O JORNAL DAS COISAS AMENAS

Por: Diogo Verri Garcia

O JORNAL DAS COISAS AMENAS

Um jornal oficial que publicava
Não mais as leis,
Tão só notícias: e era devotado às amenas.
Se houvesse proposto uma estrofe e a ele quisesse apor,
Publicado seria,
Tal como a letra de um compositor
Poderia.
Só há restrição para coisas pequenas.

Que assim compreendem, nem pelo quantum
nem pela forma do verso,
Não por termos qualificativos ou quão são expressos.
Sequer se valha do número de caracteres.
Por exemplo, são pequenas as frases que falam maldades;
São ricas e aprazes, quando bem tratam as mulheres.

Se não me basta ser tão explicativo,
Seja aprazível e compassivo
e publicado serás sem reparos ou custos.
Fale teus causos bem a olhos vistos,
Sem termos complexos,
como cnidoblastos ou nematocistos,
ao descrever tal como te enroscas,
feito em tentáculos, em teus amores injustos.

E quanto a teus olhares congestos,
Se temem que tuas palavras os deixem expostos,
Já de tão exaustos e indispostos
De repaginarem bens aquestos.
Leia em nosso FAQ os termos propostos,
Escreva sem nome
E haverá privacidade em nossos esforços,
Para que nenhum de teus amores identifiquem autores
em teus manifestos.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 22 de dezembro de 2019)


Créditos da imagem: Unsplash

Por: Raquel Alves Tobias

Muita gente parecida
Muito ódio de si mesmo
Que muda de endereço
Com rímel ou cavanhaque
Esperei uma vida
Para que as coisas mudassem
Muda de casa, muda o cabelo
muda de cidade
muda o corpo inteiro
e espera…
O sol entra pela janela
da mesma forma
O vento dança com as palmeiras
e a criança chora
enquanto os olhos ardem
Dedos próprios se entrelaçam,
se abraçam,
Tudo se move em detalhes.
Enquanto a espera,
continua inacabada.
Então por que desejo, você corre quando te beijo?

Raquel Alves Tobias

Por: Raquel Alves Tobias


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Epifania

Por: Mauricio Luz

Epifania

A carícia das folhas na pele
A canção do vento entre os galhos
O suave perfume das carambolas
Que formam constelações nos ramos acima de mim
Tudo me leva a Você
Os pés sentem a grama macia
Dedos respeitosos acalentam o tronco da árvore
Cujos frutos se oferecem ao suave toque de minhas mãos.
Você se mostra abundante, vibrante, sem pudores,
E apenas pede em troca,
A mesma entrega em mim.
A vida sorri e canta em cada canto
E os pássaros convidam minha alma a dançar irrestrita
Tudo me lembra a Você.
Das formigas que se aproveitam da abundância no solo
Ao Sol que a toca minha pele
Você está em todo lugar
Por que fui tão longe lhe procurar
Quando esteve sempre tão próximo de mim?
Fecho os olhos e finalmente vejo.
Presente é o único tempo a ser conjugado
para sentir a sua presença
E o poder do silêncio
Que grita sua mensagem
Através das finitas coisas que formam o infinito
Como o Oceano profundo
É formado pela Unidade
de minúsculas e tênues gotas.

Por: Mauricio Luz


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Meu Sonho de Voar

Por: Priscila Menino

Meu sonho de voar

Sempre tive uma atração pelo céu, seja em contemplar a beleza das nuvens e o contraste com a imensidão azul, ou seja, em ficar horas e horas olhando pela janela do avião e observando a paisagem ficando tão pequena, ao ponto de parecer uma maquete que fazíamos na fase escolar.
Certa vez, em um súbito impulso de coragem, resolvi saltar de pára-quedas. Obviamente não avisei para meus pais, dirigi até o local do salto, coloquei aquela parafernália toda que nos garante as mínimas condições de segurança, mandei mensagem para meus familiares com pequenas orientações sobre a criação da minha filha e entrei no avião para me dirigir ao local do esperado salto.
Enquanto eu via que a distância percorrida ia aumentando e as coisas lá embaixo ficando pequenininhas, o medo surgiu na mesma proporção e pensei: “o que diabos estou fazendo aqui, tenho uma filha pra criar”, paralisei.
Pessoa após pessoa ia saltando daquela porta aberta, a qual somente se sentia o vento e não se enxergava nada, até que chegou minha vez.
Saltei, meio torta por tentar ainda buscar um piso que sustentasse meus pés, o que foi em vão e somente me trouxe ainda mais desespero.
Certamente se eu tivesse a opção de voltar dali, eu o teria feito.
Mas quando abri os olhos e a explosão de adrenalina parecia ter estabilizado, contemplei aquela cena tão linda, aquela sensação de liberdade que marcava de forma tão leve aquele momento.
Ali no ar eu vaguei meus pensamentos e me deixei levar naquela onda de paz que me atingiu em cheio.
Penso então em quantas vezes congelei por medo e não arrisquei saltar de cabeça em um sonho.
Que esse dia sirva de lição para mim, me lembrando sempre daquela estranha e vigorosa sensação da liberdade de não ter amarras, de me permitir desprender meus pés das certezas do chão, de me despentear e perder o receio do inesperado.
Se eu soubesse que ia ser tão bom, não teria esperado tantos anos para esse dia, eu teria (literalmente) me jogado antes.

Por: Priscila Menino


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BALAIO TORTO DAS RUAS

Por: Diogo Verri Garcia

BALAIO TORTO DAS RUAS

Dedico
Aos que emburrecem, ao viver o amor que eu não vivi.
Ao refrasearem a canção que não obrei;
Os refrões que, sem percussão, cantavam.
Ao criticarem os beijos sinceros que, beijados dela, dediquei,
Mas que eram pouco mais, para caminhar nos passos
Que, falseantes ou falseados,
mesmo importantes, não prossegui.
Pois, ainda das razões,
pouco sei…

Cumprimentariam-se todos,
Os que não deixaram a alma aberta e se expuseram;
Os que aceitaram a paixão correta e se engalfinharam.
Em uma rua deserta, beberam e bradaram
Porque por um instante feliz, eles foram.

Foram os haveres…
Por evitarem causos, sem querer anuências, como eu perdi.
Talvez por retinência de mudar tanto ares, como mudei.
Ao colecionar olhares, posto vivi.
Conservaram-se vulgares; nisso avisei,
Pois temem ser cotidiano,
e se atrapalham,
Ao pretenderem ter nobreza sem ter lastros de rei.

Mas isso é tão engano,
Que soa como um balaio tonto e torto,
Um louco falante nas ruas.
É como um enxadrista que se diz atleta.
Feito confundir copista e poeta.
Como esperar que a hora exata
Se enunciasse à alma;
nos notificasse, desse alerta.

Mas se em algo caminharam triste, tenho certeza.
Pois tudo que se inicia, ao fim se achega
E atormenta a calma, que se encantara
A ponto de não prever, tal como eu vejo
Que todo fim é o mesmo, quando acaba.
Ao menos felizes, todos foram.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 09/11/2019)


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A criança em mim

Por: Bia Latini

A criança em mim

Não é sobre ser infantil
É sobre não deixar de ser criança
É sobre escrever as linhas que o coração dita
Cantar, marota, aquela canção
que não sai da cabeça e faz os pés sorrirem de tanta inquietação
É sobre não ter juízo, nem reprimenda, muito menos amolação
Fazer piada de tudo
Jogar bola de gude na pista da rota da vida
Soltar pipa, voar a criatividade, tecer a imaginação
É sobre não perder a essência do gosto da coisa…coisa doce e brilhante, feito maçã do amor
É sobre banhar-se de chuva de risadas que despenca sobre o vestido rodado, faz gargalhar e depois encarar a rouquidão
É sobre ter asas e super poderes, mesmo depois de saber que os heróis ficaram congelados nos quadrinhos
É sobre viver as possibilidades do ser que não se esgota de maneira estanque
Viver cada dia de um jeito: um dia sendo professora, no outro cozinheira de bolos, no outro médica de peixes ou quem sabe astronauta ou perfurador de sonhos…
É sobre não ouvir o que os outros pensam
porque a tua alma fala tão alto contigo,
que não é possível escutar nada mais
É sobre brincar até dizer chega,
até as pestanas começarem a querer fechar, tipo cortina pesada
E ir deitar exausto, de pés já limpos e cabelo molhado
Talvez com alguns arranhões e algumas cicatrizes
Mas feliz por ter vivido o dia como se só existe ele.

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Pexels

Por: Raquel Alves Tobias

Certas coisas levam tempo
Sentimentos só querem ser
A grama convida a deitar
O céu a se perder

Preciso de espaço para ver
As forças tem o que recebem
Se nada têm, sempre cedem
A quem as queira preencher

Não é confortável, nem um pouco
Há pêlos na laringe,
Pressão nos antebraços,
Isquemia pelo corpo

Contração defensiva
Cegueira reflexiva
E tudo que ela queria
Era dançar por entre as tranças

Balançar, como o vento balança
a gramínea
ao sol de meio-dia
em suaves redemoinhos refrescantes.

Fluir como água na fonte
Beber o sangue da terra
E fertilizar

Ouvir o som da vida
E soltar
Sem nenhuma procura
Apenas, ficar.

Por: Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Unsplash

Estilo

Por: Mauricio Luz

Estilo

Quando a mente se entrega
E a razão cala
Eis o momento
O coração fala

E detalha o que não pode ser detalhado
Define o que não pode ser definido
Liberta o que não pode ser reprimido
Rompe os limites do infinito.

Viva eu a vida
De maneira mais gostosa
Seja eu mais poesia
E menos prosa.

Por: Mauricio Luz


Créditos da imagem: Unsplash

Palavra

Por: Bia Latini

Palavra

Palavra é ponte
É abismo
É flecha
Ferida aberta
Hemorragia de sangue e de ideias
Irrigação
Fertilidade
Barreira
Saudade
Palavra é sonoridade
É veste que agasalha ou
Uniforme que quer padronizar
Palavra é mola propulsora
E às vezes empurrão para o boeiro do medo, da impotência, da irritação
Palavra é letra: de música, de ditado, de poesia, de prosa, de hino, de mantra, de campanha, de bula, de receita
Etimologia
Identidade
É algodão doce e pode ser quiabo
Palavra é dança
Movimento
Enredo
Abraço bem apertado ou aperto de mão
Dependendo da entonação, vira choque na contramão
Palavra é riso
É pranto
Pedido de socorro
É vício
Compaixão
Palavra é o que você
quiser fazer dela
Só não deveria ser uma simples…
Palavra

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Pexels

Ponto de vista

Por: Priscila Menino

Ponto de vista

E eu passava todos os dias pelo mesmo local, quase nos mesmos horários, como um ritual em um looping diário.
Certo dia, após um retiro quase sabático de uma pandemia que a obrigou a permanecer em casa, retomou o caminho.
Surpresa! Notou as árvores que dançavam no ritmo imposto pelo vento, deixando rastros de flores no chão, tal como um registro colorido de flores de ipê saudando o dia.
Notou ainda a coreografia dos pássaros que faziam uma sinfonia de sons, até então tão imperceptíveis.
Ah, e o céu? Um show a parte se fez em meio a nuvens bailadas pela valsa da imensidão azul celeste.
Foi então que percebeu o quanto o modo automático do dia a dia a fazia esquecer dos pormenores, daqueles pequenos detalhes que pareciam apenas um cenário do caos constante da correria urbana.
Agora ela sentia que tudo sempre estava ali, bastava saber notar, enxergar, sentir e absorver aqueles pequenos-grandes detalhes de uma rotina constante e impressionantemente bela.
Passou então a ver, em meio ao caos, a beleza e felicidade daqueles momentos tão significativos.

Por: Priscila Menino


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