Promessa (dez)cumprida

Por: Thiago Amério


Dez mandamentos.

Um norte.
Um caminho cumprido.
Uma porta larga.
Vários pedidos.
Muitos arrependimentos.
Alguns compromissos.
Inúmeras promessas.
Mesma conduta.
Um grande sentimento:
se as pessoas descumprem
por que se comprometem?

Mar em Oração

wave-2089959

Por: Diogo Verri Garcia.

MAR EM ORAÇÃO

Seja forte, como o mar é forte,
Mas te amolde e te quebre como as ondas que batem.
Seja leve, como o mar é leve,
Com ondas breves, como as que rompem a tarde.

Seja bravo e te defenda do argumento,
Quanto te calarem o pranto e te pretenderem agonia.
Seja estupendo, feito o mar em tormento,
Se te transgredirem a luz, não permaneças em calmaria.

Veja a onda que explode e prensa o rochedo:
Seja fereza sem raiva; tem equilíbrio, tem paz.
O mar que alimenta e refresca: é servidão sem medo.
O mar que retira, repõe – nas ondas de leva e traz.

E quando o sublime solar pelo céu se exaltar,
Seja como o mar e reflita a luz que lhe toca.
Se acerque dos que te doam a paz sem te cobrar,
Tal qual um corpo de água salgada,
Que se cerca de terras nas bordas.

Mas se o céu te parecer mais cinza,
Não o espelhes na dúvida, olhe para o mais profundo de ti.
Não te tornes pedante, descrente ou ranzinza.
E te acalme: contenha-te do furor, do desamor, do frenesi.

Seja leve, como o mar é leve.
Feito as águas que chacoalham ao vento,
E que repousam tão logo a brisa pausar.
Trazem paz alheia ao amalgamento.
Seguem mansas e resilientes.
Sem apatia, são benevolentes.
Fortes e calmas, bem sabem:
Tudo tem o seu tempo.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 16/08/18).

*poesia autoral.

Créditos da imagem: Disponível em: < https://pixabay.com >. Acesso em: ago. 2018.

Viagem ao mundo dela

Por: Tadany Cargnin dos Santos

Ela me convidou para viajar

Uma viagem ao desconhecido

Ao forâneo mundo de sua essência

Convite especial, preencheu minhas carências

Ela queria aventuras, revelar-se paulatinamente

Talvez encontrar-se, sem saber quem era

Aceitei afoito, excitação resplandecente

E a viagem iniciou, vindoura quimera

Nas montanhas de tua desesperança

Encontrei feridas que não queriam sarar

Nos vales de tua desconfiança

Encontrei amor parcelado, medo de se entregar

Quando cheguei no córrego de teus prazeres

Senti as delícias da humana paixão

E no amanhecer de teus afazeres

Observei as lágrimas de tua delilusão

No jardim de tuas fantasias

Encontrei raras flores de transcendência

No entardecer de tuas regalias

Vi cores vibrantes, horizontes em ascendência

No oráculo de teus anseios

Descobri íntimos desejos de união

Na escura caverna de teus receios

Encontrei monstros de uma antiga paixão

E a viagem seguiu, ela contente e inspirada

E eu, cada vez menos curioso, cada dia mais calado

Pois tenho pânico de sendas unidirecionadas

Mesmo que por isso seja, somente pela solidão, amado.

(Tadany – 03 01 15)

Para citar este Poema:

Cargnin dos Santos, Tadany. Viagem ao Mundo Dela.www.tadany.org®

As Janelas e os Vitrais

Por Renato T. de Miguel

No mundo da lua, vez ou outra me via pensando em Camus. Ele dizia que o homem chega aos trinta e assim afirma sua juventude, ao mesmo tempo em que se põe diante do tempo e reconhece ali o seu inimigo; trata-se da morte, que se agiganta à sua frente e ordena: viva. Mas o caminho se esvai. Crescem as ervas em meio à estrada; árvores secas tombam no horizonte, escondendo a passagem.

A rebelião contra o absurdo é necessária. Do contrário, resta o suicídio filosófico, o abandono da razão. Seja como for, não há espaço para felicidade, a felicidade das grandes histórias… Há apenas…

Uma sombra? Não, eram as mãos dela abanando meu rosto, despertando-me do devaneio que o silêncio provocara.

– Ei, você está aí? O último capítulo vai ficar pra amanhã… E você, cansou de olhar pro teto? – Perguntou ela com um meio sorriso, os olhos grandes contemplando os meus, num brilho de curiosidade que me deixava sem graça. Ela me encarava feito uma criança que vê as ruas através das janelas fechadas, e em meio aos prédios enxerga o reflexo das próprias feições, distorcidas nas imperfeições e poeira da vidraça.

E eu estava ali parado, fitando-a como um homem de pouca fé que contempla, quieto, os raios filtrados pelos vitrais de uma igreja. Nada disse, apenas devolvi o sorriso torto. Deitada sobre a cama com as pernas estendidas uma sobre a outra, tirou os óculos, repousou sobre a escrivaninha o livro que segurava e afastou as cobertas de lado. Seguia me olhando em silêncio. Aguardando.

 Nunca fui versado nos dialetos não verbais que toda gente aparenta entender tão bem. Isso parecia cativá-la. De todo modo, fui até ela e deitei ao seu lado, beijando-lhe o rosto. O riso fácil e os maneirismos afáveis vibravam como um chicote. Ela parecia feliz e sendo assim eu também estava. Porque pra mim tudo era muito simples, mas para ela tão diferente (às vezes eu penso que sou um menino, esse menino que ela sabe que eu sou).

Fazia frio e eu me aquecia com ela. Algo a fez sorrir de novo e eu não sabia o que dizer.

– Seus dentes são muito brancos.

Ela gargalhava.

books-1149959

Por: Alvaro Assis.

Eu fico daqui imaginando palavras
Juntando fonemas que não se arrumam
Consoante, vogal, consoante, ditongo…
Eu olho pra sua cara e a letra se cala
Eu beijo fundo seus lábios e o vocábulo se desusa
E como um jogador, sem uma das pernas,
A caneta cega, depois da mente falir
O teclado se apaga, o idioma padece
E as mãos desaprendem a caligrafia mais simples…
Bê com á faz…?
E, com o resto da lira que tenho, escrevo estas sobras
Pois, em sua presença, o poeta se desfaz
Sem ter maneira digna de expressar palavra que te valha.

(Alvaro Assis)

CEP universal

Por: Thiago Amério

Cada rua tem um número
Cada esquina uma vida

Por dentro do prédio,
Um monte de gente habita

Será selva de concreto
Ou urbanidade selvagem?

Decerto que o ter
Precede o ser
Por quê?

Qual animal reside
Na cabeça de quem é de dinheiro?
Humano do capital?

Ou alienígena social?

Sigamos em letras e na arte

Porque acima de todo número

Há um amor universal!

Descredenciado Poeta

hand-325321

Por: Diogo Verri Garcia

DESCREDENCIADO POETA

A poesia, quando sai do poeta,
É livre, sem responsabilidade.
Quem assume seu próprio risco é o leitor
Que lê o que quer, adota suas próprias verdades.

Descredencia cada palavra dita,
Que não pertence mais a quem as fez.
Os prantos podem se tornar sorrisos;
Os risos, desatar de vez.

As saudades, que eram felizes em mesa de chope,
Lembram palavras tristes, ofensivas e torpes.
A dor, que quem escreveu quis contar,
Pode virar samba de Chico, ao som de “Vai passar”.

A poesia, quando ab-roga seu dono,
É livre, nunca será de mais ninguém.
É feito o amor que traz ao mesmo tempo beijo e abandono:
Ama instantes a ti, ama logo mais outro alguém.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 11/08/18)

*Poesia autoral

Créditos da imagem: Disponível em: < https://pixabay.com >. Acesso em: ago. 2018.

Diva – n° 40

Por: Tadany Cargnin dos Santos

 

Nas curvas do teu corpo, me perdi e me encontrei

Da fonte de teus cabelos, jorraram delicadas carícias

Do vento de teus suspiros, ouvi melifluentes canções

Do suco de teus beijos, recebi doses ferventes de amor

No sul do teu equador, naveguei por cálidos e fluídos rios

De tua essência, recebi inexprimíveis nectares

De todas as tuas partes, carrego vívidas e exuberantes memórias

Mas dos teus olhos, aahhh teus olhos

Esta janela mágica da alma

A concentração mais sutil de tua personalidade

A chama por onde tu ardes flamejante

O ninho afável que acariciou meu ser

A gentil brisa que soprou no âmago desta existência

Teus olhos, aahhh teus olhos

Eles são ternura

Pitadas de loucura

Gotas de aventura

Migalhas de amargura

Ora ditadura, ora brandura

Ora diabrura, ora pura

Ora fervura, ora candura

Centelhas dóceis de finura

Uma estrela cadente que, porventura

Abraçou-se nesta envoltura

E criou um conto

Uma fascinante história que,

No livro de tua pessoa,

Foi uma transcendente leitura. (Tadany– 10 12 12)

PS: Para citar este Poema:

Cargnin dos Santos, Tadany.Diva – n° 40.www.tadany.org®

 

Os Meninos de Vila Isabel

Por: Renato T. de Miguel.

Eram cinco horas e acordei com as primeira luzes da manhã, mas não foram elas a razão do meu despertar. Era aquela sinfonia de caos, sons tristemente corriqueiros em Vila Isabel, na zona norte carioca. Rajadas, estampidos, estouros; parecia que todas as armas do morro e da pista foram lustradas na madrugada e usadas pela manhã. Do meu quarto, deitado, onde a tênue claridade entrava em pequenos raios com o sopro vento que ondulava as cortinas, soava como uma guerra recém deflagrada.

Das grandes guerras sobre as quais nos contam os livros, sabemos que eram feitas de caos e terror e da bravura dos homens que nelas lutam, sempre qualificada pela queda em combate. Quando as guerras acabam, e voltam aos seus lares os generais e os corpos amortalhados com as cores da pátria, ficam para trás os horrores e ali e à frente a glória dos feitos narrados pelos vencedores. De outro lado, ao largo do esplendor da vitória, seguem os traumas que resultam do peso da guerra; nações entram em colapso, famílias são desintegradas, veteranos são deixados à sombra da depressão, da paranóia e da amargura pelos amigos que sucumbiram às balas dos canhões. Para estes, nada resta a senão a superação.

As guerras carregam em sua trilha através do tempo essa dualidade, a glória e a infâmia, o herói e o vilão, o fim e o recomeço. Mas a dualidade que coroa a guerra, romantizando-a na nossa memória, é um fruto do seu fim. Só se pode colher as medalhas e superar os rastros de sangue quando a matança termina.

Em Vila Isabel ela nunca acaba.

Os disparos se encerram e se perdem no eco, mas a guerra segue. Os soldados de ambos os lados retornam pra casa ao fim da escaramuça. Das vestes o sangue é lavado e a farda é estendida na janela, à espera de ser vestida novamente dali a alguns dias.

Mas era sábado. O relógio eventualmente marcou dez horas da manhã e não se ouvia mais o cruel ribombar de uma FAL 7,62, apenas o ronco do motor dos carros na Rua Luís Barbosa, o chacoalhar dos jambeiros ao sabor do vento e o transitar normal dos pedestres. No horizonte, entre a Av. 28 de Setembro e o Morro dos Macacos, o céu era enfeitado pelas pipas de meninos e meninas dispostos a se divertirem um pouco naquela manhã fria de sol.

Porque aquela era uma velha guerra sem fim, portanto uma guerra sem grandes traumas. Perdiam-se vidas, sim, e as viúvas choravam, muitos filhos cresciam sem pai ou mãe, mas aquelas eram pequenas cicatrizes em um gigante já habituado à dor e ao verter do próprio sangue. Não há nada a se superar, salvo a nossa insistência em nos lembrarmos de quem somos e de onde estamos.

Ali, olhando pela janela, contemplando as pipas que subiam e desciam, tentava não pensar sobre a loucura daquilo tudo. Não parece haver resolução que não passe pela atitude e vontade dos grandes homens, aqueles que guardam as chaves do cofre e dão as ordens nos grandes quartéis. Talvez a solução mais sábia para nós, gente comum, seja esquecer a noite anterior e olhar para o céu, como os meninos de Vila Isabel.

water-815271

Por: Alvaro Assis

Chove uma chuva clara
Uma chuva de olhos abertos
E molha meu corpo, que se abre
Pra deixá-la ensopar minh’alma
Chove pela têmpora o temporal
O tempo fatiado em gotas, com calma
Faz corredeiras pela coluna vertebral
Chove, não uma chuva impaciente
Não uma que pareça com a gente
Pois sabe lavar-se depois da queda
Com a história que vai se apagando na mente
Pra deixar fluir o outro lado da moeda.

(Alvaro Assis)