VERSO EM PROCESSO (RUA ACRE, 80)

Por: Diogo Verri Garcia

VERSO EM PROCESSO (RUA ACRE, 80)

Levo a vida como posso
E dos meus dias faço verso.
A cada hora escrevo prosa
para os amores que eu prezo.

Mas aqui é o adverso,
Vejo lá a Guanabara.
Misturo o verso e o processo
E a luz do sol invade a sala.

E aqui desta janela,
Vejo a avenida e vejo o mar.
Se não há licença aqui para o verso,
Dou meu jeito de criar.
Mas se me volta a realidade
Que continua a ser bela,
Se a suspensão de liminar é incidente ou se é cautela.

E cada qual tem suas verdades.
Me adequo às filosofias
Na Justiça, a efetividade;
Com os poetas, a boemia.

Tanto me apego que me adequo,
Dou meu jeito de criar,
Faço rima em processo,
Canto verso, vejo o mar.

E ao adverso, insisto e prezo
Se há licença à boemia
À noite faço o meu verso,
Se o processo é meu dia.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 2006 – Rua Acre, 80)


Créditos da imagem: Freepik

Por: Raquel Alves Tobias

Você foi pra mim tudo o que nunca foram
Você fez por mim tudo o que nunca fizeram
Da minha mente não se esvai
Nenhuma sílaba, nenhuma vírgula
Nenhuma molécula do perfume
Da sua respiração
Empático vapor condensado
Num único abraço
Por favor, aperta-me mais um pouco.
Será que em algum momento
Envergonharei-me menos?

Vejo todos os seus olhos passearem
E em todas as esquinas eles me veem
E em todos os desvios eu os vejo
E em todos os sentidos eles convergem
Pois caminham de mãos dadas

Será um meio para o ponto final?
Digo sim, entendo e aceito.
Disse a vírgula ao recomeço:
Nasça e multiplique-se.

Por: Raquel Alves Tobias


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Silêncio

Por: Mauricio Luz

Silêncio

Tantos sons, tantos ruídos
Quantos padrões a serem seguidos!
Tantos barulhos, tantas ordens
Quantos conselhos, quantos pedidos!

Silêncio, Silêncio
Quero encontrar-te
E imerso em tua quietude,
Ouvir minha própria voz

Pois hoje pertenço
A tudo que tenho
Lembranças das vozes
Que ecoam em mim
Vozes que me disseram
O que é ser feliz

Silêncio, Silêncio
Quero abraçar-te,
Sentir meu respiro,
A batida do coração.
Que laços devo cortar,
Que pontes devo partir,
Para alcançar o vazio
Que a tudo preenche?

Mauricio Luz


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Por dentro: fora da casca

Por: Bia Latini

Por dentro: fora da casca

Vambora
Vamos trocar essa roupa suja
Vamos limpar essa alma muda
Vamos fazer festejo e faxina
Dentro e fora das nossas ruas
Não vamos mais nos esconder
Na epiderme dessa casca que não nos traduz
Essa pele que nos faz parecer algo
que não nos faz feliz
É pele de atriz
É vida sem chafariz
Chega de olhar para o lado
E achar que eles tem o que nós não temos
Talvez eles sejam mais livres, mais libertos
E, por isso, mais bonitos
Talvez estejam apenas fingindo alegria, altivez, sensatez
Por dentro, fora da casca,
podem estar insanos e descabelados
Austeros e gritando de dor
Esmagados
Sem saber como sair desse envólucro
que se confunde com quem
Um dia deixaram de ser

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Freepik

Prioridades e aprendizados

Por: Priscila Menino

Prioridades e aprendizados

Já fui de festa, hoje sou mais do Netflix.
Já fui de grito, hoje eu sou de ouvir.
Já fui de guerra, hoje eu sou de paz.
Já fui do apertado, hoje eu me contento somente com o confortável.
Já quis tudo ao mesmo tempo, hoje eu priorizo.
Aprendi que tudo tem seu tempo, da forma mais custosa possível.
Aprendi a valorizar o poder de um diálogo claro, sabendo que o importante não é o peso da argumentação, mas estar atenta para entender o outro lado também.
Aprendi o poder da leitura e de usar isso ao meu favor.
Aprendi a estar com minha solitude e estar bem com isso.
Aprendi a valorizar o abraço apertado da minha filha, uma linda criança.
Aprendi o valor de um ato de gentileza.
Aprendi a selecionar minhas batalhas e não comprar brigas desnecessárias.
Venho aprendendo a silenciar a voz da ansiedade que tenta tirar meu sono.
Aprendi a valorizar o por do sol e a observar as estrelas brilhando tímidas no céu azul infinito.
Aprendi a dosar a liberdade.
Aprendi que cortar ou pintar meu cabelo sozinha não é uma boa ideia, acredite!
Aprendi a ignorar vozes que me diminuem.
Aprendi a observar o florescer de uma planta e os ciclos que ela passa na vida.
Percebi que até a lua tem suas fases, por qual motivo eu devo ser sempre a mesma?
Aprendi a prestar atenção ao ouvir a letra da música (spoiler: isso pode ser frustrante e é um caminho sem volta).
Aprendi que tudo tem mais de um ponto de vista, nada, ressalto, nada, é absoluto.
Venho aprendendo a deixar os ciclos se fecharem, praticar o desapego daquilo que ainda me apego.
Venho aprendendo a arte da paciência.
Apesar de tudo que eu acho que sei, aprendi que, apesar de soar clichê, eu realmente sou uma eterna aprendiz. A graça e o tempero da vida estão exatamente aí.
Peço ao criador de tudo que existe que a vida me permita errar, aprender, sorrir, chorar, mas que em momento algum eu deixe de viver com intensidade e de apreciar sempre o poder da simplicidade de existir e ser feliz.

Por: Priscila Menino


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A CABECEIRA DOIS

Por: Diogo Verri Garcia

A CABECEIRA DOIS

Passou mais um, em compasso lento, aguardando na cabeceira dois.
Não na vinte, eis que não permite o vento;
nem em outra mais, pois não existe a três.
Antes, passaram tempos,
Passaram tantos, quem perdeu as contas, que voltou a vez.

Fazia dias que não olhava à sua volta
prostrada às costas a janela,
Onde laborava o sol todo prosa ao nascer.
De lá, onde se via o mar, cego,
Deixava a janela entrepassava
E acendia as luzes,
Para que fosse possibilitado ver.

Mas um dia o sol, de calor que arde feito vela,
Aproveitou-se da janela mal fechada
– a sempre cerrada janela -,
De frestas em frestas, refletiu na tela,
ocupou a sala.

De modo que a luz abafada,
De ar feio, virou paisagem em veraneio
Quando subiu a tranca,
permitiu-se a brisa, abriu as cortinas.
Era uma manhã tão clara.

E então notou que passava outro mais,
Mirando a cabeceira dois.
Assim como barcos rumo ao cais.
Havia a tal paz que agrada; que já se exacerbara.
Era o mesmo mundo,
mas entrou o sol ao abriu a janela:
Viu-se a Guanabara.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 18/10/2019)


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Alerta de Ilusão

Por: Raquel Alves Tobias

Alerta de Ilusão

Eu não me perco nos detalhes
Entendo cada minúcia deles
Falo por mim e talvez por milhares
Porque pessoas tem similaridades

Entendo a inveja, porque já a vi em mim
Entendo a raiva, porque já explodi
Entendo o desejo, porque o anseio.
E o gozo é sempre bom.

Como pesa o doar com receber
As palavras saem doentes
Dos olhos que não sabem ver
Repletas de dores, porque precisam doer

E cuidado quando sair por aí
Desavisado, torto, obnubilado
Cuidado pra não se perder
No jogo de luzes e sombras
A imagem quer ter você

Por: Raquel Alves Tobias


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O Olho do Furacão

Por: Mauricio Luz

O Olho do Furacão

E do nada ela surge.
Poderosa, imparável, imprevista,
A tempestade vem.
Ela me alcança
Encharca meu corpo com seus infinitos dedos molhados,
E zomba de mim.
Ventos rugem ao meu redor,
Ameaçando levar meus pensamentos,
Enquanto a escuridão ameaça tomar a minha luz.
Ela gargalha, trovejando alto,
Ao ver-me buscar meu único refúgio.
E lá eu chego
Sem nunca ter saído.
E lá eu chego,
Sem precisar sair do lugar.
A tempestade cresce.
Meu corpo estremece de frio,
Enquanto o imponderável testa a minha vontade.
Tarde demais, tempestade, tarde demais.
Eu estou no meu lugar.
Inalcançável e inatingível,
Aceito o abraço da tempestade,
Me entrego à sua força e ao seu poder,
E me torno meu centro o seu centro.
Ventos rugem ao meu redor,
Mas meus pensamentos estão serenos.
A chuva fustiga meu corpo,
Mas sinto apenas carícias.
Ergo meu olhar e onde havia escuridão,
Posso vislumbrar estrelas.
A tempestade rosna, impotente.
Ela sente, é tarde demais!
Cheguei ao único lugar do Universo
Onde estou perfeitamente protegido e seguro.
Dentro de mim.
O olho do furacão.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pexels

Rio de Lágrimas

Por: Bia Latini

Rio de Lágrimas

Chorar
É um rio que se vai
São lágrimas
que transportam tristezas, rancores
Amargores, dores, frustrações
Raivas, pesares
Desespero
Destempero
Para fora do nosso corpo
Tentando limpar o nosso coração
Tentando lavar a alma
Do sangue jorrado pela faca
implantada no peito

Chorar
Alívio
Desabafo
Consternação
Águas que rolam pelo rosto
Seu rastro seca, com uma pitada de sal
Dando um pouco de mar
ao que estamos sentindo
O movimento de chorar,chorar, chorar
E, enfim, acalmar
Depois de tanta energia expulsa
do corpo doente, febril ou gelado
É mesmo como o movimento das ondas:
Quase ouço o barulho da bruma
explodindo na beira da praia
e depois se recolhendo de volta àquela imensidão
Por isso, gosto tanto de chorar
Um esvaziar das comportas cheias
que querem desaguar
Num longo, incandescente e doído
rio de lágrimas

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Freepik

Mudança de Paradigma

Por: Priscila Menino

Mudança de Paradigma

De repente sentiu-se grata, sentiu- aliviada.
Parecia que ela voltava a vida após uma anestesia geral.
Ao retornar, começou-se a tomar consciência de ser dona de si. A única dona!
Se ela soubesse que sempre foi assim, se ela soubesse como se diminuía para se encaixar em padrões ou formas que eram pequenas demais para ela.
Aquelas gordurinhas da barriga já não causam mais tanto incômodo quanto causavam.
Aquelas marcas do tempo em seu rosto, agora são vistas como um atlas da sua caminhada e ela os olha com orgulho, como um diário vivido.
Agora a importância maior para ela é nutrir sorrisos e não mais medir o percentual de gordura.
Ela está se libertando, saindo daquele casulo que a prendia de bater suas asas e sair voando e pousando aonde quer que ela queira.
Observo e suspiro com alívio de saber que ela soltou o prumo, para tomar controle do seu destino.
Que linda e colorida desordem ela vive agora.
Como já disseram por aí: também pode haver muita beleza no caos.
O que para uns era visto como se ela estivesse enlouquecendo, para mim, ela está mesmo é se enriquecendo.
E eu não falo de valores palpáveis, eu me refiro é ao que ela vem ganhando na vida e da vida.
É tão sem preço, que é incomparável, se tem valor imensurável.

Por: Priscila Menino


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