Doutora
Postado no 6 de março de 2020 Deixe um comentário
Por: Victor Cabral

Doutora
Você e seus pares
Analisando o produto do seu trabalho
Isolados num altar qu’eu quase não alcanço
O que estariam eles olhando e julgando?
Teorias e ideias, costuradas em retalho
Você e seus pares
Quem eles pensam que são?
Fingindo que podem te impedir ou permitir algo
Num teatro de roteiro improvisado
Mas que já sabemos o final
Você e seus pares de olhos
Os únicos pontos que me deixam a vontade
Os únicos pontos que me deixam com vontade
Você e seus pares de dentes
Os únicos pontos que articulam sentido
Os únicos pontos que me fazem sentir vivo
Palavra
Postado no 2 de março de 2020 1 Comentário
Por: Bianca Latini

Palavra é ponte
É abismo
É flecha
Ferida aberta
Hemorragia de sangue e de ideias
Irrigação
Fertilidade
Barreira
Saudade
Palavra é sonoridade
É veste que agasalha ou
Uniforme que quer padronizar
Palavra é mola propulsora
E às vezes empurrão para o boeiro do medo, da impotência, da irritação
Palavra é letra: de música, de ditado, de poesia, de prosa, de hino, de mantra, de campanha, de bula, de receita
Etimologia
Identidade
É algodão doce e pode ser quiabo
Palavra é dança
Movimento
Enredo
Abraço bem apertado ou aperto de mão
Dependendo da entonação, vira choque na contramão
Palavra é riso
É pranto
Pedido de socorro
É vício
Compaixão
Palavra é o que você
quiser fazer dela
Só não deveria ser uma simples…
Palavra
(29/10/19)
Rio de Lágrimas
Postado no 24 de fevereiro de 2020 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Chorar
É um rio que se vai
São lágrimas
que transportam tristezas, rancores
Amargores, dores, frustrações
Raivas, pesares
Desespero
Destempero
Para fora do nosso corpo
Tentando limpar o nosso coração
Tentando lavar a alma
Do sangue jorrado pela faca
implantada no peito
Chorar
Alívio
Desabafo
Consternação
Águas que rolam pelo rosto
Seu rastro seca, com uma pitada de sal
Dando um pouco de mar
ao que estamos sentindo
O movimento de chorar,chorar, chorar
E, enfim, acalmar
Depois de tanta energia expulsa
do corpo doente, febril ou gelado
É mesmo como o movimento das ondas:
Quase ouço o barulho da bruma
explodindo na beira da praia
e depois se recolhendo de volta àquela imensidão
Por isso, gosto tanto de chorar
Um esvaziar das comportas cheias
que querem desaguar
Num longo, incandescente e doído
rio de lágrimas
Créditos da imagem: pixabay
Autor Convidado (Victor Cabral)
Postado no 21 de fevereiro de 2020 Deixe um comentário
Por: Victor Cabral

Acorda e olha pra vida e tudo que tu viveu
Nenhuma palavra rebuscada que eu te escreva
Nenhuma rima já usada, não importa o que aconteça
Valerá um segundo desse tempo teu
Nas palavras habitam belos mistérios
Que nossos corpos ignoram pois, ocupados vivendo-os,
Os beijinhos e abraços e carinhos sem ter fim
Não ligam se não os registremos
O que ficou escrito no braile dos meus arrepios
Nenhum outro poeta poderá cantar
Nem os filhos de seus filhos
E o que ficou moldado pelas suas mãos
Na pedra bruta do meu corpo
Permanecerá, imune a erosão
Coração
Postado no 17 de fevereiro de 2020 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Coração
É ele que guia meus passos silenciosos
Meu caminhar de infinitude
Meu trilhar de evolução
Por vezes aperta, machuca, corrói
Em outras, salta, exulta, alegra-se
explodindo em gratidão
É forte e majestosamente rico
das respostas que preciso:
o perigo que pressinto
o caminho que desvio
o rio em que decido me banhar
É absortamente esperto
Para buscar o rumo que acha certo
E a qualquer momento
em outra direção, dar guinada para virar
De alguma forma sinto o seu ritmo
E os sinais dos segredos
que ele quer me contar
Aprendi a não ser teimoso
A dançar a dança em que pretende me guiar
Entendi que coragem é agir com ele
E não contra ele, ao ser pretensiosamente audacioso, rancoroso e danoso a mim mesmo
Agora fecho os olhos
para enxergá-lo melhor
Pergunto, conecto, respiro
Busco uma ligação direta
Sem interferências
Sem ruídos
Sem zumbidos
Para haurir no que preciso
Para luzir no meu atuar
Deixa Fluir
Postado no 10 de fevereiro de 2020 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Deixa fluir
Leve,leve,leve
Deixa ir
Deixa fluir
Deixa desenrolar
Da maneira que quiser ser
Do jeito que quiser correr
Provir, fruir, desaguar
Leve, solto, alado
Desenfreado
Sem cerca
Sem arremates
Interferências
Melindres
Deixa deslizar
Deixa, permita, não interpela
Releva, entende, não suscita
Deixa se revelar
Do jeito que é
Da maneira que quer ser
Do modo como quer se mostrar
Sem véu, sem fel, sem mel
Apenas sendo em sua natureza corrente
Ausente
de julgamento
de tormenta
Placenta
permita vascular
Libere
Exima-se de ter que interceder
Deixa ruir, deixa puir, deixa brotar
Isente-se, ausente-se
Torne-se invisível
Silente
paciente
Permissivo
Compreensivo
Libertador
Não cause dor
Não seja obstáculo
Apenas sustentáculo
Se te pedirem para auxiliar
(28/01/2020)
Autor Convidado: Victor Cabral
Postado no 7 de fevereiro de 2020 1 Comentário
Por: Victor Cabral

Queria te escrever uma bela carta
Daquelas marejam os olhos e o peito aperta
Uma que você leria deitada e dormiria abraçada
Sonhando com o significado de cada palavra
Te transformar na minha musa irreal
Intocável e pura, platonismo ideal
Amar é tão fácil, sem nunca realizar
Eternamente grato em apenar poder gostar
Porém não nego, que no peito carrego
Um peso maior que essa grande árvore que rego
Que dá frutos e eu chupo, o sumo e suco,
lambuzo no néctar e me embriago no pouco
que já bebi de ti
Que feliz que não és ela: Cinderela ou donzela, que nos contos de fada, trancada da cela, não amou nem sofreu, não gozou nem gemeu, apenas aguarda.
A mais triste das imagens belas.
O bom mesmo é poder errar contigo
Fazer umas merdas, chorar escondido
Rodopiar pela vida, cabeça colada num ombro, cof cof, amigo
E nessa contramão da vida, tenho a certeza
Que o caminho certo é trilha escondida
Embrenhada nas matas, dor e alegria
Espinhos: feridas, Flores: beleza
Confesso que não me achei, continuo pedido
Mas estou por aqui, tateando no escuro, achando abrigo em alguns colos que achei no breu do caminho
Queria crescer, mas continuo menino
Penso em você e o sentimento é antigo
Temperado com doce e o azedo da terra
Sangue, suor, saliva e lágrimas: canela
Quando alguém pula de um trem
Postado no 5 de fevereiro de 2020 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

(Quando alguém pula de um trem)
Quando alguém pula de um trem…
Não falo de morte, leitor: deixe de afobação.
Digo com ele prostrado, já chegada a estação,
Pois é a melhor parada depois de tanto assistir.
São algumas as horas passando a paisagem,
Que não tenho nele notado,
Se quem vê de fora, me nota em viagem.
Posto que passo despercebido em existir,
De tão que é veloz, de Barcelona a Madrid.
Lá por fora apressam-se as árvores, ligeiras,
Que se movem mais do que o correr contra o vento,
Destinado às cabeceiras.
E externando o olhar, pouco vejo de gente;
A paisagem, de tão vazia, é cerrada,
Que embaça meus olhos atentos aos rostos,
Mas noto mais as moças e tão menos os moços.
Deixa borrões no lugar de folhagem, que mal se importa aparente.
Move-se aqui no espaço entre a distância e a hora,
Com destino em alhures e origem em outrora.
Nem gotas de chuva aderem ao movediço,
De tanto que corre,
Feito o vento lá fora.
Quando algum pula de um trem,
Pois tem a perna adormecida,
Em que pesem as poucas horas.
É porque correu por muito; do que o costume, além.
Mais do que poderia,
De tanto parado, sem sair, sem dormir,
Enquanto o mundo zunia, lá fora do trem.
Quando alguém pula de um trem,
Corre na pressa que quase esquece das malas,
Quer um bar em Barcelona,
Para algumas centenas de tapas.
Ao persistir-se faminto,
De tanto andar, sem nem um passo prover.
Mas cansou-se, ao ver o vento correr.
(Diogo Verri Garcia, Madrid-Barcelona, 01 de septiembre de 2015)
Créditos da imagem: pixabay
Conexões Humanas – Corações sob peles
Postado no 3 de fevereiro de 2020 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Conexões Humanas – Corações sob peles
O contato com as pessoas me move
A troca
A integração com elas
Gosto de saber suas histórias
Suas memórias
Seus remorsos
Suas alegrias
Suas vitórias
Seus dia a dias
Gosto de prestar atenção ao timbre de suas vozes
À cor dos seus sorrisos
À luminosidade dos seus olhos
E ao direcionamento deles
Às vezes intensos
Vivazes
Assustados
Tristes
Cabisbaixos
Às vezes perdidos
O tom e o ritmo
com os quais pronunciam suas palavras
em muitos momentos fazem-me tocar em frente
Repensar algum posicionamento
Ou encorajam-me
a ser mais dedicada
São vozes de gente
Viva
Carregada de emoções
Sentimentos
Pensamentos
Sensações
São corpos que envolvem almas
Peles que armazenam corações
Créditos da imagem: pixabay
Os passos sem passagem
Postado no 30 de janeiro de 2020 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

Quando os passos deixarem de fazer passagem,
Quando a trama for só miragem,
No que já houve opção.
Quando a vela atrás da porta não estiver acesa,
Quando a reza não for para afastar tristeza,
Mas for por gratidão.
Então acharás quem já não encontra,
Depois que tanto perdeste a conta,
De cada alguém que
Já passou por ti.
Mas que nunca marcou-te ao sentir presença
Passou normal, feito indiferença,
Nem por mal, nem a sorrir.
Então teus olhos vão fazer sentido,
Ouvirão o que vos contam os ouvidos,
Posto que não quiseram ver.
Bem de ti diante,
O que foi significante,
Mas que deixou perder.
(Diogo Verri Garcia, Rio, 21 de dezembro de 2019)
Créditos da imagem: pixabay
