Início, meio e fim (Raquel Alves Tobias)

Por: Raquel Alves Tobias

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Início, meio e fim

Um dia nasceu uma rosa, bela e iluminada.
Viveu num planeta árido onde tudo era escasso. Lidou com pragas, chorou por cortes. Passou por secas e por enchentes.
Por vezes ficou à sombra do que cresceu ao seu lado. E assim, sem luz, já não produzia a própria energia.
Seu perfume doce não mais pairava no ar.
Sobrevivia do resto da rega da vizinhança. Estava cinza, contaminada e havia perdido quase todas as suas pétalas.
Mas, um dia chegou um jardineiro. A viu, ali, em profundo desespero.
Contaminada, machucada, despetalada. Envergada e em queda para o solo seco e desnutrido no qual se encontrava.
Ele encheu os olhos de lágrimas e acariciou suas poucas pétalas restantes. Se abaixou, e de joelhos, respirou a sobra do seu perfume. Ainda era doce e fazia bem ao coração.
Desse dia em diante passou a regá-la, selecionou os melhores adubos. Limpou em volta o que lhe cercava e abriu espaço para que ela visse e fosse vista.
Assim ela pôde sentir a luz integralmente em suas folhas. Percebeu sua limitação por ter vivido apenas de finos feixes perdidos entre as sombras.
Aquilo era assombrosamente maravilhoso. Voltou a produzir sua própria energia. Passado algum tempo, teve suas pétalas revigoradas. Novas ocuparam o lugar das cicatrizes que as velhas deixaram ao cair. Já era possível sentir o seu perfume a longas distâncias. Aquele que adocicava o coração.
Certa vez o jardineiro lhe sussurrou: você ainda está muito longe do que pode ser. E ela ruborizou ao modo das rosas.
Aprendeu a traçar caminhos, a sorrir.
Foi amada e aprendeu a amar.
Está crescendo e quer se manter a florir.
Nesse momento, regada do perdão de si mesma, entendeu a vida que nasce quando se persevera.
Aprendeu a dar início, meio e fim.
A surgir e ressurgir do vazio.
A viver.

Você não desistiu.
Você sorriu.
Você amou.
O amor não desiste.
Ele ensina a voar.

(R.A.T)


Créditos da imagem: acervo pessoal.

E a sua vida, é boa? (Priscila Menino, autora convidada)

Hoje publica conosco mais uma autora convidada, desta vez de Brasília-DF, Priscila Menino

Priscila Menino, advogada, escritora, pós-graduada no Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade – ICTQ em Regulação e Qualidade na Indústria Farmacêutica, professora, Membro do Drug Information Association, Membro do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo, membro do Biotechnology Innovation Organization, foi Presidente da Comissão de Direito Sanitário da Associação Brasileira de Advogados-ABA, atuante em Direito Sanitário há mais de sete anos, tratando de assuntos afetos ao Sistema Nacional de Vigilância Sanitária.

Por: Priscila Menino (autora convidada)

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E a sua vida, é boa?

Eis que estou despretensiosamente imersa em meu ritual noturno para dormir, quando sou surpreendida com uma pergunta da minha filha de cinco anos: “mamãe, você acha que sua vida é boa?”.
Era mais provável cair um meteoro com um unicórnio colorido o guiando até minha casa, do que estar preparada para uma pergunta dessas inesperadas.
Quase que de imediato, respondi apenas: “sim, mamãe tem você comigo e isso me faz feliz e ser feliz me faz ter uma vida boa”.
Muito embora eu tenha respondido isso a ela naquele momento, aquela breve perguntinha não saia da minha cabeça, como um jingle ruim de uma propaganda que cola na cabeça e você se pega cantarolando inoportunamente.
Já pensou sobre a definição do que é ter uma vida boa e como este conceito pode mudar de formas drásticas ao longo da nossa vida?
Para minha filha, ter uma vida boa hoje pode ser apenas a simplicidade de não fazer o dever de casa e comer guloseimas até enjoar, assistindo algum youtuber gritando de maneira efusiva, mas, daqui uns anos, pode ser que ter uma vida boa seja, na contramão, manter hábitos alimentares saudáveis e uma vida social afinada, considerando que a adolescência é uma fase cruel e confusa (quase sempre).
Ha uns anos atrás, eu achava que uma vida boa era quase o oposto do que tenho hoje, eu quebrei todos os meus próprios paradigmas, eu aprendi a ver a vida de uma forma mais leve e mais tranquila, sem me apegar tanto ao que esperavam para mim como uma “vida boa de uma família tradicional brasileira”.
Se me falassem que eu já teria sobrevivido a um divórcio bem antes dos 30 anos, teria uma enooorme dificuldade em controlar e organizar meus horários, me dividindo entre ser mãe, ser profissional, estar com saúde mental em dia e com o CrossFit frequentado cinco vezes por semana, ainda roeria as unhas e usaria óculos de graus enormes, eu definitivamente acharia que minha vida seria o oposto de ser boa.
Mas, parando para pensar, eu realmente tenho uma vida boa sim, pois agora eu sei que ela será sempre boa, mesmo com os percalços que eu sei que vão surgir, afinal, aprender a lidar com a relatividade dessa definição de “vida boa” e permitir que isso seja sempre mutável é o que me dá base para acreditar nessa premissa.
E se minha filha me perguntar novamente, eu apenas direi: “filha, minha vida não é boa, ela é excelente e sempre será assim, enquanto eu confiar que tudo vai ficar bem, mesmo que tudo saia do controle em certos momentos”. (É evidente que ela não entenderá nada, mas lá na frente, ela há de concordar com a maluquinha da mãe dela, não tenho dúvidas disso).


Créditos da imagem: arquivo pessoal.

Por Victor Cabral

Por: Victor Cabral

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Naquele dia lhe lavei os cabelos
Quantas vezes tirei os anéis de seus dedos
Embrulhei em abraços os seus medos
Te dei todos os sonhos do mundo, sem mesmo tê-los

No café que te trouxe na cama
Nas noite de amor, lenha pra chama
As conversas sem nexo, fugindo do tema
Contra a distância voraz, os nossos esquemas

Nos banhos tão quentes, mais quentes ficamos
A cozinha apertada, os temperos que usamos
Adoçaram o azedo que impera no mundo
Abram caminhos: você vai na frente e eu em segundo

Se minhas palavras não alcançam o profundo do peito
E minhas mãos apartadas não tem tanto jeito
Que a intenção seja forte, quiçá o bastante
Pra trazer a clareza pra esse instante

Eu Te Amo


 

Poema em clausura

Por: Diogo Verri Garcia

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Poema em clausura

O verso era longo demais,
Para permitir caminhar por aí.
Para ter cada passo firme,
ou passo que jaz.
Para ter o caminhar sincero
como o poema que mais
caminha sozinho,
mesmo sem ter doçura.

Porque o verso pensou:
-será que sou só literatura
Ou se sou traço de algo mais,
feito a rima que traz,
calor, amor e candura?
O verso não estava preso,
Só o poeta andava enclausurado,
Enquanto o mundo vivia a doença.
Ao ver a cidade parada,
Ao ver nada mais ser lotado,
Aguardava que a vida
retomasse em convalescença.

Era forma de ter o mundo sem deixar o lugar,
De reviver seus antigos e novos amores,
Sem nem poder ir beijar.
Mas o verso, bem que podia sair, andar, mas não quis.
O verso poderia zarpar, mas fincou raiz
Porque achou triste demais ser verso alegre
Em tempo em que a tristeza se faz, para uns, o albergue
E achou que era falho também ser verso triste,
Em momento em que ter esperança
É o bem que existe.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 03/06/2020)


créditos da imagem: pixabay

Templo que habito

Por: Bianca Latini

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Templo que habito

Meu corpo é o templo
Onde minha alma mora
E minha alma quer se expandir
Pretende romper as cercas
E olhar por trás das montanhas altas
Ela quer ser solta, livre
e sentir-se efervescente em alegria, pertencente, flutuante, gaseificada, tilintante
Para isso, meu corpo precisa se movimentar
Para estar, com minha alma, em correspondente sincronia
É como uma dança de movimentos oscilantes
Experimentando todo tipo de sensação,
os membros respondem
aos comandos ocultos dos nossos quereres, desejos, reprimendas, mutilações
A cada soltura, a cada não julgamento, a cada liberação de braços, pernas, pescoço e umbigo,
Vou esvaziando e sendo preenchida
Ouvindo música e me reesculpindo
Tirando as mordaças, deixando cair as carapaças
Ao longo dos rodopios, chutes e fluidez no salão,
Vou me despindo daquilo que construí
Esfacelando somatizações, cristalizações, crostas e esconderijos
Restauro meu DNA
Como se nascesse outra vez
Ou como se rasgasse a tela poluída e começasse a pintar, de novo, folha em branco
É como um lavar d’alma
Esgotamento que traz suor e vigor
Deixa a face ruborizada e a pele viva
Calor por dentro do corpo
Que arde em brasa
E choca com o ambiente externo, que agora está frio
Neste momento, percebo, realmente, o que está fora e o que está dentro.

Erika Mariano, inaugurando o Pesca Poética

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Hoje lançamos “Pesca Poética“, um espaço dedicado a lançar no oceano do Literarte as escritas, pensamentos, versos e entregas que talvez estejam escondidas pelo mar das palavras, no fundo de um caderno. É um incentivo às falas do nosso público leitor , a ganharem vida exterior.

O projeto toma lugar ao lado das publicações semanais , feitas pelos nossos autores.

Iniciando o Pesca Poética, Erika Mariano, com “O Caro Amor“. Tal como ela se define:

“A paulistana mais carioca que conheço. Arquiteta e urbanista, técnica em edificações, apaixonada por artes, sempre aprendiz. Trabalho com o que mais gosto. Sou uma entusiasta da vida. Forrozeira. Meio de transporte: bicicleta. Um amor na vida: a minha gatinha Raíssa…”

O caro amor

Por: Erika mariano

Quando me dei conta já era tarde
Acabei me deixando levar
você me encheu de presentes
Tudo para me fazer amar

coisas que eu sempre quis
Começou com um olhar
Depois veio o sorriso
A atenção, Gentilezas…

Aí vieram as danças,
As roupas emprestadas,
Os beijos
Os abraços, o ninar

E eu ali distraída
Ganhei admiração
Você me observando sentada na janela
Suas mãos passeando pelas minhas costas

Ganhei luares
Fotos, músicas,
desenhos, filmes e
Outras danças

Carona na bicicleta
Banho de mar
Cama com véu
Preguiça de acordar…

Riquezas assim
Quero sem parar

Palavras que me vivem (Autora Convidada: Camila Anllelini)

Por: Camila Anllelini (Autora convidada).

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Palavras que me vivem

Sempre fui de abrir a boca. Nunca me faltam palavras.

Na infância, ainda bem pequena, era preciso um tanto de convívio até romper meus silêncios. Mas elas estavam lá, quietinhas, esperando confiança pra engrenar. Depois de um tempo, começaram a sair sozinhas, às vezes meio embaralhadas, atropeladas, todas ao mesmo tempo passando pelo buraco da boca.

Fui percebendo que quando entravam nos ouvidos das pessoas, às vezes as faziam chorar. Outras, faziam sentir raiva e falar palavras que vinham mais do estômago que do coração. Com o tempo, achei que era melhor aprender a organizá-las, pra que me saíssem em fila, tipo desfile ensaiado. E assim, provocassem mais sorrisos do que choro. Porque até hoje, quando alguém diz palavras embaralhadas bem alto dentro dos meus olhos, quem chora sou eu.

Tem dias que o céu do peito está cinza e a gente não consegue abrir as janelas pra tirar a poeira. Mas nem sempre eu sei esperar dia de sol pra dizer. Quando as palavras se amontoam dentro de mim ainda insistem em sair desordenadas, feito criança em recreio de escola.

Todo dia tento organizá-las, mas elas são teimosas como eu. Tem dia que querem sair dispostas e bem vestidas, vez em quando saem mansas, como quem quer passar despercebido, mas às vezes ainda têm essa mania de sair desarrumadas pra passear pelos ouvidos que me atravessam a boca.

Se um dia me faltarem, vou precisar rodopiar bastante com os olhos no mundo pra fazer estoque de palavras. Mas mesmo nesse dia, vou deixar a porta aberta pra elas saírem sem medo de se perder de mim. Eu sei que quando vão, elas voltam cada vez mais maduras, de mãos dadas com as pequenas que vão chegando pra fazer novidade.

Camila Anllelini (@camilaanllelini)


Créditos da imagem: pinterest

Batalha sobre as ondas

Por: Diogo Verri Garcia

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Batalha sobre as ondas

Devemos caminhar longe daquilo que nos faz mal,
Do que nos desalegre,
Ou que nos extermine.
Não é questão de regra,
De bom trato social.
Como se dizer adeus,
Para, enfim, reabraçar fosse anormal.
Mas há limitação entre o não triste ser
E a busca do que por bem vá guarnecer,
Para pretender – o melhor pretender,
Isso sim existe.
É feito achar-se no não terminado em oficial,
Mas que terminado está, antes que se termine.

Para que ter tal trabalho em querer compreender,
Se essa opção não traz remédio, quando nem remediada a vida será.
Melhor viver, deixar viver e passar.
Seguir sem o tédio de uma das grandes dores,
Quando hábil e sábio é ver a vida
em cada um de seus fartos e vários amores.
Que te amam quando te sentem perto,
Até, passado meio metro, já deixarem de te amar.
Mas se é feliz, em cada palmo,
Sempre e só enquanto se está.

Por isso ame, tal qual se ame,
E ame a outrens dando de si
Algum tanto de tudo e cada pedaço de nada.
Uma mistura de “algo a esconder”
Com outra pitada de “coisa alguma a temer”,
De sorte que,
Ao fim, em devoção,
Haja só boas lembranças, sorrisos e promessas,
Que receba dessas almas boas rezas
Na oração da longa estrada.

Quando, finalmente,
Ao encontrar alguém que ame,
E ame tudo em troca,
De tão exato,
Por certo nem perceberás.
Tanto correto dizer que assim não notas,
Fecharás outras portas,
Todas as quais deixarás,
sem despautério, sem duvidar.
E, portanto, adentrando em uma só razão e caminho,
Graças a cada traço de quem
Já te trouxe dor, fulgor, mas formou-te raiz,
Estarás, então,
Em alinho,
Feliz
E, desta vez,
Sem nem notar.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 23 de maio de 2020)

Noite na Montanha

Por: Mauricio Luz

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Noite na Montanha

Ela chega e me cobre com o seu manto negro
E se despe mostrando seu corpo coberto de estrelas
Ó Noite, bela e sedutora,
Que mistérios escondes caprichosamente de mim?

Deixa-me ser seu amante,
Seu namorado, seu brinquedo!
Acalenta meu coração com teu beijo orvalhado
E nubla a minha mente com o teu abraço frio
Toma meu espírito e leva-me onde
Apenas aqueles que se entregam totalmente
Conseguem chegar

E lascivos, apaixonados e amorosos
Tornar-nos-emos apenas um
Deitados em uma cama de nebulosas
Cúmplices amantes do infinito.


Créditos da imagem: pixabay

Aquarela do Amor

Por: Bianca Latini

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Aquarela do Amor

Aquarela do Amor
Pinta suave
Pistache
Cores pastéis
Pinta brisa refrescante
Pinta palavras ditas com boca de generosidade
Pinta flores e primaveras
Pinta décadas, pinta eras
Pinta o que se sente e não consegue dizer
Pinta ritmo, serenata
Flauteia, cantarola,
Imagina, recria
Encanta, reconta
Fala de peito cheio
E, nos pincéis, delineia e desliza
As notas de orvalho
Do dia amanhecendo em Solitude,
mas nunca em solidão.

(24/05/20)


Crédito da imagem: Pinterest