Numerótica
Postado no 11 de junho de 2021 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Numerótica
Quatro mãos encontradas
Duas mentes perdidas
Dois olhares cruzados
Uma certeza nascida
Duas bocas,
Um beijo
Duas línguas,
Um desejo
Uma provocação lançada
Duas mordidas trocadas
Três gemidos fugidos
Quatro lambidas abusadas
Dois sorrisos
Uma cumplicidade
Dois corpos
Uma necessidade
Mil sentidos aguçados
Um sentido perseguido
Uma reta para o infinito
Infinitas curvas no caminho
Dois corações,
Uma vontade
Dois amantes
Uma unidade
Uma sede que cresce
Um incêndio pode saciar
Dez unhas que se arranham
Dois corpos a se queimar
Uma dança
Mil movimentos
Uma explosão
Dois eternos momentos
Vinte dedos entrelaçados
Duas respirações incontidas
Quatro olhos cerrados
Uma paixão abrandecida
Duas entregas
Cem calores
Duas pequenas mortes
Zero pudores
No final das contas
Um Teorema a solucionar
Uma divisão de corpos
Dois corações a somar
Duas subtrações das mentes
Fazem o tesão multiplicar
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Pixabay
Os pequenos grandes detalhes da rotina
Postado no 10 de junho de 2021 Deixe um comentário
Por: Priscila Menino

Os pequenos grandes detalhes da rotina
Deitei para dormir.
O cansaço era evidente pelas olheiras acentuadas no rosto. Você deita ao meu lado. Percebe pelo meu humor que estou com fome, mas sem coragem pra me levantar.
Levanta. Faz a minha típica farofa com ovos favorita.
Me traz na cama.
Me sacio de comida e de cuidado.
Quanto cuidado.
Quanto amor.
Você deita também cansado. Reclama da dor no ombro esquerdo.
Percebo que não se sente bem, mas não quer falar.
Levanto.
Vou a caixa de medicamentos.
Passo aquele gel fedido e ardido em seu ombro. O alívio é imediato.
Te alivio da dor e te sacio de amor.
Quanto amor.
É sobre esses pequenos momentos.
É sobre esses grandes momentos.
É sobre a parceria.
É sobre a intimidade da ausência de palavras, nas frases trocadas nos olhares.
É sobre a simplicidade de um dia normal, é sobre a grandiosidade de um dia normal.
Tão cheio de cuidados, afetos e gestos.
Dormimos.
Meu pé gelado encontra o seu para se esquentar.
Você deixa soltar um leve sorriso por constatar minha mania irritante.
Adormecemos.
E, assim, amanhã tem mais amor.
E assim será pela vida inteira e mais um pouco.
Por: Priscila Menino
Créditos da imagem: Pexels
Poema ao Verbo Namorar
Postado no 9 de junho de 2021 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

Poema ao Verbo Namorar
Namoro aquela cuja alma me agrada,
Cuja paixão me afaga
E me faz, em manter presença, teimar.
De razão tão franca,
A ponto de ter a doçura mais fácil e sincera;
É a personificação da insistência severa,
De mesmo, às minhas tolices, amar.
Namoro – aquela que me acode e que tanto valoro –
Quase uma parte de mim mesmo,
Que se vê tão completa em outra pessoa.
É a certeza de que tudo passa,
Mas nem sequer o percebo;
Se me quedo ausente, é abalado, tão assim, meu sossego;
Mas, perto, as desimportâncias se aquietam,
Para longe revoam.
Namore, se entrelace, valore,
Para que o tempo não roube de ti a saudade daquele momento;
E dele, tu nunca exijas piedade, ao te faltar – feito ar –
O aprazível e aprazável alento,
Da vontade que te açode a alma,
Por não ter o sincero enamorar.
É o amor, que desejo, não te haverá de faltar.
Namorar edifica, solidifica,
É cimento.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 09/06/2021)
Créditos da imagem: Pixabay
Clássicos da Literatura: O. Henry
Postado no 8 de junho de 2021 Deixe um comentário

O Presente dos Magos
“Um dólar e oitenta e sete centavos. Isso era tudo. E sessenta centavos estavam em moedinhas de um centavo. Moedinhas economizadas, uma ou duas por vez, pechinchando com o dono do armazém ou com o verdureiro e o açougueiro, até que o homem ficava com as bochechas vermelhas diante daquela imputação silenciosa de avareza que uma negociação tão acirrada deixava implícita. Della contou três vezes. Um dólar e oitenta e sete centavos. E no dia seguinte era Natal.
Claramente não havia nada a se fazer a não ser desabar no pequeno e surrado sofá e chorar. E foi o que Della fez. O que nos leva a fazer a reflexão moral de que a vida é feita de soluços, fungadas e sorrisos, com o predomínio das fungadas.
Enquanto a dona da casa vai aos poucos passando do primeiro para o segundo estágio, dê uma olhada na casa. Um apartamento mobiliado de 8 dólares por semana. Não que para descrevê-lo fosse preciso mendigar palavras, mas decerto parecia à procura do ‘esquadrão da mendicância’.
[…]
Della terminou seu choro e deu um retoque nas faces com sua almofadinha de pó de arroz. Foi até a janela e olhou com tédio para um gato cinza, andando sobre uma cerca cinza, em um quintal de fundos cinza. No dia seguinte seria Natal, e ela tinha apenas um dólar e oitenta e sete centavos para um presente para Jim. Vinha há meses economizando cada centavo, e o resultado era esse. Vinte dólares por semana não duram muito. As despesas haviam sido maiores do que ela calculara.
[…]
Jim ficou parado junto à porta, tão imóvel quanto um cão setter sentindo o cheiro da caça. Tinha os olhos fixos em Della, e havia neles uma expressão que ela não conseguiu decifrar, e isso a deixou aterrorizada. Não era raiva, nem surpresa, nem desaprovação, nem horror, nenhum dos sentimentos para os quais ela se preparara. Ele apenas olhava fixo para ela com aquela expressão peculiar […]”.
O. Henry (pseudônimo do autor norte-americano William Sydney Porter)
Créditos da imagem: Unsplash
Caleidoscópio
Postado no 4 de junho de 2021 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Caleidoscópio
Pergunto a uma vidente
Que surgiu em meu caminho:
“O que acontecerá a mim?
Qual será o meu destino?”
Negros olhos me encaram
Lendo o que estava escondido
E sua voz suave e firme
Contou-me o que estava escrito
“Olho para o passado
E vejo
Em um mosaico de lembranças,
Coloridos fragmentos.
Olho para o futuro
E vejo
Em um mosaico de esperanças,
Os mesmos coloridos fragmentos.
Pois para saber o futuro de alguém
Basta ler o seu passado
Suas ações o trouxeram até o momento
E elas que a levarão a seu legado!
Se nada for mudado,
Alcançará o lugar para o qual está indo,
Ainda que indesejado.”
Agradecido fiquei
Inebriado por tanta sabedoria
Pois o destino de todos é um só
A diferença é como se caminha
E atento à rota traçada
Desperto às belezas da jornada
Certamente será bela a minha chegada
Ao mistério do caleidoscópio da existência
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Pixabay
Marias, Carolinas, Marinetes e Súvilas
Postado no 3 de junho de 2021 Deixe um comentário
Por: Juliana Latini

Marias, Carolinas, Marinetes e Súvilas
Sem querer romantizar e nem estigmatizar a favela.
Lá…morei com Marias, Carolinas, Marinetes e Súvilas.
Lá…a pobreza é um rótulo simplista para classificá-la.
Ao adentrar e vivenciar o seu cotidiano, conhecendo os nomes, as histórias e suas formas de expressão, fui construindo o sentimento de pertencimento à comunidade.
Lembro-me das alegrias, tristezas, desigualdades e diversidades. Da solidariedade e do apadrinhamento.
Lembro-me de encontros na praça, crianças correndo, barulho de chinelo e o abraço, toda vez que eu começava a subir a ladeira.
Muita garra de viver diante de limitações, privações e estigmas.
Por muito tempo, eu rejeitei o rótulo de ser favelada.
Como os preconceitos são duros de se quebrar e como é difícil removê-los por completo…
Hoje, tenho muito orgulho de ter sido acolhida nessa rede de apoio,
lugar de muitas belezas, onde as riquezas não se restringem aos bens materiais.
Juliana Lopes Latini da Silva
Créditos da imagem: Unsplash
Postado no 2 de junho de 2021 Deixe um comentário
Por: Raquel Alves Tobias

Um ruído silencioso envolve a sala. O controle espera sobre a mesa pela mão que irá mudar de canal.
As histórias de hoje do velho BUK lembram as feiras da semana, uma repetição cíclica desinteressante. O sol brilha na almofada da poltrona em forma de ondas, desenhando a cobertura metálica da garagem. Lentamente o dourado ergue-se com o pôr do sol. Há gritos vindos da TV do outro lado.
Na pele corre uma minúscula formiga foragida das entranhas infantis e doces do sofá. Soltou-se da trama tecidual densa onde alimentava-se de migalhas. Seu caminhar exploratório acabou findando em sua morte. Brava criatura.
Dois quadros geminados de halo dourado expõem labirintos vagos.
E em meio a toda descrição, emerge o indiscreto pensamento que me leva até você.
Assim como todos os caminhos.
Assim como toda a espera.
E entre todos os por ques oscilam o sono e a queimação.
Contradições ácidas.
Seria o amor uma dor epigástrica?
Uma úlcera nascida de corrosão estática?
De quem procura e nunca acha?
De quem dorme para que não arda?
Pois queimar leva à alma,
E a conexão, à frustração.
Então, levanta fumaça!
Coração em combustão…
Raquel Alves Tobias
Créditos da imagem: Pixabay
Leitor Também Escreve: Gabriela Vieira
Postado no 1 de junho de 2021 Deixe um comentário

Este não é o fim!
Comece um novo capítulo
Vire a página quando precisar
Volte para reler aquilo que te fez bem.
Deixe as páginas passarem
Boas ou ruins
Elas fizeram você chegar até aqui.
Transforme as páginas
Uma de cada vez
E deixe elas te transformarem.
Há muitas páginas em branco por aí
Só esperando por você
Para ganharem cor.
Gabriela Vieira
Créditos da imagem: Unsplash
Frestas
Postado no 31 de maio de 2021 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Frestas
Cria espaço
Deixa a luz entrar
Desengaveta
Desentope
Desobstrui
Faz túnel
Local de passagem
Deixa dissolver a miragem
Permite escoar
Libera
Que volte o que tiver de voltar
Apenas…
Não se apegue ao conceito
À muralha
À argamassa
À carcaça
Ao invólucro pré-concebido
Deixa vir a libido
Por tudo que é do jeito que é
Como chega
Como parte
Como renasce
Como recria, reconta, desmistifica
Apenas…
Deixa a luz entrar
Permite ventilar
Refresca
Desaquece, sem perder calor
Fica com o Amor
Sem querê-lo numa gaiola
Rebola, desembola e deixa o novelo correr
O quanto quiser
Até cansar
Apenas…
Por Bianca Latini
Em 30/05/21
Créditos da imagem: Pinterest
Pequeno detalhe pequeno
Postado no 28 de maio de 2021 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

Pequeno detalhe pequeno
O que é o gostar de alguém,
senão um pequeno detalhe pequeno.
Que é detalhe, posto que embaraça
e resseca a boca, de súbito,
mesmo quando a dose é pouca,
age feito veneno; é sentimento.
Tem jeito pequeno…
por não saber sequer descrever
o porquê de tender,
do começar a gostar.
Sei que há uma certa redundância.
Ou arrogância a definir o amor, em detalhes.
A atrofia que à gramática traz
é a mesma que o amor importa:
não tem razão,
mas soa bem e faz sentido.
Chegamos até
a caçoar do que nos ouvem
nossos próprios ouvidos,
Um dentre tantos entretidos
Em nosso corpo ansioso,
ao aguardar o soar na porta.
Que é o amor, senão a não explicação,
o excesso de catarse.
a emulsão de uma catálise
que nos faz recorrer à análise para, óbvia, explicar
Que é só um pequeno detalhe pequeno.
É o olhar de um jeito ou o defeito,
A forma pela qual nos põe desmedidos.
O que nos faz mais desprecavidos
E nos torna tão dispostos;
bem expostos, como se a razão ficasse em coma.
É o sintoma…
que se encontra em nós,
De modo que, em um querer inconsciente,
(não) precisamos desvendar
a razão de amar,
pois pouco importa…
Em pormenores, é tudo só
Um pequeno detalhe pequeno.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 21/01/2021)
Créditos da imagem: Pixabay
