, bem recebida.

Talvez, nem tanto pelo próprio Dylan que sequer apareceu na cerimônia de entrega do prêmio.

Ao mesmo tempo que retrata o seu tempo a poesia de Dylan é atemporal, combina a dureza da canção de protesto com doçura e faz ceticismo e esperança andarem de mãos dadas.

Absolutely Sweet Marie, reúne lindamente todas estas características e não foi à toa que a Secretaria do Nobel a recomendou como a obra fundamental para conhecer a poesia do autor.

Absolutely Sweet Marie

Well, your railroad gate, you know I just can’t jump it

Sometimes it gets so hard, you see

I’m just sitting here beating on my trumpet

With all these promises you left for me

But where are you tonight, sweet Marie?

 

Well, I waited for you when I was half sick

Yes, I waited for you when you hated me

Well, I waited for you inside of the frozen traffic

When you knew I had some other place to be

Now, where are you tonight, sweet Marie?

Well, anybody can be just like me, obviously

But then, now again, not too many can be like you, fortunately

 

Well, six white horses that you did promise

Were fin’lly delivered down to the penitentiary

But to live outside the law, you must be honest

I know you always say that you agree

But where are you tonight, sweet Marie?

Well, I don’t know how it happened

But the river-boat captain, he knows my fate

But ev’rybody else, even yourself

They’re just gonna have to wait

Well, I got the fever down in my pockets

The Persian drunkard, he follows me

Yes, I can take him to your house but I can’t unlock it

You see, you forgot to leave me with the key

Oh, where are you tonight, sweet Marie?

Now, I been in jail when all my mail showed

That a man can’t give his address out to bad company

And now I stand here lookin’ at your yellow railroad

In the ruins of your balcony

Wond’ring where you are tonight, sweet Marie

Poema de vigília

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Por: Renato T. de Miguel

Ao toque do sino
Vibraram tuas velas
Convoco as funestas baladas
Sorvi teu incenso
Soprei a bruma ocre
Sorri à iminente jornada

Sei bem quem és tu
Teus dias escuros
Teu peito ligeiro a arder
A ânsia de um fraco
A farsa em tocaia
Teu grito em silêncio, ó prazer!

Sou quem tu procuras
Nos becos da alma
Teus medos são bestas aladas
A razão tão distante
Qual lua minguante
Bravura, uma fera esgotada

Servi, tão contente
O sangue em teus lábios
Farejo o terror trovejar
A morte te segue
Os olhos já falham
À alma só resta chorar

Não há mais sentidos
Tampouco há razão (eu sei)
Encarno e contemplo teus medos
Os monstros se erguem
Brandindo navalhas
Teu lar é um deserto desfeito

Loucura! É o que dizes
Teu sangue não mente
Escorre das mãos à cabeça
Seus olhos fechados
E os punhos cerrados
Aprendem a velar a tristeza

Mas nunca me culpe;
E aqui lhe questiono:
Anseias ainda acordar?
Vá entorpecido
Curvado e ferido.
Ao menos consegues sonhar.

Renato Miguel, 29/07/2018

Créditos da imagem: Disponível em: < https://pixabay.com >. Acesso em: 29 jul. 2018.

Os iluministas de pau oco

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Por: Thiago Amério

Imprevistos acontecem
Mas por que iluminados
Pisam em subordinados?
Será para serem exaltados?

Se os humildes vencerão,
Que guerra é essa onde
A luta é pela opressão?

Quem julga a si mesmo?
Como digo que sou bom
Se me recuso a perceber o espaço alheio.
O outro é só meu próprio espelho?

O afeto dos outros diz muito.
A lambida em mim mesmo não.

Narcisismo é o troféu
De quem ilumina o próprio ego
O outro só serve pra me reafirmar
Ou de escada para minha glória

Será que sou fraco e por isso
Preciso aparentar ser forte?
Qual medo escondo
Na minha própria petulância?
Seria a agressão, minha (i)legítima defesa?
Sou um corajoso covarde.

Por isso, sigo valente.
Como um iluminado
Cuja luz só eu vejo
Cuja dor só me apaga.

Vai, Rapaz! (Poesia)

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Por: Diogo Verri Garcia

Caros leitores,

Passo a escrever todas as quartas-feiras, impreterivelmente. Na estreia do ciclo, inicio com “Vai, Rapaz!”, poesia autoral e inédita. Espero que apreciem.

Rio de Janeiro, 25/07/2018

Diogo Verri Garcia,

VAI, RAPAZ!

Te disseram que o tempo é morada,
Caminho para todos que sofrem.
Te falaram que a vontade ficou endividada.
E com dúvida, se se entrega ou se corre.

Veja que ela também quer os teus olhos,
Mas teme do mundo a reprovação.
Nota que face à tua galhardia,
Ela também se arrepia, tem taquicardia, muda a respiração.

O que adianta se só vês essa tal menina,
Se é outra que – mesmo tu não querendo – tanto te quer que te beija?
Vai, rapaz! Rompe logo essa sina,
Ou te dedica de vez a quem também te deseja.

Quem te fala é quem tem vivência,
Porque coerência não é o dom da tua idade.
Vai, rapaz! Roube logo dela um beijo,
Que ela larga o mundo e passa a ser tua!
E esqueça o resto, pois nada mais te importa,
Desde que passastes por ela, ao acaso, na rua.

Ou então te cala e cultives a moça
Que te vê com vontade e quer te ter por rapaz.
E espere que os olhos mais belos te esqueçam,
E que vocês dois não se encontrem jamais.

Vai, rapaz! Saudade perdura!
Mesmo que sejas forte, isso machuca e adoece.
Vai rapaz, liga logo para ela.
Se não o fizeres, se arrependa, e não haverá santo, nem prece…

Dedico a ti um conselho: confie no instinto,
Mesmo que seja confusa e irracional a razão.
Pegue pra ti! Toma logo essa moça
Que te embaralha os pés, te aquece o corpo e te dá emoção.

Vai, rapaz! Amor só se tem um na vida,
E o tempo para outros é abismo e cilada.
Sou eu teu espelho, e cá venho te avisar:
Fica com ela, serás feliz, e mais nada.

Diogo Verri Garcia

Rio, 25/07/2018

Créditos da imagem: Disponível em: < https://pixabay.com >. Acesso em: 24 jul. 2018.