Goteira

Por: Raquel Alves Tobias

Goteira

Pára e escuta
A gota e o som
Membrana que rompe
A gota e o som
Respinga, se espalha
A gota e o som
Atinge e escorre
A gota e o som
Respira e acalma
A gota e o som
O vento que toca
A gota e o som
O frio na carne
A gota e o som
O toque na alma
A gota e o som
A pressa da mente
A gota e o som
O filme da vida
A gota e o som
Encobre o vazio
A gota e o som
Descobre o amor
A gota e o som
E tudo se molha
A gota e o som
Se enche, transborda
A gota e o som
E logo se sabe
Sua velocidade
Você tem o dom
Da onda de vida
Da gota e o som

Por: Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Unsplash

Ignorância

Por: Mauricio Luz

Ignorância

A um sábio perguntei
Como o coração dominaria.
Por violência ou magia
O que fazer eu teria?

Sem olhar para mim
Ele me respondeu:
“Como tantos no mundo
Você ainda não entendeu”

“Se não pode o navegante
Mudar o rumo dos ventos
Como pode você querer
Dominar seus sentimentos?”

“Faça como o marinheiro inteligente
Ou a gaivota que no ar flutua
Ajuste as velas! Solte as asas!
Apenas sinta o vento, e flua!”

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pexels

Onde Existo

Por: Bia Latini

Onde Existo

Eu existo onde o amor está
Depois da rua
Onde o entusiasmo faz a curva
Eu canto onde há lirismo
Onde a brisa da poesia
acaricia o meu rosto
Macia
Suave
Purpurinante

Eu habito onde a rotina não
Assentou assoalho
E descanso debaixo do telhado
Da esperança
Aquela de criança
Que tudo pode
E que de tudo quer brincar
Aquela que não se cansa
De ser tola
Insana
Devaniante
E que em absolutamente tudo
Pode acreditar
Sem limite
Sem ouvido para palpite
De adultos carentes
Poluentes
Corrosivos
Frustrados
E, principalmente, sem
Imaginação para sonhar

Eu borbulho fertilidade
E me travisto de profusão
Quando sou livre
Quando tenho espaço para acoplar minhas asas nas costas
Asas grandes, largas
De Ser que deseja
Içar novos voos
Todo dia
Toda hora
A cada minuto
A cada longa perpetuação
Da novidade que virou previsível

E ainda que eu faça rota igual
Eu voo quando o faço de maneira diferente
Trocando as cores das asas
Ou trocando a mente do pássaro
Ou, ainda, achando novo acorde
Para o seu coração

É nesse lugar que eu moro
Nessa atmosfera respiro de verdade
Nesse espaço minha existência se faz
Latente
Presente
Desperta
Acordada
Preservada
Perspicaz

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Unsplash

A menina do velho tênis amarelo

Por: Priscila Menino

A menina do velho tênis amarelo

Naquela casa da esquina mora uma menina. Otimista como Poliana, ela cantarola desafinada, enquanto caminha com seu velho tênis amarelo.
Aquele tom atípico do seu tênis, reluz quando os raios de sol batem, ilumina onde quer que passe.
Seus olhos profundos e castanhos transmitem um olhar de acalento e o jeito desengonçado de caminhar é tão singular, é leve.
Pobre menina, um dia tiraram seu tênis amarelo, a luz que ele irradiava, incomodava aos que não gostavam do seu brilho.
A menina então parou de passar cantarolando, agora ela mantinha um olhar vago, faltava aquela graciosidade desengonçada, até no por do sol já não havia mais aquela aquarela costumeira.
Foi então que um dia a menina recebeu a visita inesperada de uma borboleta em sua janela. Observou atenta a leveza com a qual a criaturinha batia suas asas e a forma como a luz era translúcida em suas asas.
Curiosa como é, observou que a borboleta voou e pousou em um girassol igualmente amarelo reluzente.
Nesse momento, a pequena menina se deu conta de que o brilho e a magia não estavam em seus tênis amarelos, muito mais do que isso, o brilho irradiava do seu sorriso e da esperança que trazia com suas canções para aquela velha redoma da cidade.
Outro dia passei na rua, abracei a pequena grande menina e pedi que nunca deixasse apagar novamente seu rastro de cor amarela, pois ele me inspirava e trazia paz.
Ela, surpresa, me disse com um tom de voz doce e gentil que eu e ela somos uma só, pois ela era a criança interior que habitava em mim. Mais surpreendentemente, pediu-me ainda que eu não me esquecesse da simplicidade de colocar meus velhos tênis amarelos e me permitir dançarmos juntas.
Após esse dia, nos encontramos sempre nos finais de tarde para contemplarmos mais um por do sol juntas.

Por: Priscila Menino


Créditos da imagem: Unsplash

POEMA ÀS PRESSAS

Por: Diogo Verri Garcia

POEMA ÀS PRESSAS

Somente preciso fazer um poema,
Pois me fiz esquecido da data certa
Ou mesmo tão ocupado, sem mal ter dormido
Sem tampouco poder ter parado,
em um esforço aguerrido,
que passou por mim, passado e batido,
o momento que o verso esperava
de porta aberta.

O verso esperou e cansou,
eu nem percebi
Em meio a papeis retocáveis,
autores e petições
O verso prometeu ser tenaz
Mas havia Tribunais
e deles eu quis fazer citações
em meio a acórdãos, autores e réus – não réis
Pois hoje foi dia sem dó, nem dores, sem sono
Devotado a desalojar argumentos
dos conhecidos aos novéis,
A compreender não amores, mas jurisdições.

Por causa disso o verso zangou-se,
Ficou triste comigo,
E por se ter encontrado afrontado
levou embora as outras palavras,
deixou-me quase desarmado,
pensem em um advogado
cujas frases acordaram
e foram.
E por culpa do enciumado verso,
Não raro tenham partido.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 26 de junho de 2019)


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Por: Raquel Alves Tobias

Passe, passe e impasse.
Passo o passo em impasse.
De passo em passo,
Passadamente
Passa
Mas apressa-se
A posse do passe.

Que pausa
Em pose.
Um close.
O reflexo
E o adeus.

Passa o passo em passe.
Que, então, passarás
Em paz.

Por: Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Unsplash

Chamado

Por: Mauricio Luz

Chamado

Ó, inconsciente!
Que caminhas em teus caminhos
Esmagando a vida sob teus passos,
Cego à beleza à tua volta
Perdido no Norte que achas ter.
Pensas que encontrarás o que procuras
Deixando as cicatrizes que gera em teu entorno?
Aprende a caminhar, ó inconsciente!
Caminhe com tal suavidade,
Que a Vida se alimente com teu andar.
Mire a beleza à tua volta
E deixe que ela ilumine teu interior.
Permita o Amor desnortear-te!
E sentirás que tua busca
Sempre esteve mais perto do que nunca imaginaste.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Freepik

Entrega

Por: Bia Latini

Entrega

Devo parar de ter medo de perder
E entender que nada me pertence
Que sou ser perfeitamente impermanente
Num mundo não perene, transitório
Nada é meu
As coisas, situações e pessoas
Apenas passam por mim
Acredito que devo praticar o desapego
E essa é uma tarefa árdua!
Aprendemos de forma diversa
Cultuamos o consumir, o ter, o adquirir
Até quando tentamos meditar
Agarramos-nos aos nossos pensamentos e não queremos deixá-los partir
Em geral, somos egoístas, possessivos, enraizados
Queremos voar, mas permanecemos agarrados em preconceitos, limitações e medos
Queremos leveza, mas não nos livramos dos excessos
Queremos paz, mas permitimos que as angústias façam morada em nós
Esperamos franqueza e transparência do mundo externo
Mas somos turvos e obscuros conosco
É preciso deixar, libertar, despossuir
É preciso ficar de mãos vazias
De pés descalços e despidos de qualquer vestimenta
Chegamos aqui nús e assim também retornaremos
A hora que essa dinâmica for algo sobre a qual nem pensamos, apenas exercemos
Seremos realmente livres e unipresentes

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Freepik

O CARIOCA HIPOTÉRMICO

Por: Diogo Verri Garcia

O CARIOCA HIPOTÉRMICO

Protegei-me, alguém,
do tão frio incauto
Que flagela e traz maus-tratos
À medida que esfria.
Eis que logo aos quinze graus,
Carioca já sofre hipotermia.

Não vejo razão nos que acham
esse agorento frio, no Rio, tão fofo.
Não há lareira em minha sala,
Devo descer roupas quentes da mala,
No mercado, armários de vinho esvaziam,
Pois, aqui, o inverno faz até calor, nunca frio.
E meus livros já temem o mofo.

Juro que acalento a frieza do tempo,
Não sendo este, pois, só um sem intento reclamo,
Eis que em outros lugares que tão bem guardo e amo,
deve haver alguns dias friorentos,
Vendo cair a neve sobre os arbustos e pisos,
Assistindo à branquidão criar um respirar gelado.
Pois que, assim, juro que até procuro o frio,
Seja rente, em Petrópolis, já na serra do Rio;
Seja mais longe, em Santiago.

Contudo,
Por cá, esse tempo não causa bem, não assente.
Os bares não têm aquecedor ambiente,
As praias nos expõem a um vento que sopra engabelado,
Pois deveria ser algo quente ao soprar pelas beiras.
É lugar em que não se projetam lareiras,
apenas ar-condicionado.

Por isso, rogo ao vinho que quiser levar,
A todo alguém que me possa ouvir.
Peço por um lugar quente,
Se não for muito pedir,
se não houver motivo a negar;
E por rever o tal calor que não demora.
Pois carioca não merece
ter tanto frio no Rio, sua casa,
Só fora.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 05/08/2019)


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Bicho Espinhoso

Por: Raquel Alves Tobias

Bicho Espinhoso

Primeiro a voz quis falar.
Mas aí os dentes se cerraram com uma forte mordida. E então nasceu um bicho, que ficou preso ali, zanzando dentro da cavidade, nervoso e inquieto, se batendo de um lado pra outro até inchar as bochechas. Gritou pra ver se alguém o ouvia, mas a sua voz de tão distante, parecia até ser algo da imaginação. Quando os lábios quase se abriram depois de tanta pressão, veio uma forte onda e… glupt! Foi engolido.
E foi descendo pelo esôfago em total desmantelo. Era muito desajeitado, de cantos pontiagudos e muito maior do que a passagem que o esperava. E foi só tropeço atrás de cambalhota. Onde quer que encostasse parecia não desgrudar. E lá vinha a deglutição tentar empurrá-lo mais uma vez “goela abaixo”. Mas a saliva era seca e os movimentos peristálticos o deixavam cada vez mais pegajoso. Parecia se entrelaçar desordenado em meio a uma ninhada de fios enquanto tecia nós.
E cada gole grudava em um nó.
Pouco a pouco era empurrado.
E depois dessa descida cheia de pausas desajeitadamente dolorosas, chegou ao seu destino anatômico. Por lá se deparou com o suco gástrico e com ele saiu aos tapas, como antigos arqui-inimigos. Cada novo machucado ganhava um punhado de fermento. E dessa briga, coisa boa não poderia sair. E assim, fermentado, foi crescendo, crescendo, crescendo até não caber mais no estômago. Virou náusea, virou angina, comprimiu o tórax até faltar o ar. Precisava continuar crescendo, já que no peito não cabia mais. Então subiu, ainda por dentro, como um vapor quente até a cabeça.
Ardeu.
Queimou.
Depois de todo esse estrago, o vapor desfeito deixou o olhar mais claro. Condensou-se no teto em inúmeras gotas aglomeradas e brilhantes.
Foi o fim?
O silêncio transformou-se em água e caiu em lágrimas.
Era o adeus.
Ou, talvez, um até breve.
O silêncio, calado, é bicho espinhoso e tem vontade própria.
Cuidado ao tentar domá-lo.

Por: Raquel Alves Tobias


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