Medo de quê?

Por: Bianca Latini

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Medo de morrer??
Eu tenho medo é de viver infeliz!!
De perceber que não sou dona do meu próprio nariz
Que dou voltas no mesmo círculo
E nem expando meu raio

Tenho medo de perceber que podia ter feito
e não fiz
Que passei no mundo como atriz
Encenando um papel que nem me cabia direito
Achando que para tudo daria um jeito
Empurrando com a barriga
Deixando tudo pra depois

Tenho medo de não ter coragem de ouvir
meu corpo mudo de voz
Mas que fala através de sensações,
reações biológicas, químicas, físicas, mecânicas
Tenho medo de não ser precisa ao meu termostato natural
Esse que todo mundo tem e nem se dá conta…

Tenho medo de viver no medo
E esquecer de viver, também, a morte
Porque a morte faz parte de todos os processos da vida
Um esgotamento de propósito, desvivificação de algo que se nutria
Impermanência…
Passagem para um novo ciclo…

Por melhor que seja a música
Uma hora ela há de acabar…

Por: Victor Cabral

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Eu faço coisas bonitas quando penso em você
Junto palavras que eu acho que te façam rir
(Seu sorriso é peça chave)
De quantas maneiras diferentes eu posso te fazer sentir
(Nossas línguas: engrenagem)
Tudo o que penso e acho que deves saber

Eu nunca vou te ter
Pois te tendo, não serei mais esse eu
Mas outro, aquele que tem e não só deseja
O que vive e não só planeja
Que ouça mais e que nem tanto escreva
Pois se te tens ao alcance das mãos
Não rabiscaria mais o papel

Eu faço coisas bonitas quando penso em você
E tenho orgulho


Créditos da imagem: pixabay

 

Por dentro: fora da casca

Por: Bianca Latini

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Por dentro: fora da casca

Vambora
Vamos trocar essa roupa suja
Vamos limpar essa alma muda
Vamos fazer festejo e faxina
Dentro e fora das nossas ruas
Não vamos mais nos esconder
Na epiderme dessa casca que não nos traduz
Essa pele que nos faz parecer algo
que não nos faz feliz
É pele de atriz
É vida sem chafariz
Chega de olhar para o lado
E achar que eles tem o que nós não temos
Talvez eles sejam mais livres, mais libertos
E, por isso, mais bonitos
Talvez estejam apenas fingindo alegria, altivez, sensatez
Por dentro, fora da casca,
podem estar insanos e descabelados
Austeros e gritando de dor
Esmagados
Sem saber como sair desse envólucro
que se confunde com quem
Um dia deixaram de ser


Créditos da imagem: pixabay

Lisboa em Finas Tardes (Tempo à Janela)

Por: Diogo Verri Garcia

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Lisboa em Finas Tardes (Tempo à Janela)

Passou,
Mais um dia passou aqui da janela.
Algum frio e vento, estupendo e seco.
Fim de tarde vagarosa e bela.

Por aqui, o tempo não cravou estandartes,
Nem usurpou os dias feito fossem suas meretrizes.
Lugar em que as passagens de horas são afáveis.
Diferente de onde venho, onde não criam raízes.

Dia não frívolo, como aos poucos evapora um copo d’água.
Não há obrigação de pressa, para que aqui se apresenta má.
Tempo à beça, que nos resta de um dia já vazio,
Pomos o sol e nos acorda o sol pelas manhãs.

Por ora – palavra que me lembra do relógio que, por cá, não envaidece -,
É tanto tempo, que cabem mil dias em um só.
Murmurinhos: sopram em tons de vento, enrijecendo a pele que adormece,
Pondo em bons alentos os cabelos em nó.

Calma há, que não se sabe nem da metade.
Estará enterrada a pressa – eu que vi seu gurufinho.
Onde não há momentos para a vaidade daquele calor que nos maltrata,
Só pasteis de nata, tantos sabores e vinho.

Mais um dia em que a correria padece.
Nem cedo chega a noite,
Despede-se a tarde, em tons de luz e de prece.

(Diogo Verri Garcia, Lisboa, 27 de Agosto de 2015)


Créditos da imagem: pixabay

Doutora

Por: Victor Cabral

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Doutora

Você e seus pares
Analisando o produto do seu trabalho
Isolados num altar qu’eu quase não alcanço
O que estariam eles olhando e julgando?
Teorias e ideias, costuradas em retalho

Você e seus pares
Quem eles pensam que são?
Fingindo que podem te impedir ou permitir algo
Num teatro de roteiro improvisado
Mas que já sabemos o final

Você e seus pares de olhos
Os únicos pontos que me deixam a vontade
Os únicos pontos que me deixam com vontade

Você e seus pares de dentes
Os únicos pontos que articulam sentido
Os únicos pontos que me fazem sentir vivo

Palavra

Por: Bianca Latini

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Palavra é ponte
É abismo
É flecha
Ferida aberta
Hemorragia de sangue e de ideias
Irrigação
Fertilidade
Barreira
Saudade
Palavra é sonoridade
É veste que agasalha ou
Uniforme que quer padronizar
Palavra é mola propulsora
E às vezes empurrão para o boeiro do medo, da impotência, da irritação
Palavra é letra: de música, de ditado, de poesia, de prosa, de hino, de mantra, de campanha, de bula, de receita
Etimologia
Identidade
É algodão doce e pode ser quiabo
Palavra é dança
Movimento
Enredo
Abraço bem apertado ou aperto de mão
Dependendo da entonação, vira choque na contramão
Palavra é riso
É pranto
Pedido de socorro
É vício
Compaixão
Palavra é o que você
quiser fazer dela
Só não deveria ser uma simples…
Palavra

(29/10/19)

Rio de Lágrimas

Por: Bianca Latini

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Chorar
É um rio que se vai
São lágrimas
que transportam tristezas, rancores
Amargores, dores, frustrações
Raivas, pesares
Desespero
Destempero
Para fora do nosso corpo
Tentando limpar o nosso coração
Tentando lavar a alma
Do sangue jorrado pela faca
implantada no peito

Chorar
Alívio
Desabafo
Consternação
Águas que rolam pelo rosto
Seu rastro seca, com uma pitada de sal
Dando um pouco de mar
ao que estamos sentindo
O movimento de chorar,chorar, chorar
E, enfim, acalmar
Depois de tanta energia expulsa
do corpo doente, febril ou gelado
É mesmo como o movimento das ondas:
Quase ouço o barulho da bruma
explodindo na beira da praia
e depois se recolhendo de volta àquela imensidão
Por isso, gosto tanto de chorar
Um esvaziar das comportas cheias
que querem desaguar
Num longo, incandescente e doído
rio de lágrimas


Créditos da imagem: pixabay

Autor Convidado (Victor Cabral)

Por: Victor Cabral

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Acorda e olha pra vida e tudo que tu viveu
Nenhuma palavra rebuscada que eu te escreva
Nenhuma rima já usada, não importa o que aconteça
Valerá um segundo desse tempo teu

Nas palavras habitam belos mistérios
Que nossos corpos ignoram pois, ocupados vivendo-os,
Os beijinhos e abraços e carinhos sem ter fim
Não ligam se não os registremos

O que ficou escrito no braile dos meus arrepios
Nenhum outro poeta poderá cantar
Nem os filhos de seus filhos

E o que ficou moldado pelas suas mãos
Na pedra bruta do meu corpo
Permanecerá, imune a erosão

Coração

Por: Bianca Latini

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Coração

É ele que guia meus passos silenciosos
Meu caminhar de infinitude
Meu trilhar de evolução
Por vezes aperta, machuca, corrói
Em outras, salta, exulta, alegra-se
explodindo em gratidão
É forte e majestosamente rico
das respostas que preciso:
o perigo que pressinto
o caminho que desvio
o rio em que decido me banhar
É absortamente esperto
Para buscar o rumo que acha certo
E a qualquer momento
em outra direção, dar guinada para virar
De alguma forma sinto o seu ritmo
E os sinais dos segredos
que ele quer me contar
Aprendi a não ser teimoso
A dançar a dança em que pretende me guiar
Entendi que coragem é agir com ele
E não contra ele, ao ser pretensiosamente audacioso, rancoroso e danoso a mim mesmo
Agora fecho os olhos
para enxergá-lo melhor
Pergunto, conecto, respiro
Busco uma ligação direta
Sem interferências
Sem ruídos
Sem zumbidos
Para haurir no que preciso
Para luzir no meu atuar

Deixa Fluir

Por: Bianca Latini

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Deixa fluir

Leve,leve,leve
Deixa ir
Deixa fluir
Deixa desenrolar
Da maneira que quiser ser
Do jeito que quiser correr
Provir, fruir, desaguar
Leve, solto, alado
Desenfreado
Sem cerca
Sem arremates
Interferências
Melindres
Deixa deslizar
Deixa, permita, não interpela
Releva, entende, não suscita
Deixa se revelar
Do jeito que é
Da maneira que quer ser
Do modo como quer se mostrar
Sem véu, sem fel, sem mel
Apenas sendo em sua natureza corrente
Ausente
de julgamento
de tormenta
Placenta
permita vascular
Libere
Exima-se de ter que interceder
Deixa ruir, deixa puir, deixa brotar
Isente-se, ausente-se
Torne-se invisível
Silente
paciente
Permissivo
Compreensivo
Libertador
Não cause dor
Não seja obstáculo
Apenas sustentáculo
Se te pedirem para auxiliar

(28/01/2020)