Enxugos e picolés
Postado no 8 de dezembro de 2018 5 Comentários
Por: Mona Vilardo

Semana passada não escrevi aqui. Estava muito envolvida com o espetáculo de formatura dos meus alunos do quinto ano. Eu sou da opinião que aprendemos muito com as crianças, no texto “Hoje não, Senhor Medo” falo um pouco sobre isso.
Como toda formatura, teve festa no dia seguinte e mais um episódio contribuiu para o meu aprendizado com esse público infantil.
Normalmente eu gosto muito de brincar com as crianças em festas assim. Se a festa é para elas, sou da opinião que não se tem outra coisa a fazer do que ficar e brincar com elas. Bem, promessa é dívida e eu prometi que iria brincar. E claro, fui cobrada por eles assim que coloquei o pé na festa. Como é gostoso o ser autêntico das crianças.
– Tia, entra na piscina com gente? (Foi o primeiro pedido deles, e tia aqui não sabia que tinha piscina)
– Mas a tia não trouxe nada para entrar na piscina…
Então, depois de vários cutucões nas costas com aquelas carinhas pedindo que eu entrasse na piscina, eu respondi:
– Ok, arruma uma blusa pra mim que eu entro de legging e blusa, combinado?
Em menos de 1 minuto a blusa apareceu como num passe de mágica. Imagino que foi quase como um pique bandeira, um corre-corre para encontrar a tal blusa para a tia Mona entrar na piscina.
Brincadeiras e mergulhos animados, hora de sair para almoçar. Saindo da piscina, eu viro para uma aluna e falo:
– Olha, me empresta uma tolha, hein! Eu não trouxe nada.
Rapidamente, ela me dá a seguinte resposta:
– Tia, criança não se enxuga!
“Tia, criança não se enxuga” um prato cheio para uma boa escrita. Ao meu entender foi tipo: “Tia, já que você tá com a gente aqui, entra no mesmo clima, ok? ”
Pois é, quem dera que nós adultos também não nos enxugássemos. Pensando nisso, comecei a fazer uma lista na minha cabeça sobre coisas que não deveríamos enxugar:
Gentileza: Lembro da frase do filme “Extraordinários”: “Entre ser gentil e estar certo, escolha ser gentil”. Como seria bom se nos inundássemos de gentileza.
Empatia: Quem dera deixássemos escorrer empatia, sempre nos colocando no lugar do outro.
Alma infantil: Ser infantil nada tem a ver com ter a alma infantil. Enxergar o mundo por um lado mais prático e mais leve. Eu gosto mesmo é de me encharcar de uma alma infantil.
Logo depois da piscina, tomamos picolé. Eu escolhi o de milho verde. Nessa hora, na percepção dos meus alunos, toda a minha alma de criança foi por terra abaixo:
– Poxa, tia. Milho verde? Só minha avó e você que tomam picolé de milho verde! Tanto picolé bom, chocolate…chiclete… – Eles falaram indignados com o meu pedido.
– Pois é, queridos alunos, se tem uma coisa que aprendemos com o tempo é que nem só de picolés de chocolate e de chiclete a vida é feita. É importante aumentar o nosso leque de provas e escolhas.
– Vamos fazer o seguinte: Eu paro de me enxugar e vocês se arriscam em outros sabores. Seguimos uns aprendendo com os outros. Crianças e adultos. Por menos “enxugos” e mais picolés de milho verde!
Crônica – o que eu sei sobre o samba.
Postado no 5 de dezembro de 2018 1 Comentário
Por: Diogo Verri Garcia

No último domingo, 02 de dezembro, comemorou-se o dia nacional do samba. Hoje, dia 05, o aniversário de meu pai. Alinhavando as duas datas, faço esta crônica em cumprimento à minha agenda semanal de textos, mas também em saudação ao natalício de meu genitor, neste ano, comemorado exatamente em uma quarta-feira, data dedicada às minhas publicações.
Faz alguns dias, divulguei em uma rede social um vídeo do show do cantor e compositor Paulinho da Viola, a que compareci, após algum longo tempo sem ir. O espetáculo ainda trazia as vozes da Velha Guarda da Portela e do Cantor Criollo, apresentado no Centro do Rio de Janeiro, na casa de espetáculos nominada Fundição Progresso
Tão logo foi ao ar a publicação, várias pessoas que me conhecem há menos tempo “se surpreenderam” por eu gostar de Paulinho e por ser visto em um samba – de roupa social, inclusive. “Você é muito formal para isso” – disseram alguns, quer pessoalmente, quer por mensagens. Talvez a gravata do dia-a-dia e o modo da fala deem essa impressão que, ressalto, não é por toda imprecisa.
Não foi a primeira vez que ouvi esse estilo de música – som cadenciado que inaugura a crônica, já em seu título –, tampouco era debutante em um show do referido artista. O meio musical, por um longo tempo, fez parte do cotidiano da minha vida. Hoje estou afastado, é fato. Mas também é fato que passei o final da minha infância até o início da minha juventude frequentando a quadra da Portela, em Madureira, assim como pontos desse gênero musical espalhados pelo Rio de Janeiro – bem como os de seu coirmão instrumental, o choro. Aqueles que me conhecem há mais tempo, sabem do que passo a falar; os mais recentes, talvez não.
Desde pequeno, sempre fui criado no mundo da música: aos cinco anos, era levado pelo meu pai aos programas de samba que ocorriam na Rádio Roquette Pinto, em que existia uma enorme mesa oval com variadas cadeiras e microfones, e uma luz vermelha que, quando acesa, eu não poderia falar – e, naquela ocasião, ainda não entendia o porquê de tal regra.
Do mesmo tempo vem a lembrança do primeiro momento em que decidi compor: ao ver meu pai cantarolando na área de serviço de nossa antiga casa, vestido com uma camisa preta, que estampava um barco e algumas ondas em tom de azul claro, na altura do peito. Naquele dia, pensei: – também consigo! – arrazoei, mas não consegui. De certo, aquele barco não virou música alguma – o que, no Direito, chamaria de ineficácia relativa do meio, no caso, eu, garoto de quatro ou cinco anos –, mas abriu caminho para minha primeira canção, alguns meses depois: a repetitiva “Você é a luz do meu olhar” – cantada na voz aguda e desafinada de uma criança –, escrita para a filha da vizinha da casa de trás.
“Você é a luz do meu olhar,
É a luz do meu viver
É a luz do meu sonhar
Você é uma estrela de cinema
Uma estrela de amor
Uma estrela de paixão
Você é a namorada que sonhei
E que tanto desejei
Bate forte no meu peito.
Será que você não entendeu
Que meu amor é só teu
Você tem todo direito”
(Repetir 35 vezes, ou mais)
Daquele tempo, trago a feliz lembrança de que sequer ou mal sabia escrever, e sempre pedia ao meu pai – quando se sentava em uma cadeira de balanço, há muito não mais existente –, para registrar as tentativas de versos que me vinham à mente. A motivação para o então nascimento de um novo compositor – hoje, abraçado menos à música e tão mais ao Direito – teve nome: Murilo Garcia de Souza, ou, nas assinaturas musicais e no cadastro do ECAD, Murilo Garcia.
Meu pai sempre foi – e ainda é – aficionado por música. Iniciou compositor da GRES Unidos de Lucas, ainda na década de 1970 e posteriormente migrou para o GRES Portela. Nos idos de 1985, teve sua própria produtora musical (ProArt Rio), paralela às atividades que exercia no Mercado de Capitais, época em que lançou o LP (disco de vinil, para quem não sabe) “Só Falta Você”, produzido por Adelzon Alves, amigo de papai, o mesmo que assinou obras de Clara Nunes, Alcione, João Nogueira, Dona Ivone Lara, dentre outros – e que presidia programas de samba da Rádio MEC e Nacional.
Nesse mesmo período – permito-me a observação –, de coexistência de vida musical e laborativa, conheceu minha mãe, em meio às reuniões que movimentavam as chefias do Banco, situado próximo ao Passeio Público: ele, responsável pelo setor de liquidações; ela, pelo departamento pessoal. Essa união deu azo a um moleque que nasceu e cresceu feliz e que, nesse crescimento, também caminhou pelas notas musicais – sim, estudei piano, teoria musical e cavaquinho –, antes de descambar, com satisfação, para o Direito.
Em toda minha infância e adolescência, minha casa sempre foi frequentada por musicistas e por compositores, muitos deles que, de alguma forma, registraram seu renome no ofício do samba. Na juventude, os amigos reclamavam quando eu condicionava minha ida às festas jovens (denominadas: balada, boate, matinê ou somente festa, a depender da região do país) à vindoura ida deles à Roda dos Embaixadores da Folia – que ocorria na Av. Gomes Freire, posteriormente transferida para a Rua do Lavradio, por volta de 2005, sob coordenação de Claudio Cruz. Já um pouco mais crescido, desistiram de vez de convidar para as baladas juvenis. E, adulto, foi minha vez de, por conta própria, reduzir minhas idas, até o momento em que praticamente cessei a frequência aos eventos de samba e de choro, muito por conta dos primeiros estudos para concursos públicos, em 2007, e pela intensa dedicação ao Direito, nos anos finais de faculdade.
Na data de hoje, revivendo aquela época – uma das vantagens que nos traz a escrita –, permito-me lembrar um pouco das pessoas que frequentavam nossas vidas, brilhantes nas obras autorais que apresentavam ou na forma como conduziam seus instrumentos musicais. O palco, muitas vezes, era minha própria casa, quando organizávamos (nisso me incluo, embora tivesse onze ou doze anos) feijoadas repletas de música, samba, chorinho, cavaquinhos e violões.
Se posso citar alguns deles, os quais guardo com boas lembranças, pois fizeram parte de uma etapa feliz da minha vida, trago logo à mente a figura de um carismático senhor, que me foi apresentado como Picolino da Portela – cujo nome real era Claudemiro –, o qual tem seu nome cantado na música “De Paulo a Paulinho”, canção que anima frequentemente as apresentações e os shows de samba. Dele, ganhei um caminhão de madeira, por ele próprio construído, guardado por mim até hoje.
Dessa mesma época, também conviveram conosco Ary do Cavaco, autor que, após seu falecimento, deu nome à Ala de Compositores da agremiação Portela; Jurandir da Mangueira; Hélio, da Em Cima da Hora; Mauro Duarte Filho, e tantos outros. Entre os instrumentistas, ressalto Pedrinho Sete Cordas (nome que é dado em referência à sétima corda que é plasmada em alguns violões, tornando a execução mais complexa), exímio violonista e ex-integrante do grupo Chapéu de Palha; Sebastião, ou apenas “Bizu do Cavaco”; “Seu Josué”, bandolinista primoroso, pai de meu antigo professor de cavaquinho, Cláudio; e Ismael Silva, irreverente pandeirista, marido de Dona Ana e sobrinho do homônimo Ismael Silva, fundador da primeira escola de samba de nossa história, a “Deixa Falar”.
Dentre os cantores, recordo da qualidade vocal de Clarice Seabra e de Cesar do Vale, dos quais não tive mais notícias…
Foram dias felizes, assim como os atuais são. Hoje, troquei o palco pelas tribunas e os momentos de versos pelas noites de livros. Mas quem sabe um dia apareço por lá…
Ao meu pai, Murilo Garcia, fantástico amigo e compositor, uma felicitação pelos seus 69 anos, comemorados hoje. E um agradecimento por ter me apresentado a música, o amor de pai e a vida. Te amo.
Rio de Janeiro, 05 de dezembro de 2018
Diogo Verri Garcia
Ps: compartilho agora com vocês, por fotografias, um pouco dessa história:
Foto 1: provavelmente, de 2001, época de música e feijão em minha casa, em que aparecem Ary do Cavaco, Pedrinho 7 cordas, Clarice, Hélio, Cesar e Ismael Silva

Foto 2: que inaugura a capa desta publicação, datada de 2003 (exatidão na data), em que se repetem as pessoas acima, adicionadas as imagens dos velhos amigos Hesly e Carine.

Foto 3: sem data. Da esquerda para a direita, com papai, Piccolino, Ary e Jurandir.

Foto 4: do ano 2000, quando subi pela primeira vez para cantar em um palco, acompanhado pelo Grupo Show da Portela, com Ary e Clarice. Esse dia contou com as apresentações de Piccolino e de Guilherme de Brito.

Foto 5: de papai, na época em que teve um programa de rádio com Picolino.

Vídeo 1: Por fim, deixo o registro de um vídeo, de 2014, quando reunimos alguns amigos e fomos comemorar o dia do aniversário de papai, também em um 5 de dezembro, na quadra da sua escola de samba, a Portela – última vez que apareci por lá.
Gostaria
Postado no 4 de dezembro de 2018 Deixe um comentário
Por: Tadany Cargnin dos Santos
Hoje gostaria de gritar palavras de fogo
Afogar-me na infinita fantasia do oceano
Apostar tudo num imprevisível jogo
Dançar com o eu mais liberto, mais insano
Queria ver as formas disformes da alma
Furar as paredes para encontrar seus segredos
Involucrar-me numa tormenta, sem calma
Pecar copiosamente, sem culpas e sem medos
Queria voar pela beleza do universo
Aquecer-me nalguma deserta praia do sol
Observar o outro lado das estrelas, seu desconhecido inverso
Enrolar-me nas galáxias, naturalmente como um caracol
Queria ir além dos nomes, simbólico palavrear
Acariciar o lamento de solitários corações
Sentir a luz desta essência efusivamente brilhar
Transformar a cacofonia diária, em melífluas canções
Hoje, gostaria de tantas coisas, que até me encanto
Me surpreendo com tudo aquilo que gostaria, profícua imaginação
Que transforma o mundo num contemplativo recanto
Sem limites, nem fronteiras, uma divina ilusão.
PS: Para citar este Poema:
Cargnin dos Santos, Tadany.Gostaria.www.tadany.org®
Mananciais de Promessas
Postado no 28 de novembro de 2018 Deixe um comentário

Por: Diogo Verri Garcia
Prometo que serei mais ponderado, mais contido.
Menos acelerado, terei maiores cuidados,
Prometo portar-me como se fossemos tão só conhecidos
Juro ser mais ausente, também complacente, a Deus temente,
Mesmo que a oportunidade se apresente, abrirei mão de te ter.
Contudo, não mentirei pra gente: a distancia é prudente,
Para deixar só de prometer
Prometo refletir nas ações
Antes calorosas,
Silenciar os bordões,
Não mandar-te a ações em noites tão perigosas.
Perceber que nas horas da tua ausência,
Nisso não há inocência:
É só uma forma de não comprometer.
Assim juro não fazer mais convites,
Nem por ousadia
– tais quais tanto te fiz quando ainda não prometia.
Prometo não te falar em sussurros,
Não ter pensamentos obscuros,
Iguais aos que me vêm todo dia.
Considero não mais abraçar-te no escuro,
Ou prensar-te nos muros,
Nos cantões de qualquer casa.
Eu pondero que, por sermos vorazes,
Temos razões razoáveis
Para ponderar, e não requentarmos a brasa.
Asseguro limitar-me à luz da claridade,
Por precaução que, na verdade, é por nossa cupidez.
E por saber que a decisão mais sensata, é rapidamente afastada:
Quando aparece a vontade, não há sobriedade, é feito uma embriaguez.
Prenuncio não mais procurar-te quando for tarde,
Pois sem meias verdades, logo corre a hora, e tudo já se fez.
Prometo saber que sem ter saciedade, a imprudência se arvora,
E a resolução impensada não acontece só uma vez.
Prometo só agendar horários que atrapalhem compromissos,
Pois não temos juízo, nem maturidade.
Prometo, quanto estiver em outros braços, silenciar-te meus passos,
Faltar a ti com a verdade.
E compreendo o mesmo tratamento, ainda que me cause tormento e ansiedade.
Eu prometo, afastar-me de tudo que inclua a vontade que queremos conter.
Eu prometo, a prometer um dia
Em que vamos parar só de prometer.
(Diogo Verri Garcia)
*Autoral
Crédito da imagem: pixabay
A tragédia de John
Postado no 27 de novembro de 2018 Deixe um comentário
Por: Tadany Cargnin dos Santos
John era um executivo em ascensão, ele morava em Nova Iorque e gostava de competir com tudo e com todos, pois acreditava piamente que aquela era a única maneira pela qual ele tinha sido bem-sucedido e, certamente, tal axioma continuaria guiando a sua carreira.
Naquela manhã de novembro, onde o nublado do céu parecia ofuscar o brilho dos olhos e as primeiras ondas de frio congelavam os sonhos e entorpeciam os desejos, ele acordou e ficou, melancolicamente, deitado na cama.
Quando os olhos se abriram, parecia que uma tela de cinema tinha sido instalada no teto do quarto e, repentinamente, sua vida, de casos e descasos, batalhas sem inimigos, audácias sem objetivos, discussões sem noções, vitórias sem conquistas, lucros com solidão e encontros sem amor, entrou avidamente pelas córneas, chegou ao cérebro e, quando invadiu a circulação sanguínea, levou um fluxo de intensa tristeza, de imensurável solidão e de absurda incoerência ao coração de John.
Então, ao invés de levantar, ele olhou para a sua direita, depois para a sua esquerda e com ansiedade e medo fitou novamente o teto, pois receava rever parte daquele pernicioso e revelador solilóquio que tinha acabado de testemunhar.
Então, profundamente desconsolado e desiludido, ele suspirou sofregamente, virou-se de lado, estendeu o braço, abriu a gaveta da cômoda e pegou o revolver que estava dentro, seu braço tremeu, uma lágrima de dor e de esperança correu sobre o seu rosto, mesmo assim, levou a arma até a parte inferior do maxilar, mirou em direção à parte traseira do cérebro e puxou o gatilho.
Naquele instante, John conseguiu assassinar tudo aquilo que ele não era, mas acreditava ser, tudo o que havia sido condicionado a construir, mas que não era sua construção. Toda aquela falaciosa onda de ilusão que tinha se tornado sua vida havia chegado a uma praia infértil e sem paradeiro onde, desolada e abandonada, a própria vida tinha preferido perecer.
No outro dia, a manchete do jornal dizia: “Acidente domiciliar tira a vida e a carreira de brilhante executivo”.
PS: Para citar este Texto:
Cargnin dos Santos, Tadany.A Tragédia de John.www.tadany.org®
Arranhos
Postado no 24 de novembro de 2018 3 Comentários
Por: Mona Vilardo

Quando o ano começa a se despedir, começam também os encontros de amigos e os encerramentos de cursos.
Essa semana tive o meu primeiro almoço de encerramento. Foi com as amigas do curso de História da Arte. Elas me chamam de mascote do grupo, já que a maioria delas é de jovens senhoras acima dos 70 anos. Poderia dizer que elas são duas vezes eu, e sendo assim, têm duas vezes mais recordações para contar e histórias gostosas para compartilhar num final de ano que se aproxima.
Tem aquela que fala de suas viagens pelo mundo, afirmando que viajar é o que mais nos enriquece. A outra, cerimonialista de grandes eventos, fala de suas festas até a madrugada, e da quantidade de casamentos que já passou por suas mãos. Hoje, já diminuiu o ritmo das festas, mas mantém na memória belas lembranças.
Depois da primeira taça de prosecco, a que está sempre elegante fala dos filhos já criados e de suas conquistas. É tempo de descansar.
Um gole de vinho faz a outra relembrar do marido que já se foi deixando saudade.
A que está sentada perto de mim diz que o neto chama as suas rugas de “arranhos”. Que poético, eu penso.
A mais falante do grupo descreve o pai que teve. Lembra das proibições de várias décadas passadas. Mas diz que era bem moderna para o seu tempo, fazendo faculdade à noite, numa época em que isso não era comum entre mulheres.
A outra, de fala firme, se lembra que antes de casar não podia entrar no carro do namorado sozinha, e diz que hoje é tudo muito diferente.
A mais calada arregala o olho atrás dos óculos e fala: É, o tempo voa!
– E a tecnologia avança – reclama a outra que não curte toda essa evolução. Ela diz que se alguém quiser falar com ela, que pegue o telefone e ligue.
A mais falante relembra seus tempos de monareta. Nessa hora eu não entendo nada e
pergunto o que é aquilo, reforçando meu apelido de mascote entre aquelas mulheres que ativam a minha curiosidade.
Da anfitriã, ganhamos lindos cupcakes com desenhos natalinos, afirmando que a gentileza é atemporal.
O assunto vai para vaidade, e falamos sobre marcas de batom. Logo, eu lembro do famoso batom verde da década de 80, minha mãe tinha e eu me recordo de pegar para usar.
Elas me olham e falam: – Nossa, você lembra desse batom? É da sua época?
Pois é, jovens senhoras, também começo a criar meus “arranhos”. Afinal, do que é feita a vida se não de memórias que só o tempo traz?
Um brinde aos nossos arranhos! Um brinde a essas jovens senhoras!
Nada mais, só o Tempo.
Postado no 21 de novembro de 2018 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia
Todo início tem seu fim,
Todo fim tem seu porquê.
A razão só nos deixa pecar,
Por querer resolver.
Não importa quão forte é o santo,
Se voraz é a dor, consome e não tem acalanto.
Não importa se há ou não sentimento.
Nada pode mudar, nada mais,
Só o tempo.
É ele o guardião das memórias,
O artista, o palco,
O cartaz, as histórias.
É o dom mais repleto de todo o esquecimento.
Que dissolve o que ainda possa restar.
Nada mais, nada pode mudar,
Só o tempo.
(DIOGO VERRI GARCIA)
Na multidão enxergo rostos
Postado no 20 de novembro de 2018 Deixe um comentário
Por: Tadany Cargnin dos Santos
Agradecido observo, e ao observar enxergo, na multidão enxergo rostos
Alguns tão exuberantes que seu brilho quase cega
Outros semidefuntos, permeados por um soturno desgosto
Alguns ávidos como a inocência que livre se despega
Outros retesados como um sentinela em seu posto
Alguns carregam dúvidas, feições que a si mesmos desoneram
Outros expressam maturidade, são centrados e firmemente predispostos
Alguns são imaginações que revelam uma fantasiosa quimera
Outros escondem algum segredo, seus traços são receosos e indispostos
Alguns caminham solitários, parecem uma distante e intocável tapera
Outros irradiam o amor, luzes de um ser integrado, leve e composto
Alguns parecem procurar o passado, vivem noutra era
Outros são excessivos, seus gestos exagerados e sempre a postos
Alguns parecem ser aquilo que nunca foram, de si mesmos, estão sempre a espera
Outros são faróis, referências que todos observam com fraterno gosto
E entre alguns e outros todos passam
Alguns percebidos, outros escondidos
Alguns esquecidos, outros enaltecidos
Seus rostos e suas vidas, entrelaces temporários, tramas de um visual tecido
Que pelo mundo enxergo, curioso e agradecido.
PS: Para citar este Poema:
Cargnin dos Santos, Tadany.Na multidão enxergo rostos.www.tadany.org®
A última que desaba
Postado no 17 de novembro de 2018 4 Comentários
Por: Mona Vilardo

Em 10 de novembro de 2018, às 17h28, um pai não vai mais voltar para casa levando o pão do lanche da tarde.
Simultaneamente, a avó que costumava se preparar para rezar o terço, não irá rezá-lo quando o relógio bater às 18h.
Um pouco mais tarde, às 19h35, com o dia se tornando noite, a adolescente não vai se preparar para a festa que ia com as amigas da escola. Escola essa que ela também não irá mais frequentar.
No mesmo momento, onde ficava a pizzaria, dois amigos não celebram nada. Vai faltar um amigo nos lanches com pizza aos sábados!
Enquanto isso, num ponto de ônibus próximo, um jovem rapaz retorna de um passeio e não entende nada do que está acontecendo.
No dia seguinte, 11 de novembro de 2018, às 14h34, a estudante que não tem notícias da tia escuta Legião no celular: “Mas é claro que o Sol vai voltar amanhã, mais uma vez, eu sei! ”
Uma semana depois, às 6h da manhã, nem um minuto a mais ou a menos, o homem do gás não vai passar para vender seu ganha pão. Na lembrança de todos, fica o bom humor daquele garoto trabalhador.
Em dezembro de 2018, próximo ao Natal, um bebê de 11 meses não irá completar seu primeiro ano.
Nove meses na frente, a grávida não terá sua filha, ainda sem nome, no colo.
1 ano depois, no dia 10 de novembro de 2019, às 20h25, a jovem citada acima por ter faltado a festa também não vai comemorar seus 15 anos. Ela se foi aos 14.
Niterói. Morro da Boa Esperança. Uma semana atrás. Madrugada de 10 de novembro de 2018. No momento da tragédia, não deslizaram apenas areias e casas. Tudo que desliza de uma certa forma desaba. Naquela madrugada, desabaram histórias e combinados. Desabaram famílias e sonhos. Desabaram Nicole, Arthur, Dalvina e Marta.
A última a desabar se chama ESPERANÇA, e curiosamente é o nome do lugar onde tudo desabou. Que esta permaneça firme, na certeza de que só o tempo cura tanto desabar.
Ser Honesto
Postado no 15 de novembro de 2018 Deixe um comentário




