Postado no 23 de novembro de 2023 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

O ensurdecedor silêncio da casa vazia
Faz-me ouvir minha própria voz
Eu não a ouvia.
Eu não conseguia.
O que escuto me perturba.
É a voz de um prisioneiro
Enjaulado pelas grades frias das obrigações,
Trancafiado entre as paredes grossas das crenças alheias.
Fui para o quarto,
Olhei-me no espelho.
Estava diferente.
Uma máscara minha caiu
E outra face aparecia
Escondida debaixo da mesma face
Que no espelho surgia.
Estava tão igual, mas tão diferente!
Eu não me reconheci
Pois finalmente eu me vi
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Pixabay
Eu-Cidade
Postado no 21 de novembro de 2023 Deixe um comentário
Por: Bia Latini

Eu-Cidade
Somos muitos parecendo APENAS UM
Não somos monobloco, paralelepípedo condensado, feito apenas de cimento
Somos cidade, bairro, quarteirões, ruas, esquinas, ladeiras , vielas, becos, cruzamentos
Terrenos baldios, plantações, inundações, incêndios, parques, lagos, rios, mares…marés
Na calçada de onde moramos, olhando para baixo, vemos apenas asfalto, pixe, paralelepípedo
Ao sobrevoarmos de avião ou helicóptero, heis a cidade:
Nós-imensidade
Somos tudo isso
Alternadamente
Concomitantemente
Paralelamente
Intermitentemente
Significantemente
Insignificantemente
Lentamente
A-B-R-U-P-T-A-M-E-N-T-E
Estamos tentanto fechar “O Diagnóstico”
Mas não somos médicos
Somos HUMANOS
Nos esforçamos para sermos singular
Só que somos plural: únicos na combinação de transversais e paralelas
Como seria contemplar toda a cidade?
Por Bianca Latini
Créditos da imagem: Freepik
POEMA À PRAIA
Postado no 10 de novembro de 2023 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

POEMA À PRAIA
Nossos melhores caminhos levam à praia,
Onde vige a lei de Deus,
A regra do vento, o compêndio das águas,
Onde não sobra espaço para problemas teus.
Que ficam na praia, com nada a lastimar.
Ficarão por lá, sem voltar contigo.
Até teus erros e anseios já gostam da praia.
Lá encontraram leveza, porque lhes é permitido.
O vento toca o rosto,
a água abre os caminhos.
Se algum desgosto contigo, veio:
voltará sozinho.
Os grãos de areia que te encontram na praia
São obra do mar
e ao tempo convém
dispersá-los ao sol,
entregues a quem os tocar,
Como orações pequenas que são,
de paz e bem.
(Diogo Verri Garcia. Rio de Janeiro, 14 de janeiro 2019)
Créditos da imagem: Freepik
Postado no 30 de outubro de 2023 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Se quiseres encontrar a Paz,
Procura-a em ti
É o único lugar onde poderás encontrá-la
Se continuares a buscá-la fora dos contornos de sua pele
Andarás em círculos como o beduíno
Que vê na miragem surgindo no horizonte
A vã esperança de saciar a sede que o tortura
Até ser engolido pelas areias do tempo.
Se quiseres encontrar a Paz,
Aceite-a em ti
Pois se desejas a aceitação longe do alcance de seus cabelos
Serás como o capitão de navio que apenas navega
Na certeza de encontrar bons ventos
Nunca se afasta do porto “seguro”
E seguro jamais conhecerá o mar e a si mesmo.
Se quiseres encontrar a Paz,
Toma-a para ti.
Pois se crês que tua Paz depende do silêncio dos inimigos,
De como eles agem, como pensam de ti,
Serás como a bela ave que vislumbra a gaiola aberta,
Mas coloca a culpa no carcereiro
Por não voar nos rumos do infinito.
Se quiseres encontrar a Paz,
Construa-a para ti.
Faça dela tua casa, tua fortaleza, teu castelo.
Saiba que uma vez erigida,
Ventos açoitarão as paredes, aríetes baterão à porta.
Falharás fragorosa e vergonhosamente até perceber
Que feita de muros e granitos, essa Casa cairá.
Mas com tijolos de Esperança, Ela se sustentará.
Esse espaço será apenas teu,
Inalcançável para deuses e demônios,
Inabalável às intempéries da Vida.
Se quiseres encontrar a Paz,
Planta-a em ti.
E como a pequena semente que rompe o asfalto e o concreto,
Sinta as raízes racharem teu cimento de certezas,
Tornar em pó as pedras que teimas carregar,
Fazer da raiva e da amargura o adubo que a elevará ao Sol
Até que possas subir em seu galhos e descansar em suas próprias Sombras.
Se quiseres encontrar a Paz,
Para de procurá-la na humanidade, nos animais, nas plantas,
Chega de buscá-la nos elementos, nos planetas, nas estrelas.
E verás surpreso que Ela está na mesma distância
Que tu estás de ti mesmo.
Tem o tamanho de teu Coração.
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Pixabay
Postado no 25 de outubro de 2023 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Amanhece; o pássaro canta agitado
Meus olhos se encontram com a luz
Que sussura “bom dia” e entra pela janela
Me convida para mais alegrias e tristezas
Nos momentos que formam a Existência.
A gatinha dorme a meus pés,
Lembra-me da beleza e da graça
Compartilha de seu calor comigo,
Me aquece o corpo e o coração.
Vida.
O pássaro, a gata, a luz…
Eu e você.
O Mistério que nos move é o mesmo.
Ele não pode ser visto ou descoberto
Pelos mesmos olhos que nos tornaram cegos;
Apenas entendido em um tempo além da razão.
O que eu não faria para que você percebesse:
Aquilo que tanto valoriza
Não tem valor algum.
E as medidas com as quais mede os outros
Na verdade mostram as suas próprias medidas,
O tamanho de seu medo.
Nada, eu não posso fazer nada.
A ignorância nos torna prisioneiros,
Carcereiros de nós mesmo,
Condenados com as chaves das celas nas mãos.
O que posso fazer é ouvir o canto do pássaro,
Sentir o aconchego felino,
Ver a luz dançando e me chamando para o imprevisível,
E te esperar do lado de fora.
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Pixabay
GRÃO E MIGALHAS
Postado no 18 de outubro de 2023 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

GRÃO E MIGALHAS
Por vezes, insistem em dar migalhas,
Enquanto minha mente anda morta de fome.
Fome por fome, estou acostumado,
Mas não acho engraçado não saber ler meu nome.
Parece até princípio de fim.
Meio de vida é qualquer um, afinal.
E se não acho um caminho certo para mim,
O fim, no início, é normal.
Há quem diga que é um direito o estudo,
Mas na vida só conto mesmo com a sorte.
Se há equidade no mundo? Não creio.
Somos iguais só na hora da morte.
E para que me falar de educação,
Se cultura, aqui, só se conhece de retrato?
Não dá não, doutor! Isso é para filho de patrão.
E como comprar livro, se mal consigo ter um prato?
Começo a achar que estudo é pra quem pode.
Sigo sem vida, sem letras, sem saber.
Não sei se é culpa de Deus, do mundo, da sorte,
Ou se é só minha, por não saber ler.
Prevejo piada em querer diploma em moldura,
Porque para mim já é muito ter nada.
Se alguém nos desse algo mais de cultura,
Deixava de vez o cabo da enxada.
Mas tem moço que parece não ver.
Saber, até sabe, mas finge que não.
No fim, para os nossos, farelo.
Para eles, fartura e quinhão.
Mas de que me adianta farelo sem grão?
Moço, dê-me uma escola,
Que lá eu aprendo. E depois faço meu pão.
(Diogo Verri Garcia)
(Publicado em Poesias Brasileiras. 3. ed. São José do Rio Preto: THS Arantes Editora, 2006).
Créditos da imagem: Pexels
Postado no 14 de outubro de 2023 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Ó Filha, Ó Filho,
Eu lhes peço perdão.
Erigi a vocês um mundo de aço e carvão
E com as riquezas que lhes deixarei
Vocês pagarão o preço
Que o dinheiro não pode pagar.
Com o ferro domesticado devastei montes e florestas
Os corpos e as almas de vidas ancestrais
Queimei para voar como os pássaros, nadar como os peixes
Correr mais rápido que a mais veloz das gazelas
Mesmo sem saber o porquê.
Na orgia dos vampiros sedentos por ouro e poder
Suguei as águas antes cristalinas e puras, berço pujante da vida.
Remodelei a Terra a meu bel prazer
Movido por um vazio interior tão profundo…
Eu poderia ter preenchido de Amor
Mas escolhi abraçar a Ganância
Enquanto Mamom gargalhava maravilhado
Testemunha do que fiz ao jardim do Éden
Ó Filha, Ó Filho!
Vocês pagarão o preço!
A terra está abrasiva e inclemente
Não mais fresca e florescente,
Mas árida e seca como minha mente ávida
Em conseguir mais prata e platina
A água, escurecida e putrefata
Envenenada de química e física
Plástica como meu coração se tornou.
O ar, esfumaçado, quente, sufocante,
Se revolta e nos açoita, violento e rancoroso
Inclemente como eu ao encarar outras formas de vida
Que não eu mesmo, e apenas eu.
Pois até mesmo aqueles, Ó Filho, Ó Filha,
Que penam convosco no que eu construí
De mim nada obtinham além do vinagre do desdém.
O que vos deixei de herança? O que fiz?
Como o ouro que extraí da terra
Poderá alimentá-los?
De onde virá o líquido que saciará suas sedes,
Banhará as suas peles?
Gaia nos perdoará pelas centenas de anos,
Que a escravizei e violentei incessante, impiedoso?
Como se lembrarão de mim?
Ao olhar o céu, obscuro e sem estrelas,
E inspirar o ar venenoso e pestilento,
Reconhecerão o amor que sinto por vocês?
Ou olharão ao redor e consternados,
Gritarão em sussurros inaudíveis para mim:
“O que nos deixaste?”
Ó Filha, Ó Filho,
Eu lhes peço perdão.
Que meu legado de Morte
Seja o testamento da Vida
A fatalidade vem quando a Esperança se vai
Devemos reaprender a Amar, mas…
Conseguirão isso vocês, depois que tudo que ensinei?
Meus exemplos destrutivos serão exemplo
Para o que deve ser construído?
Conseguirão o perdão de Gaia, o seu afeto,
A regeneração de nosso lar cósmico?
A vocês, um aviso e uma chance.
Erigi um mundo de aço e carvão
De objetos plásticos e pessoas plásticas
E com as riquezas que lhe deixarei
Vocês pagarão um preço
Que o dinheiro não pode pagar…
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Pixabay
Postado no 6 de outubro de 2023 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Obrigado, Mãe.
Gratidão por tudo.
Fizeste-me nascer duas vezes.
Na primeira, a dor do parto foi tua.
Na segunda, a dor da partida é minha.
Em ambas as vezes, deste-me a vida e a consciência.
Tua ida destroçou-me
Mas nunca estive tão inteiro.
Encontro segredos nos meus fragmentos e lascas
Que brilham mostrando novos desenhos de mim
Talvez se chame partida justamente
Porque quando alguém que amamos se vai,
Pedaços nos são arrancados
Formando novos mosaicos do que ficou
E até nesse momento me mostras
Que há em mim uma força que nunca será levada por nada e ninguém
Obrigado, Mãe.
Mentiria se dissesse
Que não sei como te agradecer.
Basta ser eu mesmo
Sem jamais deixar de reconhecer
O quanto de ti viverá eternamente em mim
Até eu mesmo encontrar o momento
Que todos encontrarão.
Até logo, Mãe.
Nos vemos nas estrelas,
O porto de onde viemos e para onde vamos
Na viagem sem fim que é a Vida.
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Pixabay
MANANCIAIS DE PROMESSAS
Postado no 4 de outubro de 2023 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

MANANCIAIS DE PROMESSAS
Prometo que serei mais ponderado, mais contido.
Menos acelerado, terei maiores cuidados,
Prometo portar-me como se fossemos tão só conhecidos
Juro ser mais ausente, também complacente, a Deus temente,
Mesmo que a oportunidade se apresente, abrirei mão de te ter.
Contudo, não mentirei pra gente: a distância é prudente,
Para deixar só de prometer
Prometo refletir nas ações
Antes calorosas,
Silenciar os bordões,
Não te mandar a ações em noites tão perigosas.
Perceber que nas horas da tua ausência,
Nisso não há inocência:
É só uma forma de não comprometer.
Assim juro não fazer mais convites,
Nem por ousadia
– tais quais tanto te fiz quando ainda não prometia.
Prometo não te falar em sussurros,
Não ter pensamentos obscuros,
Iguais aos que me vêm todo dia.
Considero não mais abraçar-te no escuro,
Ou prensar-te nos muros,
Nos cantões de qualquer casa.
Eu pondero que, por sermos vorazes,
Temos razões razoáveis
Para ponderar, e não requentarmos a brasa.
Asseguro limitar-me à luz da claridade,
Por precaução que, na verdade, é por nossa cupidez.
E por saber que a decisão mais sensata, é rapidamente afastada:
Quando aparece a vontade, não há sobriedade, é feito uma embriaguez.
Prenuncio não mais procurar-te quando for tarde,
Pois sem meias verdades, logo corre a hora, e tudo já se fez.
Prometo saber que sem ter saciedade, a imprudência se arvora,
E a resolução impensada não acontece só uma vez.
Prometo só agendar horários que atrapalhem compromissos,
Pois não temos juízo, nem maturidade.
Prometo, quanto estiver em outros braços, silenciar-te meus passos,
Faltar a ti com a verdade.
E compreendo o mesmo tratamento, ainda que me cause tormento e ansiedade.
Eu prometo, afastar-me de tudo que inclua a vontade que queremos conter.
Eu prometo, a prometer um dia
Em que vamos parar só de prometer.
(Diogo Verri Garcia)
Postado no dia 28 de novembro de 2018
Créditos da imagem: Unsplash
Postado no 27 de setembro de 2023 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Passam os anos e os séculos
Voam as horas e os segundos
Mas não passa o pensamento
Mudam os climas e os ventos
Caem as folhas e os orvalhos
Mas não mudam os homens
Não caem seus medos e suas fraquezas.
Suas sombras continuam no escuro
Fazem de seus pontos fracos
Suas débeis fortalezas.
A rocha, imponente e dura,
Destroçada será pela suavidade dos elementos.
O ar e a água se mostram mais firmes que o granito
Pois sabem que o verdadeira força está no tempo
Infinito formado por horas e segundos
Que passam… como os anos e os séculos.
Mudam os céus e mudam as terras,
Mas não passa o pensamento…
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Pixabay
