Descredenciado Poeta

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Por: Diogo Verri Garcia

DESCREDENCIADO POETA

A poesia, quando sai do poeta,
É livre, sem responsabilidade.
Quem assume seu próprio risco é o leitor
Que lê o que quer, adota suas próprias verdades.

Descredencia cada palavra dita,
Que não pertence mais a quem as fez.
Os prantos podem se tornar sorrisos;
Os risos, desatar de vez.

As saudades, que eram felizes em mesa de chope,
Lembram palavras tristes, ofensivas e torpes.
A dor, que quem escreveu quis contar,
Pode virar samba de Chico, ao som de “Vai passar”.

A poesia, quando ab-roga seu dono,
É livre, nunca será de mais ninguém.
É feito o amor que traz ao mesmo tempo beijo e abandono:
Ama instantes a ti, ama logo mais outro alguém.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 11/08/18)

*Poesia autoral

Créditos da imagem: Disponível em: < https://pixabay.com >. Acesso em: ago. 2018.

Diva – n° 40

Por: Tadany Cargnin dos Santos

 

Nas curvas do teu corpo, me perdi e me encontrei

Da fonte de teus cabelos, jorraram delicadas carícias

Do vento de teus suspiros, ouvi melifluentes canções

Do suco de teus beijos, recebi doses ferventes de amor

No sul do teu equador, naveguei por cálidos e fluídos rios

De tua essência, recebi inexprimíveis nectares

De todas as tuas partes, carrego vívidas e exuberantes memórias

Mas dos teus olhos, aahhh teus olhos

Esta janela mágica da alma

A concentração mais sutil de tua personalidade

A chama por onde tu ardes flamejante

O ninho afável que acariciou meu ser

A gentil brisa que soprou no âmago desta existência

Teus olhos, aahhh teus olhos

Eles são ternura

Pitadas de loucura

Gotas de aventura

Migalhas de amargura

Ora ditadura, ora brandura

Ora diabrura, ora pura

Ora fervura, ora candura

Centelhas dóceis de finura

Uma estrela cadente que, porventura

Abraçou-se nesta envoltura

E criou um conto

Uma fascinante história que,

No livro de tua pessoa,

Foi uma transcendente leitura. (Tadany– 10 12 12)

PS: Para citar este Poema:

Cargnin dos Santos, Tadany.Diva – n° 40.www.tadany.org®

 

Os Meninos de Vila Isabel

Por: Renato T. de Miguel.

Eram cinco horas e acordei com as primeira luzes da manhã, mas não foram elas a razão do meu despertar. Era aquela sinfonia de caos, sons tristemente corriqueiros em Vila Isabel, na zona norte carioca. Rajadas, estampidos, estouros; parecia que todas as armas do morro e da pista foram lustradas na madrugada e usadas pela manhã. Do meu quarto, deitado, onde a tênue claridade entrava em pequenos raios com o sopro vento que ondulava as cortinas, soava como uma guerra recém deflagrada.

Das grandes guerras sobre as quais nos contam os livros, sabemos que eram feitas de caos e terror e da bravura dos homens que nelas lutam, sempre qualificada pela queda em combate. Quando as guerras acabam, e voltam aos seus lares os generais e os corpos amortalhados com as cores da pátria, ficam para trás os horrores e ali e à frente a glória dos feitos narrados pelos vencedores. De outro lado, ao largo do esplendor da vitória, seguem os traumas que resultam do peso da guerra; nações entram em colapso, famílias são desintegradas, veteranos são deixados à sombra da depressão, da paranóia e da amargura pelos amigos que sucumbiram às balas dos canhões. Para estes, nada resta a senão a superação.

As guerras carregam em sua trilha através do tempo essa dualidade, a glória e a infâmia, o herói e o vilão, o fim e o recomeço. Mas a dualidade que coroa a guerra, romantizando-a na nossa memória, é um fruto do seu fim. Só se pode colher as medalhas e superar os rastros de sangue quando a matança termina.

Em Vila Isabel ela nunca acaba.

Os disparos se encerram e se perdem no eco, mas a guerra segue. Os soldados de ambos os lados retornam pra casa ao fim da escaramuça. Das vestes o sangue é lavado e a farda é estendida na janela, à espera de ser vestida novamente dali a alguns dias.

Mas era sábado. O relógio eventualmente marcou dez horas da manhã e não se ouvia mais o cruel ribombar de uma FAL 7,62, apenas o ronco do motor dos carros na Rua Luís Barbosa, o chacoalhar dos jambeiros ao sabor do vento e o transitar normal dos pedestres. No horizonte, entre a Av. 28 de Setembro e o Morro dos Macacos, o céu era enfeitado pelas pipas de meninos e meninas dispostos a se divertirem um pouco naquela manhã fria de sol.

Porque aquela era uma velha guerra sem fim, portanto uma guerra sem grandes traumas. Perdiam-se vidas, sim, e as viúvas choravam, muitos filhos cresciam sem pai ou mãe, mas aquelas eram pequenas cicatrizes em um gigante já habituado à dor e ao verter do próprio sangue. Não há nada a se superar, salvo a nossa insistência em nos lembrarmos de quem somos e de onde estamos.

Ali, olhando pela janela, contemplando as pipas que subiam e desciam, tentava não pensar sobre a loucura daquilo tudo. Não parece haver resolução que não passe pela atitude e vontade dos grandes homens, aqueles que guardam as chaves do cofre e dão as ordens nos grandes quartéis. Talvez a solução mais sábia para nós, gente comum, seja esquecer a noite anterior e olhar para o céu, como os meninos de Vila Isabel.

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Por: Alvaro Assis

Chove uma chuva clara
Uma chuva de olhos abertos
E molha meu corpo, que se abre
Pra deixá-la ensopar minh’alma
Chove pela têmpora o temporal
O tempo fatiado em gotas, com calma
Faz corredeiras pela coluna vertebral
Chove, não uma chuva impaciente
Não uma que pareça com a gente
Pois sabe lavar-se depois da queda
Com a história que vai se apagando na mente
Pra deixar fluir o outro lado da moeda.

(Alvaro Assis)

Fé sentida

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Por: Thiago Amério

 
Como entender a razão?
Deixar fundir com a emoção…
E ver na fé o valor…
Da confiança e do amor…
Como maior instrumento…
Como a magia do alento…
Com o conforto por dentro…
Enchendo de sentimento…
 
Que é capaz de sentir:
– Se o coração se ABRIR!

Verso Testamental

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Por: Diogo Verri Garcia

A quem não quer sentir saudade,
Deixo um adeus, e nada mais.
Pois mal nenhum o tempo faz
Se é boa a vontade que nos leva.

A quem não sabe o que é tristeza,
Trago o dissabor, por ameaça.
Faço findo o que é eterno,
Deixo perene o que passa.

A quem não sabe o que é o sorriso,
Entrego a luz e seco o pranto.
E ao que menospreza o paraíso,
Dou mostras de dor,
E, depois, acalanto.

A quem reclama da sorte,
Darei o ardor de uma vida.
E ao que nega o amor como norte,
uma paixão atrevida.

Seja sereno, mas firme e correto.
Conheça de tudo, mas mantenha-se em paz.
Seja humilde, mas experto.
Se apaixone, mas não por demais.

Que se faça a luz dentre as trevas
E que estas margeiem a luz.
Que mares e céus sejam terras,
E que as terras sejam azuis.

Para que valor demos nós a esta vida,
Nestes meus versos, deixo a contrariedade.
Para que no fim, na nossa saída,
Caiba a nós, por último dom, deixarmos saudade.

(Diogo Verri Garcia)

*Poesia autoral

Créditos da imagem: Disponível em: < https://pixabay.com >. Acesso em: 15 ago. 2018.

Pelo menos uma vez por dia…

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Por: Tadany Cargnin dos Santos

Desvaneça da alma todo e qualquer sentimento de hostilidade

Dissolva do coração as diferenças sociais que te foram impostas

Extinga as fronteiras geográficas que o separam do desconhecido amigo

Labute diligentemente para terminar com a pobreza alheia

Minimize sensações de vaidade que o segregam da sociedade

Deseje, com todas tuas energias, encontrar paz contigo mesmo

Corajosamente busque iluminar as trevas da ignorância com a luz do conhecimento

Atue de acordo com os princípios que você almeja ser tratado

Apague da mente a concepção de Céu e de Inferno

Conscientize-se de que a vida é para construir e contribuir não para destruir ou consumir

Proteja a natureza, os animais e as crianças, pois eles são indefesos

Lembre-se que a dor que ora assola o teu irmão é a mesma que pode te devastar amanhã

Recorde que a caridade é uma maneira de agradecer e de agregar

Ambicione melhorar-se espiritual, intelectual, física, moral e socialmente sem detrimento de nenhuma das partes

Agradeça por todos os presentes que, a todo minuto, são brindados com a vida

Faça isto para a tua FELICIDADE, para o teu BEM e para a ALEGRIA, a HARMONIA e o AMOR da sociedade como um todo.  

(Tadany– 03 05 08)

Deus de Vidro

Por: Renato T. de Miguel

A um deus de vidro sua afeição se ajoelhava
Trilhas sem norte são promessas de ilusões
Um esgrimista sem florete, sem espada
Um enxadrista sob as ordens dos peões

Sobre a cabeça uma coroa fraturada
Suas sentenças, sua justa inquisição
No horizonte seus exércitos sem farda
No asfalto negro escorre o sangue dos irmãos

Em seu reinado nossa raça é lei divina
E os deuses-homens vivem em torres de marfim
No seu discurso o amor é feito cocaína
O ódio à paz, como o princípio, o meio e o fim

E os condenados como números sem alma
Nus e descalços, seu pecado era existir
Aos pés de Deus os filhos morrem na calçada
À prata amada o seu fadário era servir.

Por: Álvaro Assis

Não falta nada
No som da cachoeira
Na sombra que a árvore faz sobre o formigueiro
A trilha vai sempre dar onde se deve chegar
Assim como o passarinho sabe o tempo de cantar e o de voar
O rio que vai virar oceano vai perdendo o medo contra as pedras
E se arrepiando, aos poucos, vira onda sem notar
Não há de faltar nada
Ramo na boca do peixe, peixe na boca do homem, homem nos braços da terra, alma nas asas do ar.

Arrogância

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Por: Thiago Amério.

O medo da morte
O medo da dor
O medo de não ser o que sempre sonhou
O medo nos protegeu do predador

Por mais que o medo
Tenha nos permitido
Ter sobrevivido
Quando por, “medo”,
Me cego e me surdo
Ao outro e a todos
O medo é só desculpa
“Pra quem diz querer os fins
E acaba os meios quer”