O Futebol em que Joga a Vida

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Por: Diogo Verri Garcia

Inicio esta crônica no voo G3 1990, em direção à Campinas, caminho do meu destino final, Rio Claro, São Paulo. Ainda no aeroporto, passando por algumas notícias aleatórias, estive frente a uma que chamou realmente minha atenção. E, por conta dela, dei-me conta que, após dois meses de funcionamento da revista eletrônica do Literarte – sim, hoje, 21 de setembro, faz dois meses de nossa primeira postagem – nada escrevi na seção dedicada às crônicas do futebol, cuidadosamente denominada “futebol em palavras”, de modo a não contrastar com nossa categoria principal de crônicas.

Neste primeiro intento, inspirado pela notícia, não dedicarei o tempo a cuidar das regras deste maravilhoso jogo, daquele futebol jogado tempos atrás, dos sistemas táticos WM e 2-3-5, tampouco pretenderei dizer a correlação de tais temas com a mudança da regra de impedimento – sem exceção, assuntos que me cativam. Ao contrário, abarcando um ponto que é tão menos futebolístico quanto mais universal, o que a seguir escrevo diz respeito à noção geral de talento, às janelas de oportunidade e, de um modo amplo, à vida.

A reportagem que hoje vi – publicada alguns meses atrás – dizia respeito a jogadores de um modesto clube do Tocantins que, após rescisão contratual, relatavam o necessário auxílio de doações de amigos, até para a alimentação. A rescisão, paga pelo Presidente da mencionada equipe, pouco menos de mil e quinhentos reais – salientou a notícia –, sequer garantia a quitação de dívidas cotidianas, tornando os atletas inaptos monetariamente até mesmo ao retorno às suas cidades natais.

Sobressaiu minha atenção o fato de um dos jogadores mencionados no escrito ter sido ex-capitão da base do Vasco – como vascaíno que sou, acompanho meu clube – e que esteve no nosso esquadrão profissional faz poucas temporadas, por volta de 2014 ou 2015. O jogador, de imediato suplente de um clube grande da Série A do futebol brasileiro, em pouco mais de três anos foi alçado a excesso de contingente de uma equipe de várzea.

Lembro-me dele e do futebol que apresentara nos gramados principais e nos da base: se não exímio volante – cabeça de área, sendo mais tradicional na nomenclatura –, pouco comprometia, quando comparado a tantos outros que se mantêm nos primeiros esquadrões – a que preço, ninguém dirá. Menos ainda devia a alguns passantes pelos atuais gramados da divisão secundária do campeonato brasileiro. O futebol tem um quê de sorte, e dois porquês de empresariamento e indicação.

Essa notícia me trouxe à memória alguns conhecidos que, na época juvenil, também se empenharam pelo caminho da bola, tendo abdicado de outras metas para apontar o foco principal para o campo gramado. Lembro de dois deles, ambos circulando entre meias e atacantes, exímios em qualidade – cujo nome não citarei, por preservação da imagem: o primeiro, que em determinado momento abandonou a bola e foi fazer faculdade; o outro, que por pouco não integrou aquela equipe do Santos, campeã brasileira no início dos anos dois mil – até onde soube, por inabilidade do empresário –, peregrinou por clubes do leste da Europa e, desafortunado, já com vinte e tantos anos, retomou ao Brasil. Deles, nunca mais tive notícias…

Sim, o futebol engana e maltrata, como parte da vida que ele é.

Mas a pergunta que mais me intercala, enquanto escrevo esta crônica, é: seria esta uma área da vida em que predomina a sorte? Ou, como em qualquer outro campo – não do jogo, mas da vivência –, a técnica e a dedicação são as molas da oportunidade?

Após instantes a refletir, creio que no futebol – sem base científica, apenas opinativa e superficial –, a capacidade e a dedicação pessoal estão muito aptas a serem frustradas. As razões – aqui, também sigo opinativo – são duas: pela primeira, o elevado financiamento do futebol, em que investidores (denominados, no senso comum, empresários de jogadores) se veem obrigados a tornar rentáveis os produtos em que investiram – sejam eles bons ou não. E, pela segunda, a constatação, mais do que óbvia, de que há menos clubes de primeiro escalão do que jovens dispostos a jogar neles – em uma alusão futebolística à lei da oferta e da demanda.

Mas, por certo, há caminhos de luta e progresso.

Tomemos como observatório Rio Claro, local de destino, cidade do interior de São Paulo onde é sediada equipe de futebol profissional de mesmo nome, que atualmente disputa a série secundária do Campeonato Paulista.

Dois dos jogadores que caminharam pelas equipes de base do clube rioclarense são mencionados nesta crônica. Estão aqui ressaltados como tendo alcançado o almejado sucesso (na bola): o primeiro, Danilo Avelar, lateral esquerdo, iniciado na equipe da cidade e atualmente jogador do Corinthians paulista, teve passagens pelas ligas principais da Itália, Alemanha e Ucrânia. O outro, de nome Marcelo Cordeiro, ocupante da mesma faixa do gramado, à esquerda da zaga, foi atleta oriundo da base do Vasco, que deixou o clube rumo a Rio Claro, nos idos de dois mil. Este também desempenhou suas funções como titular em grandes clubes do futebol nacional, como Botafogo, Internacional, Sport Recife, Portuguesa e Vitória.

Portanto, o futebol também traduz histórias de êxito, tão fortes de serem contadas que incentivam multidões de jovens, observadores da bola como o caminho honesto e próspero de melhora real de vida. Para esses meninos, mais do que uma partida, no futebol, joga-se a vida.

Em resposta à nossa principal pergunta, talvez os vitoriosos atletas tenham aderido a uma janela de oportunidade: a união do talento, com o momento correto para demonstrá-lo, e com o fluxo das coisas a “correrem bem”. Nem todos os atores do campo da bola, entretanto, têm idêntica sinergia – assim como ocorre, em geral, na vida.

Com tantos atletas rolantes e girantes, pode parecer (para alguns) que o futebol é espaço para os brios, para as vaidades e para aqueles que não levam o propósito tão a sério – o que explicaria tantas decepções, para nós e para eles. Mesmo assim. Quem diz que é mais fácil a vida da bola, olha apenas para um nicho enfeitado, um pequeno grão de areia. Contudo, esquece do restante da praia. E o restante da praia é tão árduo como o resto da vida.

Diogo Verri Garcia, 21/09/2018, Voo G3 1990, em algum lugar entre Rio de Janeiro e Campinas.


créditos da imagem: pixabay

Direitos humanos

Por: Tadany Cargnin dos Santos

 

Direitos, nem sempre humanos

Violados por seres, inumanos

Superficiais prerrogativas, ledos enganos

Realidade obnóxia, existencial subumano

Favelas econômicas, sincretismos profanos

Imposições escravagistas, anelo mundano

Atrozes deveres, ausentes direitos, mundo tirano

Sistemas primatas, abusos quotidianos

Especulações inconsequentes, lucros soberanos

Segregações nefastas, mandamentos insanos

Mazelas impostas, inferno diáfano

Sobrevivência raquítica e sem vida, viver draconiano

Por desonrados direitos, claramente desumanos.

 

PS: Para citar este texto:

Cargnin dos Santos, Tadany.Esta tristeza transitiva e indecorosa. www.tadany.org®

 

As várias idades do meu pai

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Por: Mona Vilardo

Pode soar estranho, mas para mim meu pai vai ter para sempre 37 anos.
Não sei dizer de onde eu tirei isso, pois a verdade é que meu pai só teve 37 anos quando eu tinha 11. Tão óbvio…
Dizem que entre os 10 e 11 anos o nosso pai começa a sair da qualidade de herói e passa a virar humano. Será que é por isso que os 37 dele me marcou tanto? Tipo: eu vi meu pai tirando a capa…ou algo assim…rsrs.
Ué, pra mim meu pai é meu herói até hoje…e já se passaram mais de duas décadas.
Já sei! 3 vezes 7 é igual a 21. Foi nessa idade que eu puxei correntes pelo primeiro amor, e meu pai estava lá me aconselhando. Será que isso ajuda a construir minha lógica?
Não, acho que ainda não é essa a matemática sobre o mistério dos 37.
Lembro dos 50 anos do meu pai. Teve festa temática nas cores azul e prata, teve toalha bordada “Michel 50 anos”, teve roupa nova, teve discurso e teve….peraí, 50 anos? Meu pai não tem 37?
Dou um salto no tempo: “Michel 60 anos” – festa boa com neta no colo e tudo. Mas com 37 era comigo que você dançava lambada e levava esporro da minha professora de piano, dizendo que a culpa era sua de eu não ter ido bem na aula. Lembra? Ah, essas memórias que teimam em envelhecer.
Maio de 2018 – Eu, a filha, fiz 37 anos!!! Deixa isso pra lá, esse texto é sobre a idade do meu pai, não a minha. 37…
Em agosto fui com ele comprar uma calça jeans. Ali ele voltava a ter 18 anos, abrindo a porta do provador para me perguntar se o jeans estava lhe caindo bem. Éramos como dois amigos passeando no shopping: eu e ele.
Semana passada ele subia as escadas do metrô com a neta no colo, ele subia correndo e fazendo bagunça para fazer ela rir e, no auge dos seus 2 anos e meio, achar aquilo o máximo.
Sabe, pai, naquele momento eu olhei pra você e pensei: Meu pai parece que tem 10 anos quando brinca com a neta…tipo a criança mais velha querendo fazer a menor rir.
Dia 27 de setembro de 2018, meu pai fez 62 anos.
No dia que subimos as escadas do metrô, ele com a neta no colo, eu cheguei a conclusão que o meu pai tem a idade que ele quiser ter. São as várias idades do meu pai que tornam ele um cara tão especial para nossa família. O herói de todos nós!
Mas uma coisa eu observei. O número depois do 6 é o 7. E depois do 2 é o 3. Inverte ele e qual número que dá?
Pois é…não é que os 37 sempre dá as caras?
Feliz aniversário, meu pai. Em qualquer idade que você queira estar.
Mona Vilardo

A luz da lua ​

Por Thiago Amério

Quando a lua brilha

A noite acende

 

Quando a cidade dorme

A noite sente

 

Sente-se iluminada

Por essa esfera amiga

Que mesmo sem o sol

Convive com as estrelas

Playas del Sol

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Por: Diogo Verri Garcia

PLAYAS DEL SOL

Águas sem fim,
Sotaques ouvidos,
Primavera que poderia ser quente.
Se, em outrora, fostes menos aguerrido,
Este solo, serias parte de imenso Brasil.
Nesta terra bela, de vento rastejante e exibido,
As leves tardes, em esquinas de quatro mares, aqui, são diferentes.

Taças constantes sendo postas à mesa,
Que se enchem e se esvaem feito a maré ali no mar.
Sol, que se faz como eterno farol aceso,
E o farol, que põe as tardes a descansar.

Erguem-se as mãos afogadas na areia,
De maré a marear, em playas bravas e mansas.
Tem cheiro de azeite, de vinhedo verde e de flor,
Tem igreja e a Santa Candelária pondo o mar em andor.
Tem peixe a assar
Sem pescador em labor, que descansa…
Há algum gosto a mais de Marselan e de Tannat, e efeito de bom terroir.

O sol se põe, em cerimonia ao seu culto,
Expõe a branca casa à negridão da natureza.
Para que no breu da noite se reúnam os adultos,
Entre pianos e salões,
Brindem ao autor,
Aproveitem a escureza.

A noite roda, ludibriada em lua – não chove -, sob moderadas estrelas.
Resisto a apostas, pois tenho noutra a minha sorte.
E no jogo que aqui jogam, ninguém sabe jogar:
só se perde, não se ganha; a derrota é um litisconsorte.

Taças a mais, por favor.
Passantes, luzes, casa cheia.
É a madrugada que passa feito maré,
Que hora é alta, que hora mal toca a areia.

O tempo é rápido: amanhã me encaminho.
O curso do Rio se faz pelo céu.
Aqui, que me encontro tão longe de casa,
Jardim tranquilo de águas mansas e rasas;
Aqui, que estou a alguns passos de Montevidéu.

Cartas! Cartas? Não, somente taças, por favor.
Mas é tarde, hora de parar…
Concluo: tanto aqui, tanto acolá,
É perto do mar que se quer estar.

Punta del Este, 26 de setembro de 2018.

(Diogo Verri Garcia)

—-
Crédito da imagem: Cristina Dagnone. Casa Pueblo. Uruguai. Arquivo pessoal. Set. 2018

Batalhas humanas

Por: Tadany Cargnin dos Santos

Arrogância. Vigilância. Discrepância. Ânsia.

Batalhas humanas, em vitais formas e substâncias

Disparatados sentimentos, incontroláveis em abundância

Até que o conhecimento se revele, naturalmente desejada relevância

A esperada hora da concordância

Desveladora que entre o ser e sua aparente vida, não existe distância

Onde o amargo ácido acético da ignorância

Não mais encontra uma inocente estância

Para semear seus frutos, expropriar suas ganâncias

Pois ali não mais achará submissas mendicâncias

Apenas uma afável e receptiva tolerância

Embrulhada em refinado saber, adornada com excêntrica elegância.

 

PS: Para citar este texto:

Cargnin dos Santos, Tadany.Batalhas humanas. www.tadany.org®

Táxi Bala

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Por: Mona Vilardo

Meu primeiro texto aqui no Literarte fazendo parte da equipe de autores. Semana passada, como artista convidada, apareci aqui com o texto “A casa dos pais”. E fiquei muito feliz em entrar pra esse time que propaga a arte no mundo.
Dá pra ver que gosto de escrever sobre o dia a dia e coisas que acontecem ou não nas minhas semanas, no meu mês, no meu cotidiano.
Sabe aquelas pessoas que atraem desconhecidos na rua, na fila do mercado, do caixa eletrônico, no táxi, no Uber? Prazer, essa pessoa sou eu. Alguns desconhecidos olham para mim e parecem que enxergam a seguinte placa pendurada no meu pescoço: “Olá, pode começar a falar. Sou toda ouvidos e tô aqui pra te ajudar” E assim é. Realmente sou toda ouvidos. Me atrai a história do outro, me encanta poder ajudar e, claro, dá asas a minha imaginação. Bem, guardem essa informação sobre mim. Hoje começo a trilhar junto com vocês, meu caminho aqui no Literarte.

Táxi bala

Fim do dia, já cansada e querendo chegar logo em casa, resolvo pegar um táxi! Pois é, mesmo na época do Uber, às vezes pego táxi. Parece que sinto uma certa tristeza em ver aquela quantidade de táxis no ponto, quando outrora eram eles que reinavam na praça. Aí, eu olho a cara do taxista e, se ele tiver uma cara boa (sei lá o critério para isso), eu pego o táxi.
O motorista tem uma cara fofa, cabelos brancos e me dá um boa noite agradável. Coloco o cinto de segurança (momento preservação da espécie) e ele logo diz:
– É, senhora, hoje eu estou muito triste. Tô até tomando uns remédios…
Nesse momento, “O fantástico mundo de Mona” vem com força total e, em segundos eu imagino o motorista virando para trás com uma arma em punho gritando pra mim: “E a senhora vai ser a última passageira que eu pegooooo, pois eu vou te matar e me matarei em seguidaaaaaaaaaaaaaaa. Eu odeio a vidaaa!!!” Pronto. Fim da história.
Preciso contar outra coisa sobre mim: eu tenho “O fantástico mundo de Mona” na minha cabeça desde muito cedo, esse era o nome de um desenho que eu adorava: “O fantástico mundo de Bob”.
Ao mesmo tempo que imagino essa tragédia, eu me acalmo e faço jus a placa imaginária, lembram?
O diálogo então começa:
– Poxa, senhor. É mesmo? Não fique assim.
– É, senhora, o meu casamento está muito ruim.
– Ah, que droga (eu sem ter o que falar…nem o nome do senhor eu sabia, vou dar pitaco em casamento alheio?)
– É, mas o que mais me deixou nessa tristeza toda foi depois que meu filho me contou que é gay.
Ops!!! Esse senhor quer mesmo conversar, penso enquanto deixo ele seguir.
– A minha esposa aceita mais, mas eu não aceito. E sabe, me afastei dos meus amigos taxistas por conta disso. Sabe como é taxista, né, senhora?
Não, não sei… tenho cara de quem vive enturmada com os taxistas???, continuo pensando.
– Então, dona, quando passa na rua algum homossexual, meus amigos taxistas logo falam: “Prefiro ver meu filho morto a ter um filho gay.”
Eita que temos um problema enorme aí! Sinto que preciso falar algo para ele.
– Aí é isso, dona, tô tomando uns remédios, mas ando muito triste.
– Senhor, não pense assim. E se o seu filho fosse procurado pela polícia? Um assassino. (Peguei pesado, eu sei) O senhor iria preferir isso a ele ser homossexual?
– Nossa, dona! É verdade! Claro que não! E meu filho é um ótimo menino, só que tem isso aí. (Tem isso aí = é gay.)
Esses “amigos” taxistas tão fazendo um bem danado para esse senhor, hein? #sqn
Continuo…
– Olha, senhor, com certeza o seu filho tem muitas qualidades que o senhor aprecia. A orientação sexual dele não é um defeito. Ele é seu filho.
Nessa hora eu me lembro de uma música que fez sucesso em 2017: Trem bala. “Segura teu filho no colo… sorria e abraça os teus pais enquanto estão aqui”
Meu destino tá chegando e eu faço um trato com o taxista. (Usando fortemente a função da tal placa que carrego)
– Senhor, vamos fazer o seguinte: o senhor vai chegar em casa hoje, abraçar o seu filho e dizer o quanto gosta dele. (Falo separando com rapidez o dinheiro da corrida.)
– A senhora me deu uma boa ideia. Isso mesmo, eu vou fazer isso hoje! Olha, foi ótimo conversar com a senhora! Me fez muito bem!
Dou adeus, desço do taxi.
A música continua na minha cabeça “que a vida é trem bala parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir”…

Igual-mente

Por Thiago Amério

Tem gente que quer ser igual

Tem gente que quer ser diferente

Tem gente que não quer nada

Tem gente que mente

Tem gente que sente

Tem gente que só quer ser gente

Tem gente que só vê no outro

(Do que é feito a mesma gente)

Tem gente que só enxerga a própria gente

 

Tem gente que é ódio

Tem gente que é amor

De que é feito a gente?

 

Ainda assim,

Gente

nunca deixa

de ser gente.

 

Ps. Xingar gentália é coisa de quem

Caga pela própria boca

Setembro

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Por: Diogo Verri Garcia

Setembro bom, que de vez o inverno espanta.
Já torna longas as tardes, encanta
Todo aquele que observa um jardim de setembro.
É tempo
Do arvoredo quedar-se exulto,
Envolto em flores, em chão de colorido tumulto,
Que dura até meados de novembro.
Setembro, o vento frio cá já não sopra mais o rosto,
É mais quente que o último agosto,
Tão bom como sempre me lembro.
Calor competente, o ambiente torna o corpo suado,
O suficiente para o chope gelado
– bebida frequente no vindouro dezembro.
Setembro, que em Lisboa faz frio ao fim de tarde,
Que no Rio traz o sol, que vem matar a saudade
– desço do voo, e segue quente o desembarque;
Em Porto Alegre, perde-se do inverno cinza o fomento.
Setembro, que mês bom – só não melhor do que dezembro,
Em que o verão traz expansão, prolonga o tempo.
Quando o amor ainda é amor, e não destempo,
Tal qual o será, tal qual em um mês…

(Diogo Verri Garcia, Belo Horizonte, 01/09/2018)

*poesia autoral


créditos da imagem: Nauana Macedo (leitora). Templo Zu Lai. Cerejeiras. Arquivo Pessoal. Set. 2018.

Esta tristeza transitiva e indefinida

Por: Tadany Cargnin dos Santos

Esta tristeza transitiva e indefinida

Carente de um esclarecedor complemento ou uma definição

Preenche o dia com uma melancolia doida e desinibida

Que avassala a alma, deixando-a torpe, numa profunda inanição

E, no seu rastro, a angústia surge cegamente

Sem saber o porquê, nem quem é, tampouco de onde vem

Talvez seja resquício dalguma mágoa vivida preteritamente

Ou desesperança de um futuro solitário, sem ninguém

Sua veemência é sutilmente ardente e solidamente impetuosa

Pois ela impede a percepção de qualquer distinta realidade

Então sucumbo, morro na cama, assolado por essa impudência indecorosa

Transitiva e indefinida, impostos descabidos, nefasta facticidade.

 

PS: Para citar este texto:

Cargnin dos Santos, Tadany.Esta tristeza transitiva e indecorosa. www.tadany.org®