POEMA ÀS PRESSAS

Por: Diogo Verri Garcia

POEMA ÀS PRESSAS

Somente preciso fazer um poema,
Pois me fiz esquecido da data certa
Ou mesmo tão ocupado, sem mal ter dormido
Sem tampouco poder ter parado,
em um esforço aguerrido,
que passou por mim, passado e batido,
o momento que o verso esperava
de porta aberta.

O verso esperou e cansou,
eu nem percebi
Em meio a papeis retocáveis,
autores e petições
O verso prometeu ser tenaz
Mas havia Tribunais
e deles eu quis fazer citações
em meio a acórdãos, autores e réus – não réis
Pois hoje foi dia sem dó, nem dores, sem sono
Devotado a desalojar argumentos
dos conhecidos aos novéis,
A compreender não amores, mas jurisdições.

Por causa disso o verso zangou-se,
Ficou triste comigo,
E por se ter encontrado afrontado
levou embora as outras palavras,
deixou-me quase desarmado,
pensem em um advogado
cujas frases acordaram
e foram.
E por culpa do enciumado verso,
Não raro tenham partido.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 26 de junho de 2019)


Créditos da imagem: Pexels

Por: Raquel Alves Tobias

Passe, passe e impasse.
Passo o passo em impasse.
De passo em passo,
Passadamente
Passa
Mas apressa-se
A posse do passe.

Que pausa
Em pose.
Um close.
O reflexo
E o adeus.

Passa o passo em passe.
Que, então, passarás
Em paz.

Por: Raquel Alves Tobias


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Chamado

Por: Mauricio Luz

Chamado

Ó, inconsciente!
Que caminhas em teus caminhos
Esmagando a vida sob teus passos,
Cego à beleza à tua volta
Perdido no Norte que achas ter.
Pensas que encontrarás o que procuras
Deixando as cicatrizes que gera em teu entorno?
Aprende a caminhar, ó inconsciente!
Caminhe com tal suavidade,
Que a Vida se alimente com teu andar.
Mire a beleza à tua volta
E deixe que ela ilumine teu interior.
Permita o Amor desnortear-te!
E sentirás que tua busca
Sempre esteve mais perto do que nunca imaginaste.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Freepik

Entrega

Por: Bia Latini

Entrega

Devo parar de ter medo de perder
E entender que nada me pertence
Que sou ser perfeitamente impermanente
Num mundo não perene, transitório
Nada é meu
As coisas, situações e pessoas
Apenas passam por mim
Acredito que devo praticar o desapego
E essa é uma tarefa árdua!
Aprendemos de forma diversa
Cultuamos o consumir, o ter, o adquirir
Até quando tentamos meditar
Agarramos-nos aos nossos pensamentos e não queremos deixá-los partir
Em geral, somos egoístas, possessivos, enraizados
Queremos voar, mas permanecemos agarrados em preconceitos, limitações e medos
Queremos leveza, mas não nos livramos dos excessos
Queremos paz, mas permitimos que as angústias façam morada em nós
Esperamos franqueza e transparência do mundo externo
Mas somos turvos e obscuros conosco
É preciso deixar, libertar, despossuir
É preciso ficar de mãos vazias
De pés descalços e despidos de qualquer vestimenta
Chegamos aqui nús e assim também retornaremos
A hora que essa dinâmica for algo sobre a qual nem pensamos, apenas exercemos
Seremos realmente livres e unipresentes

Por Bianca Latini


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O CARIOCA HIPOTÉRMICO

Por: Diogo Verri Garcia

O CARIOCA HIPOTÉRMICO

Protegei-me, alguém,
do tão frio incauto
Que flagela e traz maus-tratos
À medida que esfria.
Eis que logo aos quinze graus,
Carioca já sofre hipotermia.

Não vejo razão nos que acham
esse agorento frio, no Rio, tão fofo.
Não há lareira em minha sala,
Devo descer roupas quentes da mala,
No mercado, armários de vinho esvaziam,
Pois, aqui, o inverno faz até calor, nunca frio.
E meus livros já temem o mofo.

Juro que acalento a frieza do tempo,
Não sendo este, pois, só um sem intento reclamo,
Eis que em outros lugares que tão bem guardo e amo,
deve haver alguns dias friorentos,
Vendo cair a neve sobre os arbustos e pisos,
Assistindo à branquidão criar um respirar gelado.
Pois que, assim, juro que até procuro o frio,
Seja rente, em Petrópolis, já na serra do Rio;
Seja mais longe, em Santiago.

Contudo,
Por cá, esse tempo não causa bem, não assente.
Os bares não têm aquecedor ambiente,
As praias nos expõem a um vento que sopra engabelado,
Pois deveria ser algo quente ao soprar pelas beiras.
É lugar em que não se projetam lareiras,
apenas ar-condicionado.

Por isso, rogo ao vinho que quiser levar,
A todo alguém que me possa ouvir.
Peço por um lugar quente,
Se não for muito pedir,
se não houver motivo a negar;
E por rever o tal calor que não demora.
Pois carioca não merece
ter tanto frio no Rio, sua casa,
Só fora.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 05/08/2019)


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Bicho Espinhoso

Por: Raquel Alves Tobias

Bicho Espinhoso

Primeiro a voz quis falar.
Mas aí os dentes se cerraram com uma forte mordida. E então nasceu um bicho, que ficou preso ali, zanzando dentro da cavidade, nervoso e inquieto, se batendo de um lado pra outro até inchar as bochechas. Gritou pra ver se alguém o ouvia, mas a sua voz de tão distante, parecia até ser algo da imaginação. Quando os lábios quase se abriram depois de tanta pressão, veio uma forte onda e… glupt! Foi engolido.
E foi descendo pelo esôfago em total desmantelo. Era muito desajeitado, de cantos pontiagudos e muito maior do que a passagem que o esperava. E foi só tropeço atrás de cambalhota. Onde quer que encostasse parecia não desgrudar. E lá vinha a deglutição tentar empurrá-lo mais uma vez “goela abaixo”. Mas a saliva era seca e os movimentos peristálticos o deixavam cada vez mais pegajoso. Parecia se entrelaçar desordenado em meio a uma ninhada de fios enquanto tecia nós.
E cada gole grudava em um nó.
Pouco a pouco era empurrado.
E depois dessa descida cheia de pausas desajeitadamente dolorosas, chegou ao seu destino anatômico. Por lá se deparou com o suco gástrico e com ele saiu aos tapas, como antigos arqui-inimigos. Cada novo machucado ganhava um punhado de fermento. E dessa briga, coisa boa não poderia sair. E assim, fermentado, foi crescendo, crescendo, crescendo até não caber mais no estômago. Virou náusea, virou angina, comprimiu o tórax até faltar o ar. Precisava continuar crescendo, já que no peito não cabia mais. Então subiu, ainda por dentro, como um vapor quente até a cabeça.
Ardeu.
Queimou.
Depois de todo esse estrago, o vapor desfeito deixou o olhar mais claro. Condensou-se no teto em inúmeras gotas aglomeradas e brilhantes.
Foi o fim?
O silêncio transformou-se em água e caiu em lágrimas.
Era o adeus.
Ou, talvez, um até breve.
O silêncio, calado, é bicho espinhoso e tem vontade própria.
Cuidado ao tentar domá-lo.

Por: Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Unsplash

Noite na Montanha

Por: Mauricio Luz

Noite na Montanha

Ela chega e me cobre com o seu manto negro
E se despe mostrando seu corpo coberto de estrelas
Ó Noite, bela e sedutora,
Que mistérios escondes caprichosamente de mim?

Deixa-me ser seu amante,
Seu namorado, seu brinquedo!
Acalenta meu coração com teu beijo orvalhado
E nubla a minha mente com o teu abraço frio
Toma meu espírito e leva-me onde
Apenas aqueles que se entregam totalmente
Conseguem chegar

E lascivos, apaixonados e amorosos
Tornar-nos-emos apenas um
Deitados em uma cama de nebulosas
Cúmplices amantes do infinito.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Unsplash

CAFÉ EM O’HIGGINS

Por: Diogo Verri Garcia

CAFÉ EM O’HIGGINS

A história de uma história vazia
Tal como a noite que termina entrepassando clara,
Com a escuridão entrecortada
Tão logo vem a sombra da luz, clareando a via.

Iluminando arvoredos,
Retirando da sombra os ramos e os gravetos
Fazendo o monte em frente mais claro,
A rua, mais cheia;
A temperatura, por instantes, mais fria.

Passa tudo,
Tal como o vento que corre menos que a brisa,
Enquanto este alguém realiza
a ver a mudança das horas.
Um olhar de quem está sentado
olhando fluxos de carros, mirando as moradias.
Passam estudantes, passam senhoras
Passa o café quente, o apressado atendente,
passa o que passou em outrora,
Passam jovens de Angola; passam moças de Hungria.

Uma gradual mudança, sem nada para estar atento,
Sem tormentos,
Nem calmos, nem briguentos.
Nenhum acontecimento,
Nada a carecer vigília.

Aqui há a história de uma história tão rasa,
Mas que se fosse sem graça,
Apenas triste, aviltante,
como parece,
Não vos contaria tão frisada.
Vejo palavras em gente calada,
Faces há pouco acordadas,
Talvez, com mais sono do que se gostariam:
a zero grau, tal qual o termômetro marca.

Passagens que me lembram de outras horas,
Deixadas nos entornos de casa,
Lugar dos pensamentos aprazados.
Tomando cada segundo como toda uma semana,
Tramando contra um falso tempo, largo e demorado,
Sem cronograma.

Não é um conto brilhante,
que narra o pedante tempo
insistente em passar.
É um poema,
de quem toma instante só a ver
A manhã a nascer
Quase como em um momento parado.

Mas, ainda assim,
Nos aguarda o tempo ao lado.
De pé, prostrado a recordar
Que mesmo quando não nos apressamos,
Felizes em vê-lo ou ao mundo ver,
Ele passa, ainda que calado.

Já anda mais o sol,
Segue ficando mais quente
E nossa gente quer resolver andar.
Fecho o verso na pressa,
Que ficou entre goles e conversas,
Abandono o café no bar.

(Diogo Verri Garcia, Santiago, 03 de julho de 2019)


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Espelho

Por: Raquel Alves Tobias

Espelho

Os olhos dizem muito, dizem tudo.
Os tímidos têm vergonha
Por medo do que é bom.
Os do medo se bloqueiam
Porque querem se jogar.
Os calados guardam a dúvida
Da resposta que já têm.
Os distantes já andaram
E não querem mais voltar.
Os que gritam por socorro
Não conseguem se olhar.

Nos seus olhos tive medo
Do além que não conheço
Precisava desviar
Mas não pude mais fugir
Foi preciso encarar
Não consigo olhar tão fundo
Porque quero navegar
E me perder
Lambuzar
Dormir e acordar
Me vestir
Me despir
Me perfumar
Exalar
Dançar por aí
A derramar
Tudo o que eu vi
Em você
E em mim
É morada
É lar

Por: Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Freepik

Confessionário

Por: Bia Latini

Confessionário

Ahh… Santo Universo!
Eu tenho tantos medos
Você bem sabe disso
Tenho medo de assumir algumas responsabilidades
Então, eu te rogo:
Dê-me um abraço imenso
Deite-me em seu colo
E aqueça em meu peito
A confiança que comigo nasceu
O propósito que você me deu
Para que eu possa trilhar o melhor rumo
O correto caminho
Aquele com o qual firmei compromisso
Pelo qual poderei acessar lugares inóspitos
Levando perfumes, lavandas, sorrisos

Que eu possa perfurar minhas camadas superficiais
E deparar-me com minhas profundezas
Com coragem para encontrar no trajeto
As barreiras das minhas fraquezas
As vaidades do meu ego
As expectativas frustradas das minhas ilusões
As calamidades da minha alma imersa
As feridas de todas as minhas vidas
As falhas das minhas tentativas

Ohhh… Querida esfera infinita de luz
Clareie o meu Ser
Segure a minha mão
Para que eu sinta a sua indicação
Fazendo-me caminhar em frente
Ainda que tudo pareça escuridão
Que meu corpo aqueça em plenitude
E eu saiba que em determinada direção preciso seguir
Que meu coração seja bússola indefectível
E minha fé nele indubitável
Que eu tenha serenidade e certeza em renúncias
Alegria e firmeza em escolhas
Concretude em aglutinar minha unicidade

Por Bianca Latini


Créditos da imagem: Freepik