Me reviro (Autora Convidada, Camila Anllelini)

Por: Camila Anllelini (autora convidada)

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Me reviro

Eu me reviro pelo estômago,
pela conversa
afagada ou sacudida.

Busco longe,
cato letras embaralhadas,
desfaço os nós,
respiro fundo.

Preciso de palavra limpa
pra encontrar sossego.

Não sou das facilidades,
meu sorriso vem
do cansaço que
sobra do trabalho.

Ganho mundo de
pé no chão,
não me cativam os
contos de fadas.

Ando por aí lustrando
sentimentos,
que é pra ver se
mantenho alinhadas
as palavras e os passos.

Camila Anllelini

Tá’ tudo bem!

Por: Priscila Menino

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Tá’ tudo bem!

A verdade é que todo mundo já passou por um daqueles dias que não acordamos de bom humor e a vontade real é que a cama se transforme em um casulo de proteção. Falta a animação, falta a disposição e sobra preguiça.
E a culpa que sentimos quando estamos nesses dias, nos deixa ainda mais angustiados, afinal, a gente acredita ter vindo programado de fábrica pelo cosmos para produção em tempo integral, ou qual seria a nossa finalidade?
Mas não se deixe enganar por essa overdose de informações e exigências que recebemos todos os dias, não se cobre tanto, está tudo bem! E até quando não está tudo bem, também está bem, amanhã será um dia melhor.
‘Tá’ tudo bem se permitir não estar com a animação habitual de uma adolescente efusiva, está tudo bem ter vontade de gritar, está tudo optar por usar o jeans velho favorito, comungado com aquela camiseta surrada que você tem um apego emocional, está tudo bem se permitir não estar com a sobrancelha, cabelos e unhas impecáveis.
Por favor vamos parando com essa necessidade de acharmos que precisamos sempre sermos ótimas companhias e estamos alegres o tempo todo, a gente pode se dar o luxo de ficarmos reclusos no nosso marasmo, recarregarmos nossa energia.
Quando eu penso sobre isso, eu gosto de lembrar dos jogos de luta que eu jogava no vídeo game quando jovem (saudades Tekken 3) e já deixo antecipadamente registrado aqui minhas vênias àqueles que não estão habituados a esse mundo geek e podem não entender perfeitamente essa analogia.
Imagino que nesses dias que estou mais desanimada, minha barrinha de vida está no limite anterior ao game over, por isso, eu preciso de descanso e solitude pra recuperar meu ‘life’ e voltar ao jogo com força total para enfrentar os desafios e vencer as lutas.
Portanto, reafirmo: está tudo bem, não se cobre tanto! Amanhã será um novo dia, se permita voltar ao jogo com a força revigorada e não desista de sempre se preparar para vencer e evoluir para os próximos níveis do jogo da vida.


Crédito da imagem: pixabay

Poema à Paixão

Por: Diogo Verri Garcia

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Poema à Paixão

A paixão é cega,
Tanto assim desorienta.
Por isso há entrega de alguma voz à razão,
Que aquieta, em brados,
contra prantos fundos e largos,
no que reclama a emoção
E a assenta.

É fato deixar-se levar,
em meio ao ardor de uma boca.
É fácil até se entreter,
De tanta vontade,
A doçura do risco de se comprometer
Quando os olhos tudo dizem,
Menos coisa pouca.

Contudo, compreendo o risco
E da paixão me assisto,
E, assim, aquiesço, a observo
O quanto consome a alma,
E torna-nos incautos, sem paz,
À medida que faz
Ganharmos o mundo,
Mas perdermos a reta.

Por isso, haver na paixão suas reservas,
Não há nada triste,
não há nada de feio.
É tal aquele que,
quer que passe por onde,
Mirando o caminho que desce,
Obedece aos freios,
Na segurança de pretender bem chegar
E assim, não subsumir.
É por também querer estar
Ou tão só passar,
E haver-se
por ter tantos instantes
a se perder,
a sorrir.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 01 de julho de 2020)


Créditos da imagem: pixabay

“O tempo pára”, por Mona Vilardo

Hoje, completando 30 (trinta) anos da morte de Cazuza (07/07/1990), republicamos o texto “O tempo pára”, de Mona Vilardo, apresentado aqui em 4 de abril de 2020, data do aniversário do cantor e compositor.

Por: Mona Vilardo

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O tempo pára

Hoje terei que discordar do Cazuza, mesmo sendo seu aniversário.
Cazuza, preciso dizer que o tempo pára. E, estranhamente, parou no mundo todo, para todos nós. Mas, olha que curioso, no tempo que parou eu escutei o canto dos pássaros na minha rua, que sempre está cheia de carros e onde esse canto não tem vez. Que canto bonito tem o pássaro que voa por essas bandas de cá.
Com o tempo congelado, pude também ver que a vizinha da minha frente é uma senhora bem senhorinha mesmo, que todos os dias às 15h senta na poltrona de vime da sua varanda e olha pra frente, como se estivesse assistindo o filme da sua própria vida passar. Aliás, filme é o que mais se compartilha nesses dias de tempo parado. Nem sei se vou dar conta de assistir todos, porque o melhor seria se o tempo estivesse como antes, andando.
Será?
Bem, voltamos às coisas que tenho visto durante esse tempo estacionado.
Nesse tempo suspenso, pude perceber que o vizinho do outro prédio a minha frente é o cara que sempre tá no ponto de ônibus toda terça feira, quando eu também pego ônibus nesse mesmo ponto. Quer dizer, pegava, né? Com o tempo parado tudo é tão incerto, e os ônibus também pararam. Cazuza, você estava completamente enganado em afirmar que o tempo não pára. Ainda bem que você não tá mais aqui pra rebater minha afirmação. Eu, discordando de você? Desculpa aí!
Está bem, devo concordar que ando preocupada se agora é “Matar ou morrer”. É cada coisa que a gente pára pra pensar com o tempo imobilizado.
Desculpa, também discordo que “Dias sim, dias não, eu vou sobrevivendo sem um arranhão”, se você estivesse aqui não escreveria isso. Depois desse tempo estático, mais que isso, sem certeza nenhuma do amanhã, vai ser difícil ninguém sair sem nenhum arranhão, até mesmo os mais lúdicos e loucos. Eu juro que nessas horas “é melhor não ser um normal’ – manda beijo pro maluco beleza aí em cima, e avisa que tá puxado por aqui.
Ok, Agenor (olha, tô te chamando pelo nome de batismo), você venceu a batalha. Sua genialidade é muito maior do que a minha. Realmente é triste pensar que nesse tempo não vai ter beijo de namorada.
Antes de terminar, lembrei de uma coisa que você também tem razão: Eu não tô derrotada, saiba que ainda estão rolando os dados. E a caridade nunca se fez tão necessária.

Eu quero Gargalhar!

Por: Bianca Latini

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Eu quero Gargalhar!

Eles tentam abortar os meus planos e fazer-me enterrar o natimorto: meus sonhos
Mas eu recuso-me a fazê-lo!
Eles tentam me mostrar que sou tola, mirabolante, devaneante e insana
Não querem me permitir dançar meu balanço disruptivo e delirante
Eu não sei o que é delírio para vocês
Para mim, é tudo muito real, muito possível e totalmente dentro de cogitação
Eles tentam colocar em minha boca suas vozes e usar-me como ventríloquo
Mas eu sou atriz principal
Não sou fantoche, marionete, dublê ou background
Eu não ensaio
Prefiro ir direto ao palco, em arte livre e improvisada
Fica mais fácil dar risada que começa no dedão do pé e sai pela boca, pelas orelhas, pelas mãos e ecoa na plateia, de maneira não forçada
Eles tentam ser manobristas, guias turísticos, diretores de cena, maestros, cabeças de fila em brigada de incêndio, seguindo o plano de fuga
Mas quem disse que eu quero fugir?!
Eu quero fazer fogueira e aquecer essa vida fria e rotineira,
lotada de regras, dissabores,
conformismos, acomodações
Eu quero cobrir de brasa esse chão e deixar vestígios
Quero sair do esconderijo
Quero gritar aos quatro ventos
Ser ciclone de emoções
Fazendo chover o que precisa ir
Acolhendo o que intenta ficar
Sendo anfitriã para o que deseja chegar
Prazer, meu nome é audácia!
Minha profissão felicidade
Minha idade é a presença na qual escolho viver e prosperar.

A menina do velho tênis amarelo

Por: Priscila Menino.

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A menina do velho tênis amarelo

Naquela casa da esquina mora uma menina. Otimista como Poliana, ela cantarola desafinada, enquanto caminha com seu velho tênis amarelo.
Aquele tom atípico do seu tênis, reluz quando os raios de sol batem, ilumina onde quer que passe.
Seus olhos profundos e castanhos transmitem um olhar de acalento e o jeito desengonçado de caminhar é tão singular, é leve.
Pobre menina, um dia tiraram seu tênis amarelo, a luz que ele irradiava, incomodava aos que não gostavam do seu brilho.
A menina então parou de passar cantarolando, agora ela mantinha um olhar vago, faltava aquela graciosidade desengonçada, até no por do sol já não havia mais aquela aquarela costumeira.
Foi então que um dia a menina recebeu a visita inesperada de uma borboleta em sua janela. Observou atenta a leveza com a qual a criaturinha batia suas asas e a forma como a luz era translúcida em suas asas.
Curiosa como é, observou que a borboleta voou e pousou em um girassol igualmente amarelo reluzente.
Nesse momento, a pequena menina se deu conta de que o brilho e a magia não estavam em seus tênis amarelos, muito mais do que isso, o brilho irradiava do seu sorriso e da esperança que trazia com suas canções para aquela velha redoma da cidade.
Outro dia passei na rua, abracei a pequena grande menina e pedi que nunca deixasse apagar novamente seu rastro de cor amarela, pois ele me inspirava e trazia paz.
Ela, surpresa, me disse com um tom de voz doce e gentil que eu e ela somos uma só, pois ela era a criança interior que habitava em mim. Mais surpreendentemente, pediu-me ainda que eu não me esquecesse da simplicidade de colocar meus velhos tênis amarelos e me permitir dançarmos juntas.
Após esse dia, nos encontramos sempre nos finais de tarde para contemplarmos mais um por do sol juntas.

Flor em Canção

Por: Diogo Verri Garcia

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Flor em canção

Está aí
A coisa mais bela que a vida pra mim
Trouxe em você e em mais ninguém.
Insensato
Eu me torno em seus braços em meio a carícias
Até pra dizer que me faz tão bem.
Não há problema em deixar transbordar
Algum lugar lá no meu peito
Risos e um poema
Ilustrado em bom som
Para completar bem nesse tom.
Eis a luz
Que nos meus versos vem me iluminar.
Inspira as tardes
E dá mais vida ao tempo que virá.
Rezo por ela,
Olha Deus como fica o coração.
Deixo de lado a saudade que clama
E faço de um samba uma flor em canção.
Bem feito pro peito, que se deixou levar,
Sorriu pro amor, gostou demais
Indo na onda, entrou no mar.
Tudo isso até parece
O calor do sol quando é verão:
Tão bem me faz, mas vai virando insolação
Olhos tão verdes que me fazem entrar,
Pra me afogar.
Está aí…

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 7 de agosto de 2008)


Créditos da imagem: Hans Braxmeier por Pixabay

E o que é de verdade?

Por: Bianca Latini

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E o que é de verdade?

A vida não é somente sobre
Tarefas, obrigações, compromissos
Correria, trabalho
Ganhar mais dinheiro
Cumprir metas de resultados
Imposições religiosas, históricas, sociais,culturais
Bater ponto
Seguir horários
Estar no compasso do relógio dos outros
A vida é muito mais do que isso:
É sobre descobrir o seu eixo
Seus mecanismos, suas rotações,
seus prazeres
O que desencadeia suas risadas
O que impulsiona sua generosidade
É sobre como achar o gatilho que te aciona a chave da empatia e o botão que desliga sua revolta e não aceitação para aquilo que é e não pode ser mudado
É sobre encontrar as lentes da gratidão
E colocá-las sobre os olhos de maneira permanente
É sobre reencontrar sua criança interior e soltá-la no playground da vida
Ou sobre continuar de mãos dadas com ela se você nunca a perdeu de vista
É sobre conectar-se com a natureza, a despeito da vida em grandes centros urbanos
Pois o bom filho a casa torna
É sobre aprender que a vida é abundância e há bastante para todos                                                                  Portanto partilhar é o melhor caminho, além de mais gostoso
É sobre trocar a reclamação do que está errado pela alegria do que está certo
É sobre ter paciência e entender que a Terra tem sua própria rotação
Assim como todos os organismos vivos
É sobre ser Sol e ser Estrela
É sobre ser fio condutor, veículo, percurso, passagem, fluxo, corrente, propagação de energias saudáveis Conexão com o amor que existe dentro de você e, mais adiante, o altruísmo
É sobre ser macro, depois de viver o microcosmo.

Bicho espinhoso

Por: Raquel Alves Tobias

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Primeiro a voz quis falar.
Mas aí os dentes se cerraram com uma forte mordida. E então nasceu um bicho, que ficou preso ali, zanzando dentro da cavidade, nervoso e inquieto, se batendo de um lado pra outro até inchar as bochechas. Gritou pra ver se alguém o ouvia, mas a sua voz de tão distante, parecia até ser algo da imaginação. Quando os lábios quase se abriram depois de tanta pressão, veio uma forte onda e… glupt! Foi engolido.
E foi descendo pelo esôfago em total desmantelo. Era muito desajeitado, de cantos pontiagudos e muito maior do que a passagem que o esperava. E foi só tropeço atrás de cambalhota. Onde quer que encostasse parecia não desgrudar. E lá vinha a deglutição tentar empurrá-lo mais uma vez “goela abaixo”. Mas a saliva era seca e os movimentos peristálticos o deixavam cada vez mais pegajoso. Parecia se entrelaçar desordenado em meio a uma ninhada de fios enquanto tecia nós.
E cada gole grudava em um nó.
Pouco a pouco era empurrado.
E depois dessa descida cheia de pausas desajeitadamente dolorosas, chegou ao seu destino anatômico. Por lá se deparou com o suco gástrico e com ele saiu aos tapas, como antigos arqui-inimigos. Cada novo machucado ganhava um punhado de fermento. E dessa briga, coisa boa não poderia sair. E assim, fermentado, foi crescendo, crescendo, crescendo até não caber mais no estômago. Virou náusea, virou angina, comprimiu o tórax até faltar o ar. Precisava continuar crescendo, já que no peito não cabia mais. Então subiu, ainda por dentro, como um vapor quente até a cabeça.
Ardeu.
Queimou.
Depois de todo esse estrago, o vapor desfeito deixou o olhar mais claro. Condensou-se no teto em inúmeras gotas aglomeradas e brilhantes.
Foi o fim?
O silêncio transformou-se em água e caiu em lágrimas.
Era o adeus.
Ou, talvez, um até breve.
O silêncio, calado, é bicho espinhoso e tem vontade própria.
Cuidado ao tentar domá-lo.

R.A.T.


Créditos da imagem: pixabay

Apego Cibernético

Por: Priscila Menino

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Esses dias eu tive um pequeno problema com meu celular, que atribuo ao mercúrio retrógrado, e acabei ficando o dia inteirinho sem um dos meus celulares.
Quando tentei fazer o aparelho funcionar e não obtive êxito, foi quase como perder um órgão vital, me deixando com insuficiência de informações e contatos, agonizando no meu desconforto (adoro exageros poéticos, desculpem, leitores).
Quando retornei ao mundo das conversas instantâneas, meu Whats app parecia que estava fora do ar há anos. Houve até quem achou que eu havia sofrido algum rapto ou coisa assim e queria acionar a polícia, é sério.
Foi aí então que tive consciência da forma que estamos inconscientemente totalmente dependentes da comunicação imediata através de nossos celulares e computadores. Passamos horas e horas acessando nosso Whats app para nos fazermos presentes de forma simultânea na discussão do grupo da família, na sátira que rolou no grupo dos amigos, na fofoca que a irmã está contando e nas notas sobre os processos que foram repassadas no grupo do escritório.
A gente se habituou a estarmos disponíveis e atentos o tempo inteiro e quando não estamos conectados, é desesperador, parece que estamos ficando desatualizados e obsoletos.
Fico pensando como fazíamos antes de termos um aparelho de celular com dados de internet ilimitados: como se davam as relações de trabalho? Como fazíamos para sabermos notícias dos amigos? Como passávamos o ócio na fila do banco? Aliás, como aguentávamos filas de bancos, sem podermos pagar contas e termos extratos pelo celular?
É assustadora a velocidade de informações que temos, a forma como nos habituamos a estarmos sempre disponíveis em tempo real, compartilhando até mesmo as nossas refeições com os amigos cibernéticos e sendo robôs com aqueles que sentam à mesa conosco.
O irônico é agora reaprendermos o valor do contato físico, a observar aqueles que estão ao nosso lado diariamente, dialogarmos olho no olho, demonstrar afeto ou preocupação através de uma atenção exclusiva para o momento presente, sem interferências ou sem fazer um tour pelo feed do Instagram.
Como relato real de uma sobrevivente de um dia inteirinho sem celular, posso falar que eu superei e o mundo não desmoronou, não foi desencadeada uma terceira guerra mundial, Michael Jackson infelizmente não foi localizado vivo morando em uma praia deserta e ficou tudo bem.
Após ressuscitar meu celular, eu até pretendo colocar mais em prática esse desapego cibernético, sempre que possível, é claro!