A linha tênue entre empenho e abusividade
Postado no 26 de maio de 2021 Deixe um comentário
Por: Priscila Menino

A linha tênue entre empenho e abusividade
Li uma matéria da BBC que contava que uma artista plástica chamada Gillian Genser levou 15 anos pra finalizar uma escultura chamada de “Adão”.
Na obra, ela usava conhas de mexilhões azuis lindas, que julgou ser um material excelente e apropriado para se trabalhar.
Insistentemente, ela sentia dores de cabeça e náuseas, mas ainda assim persistia em finalizar sua obra.
Não podia acreditar que, coincidentemente, a sua doença inexplicavelmente “auto imune” teria iniciado no mesmo período que iniciara a sua obra prima.
Não percebeu que a obra levou anos de vida vital, pois estava a envenenando em decorrência do acúmulo de metais pesados presentes nos insumos que usava na escultura, pois estava muito engajada em finalizar aquele trabalho iniciado.
Refleti então em quantos Adãos há nas nossas vidas sem que percebamos?
Quanto espaço damos para coisas tóxicas que nos deixam levar a vida sem que tomemos coincidência disso?
As vezes a linha entre empenho e abusividade é muito tênue e nos deixa meio perdidos, como se estivéssemos fora de nós mesmos.
Por isso é preciso estarmos atentos a pequenos grandes detalhes, se há algo que tira a nossa paz, não é saudável.
Cuidemos antes que levemos 15 anos para perceber o quanto a vida se esvaiu.
Se precisar, busquemos ajuda, mas, de maneira alguma, de jeito algum, deixe que nada leve a energia vital tão relevante pra viver na plenitude mais elevada.
Por Priscila Menino
Créditos da imagem: Unsplash
Leitor Também Escreve: Daniela Ivo
Postado no 25 de maio de 2021 Deixe um comentário

Inteira
Abracei amigos o mais forte que eu pude
Outros
deixei de abraçar
Chorei muitas vezes
Outras
deixei de me emocionar
Ainda me afeto por lembranças e pelo que
Meus sentidos me despertam
Senti muito
Mais por mim que pelo outro
Desconectei
do que não era parte de mim
Me religuei
ao que sempre foi minha base
Experimentei prazeres diferentes
E me permiti não medir
Mas entendi
o que cabe ou não aqui
Pois encontrei a medida de mim
Aprendi a ficar
quando acho encanto
E a me afastar
quando há desencontro
Sou toda
Enfim
Daniela Ivo
Créditos da imagem: Unsplash
Rasgando-me em verdades
Postado no 24 de maio de 2021 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Rasgando-me em verdades
Sei que posso ir mais fundo
Bem mais imersa que o raso
Bem mais comprometida que o acaso
Bem mais latente
Menos adjacente
Não encaixar-me em sobressalente
Fincada com dois pés, duas mãos e o corpo inteiro
De alma flamejante
De peito escancarado
Talentos expostos, desafiantes, sem medo de serem julgados
Sem pudor de os verem sobrepujados
Métricas, esmeros….que se danem!
Eu quero ser feliz, livre, alada, enlouquecida, enluarada
Tarada pela vida e por ser eu mesma
Sem eira, nem beira
Perdendo todas as estribeiras
Perdendo o juízo, o senso, soltando o freio
Sendo ridícula à vontade
E dê-me licença para ser o que me der na telha, ok?!
Eu vou é matar a saudade de vestir a pele da autenticidade.
Por Bianca Latini
Em 31/12/2020
Créditos da imagem: Google Imagens – Inside São Paulo – Escultura de Ivaldi Granato)
Poesia da Vida
Postado no 22 de maio de 2021 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Poesia da Vida
Como a fonte de água pura
Que rompe a aridez do deserto
Brota em mim a poesia
Às vezes em pequenas gotas
Às vezes em torrentes incontroláveis
Sempre saciando a minha sede de profundidade
Perdido que fico nas areias do tempo
Atento ao que distrai e não ao que realmente importa
Versos encontrados em pensamentos perdidos
Fugazes momentos que se tornam eternos
Ao ter sua beleza sentida e não compreendida
A poesia me mostra em versos desordenados
O que não pode ser visto por estar
Com os olhos abertos demais
Descreve o que está além das palavras,
Crônicas sem tempo que transmutam
O fel da rotina sem sentido
No mel que adoça a alegria
De consciência da poesia da vida
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Pixabay
Abacateiro
Postado no 21 de maio de 2021 Deixe um comentário
Por: Juliana Latini

Abacateiro
Casei. Mudei. Ganhei um jardim.
Plantamos a primeira árvore.
Um abacateiro.
O solo era pobre e duro.
O abacateiro, frágil.
Ele foi crescendo com dificuldade.
Superando cada vendaval.
Tinha dias que ele balançava tanto que eu até ficava preocupada.
Mas ele sempre resistia.
Um dia, enquanto chorava – com dores de crescimento – pensei:
Seja forte como o abacateiro.
No dia seguinte, ao acordar fui ao quintal, como de costume.
Para minha surpresa, o abacateiro tinha tombado. Foi neste momento que compreendi sem explicações a relação entre nós dois: eu e o abacateiro.
Colocamos uma estaca nele. Aos poucos, superou e se firmou novamente.
Hoje, olho para o abacateiro. De pé. Com folhas secas que caem, caem…
Enquanto varro o quintal, sinto-me enxugando suas lágrimas.
Não sei se chegou o seu fim – sei que está seca.
Ouvi da vizinha que a árvore está morta.
Eu ainda aguardo reação, enquanto varro, varro..
Sei que já deu frutos. Duas vezes!
Olho para ela com a esperança de ver um sinal de vida, um brotinho verde, um respiro.
Mas ainda nada.
Não sei como dizer para ela, você é importante. Fique mais comigo.
Do outro lado, penso – Se ela está assim, como estou? O que passas comigo?
Penso e falo para mim mesma: Você é importante – esteja presente aqui comigo. Ainda que doa, preciso de você aqui.
Juliana Latini
Créditos da imagem: Unsplash
Goteira
Postado no 19 de maio de 2021 Deixe um comentário
Por: Raquel Alves Tobias

Goteira
Pára e escuta
A gota e o som
Membrana que rompe
A gota e o som
Respinga, se espalha
A gota e o som
Atinge e escorre
A gota e o som
Respira e acalma
A gota e o som
O vento que toca
A gota e o som
O frio na carne
A gota e o som
O toque na alma
A gota e o som
A pressa da mente
A gota e o som
O filme da vida
A gota e o som
Encobre o vazio
A gota e o som
Descobre o amor
A gota e o som
E tudo se molha
A gota e o som
Se enche, transborda
A gota e o som
E logo se sabe
Sua velocidade
Você tem o dom
Da onda de vida
Da gota e o som
Raquel Alves Tobias
Créditos da imagem: Pixabay
Leitor Também Escreve: Jaqueline Dergan
Postado no 18 de maio de 2021 Deixe um comentário

[ ] Tem situações que sugam nossas energias. Nos sentimos impotentes diante de certas coisas, como o sofrimento de quem amamos. Mas o que fazer quando a situação de sofrimento do ente amado se arrasta de tal forma que nos sentimos sem roteiro, repertório, rumo que faça aquela pessoa conseguir sair do lugar? E o conflito? O conflito entre a empatia e a culpa. Empatia por sentirmos aquela dor, por querer salvarmos aquela pessoa, e a culpa. Culpa por querer fugir. Por entrar num lugar de evitação. Porque dói. Dói demais ver tanto sofrimento. Aí vem o embate interno: estou sendo egoísta ou estou dando a mim mesmo o espaço para resguardar-me? Sentimo-nos numa encruzilhada de emoções. No entanto, começa a alvorecer em minha mente a reflexão de que certos processos, embora queiramos ajudar, não são nossos, são do outro. Que ainda que tenhamos o impulso de encarnar o super-herói estendendo a mão e tirando o ser em apuros da situação em questão, nem sempre isso será possível. Pois existem momentos em que precisamos encarar a nossa dor, aceitá-la, assumi-la, para passarmos por nosso processo de metamorfose. E dói. Dói muito. Mas nascer dói, assim como todo momento de reconstrução, de ruptura, de recomeço. De se olhar no espelho. De tomar coragem. De pedir perdão. De perdoar. Não existe redenção sem dor. Então, há dores que são nossas, não se pode pegar atalho, acelerar o processo, pois quanto mais tentamos, mais o retardamos. Mais o caminho se torna curvo, distante, inóspito. Demoramos a entender que muitas vezes o remédio é a dor, por mais estranho que possa ser isso. Afinal, é através dela que podemos nos superar. Evoluir. Não é gostoso, mas é necessário. Isso faz aceitar o fato de que nem sempre conseguirei ser aquela mão estendida que poderá emergir meu ser amado de suas angústias. Pois alguns processos são nossos, só nós podemos lidar com eles. Isso nos dá força para aceitar que a vida é como o mar, que oscila entre calmaria e tempestade. Mas passa. Tudo passa.
Por: Jaqueline Dergan
Créditos da imagem: Pexels
Desce do salto, volta pra Terra!
Postado no 17 de maio de 2021 2 Comentários
Por: Bianca Latini

Desce do salto, volta pra Terra!
Fotos, cliques, recortes de felicidade
Pura fachada
Bossa boa para inglês ver
E pros macacos de auditório que a acompanham no big brother da vida real
No seu caso, de real não tem mais nada!
Desce do salto, do pedestal, desse conto de fadas
Tira a roupa de cinderela
Dá uma folga pros figurantes e pro dublê
Esquece esse lance de cachê
Veste seu chinelo, ou melhor: anda descalça
Come teu feijão com arroz, misturado com banana nanica
Para de querer mostrar gigantismos, fazer pompa, até ali na esquina
Tira essa pele falsa de maquiagem,
os cabelos que você comprou
E, principalmente, esse sorriso tão branco que você fabricou
Para! Para tudo!
Para de clicar e vive!
Para de mostrar e sente!
Para de parecer e seja!
Para de querer chegar à lua, quando você nem pisa no chão e não se nutre do que a mãe Terra tem a lhe oferecer
Para! Joga a câmera no chão!
Segue na contramão da boiada, dessa gente que encena e decora texto
Sempre com um script na mão, um release, um roteiro
Vista-se apenas de si mesma e anda na fé…
Que ela não costuma faiá!
Por Bianca Latini
Em 01/01/21
Créditos da imagem: Pinterest
Clássicos da Literatura: Carlos Drummond de Andrade
Postado no 15 de maio de 2021 Deixe um comentário

PARA SEMPRE
Por que Deus permite
que as mães vão se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não se apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade
Créditos da imagem: Unsplash
ÓTICA
Postado no 14 de maio de 2021 Deixe um comentário
Por: Juliana Latini

ÓTICA
Havia um lugar onde se encontrava um produto inovador. Óculos que possuíam lentes especiais. Ao experimentar as variedades disponíveis logo podia se perceber algo diferente. O fato era que ninguém houvera de passar por essa experiência permaneceu com a mesma visão. Mas o que será que esses óculos proporcionavam assim de tão fenomenal?
No início, a loja criou tanto burburinho que o movimento podia se perceber ao longe. No entanto, passou a pairar algo estranho depois de um tempo. Pois o movimento foi decaindo…Eu de perto observava e nutria certa curiosidade sobre o fato. Um dia, tomei coragem e fui à ótica experimentar o tal dos óculos. Mesmo que o boom tivesse diminuído, não fui guiada pelo marketing alheio. Lá fui eu de manhã cedo, ser uma das clientes a adentrar no recinto. A loja era moderna, com ar minimalista. A vendedora que me atendeu tinha um estilo nada convencional. Achei tudo curioso. Estavam expostos poucos exemplares dos óculos. Não eram bonitos, nem feios. Eram óculos comuns olhando à primeira vista.
Bem, respirei fundo e solicitei um exemplar para provar. Passados poucos minutos, a vendedora chegou com algumas caixas e colocou-as ao meu lado e me deixou à vontade. A única coisa que me informou foi sobre o fato de uns serem de longe, outros de perto. Eu não entendi muito bem, mas peguei um modelo de “longe” com armação vermelha. Coloquei e tive uma experiência de passar a enxergar o campo físico e o etéreo da alma. Eu enxerguei os transeuntes caminhando na rua, na calçada em frente à loja de modo que tinha pessoas que os corpos andavam à frente de suas almas – que como num efeito elástico, puxavam-na. Enquanto outros tinham almas tão pesadas que o corpo caminhava com dificuldade. Havia ainda algumas que a alma voava como um parapente e tendiam com a direção do vento. Poucos possuíam a sensação de equilíbrio, com as crianças que passaram na frente da ótica naquele instante. Mas uma pessoa em especial me chamou a atenção. Uma moça carregava sua alma como um bebê de colo. Era bem introspectiva. Quem a olhasse, talvez nem a notasse, mas ela portava um óculos tal como o que eu experimentava. Ela carregava a alma com muito cuidado e afeto. Se olhasse com atenção podia-se perceber um leve sorriso de aceitação. Aquilo mexeu tanto comigo que eu tirei os óculos e como numa louca viagem voltei a enxergar tudo como antes. Parecia que tinha sido um sonho, algo ilusório da imaginação.
Então fui experimentar os óculos de “perto”. Escolhi um de armação mais discreta, com medo de emoções fortes. Ao colocar os óculos, as lentes projetaram minha visão para perto, mas de fora para dentro. Comecei a me enxergar como nunca vira antes. Minha alma olhou para mim. Eu pude encará-la por uns instantes. Sem saber me relacionar com ela, olhei e sorri como cumprimentando. Ela reagiu aliviada por ter sido percebida, notada por mim. Parecia que tinha muito a me dizer, mas sem palavras pude entender sua queixa em ter esperado tanto tempo para ser notada. Não disse uma palavra, mas sei que ela entendeu que a força da rotina me carregava a pontos de muitas vezes deixa-la pra trás. Mas sabia ela também, mesmo que sem som, que eu a amava.
Após suspirar e um sincero perdoar, sorrimos. Senti-a ao meu lado, como uma grande parceira. Não levei os óculos, mas saí de braços dados com minha alma. Não fiz promessas, mas me comprometi a não deixa-la mais para trás. Ainda que eu demore mais para chegar ao meu destino, estaremos juntas nessa viagem da vida. Numa comunhão entre o físico e o emocional, entre a força e a sutileza, sem ela não sou eu.
Niterói, 21 de maio de 2019
Juliana Lopes Latini da Silva
Créditos da imagem: Pexels
