Gratidão, gratitude, gratiluz

Por: Priscila Menino

Gratidão, gratitude, gratiluz

É engraçado como a gente aprende a se incomodar e banalizar conceitos que a gente nem mesmo sabe direito o significado real.
O mundo vive em um processo de transformação evidente. Seja pela pandemia, seja pelo interesse mais constante das pessoas em assuntos mais holísticos, é fato irrefutável que as gerações estão cada vez mais instigadas com a busca do conhecimento, a descoberta de novos conceitos e desconstrução daqueles dogmas e verdade absolutas que existem desde quando nos entendemos por gente.
Minimalismo, autoconhecimento, meditação, aromaterapia, thetahealing, busca pelo sagrado e vários outros conceitos geram um desconforto em quem insiste em ignorar que a tendência é que haja cada vez mais espaço para esses assuntos estarem em voga.
Eu posso afirmar que há alguns anos atrás eu satirizava a prática da meditação, hoje me ajuda como um refúgio do meu caos interno de pensamentos constantes.
A gente precisa aprender a nos abrirmos mais para as mudanças, estarmos aptos para entendermos todo o processo de evolução.
Mas precisamos também entender que quem não quiser viver isso, não há uma fórmula mágica para enfiar goela a baixo, é uma decisão pessoal e intransferível.
De forma particular e ínfima, posso afirmar o quão bem me faz me permitir buscar mais conexão com meus pensamentos internos, me entender na minha essência.
Quisera eu ter me permitido há anos atrás.
Mas, sabendo que tudo tem seu tempo e acontece da forma como deve ser, cabe a mim sentir a gratidão de poder ser livre para buscar o que é o meu sagrado e respeitar o momento de cada um.

Por: Priscila Menino


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OS PASSOS SEM PASSAGEM

Por: Diogo Verri Garcia

OS PASSOS SEM PASSAGEM

Quando os passos deixarem de fazer passagem,
Quando a trama for só miragem,
No que já houve opção.
Quando a vela atrás da porta não estiver acesa,
Quando a reza não for para afastar tristeza,
Mas for por gratidão.

Então acharás quem já não encontra,
Depois que tanto perdeste a conta,
De cada alguém que
Já passou por ti.
Mas que nunca marcou-te ao sentir presença
Passou normal, feito indiferença,
Nem por mal, nem a sorrir.

Então teus olhos vão fazer sentido,
Ouvirão o que vos contam os ouvidos,
Posto que não quiseram ver.
Bem de ti diante,
O que foi significante,
Mas que deixou perder.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 21 de dezembro de 2019)


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Por: Raquel Alves Tobias

A loucura certa no momento errado.
No momento errado, a loucura certa.
O momento certo na loucura errada.
Na loucura errada, o momento certo.
Regra de três
Regra de dois
Regra de vários
Um cálculo:
a vida imprecisa.
A ferida.
Haveria outra alternativa?

Por: Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Unsplash

Ruptura

Por: Bia Latini

Ruptura

Hoje desejo fazer uma faxina geral
Varrer de mim, de minhas entranhas
Todo lixo acumulado
Todos os medos incorporados
Toda impotência acreditada
Toda menos-valia espelhada
Toda arrogância vestida
Toda dependência assumida
Sem saber que sou dona de mim e das minhas escolhas
Que não sou joguete na mão do acaso, das circunstâncias
Que, muitas vezes, vestida na pele de vítima, sou algoz
Esculpi-me como estátua inanimada
Que deve receber elogios, olhares e por vezes críticas, julgamentos
Me fiz refém e não contei com ajuda alguma para isso
Eu mesma fiz o trabalho de encarcerar-me e dar um monte de cópias das chaves para os primeiros que passassem
Hoje, desejo limpar esta cela, quebrar a escultura, transformar-me em pássaro que só vê o horizonte e infinitos ares para voo
Desejo integrar-me à natureza
A natureza de mim mesma
Que ainda não sei do que é feita
Mas, certamente, germinada pelo amor

(Por Bianca Latini, 10/4/19)


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E a sua vida, é boa?

Por: Priscila Menino

E a sua vida, é boa?

Eis que estou despretensiosamente imersa em meu ritual noturno para dormir, quando sou surpreendida com uma pergunta da minha filha de cinco anos: “mamãe, você acha que sua vida é boa?”.
Era mais provável cair um meteoro com um unicórnio colorido o guiando até minha casa, do que estar preparada para uma pergunta dessas inesperadas.
Quase que de imediato, respondi apenas: “sim, mamãe tem você comigo e isso me faz feliz e ser feliz me faz ter uma vida boa”.
Muito embora eu tenha respondido isso a ela naquele momento, aquela breve perguntinha não saia da minha cabeça, como um jingle ruim de uma propaganda que cola na cabeça e você se pega cantarolando inoportunamente.
Já pensou sobre a definição do que é ter uma vida boa e como este conceito pode mudar de formas drásticas ao longo da nossa vida?
Para minha filha, ter uma vida boa hoje pode ser apenas a simplicidade de não fazer o dever de casa e comer guloseimas até enjoar, assistindo algum youtuber gritando de maneira efusiva, mas, daqui uns anos, pode ser que ter uma vida boa seja, na contramão, manter hábitos alimentares saudáveis e uma vida social afinada, considerando que a adolescência é uma fase cruel e confusa (quase sempre).
Ha uns anos atrás, eu achava que uma vida boa era quase o oposto do que tenho hoje, eu quebrei todos os meus próprios paradigmas, eu aprendi a ver a vida de uma forma mais leve e mais tranquila, sem me apegar tanto ao que esperavam para mim como uma “vida boa de uma família tradicional brasileira”.
Se me falassem que eu já teria sobrevivido a um divórcio bem antes dos 30 anos, teria uma enooorme dificuldade em controlar e organizar meus horários, me dividindo entre ser mãe, ser profissional, estar com saúde mental em dia e com o CrossFit frequentado cinco vezes por semana, ainda roeria as unhas e usaria óculos de graus enormes, eu definitivamente acharia que minha vida seria o oposto de ser boa.
Mas, parando para pensar, eu realmente tenho uma vida boa sim, pois agora eu sei que ela será sempre boa, mesmo com os percalços que eu sei que vão surgir, afinal, aprender a lidar com a relatividade dessa definição de “vida boa” e permitir que isso seja sempre mutável é o que me dá base para acreditar nessa premissa.
E se minha filha me perguntar novamente, eu apenas direi: “filha, minha vida não é boa, ela é excelente e sempre será assim, enquanto eu confiar que tudo vai ficar bem, mesmo que tudo saia do controle em certos momentos”. (É evidente que ela não entenderá nada, mas lá na frente, ela há de concordar com a maluquinha da mãe dela, não tenho dúvidas disso).

Por: Priscila Menino


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A TARDE DA PRAÇA

Por: Diogo Verri Garcia

A TARDE A PRAÇA

Era a tarde na praça.
Em que correu alegre, caindo.
Feito lembrança que passa a galope afagando o brinquedo.
E se alistava a um período seleto,
sem medo,
em que havia graça em correr perseguindo.
Mas aos poucos, notará: quem nos segue é o tempo,
De gosto ainda duvidoso, do desconhecido tempero,
Sem esmero.

E na escorrida que fez,
lembrará para si e me trouxe lembrança.
Ao olhar aquela praça,
Deu saudade da infância,
Da ignorância que por acaso existia.
Era só ver felicidade quando a chuva caía.
E haver-se na sorte de ter um dia a ser lento.

Era tarde na praça.
Em que se apressou alegre, exibindo, esbarrando.
Sem saber que há sempre algo
Passando a galope,
E eu, com um misto folhas, entufadas em um só envelope,
Enquanto poderia estar ali, feito ela,
Rindo.

De mãos entre o paletó,
Eu a notava, e ela com a vida brincava.
Em um tempo – sempre o meu predileto –
Em que criança caía e nem sequer se importava.
Exceto a dor mal causada,
Na aflição que doía a alma, quando a bola batia e a unha subia.

Quando o tempo passou,
Em meio a verões que de tão quentes embaçam,
Substituímos a bola pelo (des)amor,
Pela bebida gelada junto à brisa no Astor.
Melhoramos de altura, mas nem tanto no garrancho em cadernos.
Ocupamos titulações em molduras,
Viramos adultos em jalecos ou ternos.
Tomamos opções que tornaram poemas
Algo menos que um nada…

Desde aquela hora
Que passou pela praça,
Houve leveza,
Tornou a vida mais bela.
É a tarde, apressada, que passa.
Todos nós, passageiros,
Que se arriscam na chuva carregando uma chama de vela.
É a vida: sempre tão entretidos,
Quando devíamos estar,
Só um pouco mais,
Orando por ela.

Vi passado o tempo,
Vi-me formando estrada,
chegando aos que sabem,
partindo os que sentem.
Criou-se uma pausa no rosto,
Posta bem em minha frente.
Que sem o amor que nos traz,
De tudo isso, importa o nada.

Era a tarde na praça.
Em que ela correu alegre, tendo alguns solavancos.
E eu, com sorriso no rosto,
Em meus passos rumando,
Querendo aquilo tudo, só mais um pouco,
E agradecendo ter paz.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, novembro de 2019)


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O Parto da Náusea

Por: Raquel Alves Tobias

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O parto da náusea

A náusea gosta de passear
Vive por aí a disfarçar
Olha pra uns com fome
Pra outros, finge que come

Mas o fato é que está cheia
Em gravidez de lua cheia
Tentando digerir a estase
De comidas de outras fases

De tanto engolir desgosto
Entala no fundo do poço
Instala-se em seu conforto
Esperando a sede chegar

Quem chega também é cheio
E só quer vazar o anseio
De alguém a quem culpar

Então tudo vira resto
Dos vômitos indigestos
Das partes a completar

Por: Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Unsplash

Criação

Por: Valéria Shirá

Criação

O poema em mim
Saliva, solve na boca
A Campanha
Me diz
Eu digo
Em Minha companhia

No peito inspira
Uma conversa simples…a capela
Expira
Embaixo dos Arcos
Canta

Diálogo por dentro
Sacia
Entre
Acolhimentos
Parceria
Cópula
Completa
Entrelace, a Trança tece

Nas Sensações
Na Consciência
No Corpo preenchido
Por ondas em evolução
Respiração serena
Deleite
Em diversas conjugações 
Criação

Valéria Shirá


Créditos da imagem: Unsplash

Obscuridade

Por: Bia Latini

Obscuridade

Sim, eu perdi
Eu caí
Eu chorei
Eu amei demais
E não fui correspondida
Eu não fui destemida
Eu errei
Não olhei bem
Não saquei
Não escutei
Me perdi
E não me achei
Procurei o caminho de volta
E não encontrei

Eu usei mal a palavra
E ela, assim, como a flecha lançada
Não voltou mais à minha garganta
Tomou rumo próprio
Se foi
Feriu
Matou
E por fim se suicidou

Joguei nos outros
Um balde de água fria
Gastei dinheiro à toa
Não planejei
Me ferrei
Caí no buraco
Me ralei
Tomei atitudes impensadas
Insanas
Me frustrei

Julguei mal
Tirei a capa pelo livro
Só olhei pro meu umbigo
Meti os pés pelas mãos
Dei voltas em rodamoinho
Murro em ponta de faca
Idas e voltas em labirinto
De burrice
De tolice
Imaturidade
Procrastinação

Mas para o todo mundo lá fora
Minha vida foi uma avalanche de sucessos
Sou Sã
Não preciso de divã
Sou diva
Prodígio
Sortuda
Raçuda
Tenho uma trajetória incrível
Sou tudo que você gostaria de ser                                                                                                                                            E pensa que eu sou…
Sem saber quem sou eu na minha
Integralidade

Por Bianca Latini


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Fogueiras Contemporâneas

Por: Priscila Menino

Fogueiras contemporâneas

Alguns anos e anos atrás, certamente eu teria minha fogueira.
Fogueira essa que criaram para me queimar por querer ser fiel a minha autenticidade.
Costumo pensar que ser da galera das bruxinhas sempre foi mais divertido.
Sempre pude dançar na chuva.
Pude cantar a plenos pulmões aquela canção favorita.
Pude saltar.
Pude falar palavras de baixo calão.
Pude me permitir.
Não eram os justíssimos espartilhos que prendiam aquelas mulheres, era a crítica e julgamento da sociedade.
Hoje não temos espartilhos, mas há quem queira ainda nos colocar mordaças do moralismo exacerbado.
Não temos mais fogueiras para matar as supostas bruxas, mas temos dedos em riste para pré julgamentos e ofensas que podem transformar ânimos e esperanças em cinzas.
Mas, sejamos realistas: não conseguiram nos queimar há anos atrás e não será agora que devemos ceder. Eles não podem! Não dê esse poder a eles!
Continuemos gargalhando alto, andando livremente por ai, deixando a leveza da nossa essência nos guiar.
Confiemos! Se continuamos a causar incômodo, é sinal de que estamos no caminho certo.
Continuemos livres.
E se houver fogueiras, que o fogo seja de tanta emoção e amor pela vida, que explodem em nossos corações.

Por: Priscila Menino


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