A fila cronológica
Postado no 18 de agosto de 2021 Deixe um comentário
Por: Priscila Menino

A fila cronológica
A gente imagina que há uma ordem natural das coisas.
Uma espécie de ordem lógica para chegar o dia que chegou o nosso dia de partir.
Imaginamos que primeiro vão os mais idosos e mais um e mais um, tal como uma ordem cronológica decrescente metodicamente organizada.
Mas não é bem assim.
A vida surpreende positivamente, mas também surpreende negativamente.
Um amigo meu, jovem rapaz unanimemente amado e querido, se foi repentinamente.
Muito antes de tantos que imaginávamos que partiriam primeiro.
“Por que diabos ele foi cortar a fila?”, pensei repetidas vezes.
Olhei pro céu e pensei que Deus estava fazendo uma brincadeira de mal gosto.
Continuo sem entender na minha mera consciência mesquinha.
Mas é isso, a vida é um sopro e eu não consigo não pensar nos encontros que não fui, nos afetos que não demonstrei, nos sorrisos que esqueci de dar, nos abraços que contive e nos pequenos detalhes que protelamos por termos a estranha e egóica mania de acharmos que teremos tempo infinito para tudo.
Ledo engano.
Venho repensando sobre isso constantemente, talvez o legado desse meu amigo seja mostrar pra gente que a vida é pra se viver, no aqui e no agora.
E essa será sempre a minha forma de homenagear o ar da sua graça nesse plano físico, sorrindo da forma como ele sempre nos ensinou.
Por: Priscila Menino
Créditos da imagem: Unsplash
Clássicos da Literatura: Arthur Conan Doyle
Postado no 17 de agosto de 2021 Deixe um comentário

— Que diabo você tem feito, Watson? — perguntou-me ele, sem esconder o seu
espanto, enquanto passávamos pelas ruas apinhadas de Londres. — Vejo-o magro como
um sarrafo e escuro como uma castanha.
Fiz-lhe um breve relato das minhas aventuras e mal o concluíra chegamos ao nosso
destino.
— Coitado! — exclamou ele, condoído pêlos infortúnios que acabava de ouvir. — E
que faz agora?
— Procuro alojamento — respondi. — Tento resolver o problema de encontrar quartos
confortáveis a preços razoáveis.
— É curioso — disse o meu companheiro. — Você hoje é a segunda pessoa que fala
dessa maneira.
— E quem foi a primeira? — perguntei.
— Um sujeito que trabalha no laboratório químico do hospital. Estava se queixando,
ainda esta manhã, de não encontrar com quem dividir o aluguel de uns ótimos aposentos
que tinha descoberto, mas que eram demasiado caros para a sua bolsa.
— Magnífico! — exclamei. — Se ele procura alguém para compartilhar dos quartos e
das despesas, sou exatamente essa pessoa. Prefiro ter um companheiro a morar sozinho.
Stamford olhou-me de um modo estranho, por cima do seu copo de vinho.
— Você ainda não conhece Sherlock Holmes — disse ele. — Não sei se lhe agradará
como companheiro permanente.
— Por quê? Haverá alguma coisa que não o recomende?
— Oh! Eu não disse isso. Ele é um pouco esquisito…. tem paixão por certos ramos da
ciência. Que eu saiba, é uma pessoa muito correta.
(Trecho de “Um Estudo em Vermelho”, de Arthur Conan Doyle, onde Sherlock Holmes e dr. John Watson se conheceram e viveram a primeira aventura juntos.)
Créditos da imagem: Unsplash
Livremente paradoxal
Postado no 16 de agosto de 2021 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Livremente paradoxal
Quero enxergar de olhos fechados
Quero abraçar com os lábios
Quero dormir de olhos abertos
Falar em silêncio
Calar tagarelando
Quero saltar sem mover os pés
Alcançar o alto sem levantar os braços
Cheirar com a língua
Ouvir com o olfato
Tatear com os olhos
Sentir o gosto com a audição
Quero voar ainda que sinta estar com um enorme peso nas costas
Quero comer vinho
E beber manjá
Quero chorar de felicidade
E rir de tanta dor
Quero aprender desaprendendo
Quero morrer de tanto amor
Quero despertar de noite
E ir para a cama de dia
Quero café com queijo
E leite com goiabada
Quero te prender te deixando livre
Quero nadar numa poça de chuva
E navegar na banheira da minha casa
Quero tomar banho de rio no inverno
E colocar meias quentinhas em pleno verão
Quero ser grito sendo sussurro
Ganhar o mundo perdendo tudo
Viajar sem mala
Ir longe caminhando para bem perto
Quero possibilitar as impossibilidades
Quero gargalhar de tanta saudade.
Por Bianca Latini
Em 29/07/21
Créditos da imagem: Freepik
A Sede do Beduíno
Postado no 13 de agosto de 2021 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

A Sede do Beduíno
De tanto temer o Amor
Que no deserto eu caminho
Meu peito está ressecado
E meu coração, mesquinho
De tanto guardar o Amor
Que ele se perdeu
Minhas sementes não germinam
Minha planta feneceu
De tanto fugir do Amor
Que eu me perdi de mim
Das areias que ando
Busco saída sem fim
Oh, Amor, onde estás?
Onde posso encontrar
A água que levará
A vida ao meu respirar?
Está debaixo da areia do tempo,
Das desilusões, dos descaminhos,
Das mágoas, das dores,
Das obrigações sem sentido
Enquanto água procurar
Em um oásis de mim distante
No deserto preso estarei
Apaixonado sem amante
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Pixabay
Sonho
Postado no 12 de agosto de 2021 Deixe um comentário
Por: Juliana Latini

Sonho
Sonho, sem dores, não se realiza.
Sonho, sem suspiro, não inspira.
Sonho, sem fé, não se enxerga.
Como ponte que atravessa montes gigantescos, enfrento os desafios.
Sonho projetos e construo realidades.
Como costurar roupas que lhe servirão au futur.
Como descansar após a corrida fatigante.
Como força propulsora até o fim da linha.
Enquanto aponto para o alvo, encho-me de esperança.
Mas, logo vem a sensação de frio na barriga, o medo e a vontade de desistir.
Será possível? Será para mim? Será agora?
Dúvidas aumentam a ponte e deixam-na mais longa!
Ultrapassam-me, mas não desisto.
Respiro e me inspiro nos meus sonhos.
Juliana Latini
Créditos da imagem: Unsplash
Postado no 11 de agosto de 2021 Deixe um comentário
Por: Raquel Alves Tobias

É hora de parar e ouvir a respiração
Ser o próprio ar e oxigenação
Sem ruminar a comida do almoço
Soltar o nó que aperta o músculo no dorso
Varrer toda a terra caída pelo chão
Depois de um dia cheio
Olhar-se no espelho perdoando os defeitos
Orgulhar-se das curvas de ganhos por pesos
Acariciando todo o caminho de hematomas
Cobertos em lençóis de si mesmo
Raquel Alves Tobias
Créditos da imagem: Pixabay
Tirando as rodinhas
Postado no 9 de agosto de 2021 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Tirando as rodinhas
Eu não vou falar para você tirar as duas mãos de uma vez, pois sei que isso não é possível agora
Primeiro, deixa de espremer
Depois, de segurar com tanta força
Um dia de cada vez…
Passo a passo…
Agora tira uma mão e depois a outra
É sobre agir ou melhor: desagir em relação a um hábito
No seu caso, o hábito de controle
Creio que querer controlar intenta mitigar a falta de confiança
Pois, na sua cabeça entrópica, tudo está fadado ao caos, à desordem, ao insucesso
Daí você controla, põe cerca, mantém a rédea curta, não afrouxa
Como forma de garantir o resultado esperado
Aquele firmado, na sua cabeça, como correto, obstinado
Dentro de tantos cuidados, você sente conforto: está no comando, sabe até onde vai, prevê, antevê, gerencia, monitora e sabe sempre o que fazer
Lembra lá atrás, quando éramos apenas uma criança e estávamos aprendendo a andar de bicicleta??
Nosso maior medo era tirar as rodinhas, pois iríamos cair!
Daí nossos pais operam, paulatinamente, para não fazer do processo abrupto
Tiram uma rodinha e nos deixam tempos pedalando assim
Ainda temos uma margem de segurança
Depois é tirada a outra
E, espantosamente, desembestamos!
Imagino que, dentro de nós, entendendo a dinâmica do pedalar, pedalando há tanto tempo com rodinhas, já sabíamos girar os pedais sem o apoio
Mas, emocionalmente, tínhamos a zona de conforto, o porto-seguro, a muleta, o esteio
O desconhecido é sempre desafiador
O incerto dá medo
É sempre preferível o que se enxerga, o que se sabe, o que se pode controlar
É da natureza humana buscar segurança
É assim, desde criança
Não há mal nenhum nisso
Mas, que, acima de tudo, tenhamos um compromisso:
Saibamos a hora de tirar as rodinhas e confiar nos processos.
Por Bianca Latini
Em 17/07/21
Créditos da imagem: Freepik
Especial Dia dos Pais
Postado no 5 de agosto de 2021 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

(Especial Dia dos Pais)
Há aquilo que não se aprende em toda eficaz literatura,
Que são os abraços tão mais que fraternos.
Em sua específica forma, em grande e apraz ternura.
Daqueles que nos ensinam e moldam,
Melhor que todos mais.
A paz que a vida nos dá,
Que temos em nossos pais.
São os que abrem caminho quando as circunstâncias nos tolhem.
Nos prantos felizes, festejam;
Nos mareamentos tristes, acolhem.
De todas as vontades que tenho e dos desejos modernos,
Nenhum me importa mais do que o anseio:
Quisera que fossem eternos.
Digo aqueles que não são comparáveis
Ao abraço de nenhum outros mais.
Aquele que, por tudo tanto nos ama;
Ao amigo que amo de volta,
Refiro-me ao meu específico pai.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 05/08/2021)
Créditos da imagem: Pixabay
Clássicos da Literatura: Murilo Rubião
Postado no 3 de agosto de 2021 Deixe um comentário

“- Moço, oh! Moço! Moço, me dá um cigarro?Ainda com os olhos fixos na praia, resmunguei:
– Vá embora, moleque, senão chamo a polícia.
– Está bem, moço. Não se zangue. E, por favor, saia de minha frente, que eu também gosto de ver o mar.
Exasperou-me a insolência de quem assim me tratava e virei-me, disposto a escorraçá-lo com um pontapé. Fui desarmado, entretanto. Diante de mim estava um coelhinho cinzento a me interpelar delicadamente:
– Você não dá é porque não tem, não é, moço?”
(Teleco, o Coelhinho – de Murilo Rubião)
Créditos da imagem: Unsplash
Jejum
Postado no 2 de agosto de 2021 1 Comentário
Por: Bianca Latini

Jejum
Queria propor um jejum coletivo
Mas não é de comida
Este é fácil demais
Proponho um desafio mais robusto:
Façamos jejum de ofensas, alfinetadas, puxadas de tapete
De reclamações, lamúrias, injúrias e insatisfações
Façamos jejum de autossabotagem, de ver o que é só miragem, de julgamento, de
aprisionamento
De pudor, de engavetamento do amor, de intolerância, implicância, de irritação
Façamos jejum do racismo, da homofobia, da não aceitação da diferença, da total descrença
na humanidade
Façamos jejum de zonas de conforto, de abortamentos dos sonhos, de discussões infrutíferas,
nas quais a única meta é estar certo e aniquilar o “opositor”
Façamos jejum de mesmice, do pensamento engaiolado, do sujeito engravatado, que é só
torpor
Façamos jejum de ingratidão, de falta de cuidado, de tempo desperdiçado, de corpo violado
De falta de presença e de amizade, de ausência de comprometimento com o que realmente
importa para nós e não o que nos disseram ser importante
Façamos jejum de hipocrisias, de cegueiras tóxicas, de pensamentos corrosivos
De falta de gentileza, de simpatia, de empatia, sutileza e de delicadeza
Façamos jejum de afobação, de pressa, de autodestruição
De medo, de superproteção
Façamos jejum de mentiras, encobertas, “jeitinhos”, simulações
De insensibilidade, procrastinação, violência, maus-tratos ou omissão ao nosso tão destroçado
meio ambiente
Comecemos a jejuar por um dia e aumentemos progressivamente
Mas que não seja jejum intermitente
Que evolua numa crescente
Até que entendamos que a lógica está invertida e que não é mais necessário reprimir, apenas expandir
Todo ar puro!
Bianca Latini
Créditos da imagem: Freepik
