Tributo à Legítima Defesa da Classe Média Sonegadora

Por: Thiago Amério

Dizem que o tributo não é castigo, multa ou sanção.
Mentira, tributação é pena de prisão eterna.
Do parto ao enterro, tudo é “fato gerador”
o Estado quer almoçar, quem come é governador,
o prato é o suor dos outros, o tempero é o seu labor.

União, Estado, DF, e Município,
cada um quer um pedaço,
empanturram o (próprio) governo
e a sobra é dos pobres coitados.

Sobra pagar a conta da fartura,
sobra pagar a conta da fatura,
da escola e do hospital,
duas vezes, ao Estado e ao Liberal.
O primeiro cobra e não oferece.
O segundo oferece a quem pode ($).
O terceiro é a classe média:
trabalha até morrer
ou pra se educar,
ou pra sobreviver .

No Brasil, pra alguns,
sonegação é legítima defesa.

Ps. Não concordo com essa tese
Um erro não justifica o outro.
Mas é difícil defender o Estado.
Neste país ingerido por poucos.

Aquestos Finais.

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Por: Diogo Verri Garcia.

AQUESTOS FINAIS

Oremos
Para que nenhum mal adicional nos apareça;
Para que o improvável venha a nós com sutileza;
Para que, por felicidade, a vida se restabeleça.

Peçamos
Um pouco mais, face ao tanto que a rotina já nos dera;
Um ar mais leve, feito o começo de nossa paquera;
Um beijo de paz, sem dissabor – não um tapa de guerra.

Arrumemos
Um jarro novo, para o lugar do que quebrou por ser lançado;
Taças (em jogo), espatifadas no bar ao lado;
Um meio termo entre o indolente e o esforçado.

Dividimos
Os bons momentos, os juramentos, um pouco de tudo;
O bem maior, muitos prazeres, o nosso mundo;
Promessas feitas, que se perderam em segundos.

Repartiremos
Alguns retratos, outros farrapos, nossos caminhos;
Simples adornos, um só cachorro, o melhor vinho;
A sensação estranha e o prazer feliz de estar sozinho.

Talvez tenhamos:
Daqui a um tempo, versões mais nobres das nossas verdades;
Algumas lembranças das nossas danças, da nossa amizade;
Ao esbarramos, a impressão de que o passado traz saudade.

Merecemos,
Tuas palavras, que foram duras – tais quais as minhas;
O que passou, desde o amor às nossas rinhas,
Dos dias de sóis ao mar escuro que ao fim se tinha;
O que roubou o prazer, fez desgostar de você,
Também me fez merecer.

Além do mais,
Só oremos…

(Diogo Verri Garcia, Rio, 22/08/2018)

*poesia autoral


Créditos da Imagem: Pixabay

Necessito partir

Por: Tadany Cargnin dos Santos

Necessito partir

Chegar até a estação

Adentrar outro veículo

Ter outras sensações na essência

Ouvir outros sons, sentir outros sabores

Escrever outras histórias, viver outros amores

Cair em outros buracos, sentir outras dores

Ver outras paisagens, cheirar outras flores

Esta cadeia existencial me atormenta

Por sua indecente imensidão

Enclausurado neste corpo que me esquenta

E também neste universo, mesma prisão

Quero abandonar esta família física

Desprender-me de relações efêmeras e tísicas

Cruzar a linha invisível deste manicômio

Torturado por antogônicos deuses e demônios

Ainda tenho que ficar, mas desejo partir

Nauseante dicotomia, sofrível existir

Torturado por compromissos passados, rótulos vencidos

Levado à deriva pela vida, de mim mesmo esquecido

Então, fico aqui pensando na partida

No doce adeus, pois não mais voltarei

Nas luzes que se acendem do outro lado, estação querida

Onde ainda estarei preso, mas quando lá chegar, tudo isto esquecerei.

 

Para citar este Poema:

Cargnin dos Santos, Tadany. Necessito Partir.www.tadany.org®

Caneta de Carga Acabada

Por Alvaro Assis

caneta tinteiro

Querida Caneta de Carga Acabada,
Nós que estivemos juntos por tantos e tantos poemas…
Lembro-me até de quando você se esquivou de escrever: obnubilado
Você tinha mesmo razão
Meter obnubilado neste coisa, não tem propósito algum
Sei que muitas e muitas vezes o frio secou sua tinta
E em vez de se esvair em azul, você queria mesmo era o conforto do estojo
Mas eu sempre lhe apresentava um bom motivo…
Como, por exemplo, uns versinhos para amada dormindo
Você bem sabe que a coisa mais bonita do mundo é ver a amada dormindo
E que a segunda coisa mais bonita é ler a ela um poeminha sob medida
Ah! Lembra-se da cerveja alvejando sua veste e eu te enxugando apressado?
Você meio mal humorada e eu só queria saber de fazer letra de samba
Que mulata quando passa quer ser matéria prima de enredo
Querida Amiga de Caligrafia Decorada
Se você fosse uma dessas chiques-douradas eu até lhe tentaria uma recarga
Porém, você é como eu, essa biczinha vulgar com data pra acabar
Mas eu, saudosista com tudo, pego-me a lembrar de tantos versos
Você apertada contra o suor de minhas mãos trêmulas de sonhos
Açoitando a folha de caderno, o guardanapo, a palma da outra mão
E não me venha escrever no celular, ou no tec-tec do computador
Era a mensagem que me vinha do seu pequeno olhinho marinho
Você é severa nesta coisa do fabrico das palavras
Ah! Querida Companheira Acrobata,
Escolher outra de sua marca seria uma traição sem categoria
Seria como cara que casa com a irmã da sua ex-mulher
Sucumbir aos caprichos de uma dessas enfeitadas
Seria dar corda à maledicência do capital
Quem sabe você não se sinta tão magoada
Se eu passar a compor com aquele lapisinho mil vezes apontado
Aquele que te esperava voltar pro estojo (esbaforida)
Só pra te ouvir contar as coisas que nós dois fazíamos
Eu e Você, Querida Caneta de Asas Quebradas.

Promessa (dez)cumprida

Por: Thiago Amério


Dez mandamentos.

Um norte.
Um caminho cumprido.
Uma porta larga.
Vários pedidos.
Muitos arrependimentos.
Alguns compromissos.
Inúmeras promessas.
Mesma conduta.
Um grande sentimento:
se as pessoas descumprem
por que se comprometem?

Mar em Oração

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Por: Diogo Verri Garcia.

MAR EM ORAÇÃO

Seja forte, como o mar é forte,
Mas te amolde e te quebre como as ondas que batem.
Seja leve, como o mar é leve,
Com ondas breves, como as que rompem a tarde.

Seja bravo e te defenda do argumento,
Quanto te calarem o pranto e te pretenderem agonia.
Seja estupendo, feito o mar em tormento,
Se te transgredirem a luz, não permaneças em calmaria.

Veja a onda que explode e prensa o rochedo:
Seja fereza sem raiva; tem equilíbrio, tem paz.
O mar que alimenta e refresca: é servidão sem medo.
O mar que retira, repõe – nas ondas de leva e traz.

E quando o sublime solar pelo céu se exaltar,
Seja como o mar e reflita a luz que lhe toca.
Se acerque dos que te doam a paz sem te cobrar,
Tal qual um corpo de água salgada,
Que se cerca de terras nas bordas.

Mas se o céu te parecer mais cinza,
Não o espelhes na dúvida, olhe para o mais profundo de ti.
Não te tornes pedante, descrente ou ranzinza.
E te acalme: contenha-te do furor, do desamor, do frenesi.

Seja leve, como o mar é leve.
Feito as águas que chacoalham ao vento,
E que repousam tão logo a brisa pausar.
Trazem paz alheia ao amalgamento.
Seguem mansas e resilientes.
Sem apatia, são benevolentes.
Fortes e calmas, bem sabem:
Tudo tem o seu tempo.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 16/08/18).

*poesia autoral.

Créditos da imagem: Disponível em: < https://pixabay.com >. Acesso em: ago. 2018.

Viagem ao mundo dela

Por: Tadany Cargnin dos Santos

Ela me convidou para viajar

Uma viagem ao desconhecido

Ao forâneo mundo de sua essência

Convite especial, preencheu minhas carências

Ela queria aventuras, revelar-se paulatinamente

Talvez encontrar-se, sem saber quem era

Aceitei afoito, excitação resplandecente

E a viagem iniciou, vindoura quimera

Nas montanhas de tua desesperança

Encontrei feridas que não queriam sarar

Nos vales de tua desconfiança

Encontrei amor parcelado, medo de se entregar

Quando cheguei no córrego de teus prazeres

Senti as delícias da humana paixão

E no amanhecer de teus afazeres

Observei as lágrimas de tua delilusão

No jardim de tuas fantasias

Encontrei raras flores de transcendência

No entardecer de tuas regalias

Vi cores vibrantes, horizontes em ascendência

No oráculo de teus anseios

Descobri íntimos desejos de união

Na escura caverna de teus receios

Encontrei monstros de uma antiga paixão

E a viagem seguiu, ela contente e inspirada

E eu, cada vez menos curioso, cada dia mais calado

Pois tenho pânico de sendas unidirecionadas

Mesmo que por isso seja, somente pela solidão, amado.

(Tadany – 03 01 15)

Para citar este Poema:

Cargnin dos Santos, Tadany. Viagem ao Mundo Dela.www.tadany.org®

As Janelas e os Vitrais

Por Renato T. de Miguel

No mundo da lua, vez ou outra me via pensando em Camus. Ele dizia que o homem chega aos trinta e assim afirma sua juventude, ao mesmo tempo em que se põe diante do tempo e reconhece ali o seu inimigo; trata-se da morte, que se agiganta à sua frente e ordena: viva. Mas o caminho se esvai. Crescem as ervas em meio à estrada; árvores secas tombam no horizonte, escondendo a passagem.

A rebelião contra o absurdo é necessária. Do contrário, resta o suicídio filosófico, o abandono da razão. Seja como for, não há espaço para felicidade, a felicidade das grandes histórias… Há apenas…

Uma sombra? Não, eram as mãos dela abanando meu rosto, despertando-me do devaneio que o silêncio provocara.

– Ei, você está aí? O último capítulo vai ficar pra amanhã… E você, cansou de olhar pro teto? – Perguntou ela com um meio sorriso, os olhos grandes contemplando os meus, num brilho de curiosidade que me deixava sem graça. Ela me encarava feito uma criança que vê as ruas através das janelas fechadas, e em meio aos prédios enxerga o reflexo das próprias feições, distorcidas nas imperfeições e poeira da vidraça.

E eu estava ali parado, fitando-a como um homem de pouca fé que contempla, quieto, os raios filtrados pelos vitrais de uma igreja. Nada disse, apenas devolvi o sorriso torto. Deitada sobre a cama com as pernas estendidas uma sobre a outra, tirou os óculos, repousou sobre a escrivaninha o livro que segurava e afastou as cobertas de lado. Seguia me olhando em silêncio. Aguardando.

 Nunca fui versado nos dialetos não verbais que toda gente aparenta entender tão bem. Isso parecia cativá-la. De todo modo, fui até ela e deitei ao seu lado, beijando-lhe o rosto. O riso fácil e os maneirismos afáveis vibravam como um chicote. Ela parecia feliz e sendo assim eu também estava. Porque pra mim tudo era muito simples, mas para ela tão diferente (às vezes eu penso que sou um menino, esse menino que ela sabe que eu sou).

Fazia frio e eu me aquecia com ela. Algo a fez sorrir de novo e eu não sabia o que dizer.

– Seus dentes são muito brancos.

Ela gargalhava.

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Por: Alvaro Assis.

Eu fico daqui imaginando palavras
Juntando fonemas que não se arrumam
Consoante, vogal, consoante, ditongo…
Eu olho pra sua cara e a letra se cala
Eu beijo fundo seus lábios e o vocábulo se desusa
E como um jogador, sem uma das pernas,
A caneta cega, depois da mente falir
O teclado se apaga, o idioma padece
E as mãos desaprendem a caligrafia mais simples…
Bê com á faz…?
E, com o resto da lira que tenho, escrevo estas sobras
Pois, em sua presença, o poeta se desfaz
Sem ter maneira digna de expressar palavra que te valha.

(Alvaro Assis)

CEP universal

Por: Thiago Amério

Cada rua tem um número
Cada esquina uma vida

Por dentro do prédio,
Um monte de gente habita

Será selva de concreto
Ou urbanidade selvagem?

Decerto que o ter
Precede o ser
Por quê?

Qual animal reside
Na cabeça de quem é de dinheiro?
Humano do capital?

Ou alienígena social?

Sigamos em letras e na arte

Porque acima de todo número

Há um amor universal!