Postado no 1 de setembro de 2020 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Eis que rompendo o concreto
De uma cinza e arrasadora calçada carioca
Uma pequena e frágil flor
Joga gotas de cores
No descolorido mar do cotidiano
É como a poesia que em mim mesmo nasce
Quebrando as cascas da rotina e do desalento
Lembrando ao poeta concretado
Que embaixo do cimento das tarefas sem fim
Há vida
Há perfume
Há vida
Créditos da imagem: pixabay
Olfativo Viajante
Postado no 31 de agosto de 2020 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Olfativo Viajante
Aroma que me fecunda
Me leva para zonas distantes
Para aquíferos internos
Me retomam o calor do útero
O acolhimento da Mãe Terra
O inebriamento da Natureza
A frutificação do Natural
A infinitude do Astral
A Solitude que me leva à minha magmática estrutura
O ar esfumaçado por névoa que traz lembranças, recordações e esperanças
Dentro do meu quarto
Viajo viagens longínquas
Para outros tempos, outros sonhos, outras vidas
E aqui, sem sair do lugar, teletransporto-me além-mar
Além-existência física, além-concretude,
Encontro luz, que não requer corporificação, materialização ou comprovação
Apenas sinto que vivo além do meu corpo
E me eternizo ao longo da jornada da vida
Aquela que não podemos, a olhos nus, enxergar.
Créditos da imagem: pixabay
Smize
Postado no 27 de agosto de 2020 Deixe um comentário
Por: Priscila Menino

Smize
Aprendi recentemente uma nova invenção de palavra propagada por Tyra Banks: smize.
Trata-se de uma mistura das palavras “smile” com “eyes”, ou seja, algo equivalente a sorrir com os olhos.
Em tempos de uso de máscaras como apetrecho obrigatório para nosso dia a dia, fica impossível vermos claramente as expressões faciais, restando então na necessidade de aprendermos a “lermos” olhos e olhares.
Minha filha esses dias me disse: “mamãe, eu te reconheceria de máscara em qualquer lugar do mundo”. Acho que ela, no auge dos seus cinco anos de idade, já adquiriu a habilidade de fazer algo que eu venho aprendendo já adulta: ler olhares e saber identificá-los em meio a multidão. Mais um vez constato: tola sou eu que insisto em achar que eu que sou a educadora da nossa relação.
Penso então que em tempos normais de temperatura e pressão, quantos olhares nos passaram despercebidos? Quantos sorrisos sinceros são ignorados quando temos distrações diversas por aí? Sabemos nós ler o olhar até mesmo daqueles que vivem conosco diariamente? Sabemos sorrir tão livremente, ao ponto dessa alegria escapar pelos olhos?
Divagando por aí, certa vez a moça ouviu dizer que seu sorriso era lindo e radiante, o que causou evidente estranheza, pois seus dentes eram tortos e não pareciam típicos de uma propaganda de pasta de dentes. Acontece que essa moça sorria utilizando os olhos e aqueles eram penetrantes como a alvorada de pássaros no nascer do dia.
Ah, fico estarrecida ao pensar que precisamos ter sido acometidos por pandemia para aprendermos o valor de um sorriso tão sincero que está xerocado através dos olhos.
E já que estamos aprendendo diariamente a lidarmos com o nosso novo normal, que possamos aprender a não deixarmos que nada oculte ou crie barreiras para os nossos “smizes”.
Crédito da imagem: pixabay
Acumuladores
Postado no 24 de agosto de 2020 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Acumuladores
Quando pensamos em “acumuladores”, logo vem à mente aquelas pessoas tralheiras, que guardam muitas coisas materiais, quinquilharias… Aquelas que tem os cômodos de casa todos abarrotados de móveis, roupas, objetos, malas, livros, sapatos, vasos, caixas, ferramentas, pertences…
Mas será que nós, que torcemos o nariz para esses “acumuladores” e chegamos até a sentir cheiro de mofo e de entulho em nossas narinas, quando pensamos nessas pessoas, não pertencemos, também, à categoria em que eles foram enquadrados?
E toda energia ruim que guardamos em nossos corpos e não colocamos para fora?
E os vários escritos que escrevemos e nunca lemos ou partilhamos com alguém?
E o arsenal de ideias que brotam em nossas mentes, mas não colocamos em prática? Entopem as nossas artérias criativas, sem ter vasão, escoamento…
E o monte de beijos e abraços que não distribuímos, por medo de ser carente, inadequado, meloso ou fora de contexto?
E a infinidade de elogios que não transmitimos ao outro, a quem admiramos por toda a vida, naquele momento, naquele dia, por uma atitude ou, simplesmente, porque ele estava especialmente bonito ou gentil num determinado instante?
E as raivas, dissabores, amargores, frustrações que acumulamos debaixo do tapete sem nunca faxinar? Sem nunca passar um pano, varrer ou ao menos constatar que eles estão lá?
E os anos de conhecimento adquirido que lotam nossos cofres mentais, sem nunca termos feito quaisquer atos de cessão, partilha, doação, transferência, aporte, ou até mesmo cheque em branco para algum necessitado?
E as inúmeras tarefas e listas de produtividade a que nos impomos, assoberbando nossos dias, atolando nosso tempo livre, impossibilitando o ócio contemplativo, o frescor do vazio?
E os incontáveis quereres, talentos, lazeres, prazeres, dos quais nunca desfrutamos por julgarmos não ter tempo, idade ou legitimidade para tanto?
E aquelas listas sem fim de desejos secretos que guardamos em baús, envelopes, gavetas, sótãos, porões?
E quanto à variedade de medos e limitações a que nos impomos, numa quase inocente sabedoria de guardar relíquias?
Sem falar na quantidade de informações tóxicas, inúteis e sem sentido que deixamos sobrepujar às horas de brincadeiras com nossos filhos, aos momentos de risadas com nossos companheiros, os jantares com nossa família, aos encontros com nosso amigos?
E o monte de julgamentos, preconceitos e moldes pré-fabricados que obstruem nossas veias e não permitem nosso sangue fluir?
Ainda: tantos sonhos que deixamos dormindo no quartinho dos fundos da nossa casa corpórea?
E as camadas de cascas, carapaças, máscaras, vestimentas artificiais e convenientes que acoplamos à nossa verdadeira alma, essência, espírito ou qualquer outra palavra que signifique o nosso Eu mais profundo….sem depois não sabermos, nem mais, quem realmente somos?
E então?! Quem são mesmos estes acumuladores soterrados em escombros e bugigangas sem serventia??
O Abrilhantado Sol
Postado no 19 de agosto de 2020 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

O Abrilhantado Sol
Caminha o sol,
Que aos poucos vai.
Anda, anda,
Na elegante calma
De alguém que bem se preze.
Inaugura a intocada friagem
De uma manhã tão leve.
Descobre a névoa,
Que enrosca o mundo feito lençol,
Pois que vai subindo aos poucos,
esquentando,
abrilhantando,
o sol.
Toca no rosto das moças,
Deixando rubores melhores
Que os das mais geladas brisas.
Descobre cores,
Tão mais belas, todas tão menos cinzas,
Imagino como seria
Morar onde não houvesse uma manhã com esse sol.
É ele que percorre as cortinas,
A tocar quem se demora na cama.
Em fim de tarde ou quão mais cedo,
se toca os olhos:
havendo chama, logo revela a quem se ama.
E torna o mundo formoso,
Enquanto segue,
Passo a passo,
caminhando acima.
O sol,
Que desta janela prisioneira
Já transparece tanto brilho.
Toma-me saudades do verão,
Da aglomeração da qual não mais partilho
Até o curso normal retomar..
Há o sol,
a levantar
De maneira perfeita e certa
no Rio.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 18/08/2020)
Crédito da imagem: pixabay
Chamado
Postado no 18 de agosto de 2020 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Chamado
Ó, inconsciente!
Que caminhas em teus caminhos
Esmagando a vida sob teus passos,
Cego à beleza à tua volta
Perdido no Norte que achas ter.
Pensas que encontrarás o que procuras
Deixando as cicatrizes que gera em teu entorno?
Aprende a caminhar, ó inconsciente!
Caminhe com tal suavidade,
Que a Vida se alimente com teu andar.
Mire a beleza à tua volta
E deixe que ela ilumine teu interior.
Permita o Amor desnortear-te!
E sentirás que tua busca
Sempre esteve mais perto do que nunca imaginaste.
Créditos da imagem: pixabay
A criança em mim
Postado no 17 de agosto de 2020 1 Comentário
Por: Bianca Latini

A criança em mim
Não é sobre ser infantil
É sobre não deixar de ser criança
É sobre escrever as linhas que o coração dita
Cantar, marota, aquela canção
que não sai da cabeça e faz os pés sorrirem de tanta inquietação
É sobre não ter juízo, nem reprimenda, muito menos amolação
Fazer piada de tudo
Jogar bola de gude na pista da rota da vida
Soltar pipa, voar a criatividade, tecer a imaginação
É sobre não perder a essência do gosto da coisa…coisa doce e brilhante, feito maçã do amor
É sobre banhar-se de chuva de risadas que despenca sobre o vestido rodado, faz gargalhar e depois encarar a rouquidão
É sobre ter asas e super poderes, mesmo depois de saber que os heróis ficaram congelados nos quadrinhos
É sobre viver as possibilidades do ser que não se esgota de maneira estanque
Viver cada dia de um jeito: um dia sendo professora, no outro cozinheira de bolos, no outro médica de peixes ou quem sabe astronauta ou perfurador de sonhos…
É sobre não ouvir o que os outros pensam
porque a tua alma fala tão alto contigo,
que não é possível escutar nada mais
É sobre brincar até dizer chega,
até as pestanas começarem a querer fechar, tipo cortina pesada
E ir deitar exausto, de pés já limpos e cabelo molhado
Talvez com alguns arranhões e algumas cicatrizes
Mas feliz por ter vivido o dia como se só existe ele.
Por Bianca Latini
Jesus está voltando?
Postado no 13 de agosto de 2020 Deixe um comentário
Por: Priscila Menino
Jesus está voltando?

Reparei uma faixa na rua com os seguintes dizeres: “Jesus está voltando”.
Me peguei então refletindo sobre isso. Afinal, Jesus está voltando ou ele está no meio de nós o tempo inteiro?
Gosto de pensar em Jesus como uma divindade que nos auxilia na nossa jornada, nada personificado, mas algo muito maior e mais onipresente, com uma bondade imensurável, nada carrasco e punitivo.
E é por isso que eu penso que, independente de conceitos e axiomas religiosos, Jesus não está voltando na sua literalidade, ele já está entre nós.
Vejo Jesus no abraço fraterno de uma criança com os pais, vejo Jesus na flor que brota sem cuidado algum, vejo Jesus no gesto de gentileza que torna o dia mais feliz.
Vejo Jesus até mesmo no nascer do sol, no por do sol, nos dias nublados, na chuva que cai e lava.
Personificar Jesus em um ser que tem um horário de chegada e da saída do nosso planeta é simplório demais para dimensão do que significa para mim e da forma leve que o sinto em cada pequeno momento que poderia passar despercebido, mas com consciência e atenção a gente passa a identificar.
E que venha mais e mais consciência para sentir e agradecer.
Créditos da imagem: pixabay
Verso Construtor
Postado no 12 de agosto de 2020 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

Verso Construtor
A vida de quem ponderou a mais,
Transforma qualquer candura e paz
em questionamento.
Deixa, passada, tanta questão imperar,
que sem permitir explicar,
Transfaz ternura em alento.
Não notou o quão gigante
O bem maior que ela, a vida, te quis,
Pois quedou-se matriz
da desconfiança que se tornou mútua.
E, de tanto assim ponderar,
Destronou a alegria, pretensiosa em ficar,
Causou a paciência enxuta.
Mas a vida, tão bela, balança,
Não cansa de transfigurar-se
A querer-te ensinar
O que me havia passado contigo.
E eu, com meus calos, me calo,
Estafado de pretender responder,
Já, inconveniente, bradar,
Na angústia de fazer-te notar,
Que ela, a vida, é bem,
O nosso tempo maior,
Que tão mais descuidado
Se faz incompreendido e perdido.
Mas passa, passa a paciência,
Passa a insistência
E vem a compreensão.
Pois nada mais
é melhor instrumento,
Quando se há de viver o seu próprio tempo
Para uma construção.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 29/03/2020).
Crédito da imagem: pixabay
O tempo do Tempo
Postado no 11 de agosto de 2020 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

O tempo do Tempo
Tão cheio é meu dia
Tão vazio ele parece
Tão cheio de boletos, obrigações, tarefas
Tão vazio de sol, flores e poesia
O Tempo me encara
Pergunta a mim quando darei tempo
Ao tempo que realmente quero levar
“Em breve!”, respondo, “Em breve!”
E o Tempo apenas sorri entristecido
Pois bem sabe ele que de tarefa em tarefa
De boleto a boleto
Apenas preencho o tempo
Com um enorme vazio
Tão cheio é o meu dia
Tão vazio ele parece
Créditos da imagem: pixabay
